Questão de Tempo
5 Ecos de Outra Vida
Mais tarde, naquele mesmo dia, eles retornaram para casa após se despedirem de Lílian e James. Harry agora se sentia mais contextualizado no novo papel que lhe cabia dentro daquela linha temporal.
Sua mente trabalhava a mil por hora, tentando calcular cada possibilidade, cada escolha, cada detalhe. Pensava em como poderia mudar as coisas — em como poderia ser um Harry Potter melhor do que aquele que se via refletido nesta realidade.
Sabia dos riscos de alterações temporais, conhecia as advertências, os paradoxos, os perigos incontáveis. Mas, ainda assim, não suportava a ideia de ser apenas um espectador. Não seria um perdedor idiota — não quando a vida lhe oferecia uma segunda chance de estar ao lado das pessoas que mais amava.
Hugo dormia pesado nos braços de Hermione, enquanto Seth folheava distraidamente um livro encantado, sentado no colo de Harry. A casa estava mergulhada em um silêncio quase acolhedor. Quando Hermione acenou discretamente com a varinha, as luzes se acenderam e a lareira brilhou com uma chama quente, trazendo vida e calor ao ambiente.
Harry se inclinou, ajudando Seth a se acomodar melhor no sofá.
— Fique sentado aqui, meu campeão. — disse suavemente, depositando um beijo carinhoso nos cabelos do menino.
Hermione ajeitou Hugo no colo, mas Harry logo se prontificou.
— Pode deixar, eu subo com ele. — informou com firmeza, estendendo os braços.
Ela hesitou por um instante, mas entregou o pequeno. Hugo, mesmo dormindo, envolveu o pescoço do pai com seus bracinhos rechonchudos, como se reconhecesse aquele abraço no fundo da alma.
Harry sentiu o coração apertar. Era uma sensação estranha: familiar e desconhecida ao mesmo tempo. Subiu as escadas devagar, prolongando cada passo, como se quisesse gravar para sempre a memória daquele peso delicado em seus braços.
Ao deitar Hugo no berço, ficou alguns segundos parado, apenas observando. O menino respirava compassadamente, o rosto iluminado pela meia-luz mágica do quarto infantil. Harry sorriu de leve — um sorriso carregado de melancolia e esperança.
Ali, entre sombras e sonhos, ele se perguntou:
"E se tudo isso fosse real? E se essa vida sempre tivesse sido minha?"
Hermione surgiu na porta, apoiada no batente, olhando-o em silêncio. O fogo da lareira do corredor desenhava reflexos em seus cabelos. Por um instante, Harry teve a impressão de que o tempo havia parado.
— Você está bem? — perguntou ela em voz baixa.
Harry desviou o olhar para Hugo.
— Ele é perfeito. Eu tenho tanta sorte... — sua voz tremia, quase se quebrando. Em sua vida tudo havia sido tão escasso, vazio, solitário. Ali, porém, ele estava cercado de amor, cercado de amor em todas as formas: seus pais, sua esposa, seus filhos. Tudo ali era especial, e raro demais para ele.
— Sim, ele é. — respondeu Hermione, emocionada com a nova postura do marido.
Dito isto, Hermione deixou o quarto, e Harry a viu entrar no de Seth, possivelmente para colocá-lo na cama. Harry estava determinado a fazer tudo diferente desta vez. Caminhou até o quarto do casal, sentou-se na beira da cama, e a sensação que tomou seu peito foi a de que teria um desafio muito maior do que o aparente.
Na manhã seguinte, o relógio mágico da cozinha anunciou a hora exata em que Harry deveria estar no Ministério.
— Tem certeza de que está pronto para voltar ao trabalho? — Hermione perguntou, entregando-lhe uma pasta de couro.
— Estou pronto para qualquer coisa. — respondeu ele, com um brilho nos olhos que a fez franzir o cenho, como se aquele não fosse o marido que conhecia.
