Questão de Tempo

3 Um Lugar Chamado Casa



St. Mungus parecia ainda mais claustrofóbico. Harry estava exausto de permanecer internado naquele hospital. Haviam se passado apenas dois dias desde que acordara nesta realidade paralela, mas ele já sentia urgência em compreender onde exatamente estava vivendo agora — e, mais importante, como poderia voltar.

— Harry? — Hermione inclinou-se, preocupada. — Você está pálido... mais do que antes.

— Eu... — ele hesitou, desviando o olhar para a moldura ao lado da cama. A luz mágica refletia na superfície, escondendo a expressão das versões pintadas de si e de Hermione. — Não é nada. Só o cansaço da missão.

Nesse momento, seus pais entraram no quarto. James sorriu, quebrando a tensão.

— Esse aí sempre demorou a voltar das missões. Você devia ter visto quando ele voltou de Azkaban.

O sangue de Harry gelou.

— Azkaban? — repetiu, sem conseguir disfarçar o choque.

— É, filho — James respondeu, como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Três meses lá dentro... mas você saiu mais forte. — O tom dele tinha um toque de sarcasmo.

Harry abriu a boca para perguntar, mas Hermione apertou sua mão com força. Não era um gesto de carinho — era um aviso silencioso. Seus olhos castanhos imploravam para que ele ficasse calado.

Ele engoliu as perguntas. Por ora.

Lily ajeitou o lençol sobre ele, ignorando o silêncio pesado.

— Precisa descansar. E comer. Depois conversamos.

Harry obedeceu, mastigando em silêncio, tentando imaginar que tipo de crime teria cometido para ficar em Azkaban por três meses. Um medibruxo passou pelo quarto e avisou que, na manhã seguinte, ele seria liberado.

A perspectiva de sair dali o deixou aliviado. Finalmente poderia investigar onde estava — e como voltar.

Enquanto comiam, seus pais conversavam com Hermione sobre trivialidades: o crescimento dos legumes na horta, um novo livro que estava dominando a lista de best-sellers, misturando mistério e ação.

Uma voz forte ecoou, seguida de três batidas na porta.

— Olá a todos.

Harry ergueu os olhos e viu Neville entrar, vestindo o uniforme de gala dos chefes departamentais do Departamento de Aurores.

— Nev! — exclamou Hermione, abraçando-o.

O rosto de James se iluminou, e, assim que Hermione se afastou, ele abraçou Neville como um pai afetuoso. Lily repetiu o gesto com igual calor.

Algo naquela cena deixou Harry intrigado. Por que Neville parecia ocupar um papel tão importante naquela realidade?

— Vim ver o Harry — disse Neville, aproximando-se e sentando-se ao lado da cama. — Como está se sentindo? Ficamos preocupados com o acidente.

Harry observou atentamente aquele Neville: mais confiante, com postura ereta e olhar firme.

— Estou bem. Ainda confuso, mas bem. — Sua clareza pareceu surpreender os presentes. — A missão terminou? Conseguimos?

A pergunta congelou o ar na sala. Neville apenas respondeu que sim e aconselhou Harry a descansar, logo mudando o assunto para uma conversa animada com James e Hermione sobre feitiços hostis.

Lily, então, tomou o lugar de Neville ao lado da cama. Harry só observava, absorvendo informações. Percebeu que, naquela realidade, James era Mestre em Feitiços e treinava aurores novatos; Hermione e Neville eram amigos desde o primeiro dia em Hogwarts; e seu pai havia lutado ao lado de Neville na Ordem da Fênix durante a segunda guerra.

A guerra... Harry se perguntou como teria acontecido ali. Será que o Ministério havia vencido antes da queda de Voldemort?

Um patrono chegou, e Neville precisou voltar ao trabalho. Seus pais pareciam genuinamente afeiçoados a ele, o que fez Harry se sentir reconfortado por ver seu velho amigo tão respeitado.

O resto do dia passou devagar. Hermione ficou ao lado do "marido", e James e Lily voltaram para a mansão ancestral dos Potter.

Na manhã seguinte, o sol envolvia Harry como um feitiço morno. A brisa leve atravessava sua túnica enquanto ele e Hermione aparataram diretamente para a entrada de uma casa que ele nunca tinha visto — mas cujo cheiro parecia familiar: madeira polida, canela e um toque de chá de verbena.

