R.3
6 Separação
Não vi Amós, não me despedi dele. Me fui sem poder ao menos falar com ele. Não era porque não quisesse, mas porque não me deixaram, o que seria óbvio. Voltei ao meu apartamento, a minha vidinha. Me perguntava durante aquela semana, como Amós estaria. Não havia como eu obter notícias, nem mesmo Cintia atendia as minhas ligações, talvez eu até entendesse. Mas confessava que sentia falta de Amós.
**
Eu acordei com meu celular tocando a mil por hora. Levantei as pressas quase derrubando o bendito.
- Sim? – A minha voz estava bem sonolenta.
- Deelan?
- Eu... Quem é?
- Cintia... Desculpe estar te ligando a esta hora, mas...
- Cintia?! Você não atendeu minhas ligações! E que celular é este? Não é o seu! E o Am... Quer dizer o R.3? Como ele está?
- Bem, é exatamente disso que quero falar, e eu troquei de celular. Desculpe não ter avisado.
- Certo, o que tem o R.3.? O que aconteceu?!
- Calma, Deelan! Ele...
- Ele?
- Não quer reagir...
- Como assim?! Me explica isso! – A essa altura eu já andava de um lado a outro do meu quarto.
- Ele está violento, ninguém consegue chegar mais perto dele, está sendo impossível controlá-lo e...
- E?
- Ele não para de chamar por seu nome. – Naquele momento meu coração deu um solavanco, ele estava falando? E ainda por cima, o meu nome? Eu estava ouvindo certo?
- Só pode estar brincando...
- Não, Deelan! Precisam de você! Precisam que você o controle, ele está enlouquecido, quebrou dois equipamentos. – Não consegui segurar o riso, era demais imaginar ele destruindo os equipamentos do urubu azedo. — ... Você está rindo?
- Desculpe-me Cintia, mas isso é muito hilário... – Falei enquanto ria, ela pareceu desaprovar ficando séria do outro lado da linha. – Como voltarei? Fausty não vai com minha cara, como farei isso? – Ela não respondeu. – Está aí?
- S-sim... Me desculpe. Talvez ele ceda. Não vai aguentar por muito tempo, ver sua cobaia negar os exames e testes.
- Se for pra ver o garoto voltar a ter a vida miserável que tinha, eu passo. Prefiro que ele destrua tudo e fuja.
- DEELAN!
- É sério, Cintia, não estou brincando. Sabe que sou contra com o que fazem com ele. Já deixei bem claro.
- Sim, mas você sabe demais, e...
- Não me vem com esses “e”!
- O Dr. Fausty não deixou de te observar, sabia disso, não é?
- Sim. – Eu já havia desconfiado mesmo. Sabia que ele não me deixaria à solta sabendo o tanto que eu sei, e se eu desse um passo em falso, meu pescocinho corria sérios perigos.
- Então! Por favor, Deelan... – Era lógico que eu queria ajudar. Amós, não os cientistas. Ainda cultivava a ideia de que usar bandidos seria a melhor opção. Mas eu não podia concordar com ajudar a fazer Amós voltar a ser cobaia de bom grado.
- Sinto muito. Tenho que voltar a dormir. Estou caçando um emprego, preciso acordar cedo amanhã.
- Deelan...
- Nos falamos depois. Gravarei seu número. Até mais, Cintia. – Eu não esperei ela responder, desliguei o celular. Minha cabeça estava doendo, mas meu coração ainda mais.
**
- Não acredito que fez isso, cara! Você já estava ali dentro! Não devia ter estourado!
- Eu sei, Jonny. Mas...
- “Mas” você não aguentou ver as coisas que faziam ao robô.
- Ele não é um robô!
- Tá, tá! Me desculpe! – Jonny permaneceu calado. Eu respirei fundo, cruzando as mãos, estávamos na sala do meu apartamento. – O que pretende fazer?
- O que você acha? – Eu o mirei, ele pareceu entender o que meus olhos queriam dizer.
- Ah, não! Como... como? Não dá, Deelan! É perigoso!
- É claro que é perigoso! Mas eu não posso ficar parado aqui, Jonny! Não posso!
- Eu sei, cara, mas... O tal do “Fausty” tá de olho em ti, mano! Acha que ele vai deixar?
- É óbvio que não! Mas é aí que mentes brilhantes atuam, meu velho camarada!
- Ah, meu Deus, Deelan! Isso vai dar merda! Já estou vendo a policia metropolitana atrás de você!
- Calma...
- Calma?
- Eu disse outra palavra?
- Para de brincar, Deelan! – Eu o mirei, já estava certo do que faria, e teria que ser o quanto antes.
