Quero ouvir eu te amo

4 Esses são os meus sentimentos


Notas iniciais
Penúltimo capítulo, galera. Estou com uma quantidade razoável de leitores fantasmas. Isso não me deixa triste. Talvez algum dia vocês tomem coragem e mandem um comentário.

A pior parte de todas as decepções eram os sonhos que eu tinha após levar um “fora”.

Um arco-íris reluzindo sobre o sol. E embaixo dela uma cena de um casal com as mãos atadas, encostando-se um no ombro do outro.

Uma igreja. Grande. Uma mulher de pele escura — que no caso deve ser eu — caminhando lentamente pelo corredor. E lá na frente uma visão turva do noivo.

Duas crianças brincavam com uns ursinhos macios e fofos. Sentadas num berço enorme, sem nenhuma má intenção, sem nenhuma preocupação com o que está acontecendo ao redor.

E muitos outros...

Sei que irei dormir intrigada com o homem que esbarrei hoje cedo. E provavelmente vou sonhar com ele. Como uma boba fascinada pelo desconhecido. Sem problemas. Eu espero que o sonho seja bem criativo essa noite.

Dim dom.

A campainha está tocando. Deve ser um dos meus supostos cliente implorando para que eu formate o computador ou arranque cruelmente todos os vírus. Fácil de resolver.

Já consigo escutar as vozes lá embaixo. Uma voz cálida e suave de minha mãe e outra dengosa e implorativa. Ah, aposto muito que o trabalho de hoje é alguma formatação exaustiva.

É, eu sonhei ontem. Posso afirmar que o sonho foi criativo no final.

Começou com uma floresta com verde pra todos os lados. Todas as árvores eram viçosas e cheias de vida. Nenhuma espécie do reino animal habitava naquele lugar. Também não localizei frutas entre os galhos das árvores.

Logo após as imagens da floresta, eu apareci.

Mais gloriosa do que nunca, como se tivesse saído diretamente de um filme americano. Eu suspirava pesadamente, dando a impressão que corri por um bom tempo. E o mais interessante é que nenhuma gotinha de suor descia pelo meu rosto. Concluí que estava esperando algo ou alguém, completamente impaciente.

O que passou a seguir me obrigou a ficar perplexa, isto é, se acontecesse na vida real. Ivan — sim, o homem que contribuiu para aumentar meu estresse ontem — se encontrava a minha frente num estado igual ao meu. Nós dois não tínhamos expressões alegres, tristes e nem surpresas. Apenas ficamos fitando um ao outro, uma hipnose.

A fixação foi rompida por uma força magnética que nos empurrava para trás, até que Ivan transformou-se num borrão indistinguível.

E o sonho acabou num desfecho impressionante. Ivan fez uma careta de esforço forçando-se para frente. Muito estranho.

E conseguiu. A força mudou de sul a norte e segundos depois simplesmente ficamos um em frente ao outro novamente.

Acordei ofegante e senti duas lágrimas finas escaparem do canto do olho esquerdo e do direito. Fiquei pasma ao saber que estava chorando. Precisei constatar com minhas próprias mãos. Fazia meses que isso não acontecia comigo.

Levantei da cama, desci suavemente a escada branca com arremates prateados de curvas sinuosas. A nossa casa é de estilo peculiar.

Dirigi-me a cozinha, em busca de água para manter a calma. Estava tudo no lugar.

O fogão branco de quatro bocas do lado da pia feita de mármore. Todos os talheres e pratos no seu devido lugar. A mesa de jantar pequena e de madeira coberta por uma toalha de mesa branca com florezinhas rosas, acompanhadas de delicadas folhinhas verdes. A geladeira pequena e amarela — mamãe a levou em uma loja para pintá-la. O armário de mantimentos combinava com os outros eletrodomésticos numa mescla de amarelo e branco. Praticamente a maioria das coisas na nossa cozinha é de cor branca ou amarela. A parede não fica de fora.