O Ministério, no entanto, não o recebeu com entusiasmo. Era nítido. Alguns bruxos desviavam o olhar. Outros cochichavam nos corredores. Uns poucos arriscaram cumprimentos carregados de ironia. Harry percebeu, com um aperto no estômago, que naquela realidade ele era visto como um peso morto — um Potter sustentado pela fama do sobrenome e pelos relacionamentos influentes.
Determinou-se a mudar isso. Sentou-se em sua sala, repleta de pilhas de documentos abandonados, e passou horas revisando casos negligenciados. Resolveu dois processos em menos de uma manhã. Reabriu um inquérito complexo à tarde. E cada assinatura que deixava em pergaminhos o fazia pensar: esse Harry pode ter desperdiçado oportunidades, mas eu não vou repetir esse erro.
O expediente se alongou até o cair da noite. Harry, exausto, decidiu procurar Hermione. Ao chegar diante do antigo escritório que, em sua linha, fora dele, notou algo estranho: a secretária não estava em sua mesa. A porta estava apenas encostada, e dentro Hermione trabalhava sozinha, absorta em uma pilha de papéis.
Harry ia entrar quando um instinto o deteve. Um detalhe de memória — naquele escritório havia um compartimento secreto, um pequeno armário disfarçado atrás de uma tapeçaria. Sem pensar, ele deslizou até lá e se escondeu.
Poucos segundos depois, a porta se abriu. Era Neville.
Ele trazia uma sacola nas mãos e um sorriso suave.
— Trouxe jantar. Você esqueceu de comer de novo, não é? -- Hermione suspirou, erguendo os olhos cansados.
— Você me conhece bem demais. -- Respondeu Hermione com um sorriso cansado no rosto.
Neville pousou a comida sobre a mesa e se sentou diante dela, como alguém que já fizera aquilo muitas vezes.
— E os meninos? Como o Hugo está se adaptando à escolinha? O Seth ainda fala daquela excursão ao Departamento de Mistérios? -- Questionou em tom preocupado.
— Estão bem. — Hermione respondeu com ternura, mas também com um peso na voz. — Seth não para de falar no "dia do trabalho dos pais". Hugo... anda mais grudado no Harry.
Harry, dentro do armário, sentiu o coração acelerar.
— Se quiser, eu posso ir no lugar dele. — disse Neville, em tom gentil, mas com algo mais escondido por trás das palavras. — Você sabe que sempre pode contar comigo.
Hermione hesitou.
— Não sei, Neville... às vezes acho que amarrei o Harry de novo à minha vida. Ele tinha planos. Depois daquela noite... eu engravidei. Os pais dele cortaram todo o apoio, a vida confortável nos Estados Unidos desapareceu, e ele voltou para ficar conosco. -- Ela fez uma pausa, a voz embargada.
— Quando ele saiu naquela missão do acidente, estávamos há um dia de assinando os papéis do divórcio. Eu achei que era o fim. Mas ele voltou... diferente. Ele não se lembra de nada. -- Hermione levou as mão ao rosto.
Neville se inclinou para frente, a expressão carregada de preocupação.
— Hermione, você não pode se culpar. Se decidir se separar, eu estarei aqui. Para você, para os meninos. Eles também são meus afilhados.
Harry cerrou os punhos, sentindo uma onda de raiva subir-lhe pelas veias.
— O Seth... — continuou Neville, a voz baixa, como se fosse uma confissão — Você sabe que eu o registrei como herdeiro dos Longbottom. Quando o Harry sumiu, eu me ofereci para assumir o menino como meu filho. Você sabe disso. -- Hermione desviou o olhar, lutando contra as próprias emoções.
Harry mal respirava dentro do armário estreito. A raiva pulsava em suas têmporas a cada palavra de Neville. O pior não era a ousadia dele, mas a serenidade com que falava, como se fosse natural sua cobiça em ocupar o lugar que era de Harry.
