SIM

QUARTO ANO DE NAMORO

Asher correu para alcançá-la.

Ele sentia como se estivesse sonhando até aquele momento — o gosto ruim na sua boca podia muito significar que ele acordou agora, porque não conseguia entender como pode ter deixado Julie sair, ir embora, e não ter feito nada para impedir.

Como ele não tinha se agarrado as pernas dela e chorado e confessado seu amor eterno por ela, embora ela não acreditasse em tanto tempo assim? Ash queria fazê-la acreditar por ele, por eles. Mas, agora, ela tinha ido.

Seus pés deslizaram no tapete da entrada, seu corpo bateu contra a porta e Asher engoliu uma maldição para recuperar o fôlego e abrir a porta, não se incomodando para fechá-la porque só seria perda de tempo e precisava alcançar Julie antes que ela se perdesse.

Seu dedo bateu incessante no botão do elevador, seus pés andaram de um lado para o outro e Asher tentou pensar onde Julie estaria. Ela devia ter pegado um táxi. A menos que tivesse embolsado o seu dinheiro e ido para a casa de Liz em vez do apartamento que dividia com os irmãos perto da faculdade. Ou ido diretamente ao supermercado comprar quantos doces quisesse. Urg, era uma escolha difícil. Asher levantou a mão na boca, ocupando-se com os dedos dela e as unhas deles, querendo saber se todo mundo naquele prédio tinha apertado aquele maldito botão para chamar o elevador ou o quê, com seus pés nunca parando.

—O que você está fazendo?

Asher virou-se nos seus pés, anestesiado, duvidando do que fazia. Aquela sentada ao lado da porta do seu apartamento era... Julie?

—O que você está fazendo? — balbuciou ele de volta.

—Hum... –Ela estreitou os olhos, considerando-o. – Eu perguntei primeiro?

—Você... você não... deveria... por que você...

Asher não conseguia racionalizar.

Julie lhe lançou um olhar simpático.

—Eu estava... — Ela procurou a palavra certa. — Me certificado que você está bem antes de ir.

—Sério?

—Não. Eu só não queria que Lorenzo me visse assim, nessa bagunça. — Julie apontou para si. Asher achava-a uma bagunça linda. — Ele podia achar que eu não sou bom o suficiente para o neto dele.

—Você é boa para mim.

—Hum?

Julie definitivamente tinha ouvido, Asher tinha certeza. Ele tinha murmurado? Tinha. Falando um pouco baixo? Talvez. Mas ela sabia leitura labial.

Asher sentou-se no chão, para ficar na altura dela, e tocou-a, porque não podia ficar mais um segundo sem tocá-la. Ele pegou sua mão, olhou em seus olhos e disse, sem fôlego, porque ela era linda e não apenas fisicamente e ele não podia perdê-la:

—Eu não me importo. Eu ainda quero você. Eu não importo se nunca vamos ter filhos, eu quero...

—Pare aí mesmo. — Julie levantou a mão e as palavras cessaram na boca de Asher. Ele seria rejeitado? — Como assim "nunca vamos ter filhos"? Eu não quero ter — enfatizou — filhos. Como gerar. Como minha barriga — ela fez um gesto em forma de parábola em cima da sua barriga — crescer e meu útero abrigar uma forma de vida. Mas eu quero crianças.

—Ahn?

—Eu te disse uma vez, não? – disse ela, sorrindo tanto que doía, mas ela não pararia, não queria. – Eu quero adotar. Eu não quero colocar crianças nesse mundo quando já tem tantas. Eu quero fazer por crianças como o meu pai, o que ninguém nunca fez a ele. Eu quero adotar crianças que já estão velhas demais para serem adotadas porque elas merecem uma família também, porque eu posso dar isso a elas.

—Nós podemos — sussurrou Asher, prometeu, maravilhado, porque era por isso que a amava.

Julie riu, pulando em seus braços, perguntando-se onde tinha arrumado aquele idiota, porque precisava reco... men... dar... Não, esqueça. Julie queria Asher só para si. E riu plantando vários beijos pelo seu rosto, sentindo-se uma idiota, mas sabendo que só se vive uma vez (duas se tiver azar) e que preferia se arrepender depois por estar sendo tão feliz quando Asher estivesse lembrando de sua felicidade.

Por agora, Asher segurou-a.

Asher não sabia por quanto tempo eles ficaram ali, parecia um mundo inteiro, sentindo aquela felicidade de Julie escorrer por sua pele, transpirando por todos os poros dela — Ash não sabia se em algum momento já viu a felicidade de Julie tão palpável, tão a mostra.

Ela estava feliz.

Asher queria que aquilo durasse para sempre... durou no máximo por um minuto ou dois segundos, quando seu elevador enfim chegou e as portas abriram-se e sua adorável vizinha chegou.

