RECONSTRUÇÃO

7 A caverna tem muitas sombras...


“A caverna escura tem muitas sombras. Não entre sem conhecer o caminho ou ter bastante fogo em sua tocha para iluminar onde irá pisar.”

As filhas de Vasco estavam protegidas em vestidos joviais, como se fossem armaduras reluzentes de cavaleiros prontos para a peleja. Lindas com seus cabelos longos, volumosos e cuidadosamente penteados. Os traços tinham recebido uma camada delicada de maquiagem, sob a supervisão da mãe vigilante.

Regina se mostra impecável em sua elegância corriqueira, delineando seus contornos com aquele vestido escuro justo, acentuando sua sensualidade nata. Ao seu lado, um topmodel saído de alguma revista de moda italiana, vinha timidamente e envergonhado pela situação vivida na noite passada. Não menos belos que sua família, Vasco se apresenta enfeitado em seu terno escuro, como se estivesse vestido para matar.

Solomon os recebe com seu sorriso amplo, convidativo, amistoso e cheio de charme. Não havia como negar, mas o homem era cativante e sua beleza era perturbadora demais.

Risonho e divertido, Paco imediatamente conquista o lado infantil das garotas. Ele sabia que ali dentro daqueles corpos adultos, havia duas almas de meninas e que por mais que lutassem a natureza era mais forte. Relutante por alguns minutos, Yasemine se deixa envolver pela lábia criativa e piadista do homem. Em pouco tempo, os três já se comportavam como velhos amigos e cúmplices. Em sua alma, Paco se sentia triste por trair a confiança delas, mas seu juramento de fidelidade ao reverendo falava mais alto.

Num canto da sala, Regina e Vasco recebem taças com vinho. O reverendo queria fazer com que relaxassem, pois teria que estar confiantes para discutir detalhes de um acordo iminente.

– Estão casados há quanto tempo? – ele se senta diante do casal.

– Cinco anos. – Regina se mostra mais segura.

– Não pensaram em filhos, ainda?

As sobrancelhas de Vasco se estreitam e ele se surpreende com a pergunta. Mesmo embriagado, conseguia se lembrar de algumas falas durante a conversa no bar. Solomon estava brincando ou testando?

– E você? Nunca se casou? – Regina desconversa imediatamente.

– Eu me casei tão logo desisti da vida eclesiástica. Mas a vida não quis que Sara e eu ficássemos juntos. Ela morreu e eu me tornei um membro ativo de uma ordem religiosa.

– Como Sara era? – Vasco pergunta e deposita a taça sobre um móvel. Queria distância do álcool. – Onde se conheceram?

Solomon se mostra serenos demais para falar sobre o assunto.

– Ela era linda e delicada. Trabalhava na comunidade para onde fui mandado depois de desistir do trabalho religioso. Sara trabalhava como artesã e imediatamente nos apaixonamos. Conseguimos nos casar e ao final de dois anos de casamento, ela faleceu.

Regina não tece comentários, apenas continua observando Solomon e devorando todos os detalhes másculos daquele desconhecido. O homem tinha uma beleza com traços rudes, fortes e mesmo com a barba totalmente retirada, ainda exalava virilidade. Ele possuía as qualidades ou características consideradas típicas ou necessárias para um homem real, enquanto que Vasco possuía as qualidades para um homem ideal. Seria maravilhoso poder uní-los num só e ter o homem perfeito ao seu lado.

– Não teve outra pessoa?

Os olhos atentos de Solomon se viram para a mulher forte e sensual, sentada diante dele. Era de fato, herdeira de Cora em beleza, força e presença. Não havia como negar o parentesco, porque todas as mulheres Mills tinham as mesmas características dominadoras. Ele observa as filhas do casal e tem a mesma sensação. Calmo, encara Regina outra vez.

– Tornei-me celibatário, embora eu continue a apreciar a beleza humana. Não realizo o contato, mas não quero fugir ao desejo. Ele sempre me alcança. – apoia as costas no sofá e afasta as pernas, mostrando-se confortável. – Não tenho vergonha de dizer que amo o cheiro humano, seja donde vier. Aprecio todas as partes do corpo humano e assumo isso, embora não seja nenhum devasso inconsequente.

– Gosta da preservação?

– Prefiro sim, Regina. E vocês dois? Permitem a entrada de terceiros em sua relação?

– Não permitimos, mas elas ocorrem à revelia. – Vasco é ligeiro na resposta.

