SIM

QUARTO ANO DE NAMORO

Julie não respondeu. Não com um "não" definitivo, não com um "sim" duvidoso, não com o "agora não" costumeiro e não com o "talvez" que queria.

Ela o encarou. Fixamente. Abertamente. Por algum tempo.

Asher encarou-a de volta, sem saber o que ela queria e sem ideia do que dizer — ele nunca sabia o que dizer. Dizer as palavras certas sempre era um problema, dizer elas para Julie era meio que uma causa perdida e Ash sempre esperava acabar com tudo, falar e vê-la se quebrando ainda mais, na sua frente.

Até que ela piscou.

E, mesmo que... mesmo que ela ainda parecesse um pouco incerta, Asher sabia que Julie estava inteira e confiava que, se ela perdesse ao menos um pedaço de si, ainda continuaria de pé.

Julie podia cair, pensou, observando-a pegar algo no bolso do vestido, sem tirar os olhos do dele, mas iria levantar-se. Sempre. Toda vez.

Vez após vez.

Queda após queda.

Ascensão após ascensão.

—O que é isso? — questionou.

—Minha lista — respondeu ela, desdobrando o pequeno pedaço de papel.

—Sua lista — repetiu Asher, vendo o pequeno quadradinho virar uma folha cheia de quadriculados bem demarcados.

—Sim, precisamos decidir algumas coisas.

—Você primeiro precisa aceitar o pedido para que possamos decidi o casamento — brincou Asher, mas Julie não achou graça. Ela inspirou, exalou e abriu a boca, contudo nenhum som saiu. — O que é? — perguntou Ash, franzindo a testa, repentinamente assustado. — Qual é o problema? Você sabe que pode me dizer qualquer coisa, certo?

Julie sorriu, uma leve inclinação dos lábios, os olhos tristes e as olheiras mais marcadas do que nunca.

Ela estava cansada, percebeu Asher. Ele já sabia disso, mas, agora, mais do que nunca, parecia algo real e verdadeiro. Não um cansado de sono, não apenas isso, era um cansado mais profundo e aterrorizador e letárgico, que empurrava para baixo e esmagava todas as alegrias e possíveis alegrias, que... deixava... sem... nada.

Asher queria abraçá-la, apertá-la, dizer que estava tudo bem, dizer que a amava, pedi-la em casamento, mas ele já tinha pedido-a, ela estava assim justamente por causa do seu pedido, por causa dele e... Asher não queria pegar de volta o pedido que fez, pedi-la para esquecer tudo que ele disse, porque, pela primeira vez, Julie estava pensando sobre sua pergunta, considerava-a seriamente.

—Eu não acho que você — disse ela finalmente — consiga ouvir qualquer coisa que eu diga.

Asher deu de ombros.

—Você só sabe se tentar — disse, embora pensasse o mesmo. E soubesse que só saberia, se podia ou não ouvir qualquer coisa, depois que ouvisse.

—Ok — disse Julie lentamente, pegando sua mão e puxando-o para o sofá. — Acho que seria bom você se sentar.

Asher sentou-se. Ele achava o mesmo. Sua cabeça girava, seu coração batia descontrolado e ele começava a ficar assustado com o que iria ouvir — o que ele não queria ouvir.

—Ok — repetiu Julie, não soltando sua mão, dando um tapa que deveria considerava reconfortante com a outra mão. — Antes de começar, três coisas. Primeiro: eu te amo.

—Urg. — Ash fez uma careta e sentiu um vento frio soprando na sua nuca, arrepiando-o até o último fio de cabelo. Rindo dele. — Eu não quero ouvir resto.

Ele levantou-se.

Julie o empurrou de volta para o sofá.

—Segundo: você não pode me odiar, certo?

—Hum?

—Não importa o que eu faça? Não importa o que eu diga? Não importa o que...

—Julie — interrompeu Ash. — Eu não posso dizer que sim até que você me diga o que está acontecendo. O que é? Não é a primeira vez que eu te peço em casamento. Se você não quer, diga não. Eu não me importo. Eu não vou desistir. Eu ainda te...

—Shii, shii — pediu Julie, colocando os dedos em cima dos lábios dele. — Isso, qualquer declaração que você fosse fazer que eu não — enfatizou — ouvir, significa que você não pode me odiar, certo?

—Você não vai me dizer o que é?

—Ainda não.

—Ok, certo, satisfeita? Eu não posso te odiar. Não importa o que faça, o que aconteça, o que me diga, o que...

Julie o beijou, o fez calar a maldita boca, o provou quando ainda tinha chance, tentou se convencer que o que faria era o certo a se fazer. Asher precisava saber.

—Terceiro...

—Ainda tem o terceiro — gemeu Asher. Quando isso irá acabar?

—Terceiro — repetiu ela. — Eu quero dinheiro.

—Hum?

—Eu não estou com dinheiro — explicou, impaciente. — Eu preciso de uma certeza que vou chegar em casa e eu não vou andando.

—Eu pensei que nós já concordamos que eu não posso odiar você.

—Sim, mas isso não significa que você não vai ficar com raiva.

Asher levantou a sobrancelha.

—Eu já fiquei com raiva de você muitas vezes — relembrou — e nunca deixei você ir para casa sozinha, desamparada.

Julie suspirou, irritada.

—Passe logo o dinheiro. Eu não confio em você para dirigir depois do que eu disser.

Asher estreitou os olhos. O que ela iria dizer?

—Eu espero que isso valha a pena — murmurou, pegando a carteira e puxando o dinheiro.

—Mais — pediu Julie antes que ele guardasse-a. — Quando terminarmos aqui eu vou precisar de sorvete! — exclamou, ofendida pelos olhos desconfiados que recebia. — E você sabe o quanto ele é caro. Você deveria assumir a responsabilidade por eu precisar de um. Você pode colocar no que eu te devo, se você quiser, se você acha que estou te roubado.

—É, eu quero — concordou Ash, passando mais.

—Obrigada.

—Você pode me agradecer resumindo essa lista.

—Então eu não preciso te pagar? Ok, ok — Julie levantou as mãos. — Você tem uma caneta? Certo, não precisa desse estresse. Número dois fora. E sete. Hum, três, quem... Não. Quantos você quer?

—Nenhum.

—Crescente ou decrescente?

—O mais rápido.

—Eu me sinto como se estivéssemos num talk show — comentou Julie, animada.

Asher resmungou.

—E eu a caminho da morte.