RECONSTRUÇÃO
29 Meu melhor aconchego.
Notas iniciais

A porta da casa é aberta e o garoto vê muitas pessoas naquela sala. Olham encantadas e assustadas para ele e sorriem ao mesmo tempo, como se tivesse ensaiado.
— Quem são eles?
— Esta é sua família, Vasco. – Regina conduz o menino pela mão. – Aqueles são David e Mary; ali estão Emma e Killian; aquela moça é Ruby, o garoto é meu filho Henry e a garota linda é minha filha Alda. Todos estavam no hospital, enquanto você estava sendo examinado pelo Dr. Victor, por isso não se lembra deles.
Vasco olha para os lados e segura a mão de Yasemine.
— Onde está Cesar?
— Cesar virá depois. Ele me avisou que iria avisar a família dele e daqui a alguns dias, virá visitar você.
Olhando em volta, o menino sente que aquele ambiente era familiar aos seus olhos. Sente que conhecia aquela sala e aquele quadro em cima da lareira, numa parede.
— São vocês... – ele aponta para o quadro.
— Minhas filhas quando eram pequenas, o pai delas e eu.
Sem saber o que dizer mais, Vasco fica quieto. Mas seu receio vai dissipando-se, quando Alda se ajoelha diante dele. A garota sorri e abre os braços, oferecendo um abraço que é aceito, num ato de desespero e confiança.
— Seja bem vindo de volta, Vasco.
— Onde eu estava?
— Perdido na floresta. – a garota sorri e morde levemente a ponta da língua.
— Você precisa perder esse hábito. – ele fala e aponta o dedinho rechonchudo para ela.
Todos na sala riem, percebendo que o homem Vasco ainda estava lá dentro, bem com as suas lembranças. O retorno seria em uma questão de tempo. Quanto tempo?
— Por que ele não está com a mão? – ele cochicha apontando para Killian. – Já disse a ele que assim fica assustador. Dá medo nas pessoas.
Alda o abraça com muito carinho e beija seu rosto.
— Porque ele não sabe onde deixou a mão. Ele ficou bêbado e deixou a mão em algum bar, por aí. Ele sempre faz isso e até já derrubou a mão dentro de uma privada.
Uma risada tímida surge na boquinha do garoto. Ele olha para Mary e fecha o rosto. Não gostava daquela moça com cabelos esquisitos. Observa David e gosta do sorriso do homem. Depois aponta para Henry.
— Ele é seu filho...- em seguida encara Emma e percebe que a loira bonita era confiável. Gostava dela. — Estou com vergonha.
— É melhor irmos embora e deixar Regina cuidar de sua família. – Killian sugere e estende a mão para Emma. – Teremos vários outros dias para curtimos Vasco e...
— Você é o meu papai? – Vasco pergunta de supetão.
Killian abre e fecha a boca como se fosse um peixe respirando. Os demais explodem em gargalhadas sonoras.
— Não, meu amor, o Capitão não é seu papai. – Regina se agacha e acaricia os cabelos da criança. – Mas ele é seu grande amigo. Poderão brincar e navegar juntos.
Levando seus faróis celestes para o rosto do pirata, Vasco sente uma paz imensa surgir dentro dele. Não apenas gostava do Capitão, mas o amava. Timidamente, ele ergue os bracinhos e pede colo para Regina, porque não havia melhor aconchego do que o corpo daquela mulher linda, de lábios vermelhos e bonitos cabelos. Bons de apalpar.
— Cesar vai demorar?
Yasemine sorri e acaricia as costas do menino. Como ele era fofo!
— Cesar me deu a palavra que virá em breve. Mas antes que ele venha, você tem a mim, tem Alda, tem Henry e tem a mamãe, para fazer companhia e brincar, caso queira.
Vasco encosta sua bochecha à bochecha de Regina e abraça o pescoço dela.
— Você tem blocos coloridos?
Naquela madrugada, Yasemine sai de casa e vai observar o mar noturno, barulhento e majestoso em sua grandiosidade. Ela era apenas um pequeno grão de areia, mas se sentia protegida e importante para aquela imensidão escura. Ali, sentada na areia, aquecendo-se numa fogueira criada com suas habilidades, ela se deixa esquecer do mundo e pelo mundo.
Como amava o mar! Era bem pequena quando fizera sua primeira viagem de barco e quando mergulhara nos braços de seu amado pai. Sente saudades, mas sabe que se voltasse à condição de criança, não se esqueceria das lembranças de adulta e aquilo seria tortura. E aquele não era o momento de retroceder. Talvez, se seu pai exigisse quando fosse homem de novo...mas e se ele não retornasse à sua condição antiga? A vantagem é que não haveria tantas pessoas forçando a invasão no casamento. Ele era um menino, agora.
