Notas iniciais
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—Já disse que não é para eliminar-la. Na verdade,é bem o oposto disso. —Ele concentrou-se para a cidade,que agora mostrava o movimento pelas pequenas bolinhas de luzes que ligavam e acendiam em todo canto— Quero que você a leve para o meu apartamento.

Helena

A menina sentou-se. Quando sua cabeça parou de girar,e ela pode abrir os olhos,Teve um pequeno choque de realidade.

Não estava mais em seu cubículo de concreto. Tão pouco jogada no chão com um prato de comida vazio — Agora que ela melhorara,não haveria por que a observar apodrecer enquanto aguardava a avassaladora morte lenta.

Com a postura endireitada,suspirou.

Estava sob um sofá macio. Em um apartamento.

As paredes Atrás de si,se alternavam entre tons escuros e tons de madeira maciça. Uma televisão de tela plana — Que lembrava a tela de um cinema,vale ressaltar — Ocupava quase toda a parede a sua frente. Entre ela e a TV, Uma mesa de cristal com objetos decorativos modernos. E três controles. Um tapete se estendia de pelugem negra,até o sofá onde Helena se encontrava: Se couro negro e bem detalhado.

Ainda um pouco tonta,levantou-se. Sentindo a maciez no tecido abaixo de seus pés. Agora,onde estava,descobriu que tratava-se de uma cobertura: As paredes nada mais eram que uma incrível e majestosa janela. Onde toda a cidade estava abaixo. Onde o barulho das vidas agitadas,já não alcançavam seus ouvidos.

Ao ficar em pé,teve vista panorâmica, uma porta de madeira nobre estava ao lado do interruptor. Pouco depois,abaixo de três modernas cúpulas iluminarias,que despencavam do teto com uma delicadeza surpreendente para o ambiente,estava um piano maravilhoso. Negro e fechado.

Ela ficou tentada,mas se conteve. Voltando a observar o restante do local. As paredes que continham cor,e não a bela paisagem do céu a seu alcance,revelavam outros cômodos apagados.

Quando ela tomou impulso para explorar os demais lugares,ouviu a fechadura girar,uma seqüência de números digitados. Jogou-se novamente sobre o sofá,e sentou-se,quieta.

Quando a porta abriu-se,virou levemente a cabeça em direção da mesma. Christopher tinha uma expressão de surpresa,e misto de alívio.

—Então acordou? —Perguntou,colocando as mãos no bolso. E indo em direção a onde ela estava.

—Sim... —Ela permaneceu imóvel.

—Gostou da decoração?

—Não.

Christopher sentiu algo como um soco no estomago. Claramente descrente.

—Como assim?! Foi um design Francês que arrumou tudo!

Ela pareceu se divertir com isso.

—Por isso mesmo. —Helena ficou em pé. Indo até a estátua abstrata próxima a porta. — É bonito. Mas não diz nada sobre você.

Ele levantou-se também.

—É minha casa. Não precisa dizer sobre mim,sendo confortável já basta.

Helena riu. Como se tivesse ouvido a melhor das piadas.

—Christopher. É a sua casa —Ela tocou um dos quadros surreais,cheios de linhas indiretas, próximo ao piano. — Se eu quero saber o que alguém costuma ler,vou até sua estante. Se preciso saber se come alguma coisa,vou até o armário. Seu lar diz muito sobre ti.

—Mas eu nem paro em casa!

—Pudera. —Ela deu os ombros— Uma coisa tão escura assim,nem eu.

Christopher cruzou os braços. O grande poderoso parecia uma criança decepcionada.

—Então você odiou?

—Na verdade,Apenas olhando sua sala de estar, tenho a impressão que você é um admirador de obras que te façam imaginar o que seja,mas que não te dê certeza se é ou não. O que claramente é como você quer se visto: Por cada um,uma visão diferente. Mas nunca ter a habilidade de garantir que você seja alguém. E isso,é uma das poucas coisas que consigo perceber aqui. Por que você esconde esses detalhes,atrás dessa pintura escura. Que moderniza,mas afasta...Ninguém conseguiria ficar aqui por tanto tempo.

Ele ficou admirado com a capacidade da menina. Mas disfarçou.

—Pelo menos é melhor que sua cela. —Passou a andar em direção a um corredor com quatro castiçais,dois em cada parede negra. Com dois quadros com milhares de cores jogadas.

—Não tanto. O fato de ter somente um colchão de solteiro,velho. Uma poltrona rasgada e comida no chão,me permitia arrumar como eu quisesse. —Ela foi indo atrás dele.