— Hermione... — Neville baixou ainda mais o tom, e Harry teve que se inclinar para frente para não perder uma sílaba. — Você sabe que o Harry nunca... nunca te amou da mesma forma que você o ama. Ele gosta de você, claro, mas não como você merece. Você não pode passar a vida se prendendo a alguém que está preso a você só por dever. -- Hermione respirou fundo, fechando os olhos por um instante.
— Neville... eu amo o Harry. Eu sempre amei. — A voz dela era quase um sussurro, pesada de culpa. — Mas às vezes sinto que o arrastei para minha vida, que tirei dele o que ele podia ter sido. E isso me mata.
Neville se aproximou mais, apoiando o jantar sobre a mesa dela e pousando a mão sobre o braço da amiga.
— E se não fosse assim? E se houvesse outro caminho? — Ele hesitou por um instante, como se estivesse revelando um segredo guardado há anos. — Eu sempre vou estar aqui. Por você. Pelos meninos. Você não precisa se sentir sozinha. Se quiser se separar, eu estarei do seu lado. Sempre estive. E se o medo é criar os meninos sozinha, eu assumo. Todos eles. Como pai. E se você quiser como Marido.
O sangue de Harry ferveu. Ele sentiu os punhos arderem de vontade de sair dali e socar Neville contra a parede, mas se conteve. Hermione puxou o braço, surpresa, mas não com agressividade — com mágoa.
— Neville... — ela murmurou, dolorida. — Não diga isso. Você é meu amigo. E eu não quero que você se sacrifique por mim. De qualquer forma Harry é o pai dos meus filhos.
— E não é o pai e muito menos o marido, que vocês merecem. — A voz dele estava firme, como se fosse a verdade mais óbvia do mundo.
Harry mordeu o lábio até sentir o gosto metálico de sangue. Não ia aguentar mais um minuto ali. Quando Hermione desviou o olhar para os papéis da mesa, ele aproveitou a brecha: deslizou para fora do esconderijo, saiu do escritório sem ser visto e seguiu pelo corredor como um fantasma.
E, naquele instante, Harry entendeu que sua maior batalha não seria contra Rony, nem contra paradoxos temporais. Seria contra as escolhas do coração.
Quando se deu conta, estava do lado de fora da cabine telefônica e aparatou diante da escolinha onde os filhos estavam matriculados, os meninos correndo em sua direção. Hugo o abraçou pelas pernas com força, e Seth veio atrás, rindo alto. Harry respirou fundo: ninguém iria tirar o amor da sua vida.
— Vamos, campeões. — disse, forçando um sorriso. — Tenho uma parada em Hogsmeade antes de voltarmos.
Na vila, comprou um galão de cerveja amanteigada no Três Vassouras. Os meninos observavam curiosos, sem entender. Harry só pensava no que faria em seguida. E aparatou na porta dos pais. James foi o primeiro a abrir a porta.
— Harry, o que houve? — perguntou ao ver o filho com Hugo no colo, Seth segurando a mão direita, e na esquerda o galão de cerveja amanteigada.
— Isso é um agradecimento, pai. — disse, encarando-o com firmeza.
James o olhou, surpreso, mas antes que pudesse comentar, Harry entregou o galão na mão do pai e se virou para sair com os filhos.
Na volta para casa, o coração dele martelava no peito. O que ouvira no escritório não saía da sua cabeça. Neville estava declaradamente tentando levar Hermione. E Harry sabia o que Neville seria capaz de fazer por ela, porque ele próprio — em outra linha temporal — faria o mesmo.
Quando abriu a porta, encontrou Hermione sentada no sofá, um livro no colo, mas o olhar perdido. Os olhos dela se iluminaram quando viu os meninos correndo para os quartos, mas logo voltaram a ficar sérios ao se fixarem nele.
Harry respirou fundo, fechou a porta atrás de si e, sem dar tempo, disse:
— Boa noite, meu amor. — a voz de Harry saiu arrastada, mas carregada de certeza.
Nem nesta linha temporal, nem em qualquer outra, ele deixaria de amar Hermione Granger.
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