Quem é você?
1 Uma faísca
Notas iniciais
Sabe aquela sensação estranha de que às vezes parece ter alguém te perseguindo pelas costas? Aquilo era cada vez mais frequente no meu cotidiano. Talvez, pudesse ser apenas paranoia minha por ser importunada tantas vezes, mas...
Só quero deixar claro que, de alguma forma, você já estava vivo no meu coração e enquanto ele não parar de bater, você permanecerá, para sempre, até que um dia você possa reflorescer novamente.
— Luna, cuidado! — Se sentia um leve ruído em seu ouvido, seguido de uma onda de ar agressiva.
— Droga! — Resmungava para si mesma pelo susto. Acabara de escapar de uma grande pancada que vinha em direção ao seu rosto.
— Desculpa, Luna! Eu tentei avisar, mas os meninos gostam de colocar uma forcinha na hora da tacada – A garota que antes a havia alertado, se aproximava um pouco constrangida de onde Luna se sentava, atrás da bola. Por sinal, ela era a única que ousava ultrapassar os dois metros de distância da excluída.
— Aposto que ela nem iria se importar em levar uma surra nessa cara feia! — Um dos garotos que se juntava à turma no centro da quadra de vôlei disparava a rir, seguido de outros dois.
— Acho que seria o suficiente para fazer logo uma plástica... — Algum deles tentava sussurrar para o outro, mas sem sucesso. A garota suspirava fundo enquanto sentia pontadas no peito, porém precisava ignorar aquilo, não havia nada que pudesse fazer e nem quem pudesse a ajudar. Todos naquela escola à viam como uma aberração.
Envolta em uma vergonha inacreditável, Luna levou a mão a seus cabelos e notou: estavam completamente despenteados. Não era a primeira vez que notava como seu corpo era franzino, como seus dentes encavalados só ficaram ainda piores com aquelas chapas de metal horrorosas. Ela sabia que era tudo aquilo que uma garota precisava para ser rejeitada. Algumas meninas mais novas, do 2º ano, tentavam se aproximar da desprezada, porém Luna era sempre ruim com palavras. Vivia gaguejando e discorrendo sobre assuntos inusitados.
Os deboches não paravam por ali, mas a garota já estava tão acostumada com zombarias que continuava a manter sua atenção em um livreto o qual revelava histórias de romances e fantasia. Ficava maior parte do seu tempo perdida em pensamentos e imaginações, sendo seu único escape da realidade.
Conforme o tempo percorria, o horário de voltar para seu lar se aproximava. Todas as vezes que olhava para a ampla janela da classe e via o sol se esconder, sentia sua alma sendo revigorada mais uma vez. Podia finalmente ir para casa e se trancafiar em seu quarto, longe de quaisquer infortúnios que à assombravam a tarde inteira.
E assim foi feito, mais uma rotina se repetia, juntava seus materiais no final da aula e ouvia o mesmo burburinho de sempre das duas garotas do fundo, as quais escondiam os lábios que cuspiam palavras presunçosas. Fez o que sempre fazia, sorria para elas e deixava o lugar comumente. Ás vezes acreditava que seu sorriso seria o suficiente para faze-las mudar de ideia ao seu respeito.
Depois de percorrer a volta para casa de metrô, entrava em seu quarto e se via várias guloseimas da noite passada espalhadas por sua cama. Sua TV se mantinha ligada em novelas e o mesmo livreto era estendido à sua frente, onde Luna se mantinha atenta e agarrada as suas fantasias. Faltava ainda duas horas para que seus pais chegassem do trabalho, então aproveitava cada minucioso momento para se divertir antes que fosse preparar o jantar. Como Luna era filha única, todos os deveres e afazeres de casa eram deixados por sua conta, sorte à dela, que usava deles para se distrair ainda mais.
— Droga! Falta uma hora! — Saía desajeitada pelo quarto, caçando o controle da TV no meio de seus cobertores e tentando acudir os doces que caíam de sua cama. Suspirou fundo e ficou em dúvida entre à porta e a bagunça que havia deixado, sabia que levaria uma bronca mais tarde por estar sendo tão bagunceira, mas obviamente o jantar era mais importante.
Um barulho irritante e estridente ecoou pela casa, cortando seus pensamentos. A menina então saia correndo, pulando os degraus da escada afim de alcançar o telefone. No meio daquilo, acabara deslizando entre eles e quase que era levada ao chão, sentindo como se algo a impedisse de cair. Realmente, as coisas estavam dando bastante certo hoje.
— Alô? — Apanhava o telefone sem jeito e arfava, se recompondo da corrida.
—Já começou o jantar? Colocou a comida para a mel?! Chegamos em meia hora, hoje sairemos mais cedo! Foi aniversário do chefe do seu pai! Estamos trazendo pedaços de bolo! ... — Sua mãe tagarelava do outro lado da linha mal dando espaço para Luna se pronunciar.
