Quem é você?
2 Um novo eu
Notas iniciais
Luna havia corrido para fora da escola. Um homem trajado como supervisor ao lado da portaria tentava entender o que estava acontecendo com a garota antes que fosse embora. Tropeçava e caia no chão, porém se recompunha e continuava a correr para o mais longe possível. Quando ia atravessar à rua, ouvia algumas buzinas de carros e motos que corriam na rua e davam freadas bruscas para não a atingir. Certos veículos chegavam a passar centímetros dela, mas por alguma sorte, atravessava sem qualquer arranhão.
"Você pode ir com mais calma e cautela... E deixando que tudo saia e depois vá embora."
Algo como sua consciência, tentava lhe acalmar conforme ia desacelerando os passos. Sua vista estava embaçada, seu rosto inchado e os joelhos pulsavam assim como suas mãos que haviam sido raladas enquanto caía. Buscava achar um banheiro público e se trancafiar lá dentro. Havia avistado um a uns dez metros de distância e correu até ele sem poupar esforço. Ele se situava no meio de uma praça com várias árvores e gramados em volta. Quando entrou, jogava água em seu rosto e gritava, colocando toda sua raiva para fora. Naquele momento se odiava até mais do que àquelas pessoas, deveria apenas ter ficado no seu canto, sem se mostrar ao mundo até o fim da sua vida. A maquiagem do seu rosto havia se retirado quase que completamente.
Suspirava fundo entre soluços e tentava se recompor. Quando se sentiu melhor, deu uma última molhada no cenho e foi para casa, silenciosamente. Pensava em tudo que teria feito até agora e porque as pessoas à odiavam tanto. Caminhou uma curta distância até chegar à estação de metrô.
— Moça, você está bem? — Uma garota se aproximava de Luna cautelosamente dentro do metrô. Mostrava preocupação em seu semblante e estava propensa à ajudá-la. Luna mal movia os olhos, apenas continuava a se segurar com a mão esquerda nas barras de ferro superiores e com o olhar distante.
—Você é estudante da escola Sakura? Eu gostaria de entrar naquela escola, mas não foi possível... —Ela observava o brasão impresso na blusa da garota tristonha e continuava a tentar qualquer tipo de contato com ela, que por sua vez, a ignorava não porque queria, mas porque sua mente estava barulhenta.
—Pelo visto está matando aula também... — A estranha se silenciava, como se estivesse pensando em algo — Eu sou Emy, prazer em conhece-la, o que acha de matarmos aula juntas? — Ela dava um sorriso animador para Luna, que não respondia nada, apenas um vasto silêncio que se pendurou por vários minutos. A única coisa que podia-se ouvir era o atrito das rodas do vagão contra as linhas de ferro. A garota então desistiu de puxar assunto e permaneceu ali ao seu lado até que o ponto de Luna chegasse. A inércia suave junto ao som crescente dos freios anunciava a chegada. Luna saia automaticamente, com o corpo curvado e os olhos deitados.
Seguiu assim até sua casa, as pessoas que passavam se perguntavam se era uma estudante bêbada ou uma delinquente, porém ela nem se quer ouvia. Ela queria somente se afogar em sua cama. Talvez nos seus sonhos conseguisse ser uma boa pessoa.
Não foi necessária muita caminhada até chegar no portão de sua casa.
O lugar onde Luna e seus pais moravam era uma casa humilde e achatada. Na frente era tomada por várias flores de todos os tipos e um quintal um pouco cuidado. Uma grade que dava acesso ao terreno sempre rangia ao ser aberta, quase funcionando como uma campainha. Ao entrar em casa ia direto para seu quarto. O choro ainda estava preso na sua garganta, mas se recusava a chorar mais. Colocou o antebraço por cima dos olhos depois de deitar e se passados alguns minutos caiu no sono.
Quando acordou não se lembrava do que havia sonhado, mas sentia algo quente no peito que parecia ter sido algo acolhedor. Do lado de sua cama, olhava o celular e via que várias horas haviam percorrido. Seus pais já deveriam estar em casa. Passou no banheiro de seu quarto e limpou o rosto mais uma vez antes de descer.
— Oi! Desculpem, acho que dormi um pouco...
Seus pais estavam sentados à mesa redonda de quatro lugares, com as mãos entrelaçadas e uma expressão preocupada.
— Luna... Recebemos uma ligação da escola...— Sua mãe decidiu abrir a conversa primeiro.
— Ah, é? ... — Ia até a geladeira pegar algo, para que o choro não viesse a incomodar novamente. Sua voz era arrastada e baixa.
— Essa é uma boa hora para pensarmos em muda-la de escola ou conseguirmos um psicólogo. Isso não pode ficar assim! — O pai dizia e a garota segurava o puxador do refrigerador como uma tentativa de se segurar, mas não conseguiu. Os pais se entreolhavam, suspeitos e pressentindo a áurea tristonha da filha.
— Luna... — A voz terna do pai dava o escape para a menina se pronunciar. Ela ia até a mãe, a abraçando em prantos.
—Tudo bem... vai ficar tudo bem — Sua mãe a recebia com os braços abertos. Enquanto a consolava, olhava para seu marido que não sabia o que fazer. Vê-la assim partia o coração de ambos, sabiam o quanto sua filha era boa e gentil, nunca seria capaz de merecer algo assim. O que os fizeram pensar até em processar o diretor da escola e todos os pais das crianças envolvidas no assunto.
—Vocês me amam? — Suas palavras saiam com dificuldade, por mais que soubesse o quanto a amava, só gostaria de ouvir aquilo de alguém.
—Claro que nós a amamos, Luna! Você é tudo para nós! – Seu pai acariciava seus cabelos curtos e encaracolados, enquanto ela desabafava.
Quando tudo se acalmou, Luna foi tomar um banho quente e agradável. Pensava no quanto era feliz em ter os pais que tinha e por mais que tudo aquilo houvesse acontecido, seria mais forte dali em diante, porque havia duas pessoas que à amavam e isso era o necessário para continuar sobrevivendo.
"Por favor, eu preciso sobreviver! Pelo meus pais... eu preciso de força!"
Nesse momento algo como uma sensação que nunca havia sentido antes pulsou pelo seu corpo, eram como lampejos que dançavam pela sua pele. Um gosto reconfortante foi tomando conta de seus sentimentos. Estava tudo calmo agora. Dobrava seus joelhos e apoiava seu rosto sobre eles, dando um sorriso sereno. O ar era diferente, seus pensamentos eram mais silenciosos e ela estava finalmente em paz, mesmo que por poucos momentos.
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