Minha mão estava trêmula quando peguei o copo d’água. Nervosismo e raiva apossaram-se de mim enquanto eu matava minha sede. Como eu podia sonhar com uma pessoa que eu nem tinha intimidade? Que por puro acaso da vida esbarrou em mim? Esperança, esperança, esperança.

Essa palavra gotejava em minha cabeça como um bica semi aberta. Esse sentimento irritava-me continuamente. Dizem que ela é a última que morre e eu espero que ela ainda esteja viva.

Sentei-me na mesa de jantar, a fim de relembrar o sonho. Ivan desafiando a natureza para me alcançar. Soltei uma gargalhada irônica na hora, colocando a mão na boca para não acordar minha mãe. Ela não tinha nada a ver com minha desesperança. Teve alguém que a amou com todas as suas forças e que deve estar de guarda vinte e quatro horas por ela no céu. Por mim. Rita Nascimento de Souza e Mário Florença da Costa eram almas gêmeas e nem a morte os separou.

Obviamente não dormi muito depois desse sonho.

Agora estou aqui de frente ao espelho do meu quarto observando as marcas escuras, consequências da noite insone. Agradecendo por corretivo facial existir e não se esquecendo de agradecer mentalmente a quem o inventou. Ou as pessoas que inventarão. Não sei. O que eu sei é que se essa belezinha não existisse, eu me enjoaria de ouvir: “Não dormiu bem ontem à noite?”

“______________”

O mundo é pequeno sim. E reencontros acontecem, são raros, mas acontecem. Pois é. Ivan deve ter tido uma premonição e fez questão de me dizer que nos veríamos em algum dia. A ocasião dessa vez foi diferente. Nada a ver com manchas.

Eu estava almoçando em uma lanchonete perto da Rodovia Washington Luiz e observando as pessoas do outro lado da rua.

De súbito, Ivan estava na calçada andando lentamente com passos gentis, porém firmes. Uma combinação praticamente excêntrica. E num lampejo de coragem sinistra chamei-o:

— Ivan! – sem contar que acenei continuamente para ele, desviando a atenção dos clientes das mesas próximas toda pra mim.

Eu abaixei a cabeça. Relatei ao meu diário que sou exclusivamente tímida com o sexo oposto. Quanto aos demais fofoqueiros da lanchonete, estes eu ignorei com facilidade.

Ivan deu um pré-sorriso e com uma elegância absurda atravessou a rua. Provavelmente as mãos nos bolsos da calça era uma mania, quase uma característica dele.

— Prazer em revê-la, senhorita. — Quase tive um infarto com sua voz. Isso me causou raiva, muita raiva. A que senti ontem, enquanto estava tendo a insônia como amiga, nem podia ser comparada com a daquele momento.

De início pensei que seu jeito antigo — e respeitador — de falar era pra ser um pouco gentil. Entretanto, a cada palavra que saía de sua boca eu reparei que isso era de nascença.

— É — revirei os olhos discretamente. Ele não reparou na ação e eu agradeci mentalmente.

Encaramo-nos por um tempo. Rememorei o sonho, a parte da cena hipnótica. Ele permaneceu de pé e não se sentou ao meu lado.

— Senta aí. — Só então entendi que ele aguardava minha permissão.

— Com licença. — Ivan obedeceu ao comando e sorriu brevemente. Eu fiz o mesmo.

Ainda não tinha pedido nada. Dei uma olhada no cardápio e me contentei com uma sanduíche natural e um suco de maracujá.

É óbvio que o pedido foi suave, culpa da sua presença. Seria imensamente vergonhoso pedir um x-burguer e uma latinha de refrigerante de cola, meu vício.

Eu não estou nutrindo nenhuma ilusão, pois prometi a mim mesma. Quis somente aparentar não ser uma fã de gordura.

— O que vai querer? — falei antes mesmo da garçonete se pronunciar e cumprir sua profissão. Minha linguagem estava informal demais para a educação que eu tive na infância. Porém tornou-se difícil medir as palavras.

Ele olhou na direção da garçonete e respondeu:

— Água mineral, por favor.