— Ah, sim! – Coçava os cabelos, sentindo que estavam oleosos, fazia quanto tempo que não os lavava? — Eu acho que iriei demorar um pouco ainda... — Olhava para a cozinha, vendo a pilha de louça para lavar e seu gato fazendo um estardalhaço na bagunça, causando um estrondo e deixando sua mãe se preocupada com o barulho.
— Mel! – O gato apenas miava e começava a se lamber, pelo menos o gato tinha consciência de higiene, pensava Luna.
—Você estava presa no quarto novamente?! Quantas vezes teremos que conversar sobre isso? Você já tem 18 anos! — A mãe tentava a disciplinar, porém tudo que entrava no seu ouvido saia do outro. Era a mesma conversa de vida social, responsabilidades e coisas do gênero.
— Mãe! Vou desligar! Cheguem logo, tchau! — Se despedia rapidamente dando ênfase ao a, antes que ela pudesse falar mais sobre obrigações.
Seguia para o meio da cozinha tentando organizar toda a bagunça. Pegou o suficiente que conseguia carregar nos braços e despejou tudo sobre o lava-louças. Tirava mel, seu gato, de cima do balcão enquanto lhe dava uma bronca. Pensava no que iria fazer, quando optou pelo mais fácil: Lámen. Com a cozinha mais organizada, cozinhava a massa e fazia o tempero do outro lado. Faltava apenas 15 minutos quando terminou de ajeitar o cômodo e pôr as tigelas na mesa.
— O que acha, mel? O cheiro parece bom?! — Se sentava a mesa e acariciava a espinha do felino que retribuía roçando em sua perna.
Um barulho de porta se abrindo e chaves balançando preenchia o ar junto de um falatório.
— Devo confessar que o cheiro está ótimo! Mas lamén?! De novo!? — Sua mãe aparecia ao lado dos cômodos da pia com os braços lotados de sacolas de compras. Ela jogava os cabelos curtos cor de cobre para trás, tentando os livrar da direção dos olhos, que eram castanhos amêndoas como os da filha— Aproveitamos o tempo para passar ao supermercado e compramos seu sorvete favorito.
—Eba! — Comemorava se levantando e guardando o sorvete no freezer. Estava tendo certeza de guarda-lo bem no fundo, longe de seu pai.
—Está aqui, comedora de doces! Um pedaço enorme para você! — O pai, de cabelos grisalhos e olhos gentis, estendia o bolo na mesa. Todos pegavam suas tigelas e se serviam tendo uma refeição calorosa e contente. Luna escondia seus problemas escolares quando seus pais questionavam sobre e depois compartilhavam histórias de como havia sido o trabalho.
Diferente do seu mundo no colégio, sua casa era o melhor lugar do mundo. Seus pais eram animados e incentivadores, estavam prontos para apoiar qualquer decisão de sua filha, desde que sempre estivesse dedicada aos seus estudos, fato que era mal imposto por pela garota.
A noite passava e a lua à cumprimentava por fora da janela, radiante como nunca. Deitada em sua cama com seu livro aberto sobre o rosto, deixava escapar um sorriso alegre, imaginando como seria ter sonhos doces sobre as fantasias versadas naquelas páginas. Se levantava e o guardava debaixo de seu travesseiro, quem sabe as letras pulavam das páginas e iam direto para sua imaginação. Refletia sobre aquilo enquanto pegava uma toalha e ia tomar seu banho, então, finalmente fresca e confortável, se punha a dormir, desejando que o dia de amanhã fosse melhor.
O sol ainda era tímido por trás das árvores quando Luna se levantou, planejava fazer de hoje um dia diferente, já que seu desejo pelos sonhos foi atendido. Tomou seu banho cedo e ficou mais de meia hora procurando por um penteado diferente na internet e mais meia hora o fazendo. Colocou seu melhor suéter e se maquiou como conseguia. Havia pegado um batom vermelho de sua mãe e o abusado. Seu penteado estava pavoroso, mas para ela parecia ser estar perfeito. Suas bochechas mais vermelhas de quando se toma sol.
A hora de ir para o colégio chegava, sua mãe gritava do andar de baixo para que fosse logo tomar seu café da manhã e um frio percorria seus ossos, deixando sua mão gelada e seu estômago embrulhado.
"Eu tenho que recusar e passar por eles sem que me vejam!"Repetia isso várias vezes antes de criar coragem para sair do quarto. Espiava por uma brecha lateral deixada pela porta, enquanto a abria e conferia se não havia ninguém no corredor. Quando estava limpo, passou como um jato para o andar de baixo, levando sua mochila e correndo para a porta de saída, se despedindo timidamente. Sua desculpa era simplesmente um teste no primeiro horário. E assim se foi. Todos em volta no caminho a olhavam e cochichavam sobre alguma coisa que Luna não era capaz de imaginar. No metrô as pessoas a encaravam como uma nova espécie nunca vista no planeta. Garotas que vestiam o mesmo uniforme riam e a zombavam, mas Luna não ligava, para ela não estavam falando mal, mas sim apenas a notando pela primeira vez.
