NÃO

PRIMEIRO ANO DE NAMORO

Seus dedos grudavam — não que isso importasse no grande e adocicado mundo que vivia, em que seus cabelos deviam cheirar a ovo e ter gosto de chantilly.

Seus dedos grudavam, mas era em seus cabelos que estava o problema. Seus cabelos e seu rosto e... Nossa, Julie lambeu os lábios melados, os olhos fechados, saboreando o gosto, fazendo o "hummm" que o momento pedia, embora tivesse o pressentimento que todos deviam estar odiando aquilo, que apenas ela gostava, antes de lavar o rosto com água.

O único problema realmente era seus cabelos, observou-se no espelho (e ignorou Asher de guarda atrás de si, como se ela fosse uma princesa indefesa e ele seu salvador, quando era na verdade uma rainha e não precisava de proteção), pegando uma mecha do seu cabelo loiro agora branco — não branco neve, branco espuma.

Julie não se importava com um pouco de chantilly e hidratação profunda, mas era realmente necessário que Matthew passasse no seu cabelo? Todos tinham concordado antes de participar que seria apenas o rosto, somente ele.

Mas seu amigo era um bastardo.

Enquanto esperava que ele tirasse aquele prato da sua cara, Matt deslizou-o facilmente para cima e ela só pode deixar, ainda embabascada por ele ter reagido mais rápido do que ela e acertado a pergunta.

—Droga — praguejou Julie antes de enfiar a cabeça dentro daquela pia e fazer o que podia com um copo. Nem tinha como colocar a cabeça diretamente debaixo da água!

—Quer ajuda? — questionou seu namorado repentinamente.

Julie bufou, ignorando a pergunta, como ignorava qualquer outra coisa relacionada a ele.

Idiota.

Idiota, idiota, idiota.

Céus, como alguém podia ser idiota?

Segurando o copo com uma mão e deslizando a outra por seu cabelo enquanto jogava água, ela perguntou-se, brevemente, se talvez havia sentido.

Nahhh, sem chance.

—Ei, Asher — disse o próprio, cansado daquela briga. — Será que você poderia me ajudar a lavar o cabelo? Ver se tem algum chantilly em algum lugar, por favor? Não tem como eu ver. Claro, Julie, só porque você pediu, porque eu não posso dizer não.

Julie sorriu para si, porque ele não podia ver e sentiu os dedos dele deslizando por seu cabelo suavemente, tão suavemente que ela perguntou-se se era realmente ele, porque ele não era tão suave assim ao deslizar as mãos por seu cabelo.

Talvez fosse a água.

Água fazia milagres.

—Levante a cabeça — pediu Asher depois de um tempo. — Eu vou pentear.

—Oh. — Julie olhou-o pelo espelho, vendo-o sacar um pente como alguém provavelmente sacava algo perigoso. — Alguém venho preparado.

—Está falando comigo agora? — provocou ele.

Julie decidiu não ignorá-lo mais.

(Ela já tinha arruinado isso mesmo.)

—O que você quer? — questionou.

—Muitas coisas — flertou Ash de volta.

Julie o olhou não impressionada, porque ela tinha pedido isso.

—Eu não sou um gênio da lâmpada e até ele só realiza três desejos.

—Eu pensei que você fosse uma fada – zombou ele.

—Mas não sou a sua. O que você quer? — repetiu Julie.

Asher suspirou, deixando que sua mente se focasse nos cabelos loiros, tão loiro, que mesmo molhado ainda parecia claro.

Por que Julie tinha que ser tão teimosa?

Por que era tão difícil falar a verdade?

Admitir?

Asher estava tão cansado, ele sentia-se tão cansado, que parecia que eles tinham brigado em uma outra vida e não há alguns minutos, nem sequer uma hora atrás. Era tão... Sério que eles tinham brigado?

—Nada — murmurou. — Eu só estou... com ciúmes.

—Ciúmes? — repetiu ela, virando-se, curiosa. — Do que?

—De quem — corrigiu ele. – Matthew.

—Você está com ciúmes do Matthew? — questionou Julie, surpreendida. — Uau. Eu não sabia que ele era seu tipo.

—Eu estou com ciúmes de você com Matthew.

