Questão de Tempo

4 A Sombra de Mim Mesmo


A primeira semana em casa foi um espetáculo estranho. Como se tivesse começado a ler o sexto livro de uma série contínua. Não conhecia as tramas; os personagens pareciam seguir um roteiro até então desconhecido, complexo e sem contexto prévio.

Harry se adaptava com a lentidão de quem vive dentro de uma peça de teatro sem ter decorado o roteiro. Cada cômodo da casa parecia guardar um segredo; cada conversa sugeria algo que ele não sabia — ou não lembrava.

Mas o que mais o incomodava era o modo como as pessoas o tratavam. Não havia o respeito que ele estava acostumado a receber — não aquele respeito que vinha do campo de batalha, da liderança, da luta. Era mais... condescendência. Tolerância. Compaixão demais.

E isso o corroía por dentro. Ele havia lutado por anos, e, nesta realidade, imaginava que teria algum tipo de reconhecimento. Mas parecia que era tolo, e todos o tratavam como se estivesse em contenção por insanidade.

Os meninos ainda dormiam, espalhados como filhotes sobre a cama dos pais: Seth abraçado ao braço dele e Hugo ocupando metade do travesseiro. Hermione dormia ao seu lado, com uma das mãos sobre o peito dele, como se guardasse seu coração.

Era um cenário tranquilo. Familiar. Quase perfeito. E, ainda assim, não era real. Mesmo com o mundo tratando-o como um tolo, ali, naquela casa, deitado em meio aos filhos e à esposa, parecia haver algo muito mais valioso que tudo o que ele havia conquistado em sua linha temporal. A melhor parte de toda aquela trama estranha da realidade atual.

Harry, que acordara naquela realidade com lembranças de um mundo onde seus pais estavam mortos, onde Hermione era sua melhor amiga e nada — absolutamente nada — era assim, foi mais feliz em uma semana do que em toda a sua vida.

Ele se levantou com cuidado e desceu. Entrou no escritório de Hermione. Havia altas prateleiras abarrotadas de livros, fotos de Hogwarts e da família daquela realidade. Estava procurando algo que o ajudasse a compreender melhor qual era seu papel naquele mundo.

Até encontrar uma caixa sob as prateleiras empoeiradas. Havia um feitiço de trava. Curioso, Harry estalou os dedos e desfez o feitiço de vedação, considerando-o idiota. Era uma pasta com o selo do Ministério e anotações de avaliação interna de desempenho.

E lá estava: mais informações sobre o Harry daquela linha temporal. Folheando a pasta, encontrou a ficha de avaliação de desempenho.

Potter, Harry James – Analista Júnior, Departamento de Restauração de Linhas Temporais.

Observações: Progresso abaixo da média. Instabilidade emocional recorrente. Atribuições recebidas majoritariamente por intermediação de Granger-Potter. Recomenda-se permanência em tarefas de suporte supervisionado.

Ele ficou em silêncio por longos segundos. Hermione mantinha o emprego para ele.

Harry folheou o restante dos papéis, encontrando pequenas notas pessoais, bilhetes antigos, recados de colegas do departamento:

Harry, sua esposa mandou os relatórios de novo. Dá uma olhada antes que o Neville te chame de novo no canto.

— Granger cobriu sua ausência hoje. Tudo certo com os meninos?

Neville. Sempre Neville. Era o nome que surgia em todos os contextos de liderança. Em todos os registros, era Neville Longbottom quem chefiava, quem decidia, quem combatia. Enquanto isso, seu nome estava sempre envolvido em erros e cobranças.

Quanto mais Harry lia, mais se formava um retrato desconcertante de si mesmo — ou melhor, daquele outro ele. O Harry daquela linha do tempo era... um apêndice. Um nome famoso, protegido pelos pais, amparado por Hermione, que se mantinha na estrutura do Ministério graças à reputação e à persistência de outros.

Ele se jogou na poltrona, respirando fundo.

Isso não era ele.

Não o Harry que enfrentou Voldemort. Que perdeu tudo. Que se reergueu das ruínas de uma guerra com a alma em pedaços, mas a varinha firme na mão.

Ele fechou os olhos.

E então sorriu — frio.

— Preciso descobrir mais sobre o Harry Potter deste universo — murmuro

Enquanto a casa despertava, Harry continuava absorto na realidade em que estava inserido. No ritmo da casa, nas brincadeiras dos meninos, no café da manhã que Hermione preparava naquela manhã.

O casal se preparava para visitar James e Lílian Potter naquela tarde de domingo. Os filhos, eufóricos, se arrumavam-se para ver os avós, enquanto Harry continuava congelado, como um observador daquela realidade.

Vestiu-se com as roupas disponíveis no armário. O estilo do Harry daquela linha temporal era descontraído, com diversas estampas e cores, nenhuma parecida com o de um homem de 30 anos.

O silêncio entre Hermione e Harry era rotineiro. Hermione parecia sempre atarefada, correndo entre o Ministério e a casa. Entre eles, parecia haver sempre uma divisão, uma mágoa profunda.

