R.3
7 A Fuga
Notas iniciais
Aquilo parecia durar uma eternidade. Eu tinha um plano gigantesco na mente, mas nada podia fazer enquanto Fausty e os outros não liberassem Amós. Ele havia testado mais um medicamente, que provou ter sido eficaz, e pelo que notei, era bem raro. Ele ficara em observação durante um tempo, eu fiquei ao lado dele por muitas horas, até todos o deixarem, e ele pode enfim descansar.
- Como está se sentindo? – Perguntei a ele, estava deitado, haviam câmeras no quarto, o que não nos permitia ter muitas conversas.
- Bem. – Disse ele, o que era estranho, ele praticamente não falava, eu cheguei a pensar que realmente haviam cortado sua língua. Seu olhar estava vazio, ele mirava os lençóis sem realmente enxergá-los.
- Que bom. – Respondi, me espreguiçando na cadeira ao lado dele. Ele me olhara enfim.
- Deelan... – Falou.
- Sim?
- Quero sair daqui! Meu corpo dói, minha cabeça dói. – Eu o mirei com pesar. Era ruim, escutá-lo dizer essas coisas, era pior por saber que todos ali estavam cientes do sofrimento do garoto, mas ninguém sequer se movia para parar com aquilo.
- Eu sei...
- Não sabe...
- Eu sei, eu disse que sei!
- Não sabe, não! – Eu ri, não pude evitar. Ele sorrira de volta, exibindo seus brancos, impecáveis eontiagudos dentes caninos.
- Calma. Já já a dor passa. Ok? – Falei dando-lhe uma piscadela, que ele pareceu entender.
- O-ok... – Respondera.
Três dias havia se passado, eu voltei para casa algumas vezes nesse período, precisava desse tempo para tentar enganar Fausty e sua equipe, também precisava de Amós com o organismo limpo, para assim, poder levá-lo embora com segurança. E aquilo teria que ser o mais urgente possível, pois Fausty pretendia testar um novo medicamento, e isso tinha que ser levado em consideração.
O plano era simples, eu pediria para Cintia me cobrir no laboratório em uma noite, mentindo sobre ter alguns problemas pessoais para resolver, assim eu teria um álibi. Desligaria a segurança externa na noite anterior, para ter acesso ao laboratório e poder resgatá-lo. Para que isso fosse possível, usei esses três dias para conseguir uma cópia de um mapa do laboratório, os horários dos locais em que os guardas estariam, e o período exato que Amós ficaria livre para descanso. Também precisei de uniformes e cópias de algumas chaves, as principais dos fundos e da passagem que nós fugiríamos. Consegui encontrar a sala de segurança um dia antes, e precisei desativar as câmeras nesse tempo, as manteriam no estado de aparente gravação, mas sem estarem gravando nada na realidade, assim não desconfiariam de nada.
A noite em questão chegara, ninguém desconfiava que eu estava no laboratório naquela noite. Mas o que veio a seguir, eu não esperava.
- Está pronto, Amós?
- Sim.
- Certo. Vai ter que se vestir, rapaz...
- Sim. – Ele aceitou de bom grado usar roupas, era incrível, mas comigo ele realmente era dócil e obediente. Eu apanhei o mapa, analisando-o novamente. Fausty não estava, fora convocado para uma conferencia internacional, e boa parte de sua equipe aproveitara para descansar, o que fora um trunfo que eu não contava.
- Mapa.
- Sim, é um mapa daqui, Amós.
- Está errado.
- O quê? – Eu não entendi o que ele queria dizer. Então o vi apanhar uma caneta na mesa, tomar o mapa de minhas mãos, e rabiscar todo o papel. Eu não o parei, queria entender o que ele queria me mostrar. Em questão de segundos, ele desenhara do lado esquerdo do laboratório, uma nova sala, aparentemente gigantesca. Seus rabiscos iam se tornando maiores e mais precisos, ele desenhou cada detalhe do local, perfeitamente detalhado. – O que... é isso Amós?
- Sala secreta. Aqui estão meus irmãos. – Falara apontando para aquela parte recém desenhada no mapa.