—Faz mais sentido — murmurou ela. — Por quê?

—Ele é mais o seu tipo do que eu sou.

—Realmente — concordou. — Então por quê? Do ciúme.

—Ele é mais o seu tipo do que eu sou — repetiu Asher, meio que indagando no final. Julie o ouvia?

—Eu sei que ele é mais o meu tipo que você. — Ela revirou olhos. — Mas por que do ciúmes?

Asher não acreditava que ouvia aquilo.

—Você e Matthew são tão... urg. — Falar aquilo seria pior do que dizer um palavrão na frente da sua mãe. — Compatíveis.

—Compatíveis? — repetiu Julie.

—Não me faça repetir — murmurou. — É só que... Vocês se entendem...

—Eu me entendo com você — comentou ela.

—Não como você e Matthew se entendem. — Julie não discordou com o que viria. — Com todos esses códigos e sinais e morse e sequência Fibo-seja-lá-o-que-for.

—Fibonacci — ajudou Julie.

—Vocês são inteligentes — resumiu Asher. — E pessoas inteligentes devem ficar juntas, devem se unir e dominar o mundo.

—Existem vários tipos de inteligência — observou ela.

—Você está me consolando? — Asher sorriu.

—Não — negou Julie. — Estou apenas declarando um fato.

—Eu gosto quando você declara fatos. Soa tão geek.

Julie sorriu com isso, porque soar geek era sua meta do dia, principalmente agora que Matt ganhou dela.

—E eu não preciso me unir a ninguém para domínio o mundo. — Ela aproximou-se e sussurrou em seu ouvido: — Eu já o tenho.

—Uou — assobiou Asher, abanando-se – É só eu ou está quente aqui? Isso soou tão sexy.

Julie riu, passando os braços ao redor do pescoço dele e ficou ali, mexendo-se de um lado para o outro, cantarolando com os olhos fechados, dançando sua primeira música de baile no banheiro feminino, imaginando que se vestia majestosa para aquela situação e não com um short-saia rasgado e uma blusa agora imunda de tinta e doce, porque se ela ia ser beijada num banheiro mal cheiroso, ela bem que podia imaginar um cenário mais bonito.

Julie espiou-o com um olho, querendo que ele adiantar-se logo, e ameaçou:

—Se você não me beijar agora, eu não...

Asher interrompeu-a como ela sabia que ele faria, os lábios ainda sorrindo quando ele cravou os dedos em sua pele, as mãos em seu quadril, os próprios lábios dele exigentes no seu e... Julie parou de sorrir para retribuir, para beijar de volta com aquela energia e paixão e algo que com toda certeza não faria se estivesse em público, se estivesse realmente num baile.

As mãos de Julie subiram para seus cabelos, puxando-os levemente, e, maldição, não estava realmente fazendo muito calor ali, não? Porque Asher sentia-se aquecendo e derretendo e dobrando-se para Julie do jeito que ela quisesse.

—Hã. — Alguma garota murmurou e eles separaram-se rapidamente sem se afastar (não era como se estivesse fazendo algo de errado, Julie tentava se convencer). A menina olhava-os assombrada, de um para o outro e então apontou para a entrada. — Eu vou... sabe... só...

E se foi.

Julie olhou para Asher, movimentando e estralando os seus lábios como fazia depois de passar batom. Quando passava batom. Ás vezes. Quase nunca.

—Eu não te perdoei por ter dito que eu estava dando esperanças a Matthew. Mesmo que ele goste de mim ou não, Asher, eu nunca fingir algo que não existe. Eu gosto dele, não vou mentir, ele é meu amigo, mas eu estou namorando você e... Eu sou egoísta, não vou parar de falar com ele mesmo que ele esteja apaixonado por mim ou você esteja com ciúmes.

Asher suspirou.

—Quer casar comigo? — perguntou.

—Agora não.

Notas finais
Isso aconteceu comigo. Eu era a única animada para participar disso nos jogos da escola (duas vezes, dois anos) e convenci meus amigos a participar também, e colocaram no meu cabelo. Eu não iria para casa assim (tinha levado até uma toalha para a escola), fui lavar os cabelos no banheiro, é claro. Foi péssimo. Melhor experiência na minha vida.