Passaram por uma sala de jantar,onde as duas paredes eram constituídas por uma imensa vidraça. O sol estava se pondo,sinal que o fim de tarde estava próximo. A mesa,de marfim e mármore negro,possuía uma pequena cascata no centro. Passaram reto por ali,passando por uma passagem sem porta,chegando a cozinha.

Um ambiente de bancada americana,com mais mármore,dessa vez em granito,bem no centro. Seis banquetas a rodeavam,e cúpulas luminárias vermelhas,bem acima da espécie de “mesa”. Eletrodomésticos,como geladeira e fogão,eram do estilo industrial. Que lembravam mais um restaurante elegante que um apartamento doméstico. Ele abriu uma das portas da geladeira.

Ela sentou-se sobre a bancada. Com os pés balançando.

Sem olhar-lá,Christopher voltou a falar.

—Ta,você detestou a minha casa. Mas deve estar com fome,o que quer?

—Pizza?

Ele riu.

—Eu estou de dieta.

Ela gargalhou.

—Pelo amor de Deus. Não me venha com viadisse.

O tom de Helena,fez Christopher rir.

—Ta bom,o que quer comer?

—Tenho a opção de escolher? —Só então o homem teve noção da situação: Estava com a menina que raptara,agindo como se fossem velhos amigos.

—Não. Não tem. Vou pedir para um amigo meu pegar pratos de codorna com molho de damasco.

—O dinheiro acaba com o bom gosto das pessoas.

Ele virou-se para ela.

—Como pode ter certeza disso?

—Você contratou alguém para arrumar a sua casa. Vai pedir comida francesa,e,você está de terno em casa.

—Eu acabei de chegar. Você fala com se fosse um crime.

—E é! —Ela falou,quase se fosse óbvio— Na Coréia,assim que se chega,se tira qualquer peça de trabalho. Por que é em casa que você descansa. —Ela cruzou os braços. Em revolta— Desse jeito você traz problemas,nervosismo,estresse,e até mesmo trabalho para cá.

Ele suspirou. Achando essa menina mais complicada que qualquer outra coisa.

—Estamos na Itália. E se não quisesse trabalhar em casa,não teria solicitado um escritório para cá!

Ele fez uma careta de profundo desgosto.

—Isso é um ultraje!

E desceu pisando duro,voltando para a sala.

—Aonde é que eu fui me meter. —Christopher mandou a mensagem das comidas,para Ezequiel,e foi atrás da coreana.

Ela estava escorada na vidrada,próxima a televisão. Admirava a vista,ou mergulhava em seus pensamentos.

Ele andou até ela. Deu três passos para a esquerda,e empurrou uma vidraça um pouco mais longa. Que se revelou duas belas portas de vidro.

Helena não o olhou,apenas saiu por ali.

Ela uma sacada,média. Com duas cadeiras trançadas,e uma cascata de vidro presa a parede. Um frigobar,e mais vidro. Que ia até a cintura da menina,que agora pode sentir o vento em seus cabelos.

—Eu não detestei. —Disse,após longos segundos em silêncio. Christopher,que estava escorado na porta,quase assustou-se ao ouvir a voz suave— É só que...Essa cultura do Ocidente,é tão diferente. Parece que quanto mais as pessoas tem,mais querem que os outros façam por ela. Onde eu morava,era simples. Tanto que minha casa é minúscula,mas nunca se entrava com os nervos a flor da pele pelo trabalho. Jamais traziam-se más vibrações. E todo lar mantinha a personalidade de quem morava-se,e não a vista de um belo decorador. Quem mora lá sou eu,não ele. Mas seu apartamento é muito lindo,desculpe.

—Entendo,deve ser meio complicado,estar,sabe,em outra cultura.

Ela suspirou.

—Sim.

—A porta próxima ao piano dará a um pequeno corredor. Suba a escada do fim,dará ao segundo andar. Segunda porta a direita é o seu quarto.

Ela assentiu,passando por ele. O cheiro de cerejeiras inundaram suas narinas.

Assim que ouviu os passos da menina subindo as escadas,respirou levemente,assistindo a lua domar a escuridão.

Quando a campainha tocou,ele virou-se. Observando a própria sala,as palavras de Helena tomaram sua mente “As obras permitem que cada um veja alguma coisa,sem ter certeza do que é”.

Ao abrir,Ezequiel sorria.

—Trouxe tuas codornas com damasco, e a minha pizza,é claaaaro!

A resposta de Christoper,foi completamente oposta.

—Você acha que minha cobertura é um mistério?

Notas finais
Meio chatinho,mais descritivo que explicativo,mas o próximo é melhor,eu prometo!