Dois dias se passaram depois da ligação de Cintia. Até que um outro telefonema havia finalmente acontecido.
- Sim?
- Deelan, é da portaria. Tem um homem aqui que gostaria de falar com você. O nome dele é Dr. Fausty. – Meu coração disparou no mesmo instante.
- Mande-o entrar.
- Certo. – Passados alguns poucos minutos, minha campainha soou.
- Deelan McQueen. – Fausty estava diante de mim, seu ar repugnante e costumeiro me analisara de cima à baixo. – Era você no dia da visita estudantil, não era?
- O que você acha? – Depois de um tempo, passara pela minha cabeça que ele se lembrara de mim.
- Eu não tenho dúvidas agora. – Falou ele adentrando o meu apartamento. Além de infeliz, era abusado e entrão! – Nada mal pra quem mora sozinho... – Disse mirando minha sala, que era abarrotada de livros nos quatro cantos, mas não eram desorganizados.
- Ok, agora me diz logo o que quer de mim.
- É óbvio.
- Não, não é.
- Cintia te ligou. E acho que já te explicou tudo.
- Ora, eu devo ter ficado muito “importante” pra o senhor ter vindo aqui, na minha humilde residência, pessoalmente me convocar.
- Ache o que quiser, garoto, não me agrada nem um pingo ter de vir até aqui.
- Também não me agrada ter que ver sua cara tão cedo! – Ele me olhou sério. Estava muito enganado se pensou que eu iria ficar calado!
- E então?
- Eu não vou voltar, se é o que pensa. Não quero compactuar com a crueldade a que submetem o R.3! – Ele se aproximou.
- Não me diga? Não é de “R.3” que você o chama... – Eu engoli em seco, ele sabia?
- O que está dizendo?
- Ele insiste em dizer que o nome dele é Amós! – Eu gelei, pela terceira vez naquela manhã.
- Não sei do que está falando...
- Ah, não sabe? Deelan, eu só vim lhe informar que, se acaso não retornar para acalmar o Reborn, eu o farei, aplicando nele a injeção letal.
- Mas...
- Não queria ter que colocar o R.4 para ser gerado, mas se o Reborn 3 não cooperar, não será de utilidade para mim, fui claro?
- Eu denuncio você, denuncio você e toda a sua corja!
- Haha! Essa foi ótima garoto! – Gargalhava ele batendo palmas. – Você não entendeu ainda? Não há para quem nos denunciar! O governo sabe disso, o país e outros tantos sabem disso, menos a população! Nós não iremos presos, se é o que pensa. Porque, tecnicamente, não estamos cometendo nenhum crime. – Eu não acreditava que estava escutando aquilo.
- Vocês são monstros. – Ele me olhou, um sorrisinho cínico brotara em seus lábios.
- Você compreende agora, não é? Ou volta, ou jamais verá seu querido Amós, outra vez.
Minha decisão fora óbvia. Lá estava eu, naquele imenso laboratório, novamente.
- Deelan! – Cintia viera em minha direção.
- Leve-o para ver R.3, já! – Ordenara Fausty à ela.
- Sim, senhor. Venha Deelan. – Ela me puxara pela mão. Adentramos o laboratório, não era uma parte que eu conhecia, fomos para o fundo do enorme Russel, atravessei inúmeras portas, passei por incontáveis corredores, até finalmente alcançarmos uma área escura e fria.
- Onde estamos?
- Aqui é o Restart. Onde ficam os Reborns reiniciados, ou melhor, finalizados.
- Mas o Fausty disse que Am.. digo, R.3 estava vivo!
- Ele está, mas já o mandaram para cá, pois não havia outro jeito. Venha. – Era um lugar mal iluminado, lembrava uma cadeia. Haviam grades em cada sala daquele imenso corredor. Muitos animais estavam presos do outro lado, todos mortos.
- Mas o que...?
- Eles estão empalhados. São da época que ainda permitiam animais em pesquisas. Resolveram deixá-los aqui, já que não podiam ser soltos. – Realmente não podiam. Se eram usados para testes, obviamente estavam infectados por células modificadas geneticamente, o que gerariam animais mutantes, caso houvesse cruzamento com espécies saudáveis.
- Porque não incineraram?
- Fausty não quis.
- Esse cara é um psicopata! – Cintia rira.
- Vai saber... – Eu a mirei surpreso.
- Pensei que gostasse do “Dr. Fausty”.
- Ele é um brilhante cientista e médico, mas as vezes se mostra cruel, tenho que admitir.
- “As vezes”? – Na minha opinião, era sempre.