A fachada era elegante e acolhedora, feita de tijolos claros, porta pintada de azul e vasos flutuantes com flores que reagiam ao humor do ambiente.

— Bem-vindo de volta — sussurrou Hermione, destrancando a porta com a varinha. — Nossa casa.

Harry assentiu, forçando um sorriso, e só então percebeu: era a antiga residência de Godric's Hollow, reformada a ponto de ser quase irreconhecível.

Assim que entrou, a sensação foi esmagadora.

A sala estava repleta de fotos dos dois. Alguns retratos até pararam de se mexer por um segundo, como se também estranhassem o olhar distante dele. Um, em especial, chamava atenção: ele e Hermione dançando numa sala iluminada por velas, ela rindo com a cabeça apoiada no ombro dele. Ele parecia absolutamente feliz.

E aquilo doía.

— Vem, amor — disse Hermione, puxando-o para as escadas. — O quarto ainda está como deixamos.

O quarto era amplo, a cama grande e bagunçada, como se tivessem saído às pressas. Livros espalhados, camisetas dele na poltrona, pantufas de coelho sob a cômoda. Tudo íntimo demais.

Antes que ele pudesse reagir, Hermione o puxou pela gola da túnica e o beijou.

Foi intenso. Natural. Desconcertante.

Os lábios dela tinham gosto de chá com hortelã, e o corpo se encaixava no dele com a precisão de anos de intimidade. Harry correspondeu por reflexo, mas sua mente gritava que estava errado. Não por falta de vontade — Merlin sabia que ele já havia imaginado segurar Hermione assim —, mas porque ela acreditava viver algo que ele não lembrava ter existido.

Ela encostou a testa na dele.

— Desculpa. É que... eu senti tanto a sua falta. Foram dias infernais, Harry. Achei que ia me deixar sozinha com os meninos e...

Ele recuou levemente.

— Os meninos?

Hermione sorriu com ternura.

— Estão com sua mãe, mas devem chegar logo. O Hugo quase não dormiu essa noite, de tanta saudade.

— Quantos anos eles têm? — perguntou Harry, cauteloso.

— Seth tem cinco. Hugo acabou de fazer três. Você vai ver... são exatamente como você.

A porta da frente bateu, seguida por um grito animado:

— Papaaaaaaiiii!

Um garotinho de cabelos castanho-escuros e olhos muito verdes subiu as escadas correndo e pulou nos braços de Harry. Ele o segurou no reflexo.

— Papai voltou! Eu falei que ele ia voltar!

Logo, outro menino, um pouco maior, cabelos cacheados rebeldes e um boneco de quadribol nas mãos, apareceu.

— Oi, pai — disse ele, mais tímido, mas com um sorriso cheio de covinhas.

Harry os encarou, sentindo uma pontada profunda e inexplicável. Eles eram lindos. E o modo como Seth o olhava era pura admiração.

— Eu... senti falta de vocês — murmurou, com a voz embargada.

Hermione tinha os olhos marejados.

— Agora você está aqui. Com a gente. — E os três o envolveram num abraço.

Algumas horas depois, sozinho na cozinha, Harry tentava assimilar tudo. Estava interpretando um papel que não havia ensaiado — e, mesmo assim, todos pareciam acreditar.

Hermione apareceu na porta, enxugando as mãos.

— Rony e Neville chegaram. Estão na sala.

Na sala, Rony estava de pé, braços cruzados e sorriso forçado. Ao lado dele, Neville parecia ainda mais confiante e imponente do que no hospital.

— E aí, Potter — disse Rony, num tom levemente irônico. — Ainda com a cabeça... fora do lugar?

— Um pouco — respondeu Harry, contido. — Mas vai melhorar.

Neville se aproximou com um sorriso caloroso e apertou a mão dele.

— Foi um susto e tanto. Bom ver você bem.

Já Rony parecia inquieto, o olhar percorrendo a sala como se quisesse sair dali. Hermione tentou quebrar o clima:

— Chá?

— Não, obrigado — Rony respondeu rápido. — Viemos só dar um oi. E ver se o "herói" já se recuperou.

Harry percebeu o tom provocador. Não havia amizade ali. Pelo contrário, parecia que eram rivais. Neville lançou um olhar reprovador para Rony, mas não interveio.

E Harry começou a entender, em silêncio:Naquela realidade, as alianças eram outras.