Franzi o cenho absurdamente e me senti faminta, praticamente esfomeada. Meu lanche tampouco aplacaria a fome que torturava meu estômago. Agora, água mineral?

E eu, pensando em ser educada, demonstrando que era “delicada’’ na hora de me alimentar. O que eu podia fazer? Comer um prato de salada? Não, isto ficou fora de cogitação.

— Algum problema, Vívian? — meu nome proferido por seus lábios soava mais apurado. E, ufa, pensei que ele me chamaria outra vez de senhorita.

Eu neguei com a cabeça e vi meu lanche seguir em direção a mim, nas mãos da garçonete. Poxa, não havia almoçado e fiquei dando ajuda extras para uns alunos.

Ivan continuou a me fitar enquanto eu dava atenção exclusiva ao meu prato que não me deixaria satisfeita. Ele bebia a água calmamente, com aquela pose de pessoa paciente. Eu não sei de onde tirei coragem para convidá-lo a me fazer companhia. Se pudesse corar — maldito seja o avermelhado fofo que ficava nas suas bochechas — ele imediatamente veria a minha vergonha.

Quando já estava na metade do lanche, ousei perguntar:

— Ivan, você iria fazer alguma coisa importante antes de ter ser convidado a sentar comigo?

O clima estava bastante taciturno, e por um breve momento pensei que eu atrapalhei seus planos enquanto tentava ser sociável.

— Não. Eu pretendia visitar minha família, todavia, não estou com pressa.

Interessante. Fiquei aliviada ao saber que não estava infortunando seu tempo. E achei meigo o seu ato. Significava que ele gostava de estar perto dos parentes. Nossa, esse pensamento foi realmente estranho.

— Você não mora aqui — isso não foi uma pergunta. Com essa linguagem, esse porte jeitoso e outros detalhes me ajudaram a ter essa conclusão. Não que todos de Duque de Caxias sejam mal-educados e só falem na linguagem papo reto. Eu gosto de onde moro, gosto sim.

— Não. Nasci em Ipanema. Meus pais são daqui, e quando conseguiram se estabilizar melhor financeiramente resolveram ir para um lugar... Como posso dizer... Mais nobre. Mesmo assim, eu via saudade estampada em seus rostos e os encorajei para voltarem pra cá.

Eu confesso que fiz um esforço para não o meu maxilar não escancarar-se. No entanto, ter nascido em um bairro ilustre não seria uma justificativa para ter esse palavreado tão correto. Bastava dispor de muita educação.

— Interessante. — Murmurei, sem graça. Eu queria esconder qualquer resto de fascínio que eu senti por sua teatral altivez. Um pensamento equitativo.

— Aproveitei as férias de julho do emprego para passar um tempo com eles. – continuou. Eu fiquei intrigada, as doses de raiva sobrepondo agora à admiração. Não estava pedindo para que me contasse sua vida perfeita. Então, voltei atrás com a ideia de tê-lo chamado. Odeio exibições.

E, pela primeira vez na vida, eu deixei a comida pela metade, desobedecendo ao mandamento de mamãe. Nunca desperdice o alimento que Deus nos dá. É sagrado.

— Já vou indo — minha voz saiu esganiçada. Do tipo que diz que não quer mais conversa.

Levantei, e resolvi entregar o dinheiro a garçonete lá dentro mesmo. Até paguei a tal água mineral do riquinho.

Toma essa, seu imbecil. Posso muito bem pagar isso.

Eu estava fazendo birra, resultado de ter sido mimada desde a infância por minha mãe. Dor, angústia, cólera. Eu sou adepta da sensibilidade aguda, por dentro.

Ao voltar para a minha antiga mesa, vi Ivan com uma expressão estapafúrdia e confusa. Ele levantou o dedo discretamente, ponderando sobre minha reação, como um aluno pedindo permissão para tirar uma dúvida com o professor. Dúvida da qual eu logo sabia.

— Te fiz algum mal, Vívian? Falei algo que te machucou?