- Não exagere, Deelan! É aqui. – Ela parou. Estava em frente a uma grande cela, as barras de ferro que protegiam eram imensamente grossas. Assim como as outras, era também mal iluminada, não dava para ver o que tinha no fundo dela. Eu me aproximei da grade, esperando ver Amós, mas até então, só eram visíveis o nada. Me aproximei da cela.
- A-Amós? – Foi muito rápido, não deu tempo de piscar, um estrondo gigantesco invadira o local, em um terço de segundo, um vulto grudara na grade fazendo meus cabelos esvoaçarem, tamanho fora a ventania que sua velocidade e força geraram. Sem que eu pudesse pensar, estava mirando duas enormes íris negras.
- Deelan. – Uma voz suave, infantil e levemente robótica, soara. Amós ainda estava vivo.
- Amós... – Eu sorri sem ao menos notar. Estiquei os braços para dentro da cela. Ele agarrara minha mão com força, era muito forte!
- R.3! Vai acabar machucando-o!
- Tudo bem, Cintia... – Falei. Amós olhava feio para ela. Eu não esperei pelo que veio a seguir. Ele encostara o próprio rosto à palma de minha mão, fechando os olhos. Sua pele fria e completamente pálida, lembrara-me estar tocando o mármore. – Amós... Eu senti sua falta, sabia? – Ele olhou para mim. Seus cabelos alaranjados estavam para variar, desgrenhados, e como sempre estava sem roupa alguma. Eu não conseguia acreditar que ele estava naquele lugar horrendo. Ele era uma criança, e estava sofrendo, eu podia ver isso claramente em seus olhos. – Como vocês tem coragem de mantê-lo aqui? Desse jeito?
- Não tivemos escolha, Deelan. Ele estava destruindo tudo. Tivemos que sedá-lo e mantê-lo aqui. Este é o único local forte o suficiente para pará-lo sem que esteja sedado. – Eu o mirei novamente, acariciando seu rosto, e seus cabelos.
- Pode nos deixar a sós? – Perguntei à Cintia.
- Claro, não demore. – Falou ela, que se afastara um pouco, mas pra mim já era o suficiente. Eu a observei se afastar, e cheguei mais perto da grade. — Você vai sair daqui, Amós... – Falei num sussurro. — Vou tirá-lo daqui. Eu prometo. – Ele me olhou nos olhos, prestando atenção. – Por favor, colabore, nem que seja um pouco. Finja que voltará aos exames, talvez eles te submetam a mais um... – Ele fez uma negativa com a cabeça. – Por favor... Só assim eles irão soltá-lo, você tem que colaborar para que eu possa tirá-lo daqui. – Ele me olhou novamente, chegara bem perto da grade, e esticara uma de suas mãos para fora, juntando os dedos, só deixando o mindinho de fora. Eu entendi quando vi o sinal.
- Promete?
- Sim, eu prometo. – Falei, juntando meu mindinho com o dele. Ele não esquecera.
- Pronto, Deelan?
- Sim, pode tirá-lo, ele não fará nada.
- Como tem tanta certeza?
- Eu cofio nele. – Falei mirando o garoto, que sorriu quase que imperceptivelmente para mim.
- Ok, então... Vamos, R.3? – Ela se aproximou da grade, tirando um grande molho de chaves dos bolsos de seu jaleco. Amós apenas observava, se afastando da grade. Ela o libertou em fim. O garoto pareceu hesitar.
- Vamos, Amós. Está tudo bem. – Ele me olhou, então veio a toda em minha direção, me derrubando ao chão. – Calma, garoto! – Falei sentindo-o agarrar-se em mim pela cintura, lembrara um cão quando vê seu tutor depois de muito tempo.
- R.3! Solte-o!
- Tudo bem, Cintia... Só estava com saudades, não é, Amós? – Ele confirmara, mas não dissera nada. Eu levantei finalmente, com um pouco de dificuldade.
Adentramos a área em que Amós costumava ficar. Fausty o mirou com o seu costumeiro ar de urubu azedo, após ver o garoto segurar firme em meus braços, confesso que o aperto de Amós não era nada delicado...
- Até que enfim, R.3! – Amós encarara Fausty de maneira ameaçadora. – Leve-o para tomar um banho, está imundo!
- Pode deixar. – Dissera Cintia. – Podemos contar com você, Deelan? – Sabia que isso ia depender de mim.
- Claro, onde?
- Por aqui... – Eu e Amós a acompanhamos. Dei um belo banho no garoto, e logo depois retornamos. Ele seria submetido a mais um teste naquela noite.
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