- Seus... irmãos? Quer dizer...
- Outros como eu. – Eu demorei a associar. Quer dizer que Amós não era único, como eu não havia pensado nisso? Eu era muito burro! Mirei o relógio, eu ainda tinha tempo.
- Quer ir até lá? – Ele fez que sim. – Nos desviamos do caminho que deveríamos ter ido, e então seguimos todo o local que constava no mapa, na realidade, não precisávamos de um mapa, Amós era o verdadeiro mapa! Ele conhecia cada beco, cada local, era um verdadeiro computador ambulante. Nós pegamos atalhos que ele conhecia, e então chegamos em menos tempo do que o previsto, no local marcado como “Sala Secreta”. Era um lugar subterrâneo, escuro e aquecido. Descemos um grande lance de escadas, então alcançamos uma porta. O problema era, eu não tinha as chaves de todos os locais, e aquele era ainda pior, pois era biométrico.
- Amós... Não há como conseguirmos entrar aqui.
- Por que?
- Porque eu não sou Fausty, e precisamos dele para entrar. – Ele me olhou tranquilamente, então se voltou para a porta, e com um “pequeno” chute, ele havia arrebentado-a.
- Eu vi que desativou o alarme. – Disse ele, ainda tão tranquilo quanto antes. Eu estava de olhos arregalados, achei que estava lidando com uma criança inocente, mas não passara pela minha cabeça que Amós era mais inteligente do que qualquer ser humano. Ele havia me observado e analisado tudo durante todo o tempo que planejei nossa fuga.
Amós se adiantara adentrando o local, fui logo atrás. Um longo corredor havia na entrada, a porta arrebentada estava próxima, passamos por ela e seguimos adiante. A cada passo, podíamos sentir a quentura do local aumentar, e a escuridão tomar conta.
- Por aqui, Deelan... – Amós agarrara minha mão, me levando mais para dentro, até alcançarmos o breu total. Ele mexera em algo, e o lugar se iluminou. Foi a visão mais estranha que eu já tive na vida. Incontáveis bolsas preenchiam o teto dependuradas em filas. Eu cheguei mais perto, dentro dela, em meio a um líquido rosado, haviam fetos. Estavam enumerados, e de acordo com o tempo, alguns já estavam maiores.
- Meu... Deus... – Amós me puxara novamente, me levando mais para o fundo. Paramos em frente a pelo menos, dez cilindros de vidro com cerca de dois metros de altura. Nele haviam... crianças. – Amós, isso...?
- São como eu. – Disse ele novamente. Eu me aproximei do cilindro a frente, havia uma garotinha, de cabelos vermelhos como os de Amós, os outros restantes eram idênticos, a fisionomia, a altura, porém de ambos os sexos, tanto garotos, quanto garotas, deviam ter no mínimo uns dez anos de idade. Amós chegara mais perto de um deles, tocando o vidro com a testa. Ele fechara os olhos, e respirara profundamente, até que a criança dentro do cilindro parecera se mexer. Instantaneamente, abrira os olhos, que eram tão negros como os de Amós. Ele sorrira para a garotinha, que chegara próxima a ele. Amós encostara uma das mãos ao vidro, e a garota imitara o gesto. Olhando-os daquele jeito, pareciam se comunicar de forma inaudível.
- Amós... – Eu chegara mais perto dele.
- Ela quer que destruamos tudo.
- O quê?
- Disse que é preciso destruir, tudo aqui. – Ele me olhara finalmente.
- Mas...
- Disse que não há tempo. Eles irão levá-los embora. – Era óbvio. Aqueles eram experimentos que seriam mandados para outros lugares, outros países. Como Fausty mesmo dissera, todos já sabiam, menos a população. O que eu faria? Como destruiria todos eles? Mirei a menina e os outros. A ideia de que todos eram tão carinhosos e inteligentes como Amós, me desesperara. Eles tinham sentimentos, como iria destruí-los?
- Não há outra alternativa, Deelan. – Amós me olhara, como se tivesse lido minha mente. – Eles não se importam, preferimos ser destruídos, do que usados como cobaias pelos humanos. – Dissera ele, seriamente. – Eles não sabem o que estão fazendo. – Eu parei, considerando o que ele havia dito.
