Notas iniciais
Enfim, estou postando a parte final, que é uma espécie de epílogo, na verdade. Agora que a história acabou, pretendo investir em 2 projetos da adolescência que eu nunca terminei, uma fanfic e outra original.

Uma, duas, três barras de chocolate detonadas. Potes de sorvete não funcionavam de forma alguma. Nem afogar as mágoas no shopping amenizava essa angústia. O culpado é obvio, né? Ivan.

Com a sua pressa estúpida, esqueci de pelo menos pedir seu telefone. E quer saber? Não pediria! Isso me faria parecer uma completa oferecida, uma idiota da pior categoria! A questão é que a burra aqui se deslembrou que Caxias é imensamente grande. Um raio não cai no mesmo lugar duas vezes. Eu me esqueci desse ditado e simplesmente pensei que o encontraria de novo. Devia ser porque eu estava perdidamente deslumbrada com esse cara. É, e apaixonada também. A segunda vista, acho.

Eu poderia até mesmo correr atrás dele, pois durante esse processo entendi que não é assim que o amor nasce. Eu queria a merda de um conto de fadas, não batia na minha cabeça que o amor vem do convívio. Para ser amado de volta é necessário conquistar a confiança de uma pessoa e uma série de coisas que me doía só de começar a refleti-las. E o pior é saber que aquele cretino sabia onde eu morava e nem ao menos pensou em bater na porta! Mas no auge de meu desespero, as coisas mudaram. Para sempre.

Há seis dias, exatamente às dez da noite, houve um toque na minha campainha muito do persistente. A primeira hipótese foi que um ladrão iria levar todos os bens materiais que eu e mamãe lutamos para obter. E burra como sou, atendi. Sem taco de beisebol — isso é Brasil, dã — ou qualquer instrumento afiado, corri para a porta sem pestanejar. Adivinha quem era? Sim... Era ele. Ivan em carne e osso.

Minha surpresa foi tão grande que minha boca ficou naquele patético momento de abrir e fechar por um bom tempo. E por incrível que pareça, toda aquela sensação de nostalgia e desespero se dissipou. Coisa de mulher apaixonada.

— Eu —

— Pensei que nunca viria — interrompi, num misto de raiva e felicidade.

— Desculpe, Vívian. Eu não vim antes por medo.

— Medo de que, cafajeste?

Ele apenas riu, de uma forma tão nervosa que partiu meu pobre coração.

— De você não me amar como eu te amo.

De queixo caído, passei a pensar em duas alternativas. Eu desmaio lentamente ou me belisco para ver se aquilo é um sonho? Preferi encarar os fatos.

— Não minta pra mim, seu babaca! — gritei, esquecendo que mamãe dormia lá em cima. – Amor assim não existe! Você só me viu duas vezes, como pode falar isso se nem ao menos me conhece direito?

Com um suspiro pronto, ele soltou a bomba.

— Eu te conheço há tanto tempo, Vívian. E mais do que imagina.

Bufei, completamente descrente. Aquilo pra mim era uma maldita blasfêmia.

— Olha, posso entrar? — pediu.

E finalmente percebi o quanto estava frio lá fora, um clima tão estranho e tão atípico desse município drasticamente calorento. Só de pensar na umidade, comecei a bater os dentes e sentir calafrios. É claro, a maioria desses tremores veio por estar na presença daquele cara.

Deixei o infeliz que se apossou da minha mente se sentar no sofá apertado e pequeno. Sentei-me ao seu lado, de forma cautelosa e desconfiada.

— Desembucha.

— Eu sei muito sobre você. – pigarreou, como se tivesse um discurso ensaiado na ponta da língua. Apenas arqueei a sobrancelha direita, esperando que ele continuasse. — Você é professora de informática de uma turma infantil. Vive indo a papelaria e adora comer sanduíche de hambúrguer de frango. Aquele dia em que te encontrei na lanchonete, não foi coincidência. Eu sabia que você amava almoçar lá e que adora todo tipo de besteiras. Sei que sua mãe se chama Amanda e seu pai morreu num acidente no corpo de bombeiros. Você já foi visitá-lo duas vezes esse mês. Assim –

— Chega!

Assustadores soluços escaparam de mim. Embarquei num choro incontrolável. Sim, passei a chorar como uma criança. Sentia medo, nervosismo, um acréscimo de paixão por aquele cara. Tudo junto e misturado. Para completar, mamãe acordou com isso e me fitou assustada das escadas.

— Querida, o que houve? Ei, quem é ele? — seus olhos se esbugalharam e como possuía uma boa parte da genética dela, vi em seus olhos a crença de que ele era um ladrão. Uma bobagem, ladrões não poderiam ser tão lindos como ele. Mas psicopatas sim.

— Suba, mamãe — falei baixo, limpando as lágrimas discretamente.

— De jeito nenhum —

Lancei um olhar para ela do tipo “é um dos meus namoradinhos, sabe como é”. Ela logo entendeu, mas não relaxou sua postura preocupada.

— Qualquer coisa é só me chamar — subiu devagarzinho as escadas, com aquele ar de espiã. Se ela soubesse que o verdadeiro espião se encontrava a minha frente, imóvel como uma estátua de gelo, perderia esse topete de investigadora na hora.

Voltei a sentar-me, disposta a me controlar dessa vez. E foi aí que fui surpreendida. Meu anjo psicopata — essa era a única explicação para alguém que persegue uma mulher tão desinteressante como eu — encostou seus lábios aos meus, iniciando o beijo mais fantástico da minha vida. Pensei que ele iria ser agressivo como o maluco que parecia ser, mas não. Aquilo parece um afago. Aquilo destruiu minhas barreiras.

— É por isso que ouso dizer que te amo, linda — murmurou, seu hálito escovando meu rosto, principalmente a pontinha do nariz. Senti frio, mas era um frio bom. Te avistei no ano passado, batendo perna no calçadão. Cheia de bolsas, de longe parecia uma compradora qualquer. E me enganei. Era a mulher mais linda que vi na minha vida.

Meu ego subiu, confesso. Meus pensamentos mudaram. Eu só refletia sobre como nós podíamos dar certo, ter filhos... Seguir em frente. Naquela vez, não tinha medo de quebrar a cara. Porque ao menos me sentia amada, como sempre quis.

— Eu não te amo, sinto muito — vi seu rosto desmoronar. — Não faça essa cara Ivan. Não sei como você é. Não por dentro. Tanto faz. Eu me apaixonei por você de uma forma que deveria ser pecado, por ser tão absurdo e doloroso.

Foi incrível ver seus olhos iluminarem. Foi como se tudo, todos os fracassos amorosos valessem a pena. Eu tinha encontrado alguém que me amava de forma carnal, de forma desesperadora. E não iria perder isso por nada, adorava investir em novidades.

— Pra mim, Ivan... será eterno. Mesmo que dure poucos dias.

Seu sorriso de resposta foi brilhante. Mais brilhante ainda era o estado em que minha alma se encontrava. Eu tinha alcançado o meu objetivo. Agora só faltava comemorar internamente e fazer esse relacionamento durar muito. E diário... Está durando. Estou tendo sorte dessa vez. Acho que virei a página de uma história dramática e entrei numa comédia romântica.

Parabéns para mim.

Fim

Notas finais
Um final com gostinho de quero mais, não é? É isso.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!