Hermione foi até a lareira, pegou os meninos e gritou: "Potter Palace!" Levou-os consigo, e Harry repetiu o gesto.

A mansão Potter era menos opulenta do que ele imaginava. A sala de estar era forrada com fotos da família, prêmios e recordações da Ordem da Fênix. Lily o abraçou com ternura — longa, maternal.

Ao ver o pai, Harry pensou que seria ele a ajudar a montar o quebra-cabeça daquela linha temporal.

— Pai, preciso conversar com você.

James acenou com a cabeça e o conduziu até a sala. Seus olhos estavam levemente cansados, vestia verde musgo. Mostrou a cadeira ao lado da lareira. A sala tinha um ar aristocrático e solene, com quadros de paisagens.

— Eu não me lembro de muita coisa, e Hermione está me poupando, mas sei que você não vai me poupar da minha história. Por favor. — Pediu Harry.

Os olhos de James buscavam ao redor, como se avaliassem o que deveriam fazer. Ele suspirou e fez uma pausa longa. O salão estava quase em silêncio, apenas o crepitar baixo da lareira quebrava o peso das palavras não ditas. Harry se sentia esmagado pelo olhar firme do pai. James Potter parecia mais velho, não pela idade, mas pela forma como os ombros carregavam histórias que Harry jamais vivera.

O silêncio entre eles não era apenas incômodo; era um abismo — um abismo de escolhas que nunca se encontraram.

— Antes, você era alguém que me preocupava. Sempre inseguro, sempre dependendo de Hermione para tudo. Nós brigávamos, porque você queria fugir. Fugir das responsabilidades, do casamento, da paternidade. — Respondeu, com pesar.

Harry sentiu um nó na garganta. Ele mesmo tinha a impressão de que aquele Harry era um covarde. E, com aquele início, teve certeza de que era o caso. James suspirou profundamente, apoiando-se na poltrona como quem voltava para um fardo já conhecido demais. Seus olhos, tão vivos e irônicos na juventude, agora estavam sombrios.

— E durante a guerra? — perguntou Harry. — Houve uma guerra?

James se remexeu na poltrona, parecia ser um assunto incômodo.

— Você fugiu. — disse, com firmeza. — No quarto ano, Neville se tornou campeão tribruxo, e, com a morte de Petter e a volta de Voldemort, muitos desacreditavam de Neville. Mas a Ordem se reuniu novamente e retomamos treinamentos e encontros. Você pediu para ser transferido para Ilvermorny, a escola de bruxaria nos Estados Unidos. Você disse que seria mais seguro. Nós nos preocupamos com você. Você não queria lutar, não queria se envolver. Talvez por medo, talvez porque nunca acreditou que seria capaz de mudar alguma coisa. E lá ficou. Durante toda a guerra, até quase 2 anos .após Neville derrotar Voldemort. — O tom de voz de James era grave e arrastado, como alguém que repetisse uma história desagradável.

Harry engoliu em seco. O cenário era pior.

— Quer dizer que eu não lutei? — perguntou novamente ao pai.

— Não. — James balançou a cabeça, a voz grave.

— Pai... — a voz de Harry saiu rouca, vacilante. — Eu preciso entender. O que... o que aconteceu entre mim e Hermione?

— Vocês se conheceram no casamento do Lupin. — respondeu James, sem rodeios. — Vou ser sincero, Harry, você só estava lá porque eu praticamente te arrastei. Sempre gostou de festas, mas estava brigado com Lupin, e tinha acabado de voltar de Azkaban... Foi naquela noite que Hermione apareceu no seu caminho. Vocês nunca foram próximos em Hogwarts. Todos ficamos surpresos quando se beijaram. Você sempre deixou claro que não gostava dela.

Harry franziu o cenho, tentando montar na mente um quebra-cabeça de memórias que não possuía. Cada palavra parecia ainda pior do que supunha.

— Então... nós...? — continuou Harry, buscando mais informações.

James não desviou os olhos e respondeu:

— Foi um caso de uma noite. Pelo menos, era o que você achava. Ela sempre foi apaixonada por você, desde o primeiro ano. Aceitou tua ausência, teus silêncios, tua fuga. — James cerrou os punhos.

Harry respirou fundo, mas era como se o ar lhe faltasse. Uma pressão dolorosa se acumulava em seu peito.

— E o Seth? — sua voz tremeu ao mencionar o nome. — Como foi...?

O pai encarou o filho por longos segundos antes de responder:

— Depois daquela noite, vocês se encontraram mais uma vez, e, na semana seguinte, Hermione descobriu a gravidez. Você fugiu. — disse cru, sem suavizar nada. — Passou meses distante, na sua vida luxuosa e festeira que levava em Los Angeles, tentando se esconder da responsabilidade da paternidade. Então eu e sua mãe cortamos teu financiamento. Sem dinheiro, você não teve escolha a não ser voltar para Londres. — A expressão de raiva era nítida em James. Ele respirava fundo, tentando se conter.