—Ah, sério?

—Oi, Ellen — murmurou, sem abrir os olhos, seus braços ainda ao redor de Julie, a cabeça dela contra o seu peito, e ambos deitados no chão imundo do corredor.

—Vocês realmente têm que ficar fazendo isso?

Julie balançou a cabeça, deu um último beijo estrelado nos lábios de Asher, provocando-a, e se sentou.

—Eu não sei do que você está falando.

—Nem eu — concordou Ash, ficando ao lado dela.

—Por favor — Ellen rangeu os dentes — entrem. O que for que desejem fazer, façam dentro de casa, atrás de uma porta.

Julie balançou a cabeça de novo.

—Eu realmente não sei do que você está falando.

—Eu acho que ela está sugerindo coisas indecentes — sussurrou Asher.

—Uou. — Julie levou a mão à boca, escandalizada. — Anne vai amar ouvir isso.

—Eu estou gostando das sugestões dela — confessou ele.

Ellen suspirou, derrotada. Seus braços pendendo aos seus lados, seus dedos brancos por causa do peso das compras nas sacolas.

—Façam o que quiserem.

—Vamos, Julie. — Asher levantou-se, puxando-a junto. — Temos que ajudar minha bela vizinha. — Ele sorriu, pegando as sacolas da mão dela. — Mostre-me o caminho.

—Está aberto — disse Ellen.

Asher revirou os olhos.

—Você é tão sem graça — resmungou, abrindo a porta.

—Deixe em cima da mesa! — gritou Ellen. E então se virou para Julie e comentou: — Ele é um bom garoto.

—E eu? — Julie sorriu, empurrando-a com o ombro sem força. — Eu não sou uma boa garota?

—Você é qualquer coisa, Julie — disse Ellen, deixando o resto da frase no ar.

—Ainda bem. — Julie assentiu, séria. — Eu não quero ser um cachorro na minha próxima vida.

Ellen revirou os olhos, mas Julie viu como ela sorriu levemente também, não realmente irritada por tê-los encontrado — era apenas para manter a fachada, Julie sabia.

—Você está bem? — questionou Ellen. Julie olhou-a sem entender. — Seus olhos estão...

—Oh. — Realmente, ela estava uma bagunça. — Está tudo bem. — Julie fungou, passando a mão no nariz. — Asher e eu só tivemos uma... desavença.

—Por isso vocês estavam... — Ellen balançou a mão, sinalizando qualquer coisa, sem palavras.

—Rolando no piso? Na grama cimentada?

—Desavença — interrompeu Ellen, falando mais alto. Julie queria saber se ela nunca aprendeu a deixar os outros terminarem de falar para falar, e não falar mais alto, numa disputa de quem fala mais alto. — Entendi. Obrigada, Julie. Obrigada, Asher — agradeceu, colocando-o para fora da sua casa. -Tchau.

—Você acredita nisso? — apontou Julie, encostando-se na porta.

Asher negou com a cabeça.

—Então, você vai...

—Nós ainda não terminamos, Asher — interrompeu Julie, levando a mão ao bolso e puxando o papel e balançando-o na sua cara.

—Quando você...

—Estamos no ponto dez.

—Sem papel — relembrou.

—Ashhh...

—Você nunca precisou de um na hora de fazer as provas, então não comece agora. O que você tem para me dizer?

—Hum... seu dinheiro é nosso e o meu dinheiro é apenas meu?

—Eu não me importo.

—Eu quero oito gêmeos.

—O que? — Asher arregalou os olhos, abriu a boca, sentiu-se horrorizado. — Não!

Julie riu.

—É brincadeira.

—Ah, graças a...

—Não, não é, me desculpe. Eu quero.

—Eu não acredito em você – disse Asher. Às vezes ele perguntava-se onde foi parar a garota que não mentia, só se estivesse bêbada e quisesse testar as convicções alheia, entediada demais para fazer algo lucrativo, porque a mulher de agora era uma mentirosa compulsiva e onze das dez palavras que dizia eram mentiras e ele não podia nem confiar nos pensamentos dela.

—É uma boa escolha – concordou Julie. – Não confiar em mim. Porque eu quero ao menos dez para que possamos jogar basquete. E eu estou desconsiderado os três reservas de cada lado porque não acho que terei tantas condições financeiras assim para sustentar dezesseis crianças.

Asher balançou a cabeça e disse "não, Julie, você não vai ter, eu não vou dar, eu me recuso...". Ele mentiu. Ele aprendeu com a melhor. Ele daria, ela teria — qualquer coisa. Qualquer coisa desde que ela continuasse a sorrir, desde que ela parecesse tão viva e estivesse ao seu lado.