Arregalei os olhos, tão surpresa de sua delicadeza. Porém, eu não queria sentir carinho por ele. Eu queria continuar com minha raiva, uma autopreservação de futuros desapontamentos.

— Tenho pressa. Te vejo noutro dia — despejei tudo rapidamente, torcendo para que ele tivesse ouvido.

Iniciei passos temerosos e lentos, abaixando a cabeça. Eu não era deste modo. Não sei por que agi daquela forma. Pelas minhas costas, eu previa que Ivan ainda me observava parado.Não demorou muito para o... Idiota... Ficar no meu encalço.

— Tem certeza? Se quiser posso te acompanhar até a sua casa?

Para que? Pra me mostrar o maravilhoso carro conversível que você deve ter? Meus pensamentos faziam embaraços agonizantes em mim. As emoções desencaixadas, lutando por organização.

— Não. Quero – grunhi, meus dentes raspando um no outro de uma forma muito, mas muito dramática. Tudo ficou parcialmente bem, até que algo transparente que vinha do meu rosto pingou no chão. Eu tentei me iludir, crendo que era suor, uma gota que caiu da cobertura da toldo de uma loja. De novo, eu estava chorando.

Limpei-as e penteei meus cabelos com os dedos, arrumando o emaranhado de fios que atrapalhavam meu rosto.

E Ivan continuava me seguindo, me agonizando.

— Você não parece estar nada bem.

Oh, que grande descoberta. É claro que eu não estava! Só podia ser um abestalhado mesmo!

— Estresse do dia-a-dia – menti.

Como o meu caminhar permanecia lento, o tonto me seguia facilmente. Uma sombra atrás de mim, enchendo-me a pouca paciência que eu tenho.

Repentinamente, Ivan se posicionou a minha esquerda e pôs temerosamente a mão no meu cotovelo. O toque gerou-me um calafrio inacreditável e a área tocada começou a formigar.

— Tenho absoluta certeza de que posso te fazer companhia — soou como uma ordem, só que num modo mais gentil.

E eu engoli saliva, o nó na garganta enforcando toda a firmeza que eu me esforçava pra ter.

O momento estava insuportável. Todo aquele jeito “cavalheiro” de Ivan causava-me ódio, porque nenhum homem havia me tratado dessa forma.

Eu fiz um gesto confirmativo com a cabeça, desistindo de lutar com a sensação de dormência gerada pelo seu toque. E abafando sentimentos indesejáveis.

Antes de continuarmos nosso “caminho”, ele direcionou o olhar pra minhas pálpebras, que ainda brilhavam devido ao choro inicial que escapou de um lugar vazio e rancoroso dentro de mim. Dei um sorriso amarelo, para derrubar a sua desconfiança. Funcionou.

E com ele ali, o trajeto não me interessava. Nem mesmo as rebarbas amarelas como gema de ovo das calçadas de Duque de Caxias despertavam a minha atenção. A garota do outro lado da rua que tinha traços físicos de Mortícia, com roupas escuras em meio a um calor de 37° graus, estava livre de qualquer pensamento debochado que eu criaria em outra situação.

Os dedos de minhas mãos dedilhavam a calça alaranjada que eu usava e eu me toquei que sentia uma vontade considerável de encostar-me na mão de Ivan. Isso me apavorou por dentro.

No portão de casa, imaginei um jeito de fazê-lo entrar para tomar uma xícara de café. Recuei com essa idéia rapidinho, lembrando daquelas cenas toscas da Dona Florinda e do Professor Girafales. Alô, isso aqui é século XXl!, um diabinho esnobe tentou encaixar essas palavras em minha mente.

Serial gentil que o convidasse, Vivi.

Esse aí foi o anjo, forçando a barra até mesmo usando o meu apelido para que eu fosse convencida por ele.

— Vejo você qualquer dia, certo? — e o diabinho venceu. Ivan olhou profundamente nos meus olhos e logo partiu como o anjo que era. Mal sabia o período depressivo em que me fez entrar.

Notas finais
Apreciem com carinho. Beijos.