Uma voz no interior de sua mente à alertava de que aquela não teria sido a melhor ideia. Nos corredores da escola, vários alunos que esperavam o sinal ser ressonado, prendiam a atenção na garota com seu penteado e maquiagem peculiares. Alguns tinham pena da menina, enquanto a maioria apenas atacava pedras.
— O dia das bruxas já chegou? — Um deles soltava o tipo de piada clichê de qualquer idiota.
— Parece que alguém resolveu mudar o visual... ficou maravilhosa! — Uma estudante que encostava na parede junta de outras, ria.
Ao voltar para realidade, seu coração chegava a doer à ponto de faze-la checar se ele iria pular pela boca e sair correndo de todas as humilhações.
Tudo aquilo estava se tornando doloroso demais para Luna, então resolveu correr para o banheiro feminino. Não entendia o que estava acontecendo, tudo o que fazia era para poder ser como as outras meninas. Se esforçara tanto hoje, para nada, apenas para sentir e ouvir mais insultos. Tentava lavar o rosto e se desfazer do cabelo, mas só havia piorado o que tinha começado. O rosto ficou manchado pela cor forte do batom e o cabelo volumoso por tê-lo prendido. Sem esperanças se colocou em pranto. Tentava chorar em silêncio para que não atraísse mais a atenção, mas por detrás das portas privadas surgiam duas garotas irritadas.
— Sério?! Temos uma chorona aqui? —Uma delas se aproximava do espelho, parecia estar retocando a cor dos lábios e sua altura ultrapassava sutilmente a de Luna.
— Tsc! Tão irritante, porque essas pessoas simplesmente não param de incomodar os outros? Ninguém precisa de saber do problema delas. — Dizia a outra, enquanto apalpava o cabelo. Essa havia a mesma estatura de sua amiga.
— D-Desculpe... — Luna escondia o rosto por trás dos cabelos castanhos que puxava para frente. — N-Não era minha intenção...—Ela continuava a molhar as mãos como um ato de se distrair.
— "N-Não era..." —A menina de cabelos longos zombava da forma como Luna falava e a outra apenas a observava. Então, de forma abrupta a rejeitada sentia algo repuxar seus cabelos por trás, a obrigando encarar as estranhas.
— O que você disse?! — Continuava a puxa-la para trás, revelando seu rosto para a menina de cabelos loiros e longos — "Omg" o que é isso?! — Ela não conseguia se conter e começava a rir, ainda segurando Luna pelas mechas.
— P-Por favor! Eu não f-fiz nada! — Levava as mãos no pulso da garota e tentava se soltar, tomando cuidado para que não a machucasse e piorasse a situação. A loira a virava para si e terminava de borrar sua maquiagem com a palma da mão, a deixando ainda mais horripilante. Luna ainda tentava não chorar, mas não conseguia, suas lágrimas desciam escorrendo para o pescoço e mantinha os olhos fechados. Esperava que fosse apanhar ou chutada até perder a consciência.
A outra entrou na brincadeira e agarrou o lado esquerdo do cabelo de Luna, a puxando para fora do banheiro. Por mais que tentasse se debater e lutar contra o empurra-empurra, tudo o que resultava era em mais dor em seu couro cabeludo. Assim que cruzaram a porta à jogaram no chão, fazendo-a cair de joelhos. As pessoas olhavam espantadas sem saber se intrometiam na briga ou apenas seguiam com suas vidas.
— O que estão fazendo?! – A voz soou como de um salvador. Vinha de um garoto alto, com as pernas longas e cabelos negros. Se chamava Sora, não era o mais popular na escola, mas era um deles.
— S-Sora?! – As garotas se assustavam com a presença repentina, não esperavam que ele fosse estar ali, logo agora. Endireitaram suas pernas e se puseram uma ao lado da outra arrependidas.
Ele se abaixou na altura de Luna, que escondia o rosto olhando para o lado e perguntou delicadamente se ela estava bem.
— S-Sim... – Ela não aguentava mais segurar tanta magoa, mordia os lábios tentando conter as lágrimas, o chão frio tornava o momento ainda mais miserável e a garganta pigarreava. Então chorou, chorava como um bebê recém-nascido, não segurava seus gritos, suas lágrimas e nem seus sentimentos. A escola toda parava para ouvi-la. Se levantou num ato brusco e correu toda a distância até a saída do colégio. Esbarrava nas pessoas e não se importava, só queria distância, distância de tudo que lhe fazia mal. Seu coração palpitava, queixando-se de tanta dor, assim como seu corpo que estremecia.
"Corra pequena, eu estarei logo atrás de você."
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