Querida Solar
1 Querida Solar
Notas iniciais
Querida Solar, eu, Planth, escrevo esta carta para você.
Já faz muito tempo desde que te vi. Eu sou um deus, você sabe disso, mas eu percebi, nestes dias, que eu sou um deus fraco e velho, alguém que não mais tem a capacidade de administrar todos aqueles que dependem de mim. Eu notei que você era alguém que nasceu como humana, mas sempre mereceu ser uma deusa, pois você não se importava em se ferir ou, simplesmente, estar ao lado daqueles que estavam manchados do pecado.
Eu me apaixonei por você, uma mortal, assim que a vi. Você era como uma rosa, mas uma rosa preenchida de espinhos, mas espinhos estranhos, que não te arranhavam, mas sim, te prendiam junto a ti, num movimento rápido do carinho de suas mãos morenas e o simples cheiro de terra que saía de seus cabelos, um cheiro quase proibido para aqueles como eu, que saem por aí a vestir uma capa feita do mais caro e belo ouro, somente para exibir-se.
Eu te chamo de Solar, mas por que eu o faço? Há tanto tempo, mil, dois mil anos, eu lembrava-me de seu nome, assim como lembrava da cor de seus olhos, mas, hoje, eu não lembro, pois estou muito distante de você, a imaginar onde você estaria, chamando-te, vergonhosamente, de Solar, falsificando seu belo nome que eu já esqueci há tanto tempo, aprofundando-me no fardo que eu sou, um fardo que só você era capaz de carregar.
Pergunto-me, de noite, se você ainda se lembra de meu nome. No som do mais brilhante e belo vaga-lume, eu sempre noto que você jamais teria se rendido a este mundo, você ainda se lembraria de meu nome, bem como da cor dos meus olhos e, com certeza, lembraria de quem você era, diferente de mim, que é um deus entre tantos outros, brilhando no universo, tentando achar a certeza onde não há, guiando aqueles que já sabem se guiar.
Eu te chamo de Solar, mas eu sei o motivo deste nome: eu sou Planth, o deus dos planetas, mas todo planeta é banhado pela luz de algum sol. Então, você é meu sol, eu sou seu planeta, pois eu ainda sinto que você me ilumina e que, algum dia, eu poderei estar junto de você, novamente. Mesmo que, para isso, meu corpo tenha que apodrecer perante a mais importante deusa, mesmo que, para isso, seja necessário que eu morra.
E, novamente, chamo-te de Solar, aquela que me ilumina.
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