Iria encontrar um meio de trazer seu pai de volta, mas no momento, a situação estava interessante. Seria um aprendizado para Regina, ter o marido tão perto dos braços e longe do coração. Seria como morrer de sede em frente ao mar. Uma lição que não poderia ser refutada.
Duas semanas são engolidas pela boca faminta do tempo...
Killian se sobressalta ao ver Yasemine, Alda e Henry invadindo o escritório e pelos sorrisos, algo bom iria ser compartilhado. O pirata sorri também.
— Padrinho! Encontramos o antídoto para curar nosso pai! – Yasemine alarga ainda mais o seu sorriso e gesticula para que seus irmãos se aproximassem da mesa.
Henry abre sua mochila e retira uma copia encadernada do livro Grande Grimório, disputado e desejado por inúmeros habilidosos. Folheia e exibe uma das páginas.
— Aqui tem a receita para desfazermos a “caga merdeira” que Paco e Galeano fizeram. Veja! É algo como o uso da Vela Encantada! – o rapaz sorri.
Negando com a cabeça, o pirata refuta a ideia sem pestanejar.
— Mas nem pensar numa barbaridade como essa! Ninguém irá morrer para que Vasco se torne um adulto. Ele terá de acostumar-se com o fato e reaprender a viver...
— Não é o mesmo, padrinho! – Alda altera a voz e interrompe o homem. – É no mesmo sistema, mas ninguém vai morrer! É preciso que um adulto esteja disposto a tornar-se criança novamente, para que meu papai se torne adulto de novo! É isso!
Killian olha os três adolescentes e não consegue ficar isento da felicidade daqueles sorrisos. Os três juntos poderiam significar problemas, mas poderiam significar muitas e muitas aventuras e tropeços feitos sem a supervisão de um adulto.
— Certo! E supondo que essa tal vela exista mesmo, quem irá retornar a ser criança?
— Estive pensando que os seus amigos aquáticos virão cobrar o compromisso que o senhor firmou com meu noivado. E eu terei de casar com um tritão, pelo muito que eles fizeram pela minha família. Pensei que se eu retornasse a ser menina, teria mais tempo para curtir a vida e o meu noivo poderia esperar. – Yasemine explica.
Alda bate palminhas e dá pulinhos.
— Para a receita ficar ainda mais forte, eu toparia virar criança também!
Achando graça, Henry coça a ponta do nariz para disfarçar o riso.
— E você é adulta, por acaso?
Começando a andar pela sala, o pirata fica pensativo por alguns instantes. Ele sabia o que os jovens estavam esperando ouvir dele. Sabia o que os jovens sempre esperavam do velho pirata. Era o “senhor divertido” e “pirata irresponsável”, como dizia Regina, quando ele ajudava Henry a enfrentar alguma aventura.
— Certo, certo! E onde encontraremos essa tal vela?
— Ainda não sabemos, mas poderemos começar uma operação investigatória. – Henry se mostra animado. – Cada qual procura com seus contatos e isso inclui você, Killian.
— Nomearam a operação, companheiros?
— Operação Vasco seria óbvio demais. Então pensamos em Operação Cabo das Tormentas! – Henry fala e olha para as irmãs, recebendo total aprovação.
Orgulhoso de seus companheiros, Killian reconhece que a aventura não seria tão fácil, porque teria de convencer Regina e Emma a darem a autorização para embarcar com seus filhos. Mas ele era um pirata confiável e um excelente capitão navegador.
— Missão aceita. Teremos duas semanas para organizar a logística da viagem. – ele estende a mão e vê os jovens colocarem as mãos sobre a dele. – E que a força esteja conosco!
Enquanto isso, Regina fazia sua própria observação. Mas não era o mar, o céu, a movimentação da rua, o seu foco de admiração. Era aquele menino que havia surgido em sua vida e que precisaria de toda proteção que conseguisse oferecer. Era o seu amado, tão pequeno, tão frágil, tão doce, tão necessitado de carinho e aconchego.
Seria outra aventura dentro daquele casamento atribulado. Jamais iria queixar-se de tédio, sendo mãe de Henry, Yasemine e Alda, além de esposa daquele príncipe natural, que agora era uma criança. Certamente, iria ser uma criança indócil, sobretudo, sendo influenciado por aquela família esquisita da qual ela fazia parte.
— “Dorme, menino, dorme. Aconchegarei teu corpo e teu coração. Zelarei pelo teu sono e encherei teu mundo de cor”*.— ela cantarola suavemente, beijando os cílios de Vasco.
Lentamente, ele exibe seus olhos celestes e sonolentos. Tenta sorrir e um ser sonolento que estava dentro dele, resmunga:
— Eu amo você.
— Eu também amo você, Vasco.
FIM.
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