NÃO

SEGUNDO ANO DE NAMORO

Julie conhecia as histórias de “ela já era velha”, “era a hora dela”, “ela viveu de mais”, mas era sua avó.

Era a sua avó e Julie queria que ela vivesse mais um pouco.

Era a sua avó e ela deveria viver mais um pouco.

Sua avó era... impressionante. Algo para se orgulhar. Ela teve uma filha antes do casamento e cuidou dela sozinha, trabalhou duro para que sua filha fosse para a faculdade, tivesse um futuro e... e agora morreu.

Seus ombros tremeram enquanto Julie tentava se convencer que... ela não sabia.

As lágrimas desceram pelo seu rosto, um soluço escapou dos seus lábios, Julie empurrou as mãos contra os olhos, esfregando-os, querendo que eles parassem de vazar, que não estivesse quebrada, que não se sentisse tão inútil, mas não podia.

Algo dentro de si desmoronou com a notícia que sua avó morreu, reduziu-se a pó, e Julie encolheu-se e chorou silenciosamente, mantendo sua dor para si, guardando-a profundamente como tinha guardado tantas outras.

—Julie — alguém sussurrou e algo dentro de si, que não havia quebrado ainda, quebrou ao levantar a cabeça, como aquela voz quebrava, como Asher parecia quebrado ao vê-la, tão triste e feia e...

Patética.

Fraca.

Nada.

Em dois passos, Asher estava na sua frente, segurando suas mãos delicadamente e puxando-as longe dos seus olhos, abraçando-a e confortando-a e beijando sua testa, suas bochechas, seu cabelo, suas pálpebras... murmurando "eu estou aqui, eu estou aqui, eu estou aqui" vez por vez, respiração após respiração, promessa depois de promessas.

Julie apertou-se contra ele, porque ele estava ali e ela não estava sozinha e... mas... ela sentia-se tão só.

Ela já tinha perdido tantos, tinha tantos a perder e ninguém nunca entenderia isso, essa dor, que dilacerava tudo a sua frente e reduzia a nada, que ela... era nada.

Quando voltou de sua viagem para se descobrir, Julie voltou diferente. Ela não era mais... ela ainda era... ela parecia...

Em alguns momentos, em relação a algumas coisas, Julie era a mesma.

Em outras, ela era outra, alguém que nunca viu, nunca conheceu, que nunca relacionaria a Julie.

Mas era ela.

Às vezes, sem motivo, Asher olhava-a e Julie tinha um olhar distante, perdida num caminho que ele não sabia qual era.

Às vezes, ela se encolhia e não queria saber de ninguém.

Às vezes, ficava tanto tempo calada que Asher queria saber onde ela estava.

Às vezes, ela simplesmente chorava.

Era o pior.

Asher apenas sentava ao lado dela, a abraçava suavemente, suas mãos em volta dela tão levemente que poderia ser um sonho, porque da primeira vez que ele tinha abraçado-a com força, apertado-a, Julie havia entrado em pânico e... e Ash agora apenas passava as mãos pelos cabelos dela, tendo mais prática com uma Julie chorando do que poderia imaginar em algum momento da sua vida, estando apenas ao lado dela e esperando.

Julie sempre parava de chorar como se acordasse, como se não lembrasse que chorava em primeiro lugar. As lágrimas simplesmente paravam, sua respiração entrava em compasso, seu coração batia em ritmo constante, e ela abria os olhos e o que quer que a assombrava estava longe.

Julie não abriu os olhos naquele momento, eles estavam sempre abertos, atentos, acordada — e o que a assombrava não estava longe... não muito.

Sua avó estava morta.

Madeleine havia morrido.

Asher não esperava encontrar a avó de Julie assim, ser apresentado a ela como o namorado dela... assim.

Asher viu os olhos fechados, a expressão serena, os lábios numa posição de Mona Lisa, e as mãos cruzadas sobre a barriga — uma típica posição para mortos em velórios.

Asher viu o quanto ela era parecida com Liz, como os cabelos brancos deviam ter sido pretos, como devia ter sido uma boa e compreensiva mãe, uma gentil e meio lunática avó, como era amada por todos e como as lágrimas ao seu redor não paravam.

Asher perguntou-se se deveria estar ali, se deveria ter vindo... E então a mão de Julie apertou forte a sua e seus pensamentos foram deixados de lado, porque ele estava onde deveria estar, ele estava ao lado de Julie, apoiando-a, não a deixando sozinha.

Não que ela precisasse agora.

Julie tinha os olhos vermelhos de tanto chorar ontem, secos agora — ela era a única que não chorava, que parecia firme, enquanto todos pareciam ondular com o vento.

Se não fosse pelos olhos vermelhos, Julie parecia a única que aceitava a situação, que estava... neutra em relação a ela.

Asher sabia melhor.

Julie estava assustada e com raiva e não conformada com o que acontecia, como se devesse ter forças para impedir isso, como se não entendesse como não tinha.

E ela sabia que nada poderia mudar isso agora — não suas lágrimas, não sua vontade, não seus desejos.

Uma vez morto, para sempre morto.

—Eu vou protegê-la — sussurrou Asher impulsivamente, tentando pensar no que Madeleine iria querer para a neta, e então percebeu o que prometia.

Protegê-la? De quem? Dela mesma? Dele? Do mundo? Julie não precisava de proteção. Ela podia cuidar muito bem de si mesma sozinha. E ela tinha que estar livre, ser jogada no mundo, para se tornar a pessoa maravilhosa e forte que nasceu para ser, que tinha potencial para se tornar.

—Eu vou ficar ao lado dela — ele reformulou sua promessa.

E ela sussurrou, tão feroz que poderia ser uma promessa, tão baixo que poderia ser sua imaginação, mas Asher sabia melhor, porque a mão dela apertou a sua, mais uma vez, e ele ouviu:

—E eu ao seu.