– E como lidam com isso?

– Eu sempre perdoo e peço perdão. – a mágoa na voz de Vasco era nítida.

– Vocês dois são apaixonantes e eu não me surpreenderia caso viesse a amá-los. – Solomon sorri malicioso. – Para vocês dois, eu abriria novamente o meu coração e meu corpo.

Vasco fecha a expressão, estreitando as sobrancelhas grossas e escuras. Olha para o rosto da esposa e encontra um sorriso ferino instalado ali.

– Você já tocou uma pessoa que não fosse Sara? – ela pergunta.

Uma risada ampla é a primeira reação do reverendo.

– Quer saber se toquei o corpo de Vasco quando ele estava incapacitado pela bebida? Não. Apenas não rejeitei o beijo que ele quis, mas como já lhe disse: beijos embriagados não me encantam. Ele apenas dormiu em minha cama, nada mais.

Incomodado com o rumo da conversa, Vasco desvia seu olhar zangado. Sabia exatamente aonde Regina iria chegar. E sua natureza passiva não permitiria recusar a satisfação dos desejos de sua rainha. Mesmo que aquilo começasse a entristecê-lo.

– E sente desejo em tocá-lo?

– Não somente a ele, Regina. Mas os seus lábios conseguem acender o calor da paixão em mim. Meu corpo reagiu à sua presença no primeiro momento em que vi seus olhos numa fotografia. Você é a rainha que me tiraria da viuvez e do celibato.

– Isso é música para os meus ouvidos. – ela sorri.

– Eu exporia meu corpo e meus sentimentos a vocês dois, caso me aceitassem como parte integrante de sua vida. Não pensei em apenas um momento, mas pensei em momentos constantes de cumplicidade, amor, confiança e desejo.

Vasco bate as mãos com força sobre os joelhos e produz o som típico, atraindo as atenções para si.

– Certamente vocês já falaram sobre isso, antes desse jantar, certo? – Vasco olha o perfil de Regina. – Posso acreditar que você o enviou ao bar atrás de mim, para facilitar a aproximação e a realização de sua fantasia? Não precisava de tanta celeuma, Regina, bastando apresentá-lo como seu contratado para realizar o trabalho. Seria muito mais simples do que toda aquela cena.

– Do que está falando, Vasco?

– Você poderia ter evitado o envolvimento de minhas filhas, quando as trouxe para me buscar hoje cedo. Poderia ter apenas falado que Solon era o homem escolhido para fazer sexo comigo, sob sua supervisão. Por que tanta encenação?

Solomon abaixa a cabeça e sorri. Emite alguns muxoxos e volta sua atenção para aquela delícia que eram aqueles dois jovens perdidos.

– Marque a hora e o local. Farei exatamente como você quiser, Regina. Esta é a minha função dentro deste casamento e você sabe disso. – a voz de Vasco não se altera nenhuma nota.

– Você está sendo indelicado, meu amor.

– Estou sendo apenas prático e objetivo. – ele se levanta e ajeita o terno. – Quando vocês estiverem com tudo organizado, apenas me avisem.

Solomon se levanta rapidamente e segura o braço do visitante. O toque produz uma tranquilidade súbita na alma de Vasco. Ele sente que suas barreiras são derrubadas.

– Não combinaremos nenhum passo adiante, sem o seu consentimento Vasco. Quero que saiba que eu não conhecia Regina e fui ao bar para jantar com meu irmão. Tudo foi mera coincidência e confesso que estou amando a confiança que sua esposa depositou em mim.

Inspirando profundamente, Vasco leva os olhos para um ponto qualquer.

– Será que você conseguiria confiar em mim, também?

– Eu confiei em você, Solon. Sabia que estava em desvantagem e mesmo assim deixei que você me trouxesse à sua casa e cuidasse de mim. – Vasco fala sem olhar o outro homem. – Você me banhou, velou meu sono e tratou de minha reação à bebida. Poderia ter feito algo contra meu consentimento, mas foi muito respeitoso. Eu confiei em você, mesmo sem conhecê-lo.

Estendendo a mão e tocando a nuca de Vasco, o reverendo sorri de forma tão suave, que consegue derrubar qualquer vestígio de resistência naquela criatura de olhos celestes, inocentes e que clamavam em altos brados por amor. Apenas quem não queria, não conseguia ouvir aquelas súplicas. Mesmo sabendo que não deveria, Solomon se enamora.