- O que pode acontecer?
- Somos híbridos, nosso dna é modificado e...
- Perigoso.
- Sim.
- Como vamos fazer isso? Como vamos destruir... tudo? – Ele caminhou até uma porta de ferro, com um chute rompera as dobradiças, arrebentando-as de uma só vez. Era impressionante. Havia uma sala de controladores do outro lado. Repleta de computadores e outras parafernálias tecnológicas. Ele adentrou a sala, até parar a frente de um computador gigantesco.
- Como sabe de tudo isso...?
- Fausty.
- Como? O que tem ele?
- Veio aqui semana passada. Me tocou quando me colocou na jaula. Pude ler sua memória. Sei como destruir. Há uma chave. Se algo sai errado, estão programadas para destruição automática. – Era incrível. Amós possui dons que eu nem se quer desconfiara, talvez, nem mesmo Fasty se dava conta do que ele mesmo criara. Amós começara a fuçar o computador. Fizera tudo tão rápido que nem mesmo eu pude acompanhar. Em menos de alguns minutos, ele entrara no sistema de segurança e quando menos esperei, uma voz soara nos autofalantes da sala.
“ATENÇÃO! Modo destruição total ativada!”
- E agora? – Perguntei, mirando-o.
- Você deve ir, Deelan. – Dissera ele.
- Como?
- Há uma saída. – Ele apanhara o mapa de minhas mãos. – Aqui. – Disse, apontando para uma vazão ainda mais em baixo. – Dará nas galerias subterrâneas. Não há guardas lá. – Dissera, seriamente, me entregando o papel.
- Então temos que ir rápido! – Falei, segurando seu pulso, mas ele não se movera. – Amós...?
- Você vai. Eu devo ficar. Devo ser destruído.
- O que?! – Eu não podia crer no que estava ouvindo. – Só pode estar brincando!
- Devo ficar. Devo ser destruído, junto com meus irmãos.
- NÃO! Não vou te deixar aqui! – Ele me olhou profundamente. Se aproximou, tocando meu rosto com suas mãos frias e pequenas. Sorriu.
- Somos amigos? – Que pergunta era aquela?
- É claro que sim! Eu voltei por você, Amós!
- Eu fico feliz... Eu tenho um amigo. – Disse, me abraçando pela cintura. Não pude conter minhas lágrimas, o que ele estava tentando fazer? Acariciei o topo de seus cabelos. Não podia deixa-lo ali...
- Eu não vou deixar você para trás! Eu vim para te buscar e é isso que eu farei!
- “ATENÇÃO! Destruição total dentro de sessenta segundos!”
- Você deve ir. Corra pelo túnel. Você verá a saída.
- Não... NÃO! – Eu o apanhei em meu colo, e corri dali como um louco, em direção ao túnel que ele me dissera. O segurei com tanta força, que mal havia pensado no que de fato estava fazendo, não queria escutá-lo dizer que deveria ser destruído. Ele se soltara de mim, pro meu desespero. Mas Amós me puxara pelas mãos, adentrando a galeria, era possível ver uma luz muito ao fundo naquele esgoto escuro e absurdamente grande. Em um minuto as explosões começaram. Saímos a tempo, e demos de cara com um precipício que levava ao mar. Sem tempo para pensar, eu pulara, puxando Amós junto comigo. Puxei o ar e o frio daquelas águas simplesmente perfuraram nosso corpo com o mergulho. Boiamos à superfície, Amós me olhara por fim.
- Eu deveria ter ficado.
- Não! Eu fiz tudo isso para te salvar! Não ia te deixar lá! – Ele se aproximara, pousando as duas mãos nas laterais da minha face.
- Obrigado. – As explosões eram imensas, podíamos ver o fogo consumindo o que ficou para trás, e coisas voando pelos ares. Aquela parte do laboratório era secreta e afastada. Se ninguém tivesse ido até lá quando o alarme soou, provavelmente ninguém havia se machucado também.
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