— Ela te recebeu de volta, Harry. Porque ela te amava. E o amor dela por você era tão profundo que se sujeitava a tudo: ao teu silêncio, à tua fuga, até à tua incapacidade de assumir de verdade o que tinha diante de si. — James ainda mantinha um tom contido, mas parecia em chamas por dentro ao relatar aquilo para Harry.

As palavras caíram como facas no coração de Harry. Ele fechou os olhos por um instante, e tudo o que conseguiu imaginar foi o rosto de Hermione, jovem, esperando por ele, talvez sorrindo, mesmo quando ele havia partido.

— Eu... eu a fiz sofrer. — murmurou, com a garganta seca.

James assentiu, sem negar, sem suavizar:

— Fez. Mas ela nunca deixou de te amar. Esse foi o erro e a força dela. E, de alguma forma, vocês se aproximaram, se casaram no Ministério — não sei se com amor suficiente. Então você começou a ter um caso com uma estagiaria e queria se divorciar da Hermione. Ela não aceitava. Lutava por vocês, pelas crianças, e eu brigava com você... porque não conseguia entender como podia desperdiçar a mulher que estava sempre ao seu lado. — A voz dele falhou. — Eu dizia: "Você vai se arrepender disso pelo resto da vida, Harry."

Harry abaixou a cabeça.

— E eu? — perguntou, envergonhado da mediocridade do outro Harry. O Harry daquela linha temporal conseguia ser tudo que ele repudia e, ao mesmo tempo, ter tudo que um dia sonhou.

— Quando tudo foi exposto, a garota descobriu que você não era rico. E o dinheiro que ela esperava estava em outros cofres. Quando declaramos que não te apoiávamos, ela terminou tudo. Você buscou a reconciliação com Hermione e tentou se aproximar dos meninos, mas sempre esteve em desencontro com eles, Filho. Nunca soube lidar com o casamento e a paternidade. Ficava, mas não se entregava. Era como se estivesse sempre à beira de fugir de novo. — James jogou o corpo contra o encosto da poltrona e fechou os olhos com força.

Harry respirou fundo. O peito apertado estava em choque; não seria capaz de se levantar daquela cadeira. Era asqueroso, perverso, covarde.

— Eu... não sou ele. — balbuciou em voz alta, como se quisesse aterrar na própria mente que ele não era o Harry Potter daquela linha temporal. — Pai... — Harry insistiu, ajeitando-se na poltrona. — Como foi mesmo que fiquei preso em Azkaban?

James passou a mão pelos cabelos, como fazia sempre que precisava organizar os pensamentos. Abriu os olhos, encarando o filho:

— Preso não é bem a palavra certa — começou, com um sorriso cansado. — Mas vou te contar tudo.

— Quanto a guerra se desenrolou aqui, você estava longe. E algumas coisas não estavam claras para você. — A voz de James soou baixa, quase como uma confissão. — Quando voltou, dois anos após o fim da guerra, encontrou Draco Malfoy em um bar. Você não sabia, mas ele foi um espião duplo. Fingiu estar ao lado de Voldemort, mas, na verdade, ajudava a Ordem. Lutou lado a lado com Neville na última batalha. Quando o reencontrou, não consegui aceitar aquilo. Para você, ele ainda era o garoto arrogante de Hogwarts, o comensal... Testemunhas afirmam que você começou a provocá-lo, insultá-lo. Ele não revidou, mas você o atacou. O bar estava cheio de gente. Francamente, filho, sempre foi péssimo em magia hostil! — Harry notou o quanto o pai parecia indignado. Era estúpido atacar um oponente mais forte. Mas Harry começou a compreender que coisas estúpidas eram a especialidade do "Harry" daquela linha temporal. — Malfoy te desarmou em um movimento. Você tentou um feitiço sem varinha, faiscas saíram e o lugar inteiro pegou fogo. Por sorte, ninguém se feriu.

Harry estava com raiva. O Harry Potter daquela realidade era idiota em vários níveis diferentes. James ainda parecia indignado, e Harry deu razão ao pai. Afinal, só um tolo tentaria um feitiço sem varinha sem mínima aptidão.

— Foi preso por isso. Mas, por ser filho de James Potter — e afilhado de Sirius Black — houve uma espécie de "acordo". Não foi tratado como criminoso comum, mas precisou pagar pelo que fez. — James ficou alguns segundos em silêncio antes de continuar. — Passou três meses em Azkaban. Não como detento, mas como guarda. Era serviço comunitário. Sua missão era vigiar os corredores, acompanhar os prisioneiros, espantar os poucos dementadores que ainda rondavam lá. Você nunca foi capaz de produzir um patrono; não sei como sobreviveu.

— Eu sempre falhei com todos, não é? — sussurrou, encarando o chão. Seu desejo era voltar e dar uma boa surra no Harry daquela realidade.

James o olhou com estranheza, não respondeu imediatamente. Apenas se levantou, caminhou até a janela e fitou o horizonte escuro. Então, com voz firme, disse:

— Não é questão de falhar, Harry. É questão de se esconder. Você sempre se escondeu. Do mundo, de si mesmo, e, principalmente, das pessoas que ousaram te amar.

Harry estava disposto a ser o seu melhor, em uma realidade em que apenas conheceu o pior.