Quem é você?
3 Capítulo 3 - Duque, meu amigo.
Notas iniciais
Acordei no dia seguinte, ainda estava deitada no chão do banheiro, minha cabeça doía muito, meus cabelos estavam bagunçados e minhas roupas sujas de maquiagem e sangue. Espera, sangue? Não me lembro de ter encostado no papai ontem, quando fiz aquele corte na testa dele, e por que meu braço dói tanto? E por que estou com essa lâmina na mão?
— Espera, o que é isso? Eu fiz isso comigo mesma?
No meu braço, havia escrito a palavra DOR, eu me cortei? Por quê? Sempre pensei que isso fosse coisa de menina que quer chamar a atenção.
— Ai, que dor, maravilha sua maluca, agora vamos ter que limpar esse banheiro inteiro — disse a mim mesma, enquanto pegava gaze e esparadrapo pra colocar nesse corte.
Enquanto limpava tudo, me veio um desespero muito forte.
— É só uma prova, minha vida é minha, eu quero ser dona da minha vida, por favor.
Terminei de limpar tudo, tomei um banho e me troquei, coloquei uma blusa de manga comprida, não queria que ninguém visse o que eu tinha feito comigo. Enquanto descia as escadas, ouvi uma voz doce e ríspida ao mesmo tempo.
— Bom dia, vai tomar o seu café da manhã.
Obedeci sem falar nada, mas aquele café não me fazia bem, parecia que eu ia vomitar a qualquer momento. Sem falar na dor insuportável no meu braço, como essas meninas conseguem fazer isso?
— Onde está ele? — perguntei por obrigação, não estava interessada, apesar de ser meu pai e eu "amar" ele, preferia que ele estivesse morto, assim, se acabariam meus problemas.
— Ficou internado para fazer alguns exames, a pancada foi forte, ele poderia piorar — que tom de voz amargo mamãe — Por que você fez isso?
Malditas lágrimas, querendo cair de novo do meu rosto já lavado e maquiado.
— Não sei, apenas agi, quando vi, já tinha acertado o prato nele, não foi por querer — isso era verdade, apesar de querer que ele tivesse morrido depois do acontecido, não joguei o prato nele com intenção.
— Sabe, você e seu falecido irmão, foram as duas coisinhas mais importantes que aconteceram na minha vida, seu irmão não está mais aqui, foi arrancado de mim, restou você, não torna tudo mais difícil filha, eu não concordo com o que o seu pai falou, você é nova, mas...
Mas, odeio essa palavra, sempre odiei, ela me dá um arrepio, sempre vem acompanhada de problemas. Peguei minha bolsa de cima de sofá, saí, sem rumo.
Parei na frente da casa da puta da Alice, apesar de tudo o que ela me fez, sentia saudade de conversar com ela, era minha única amiga, a única que não me chamava de freira por ser magra e ter os cabelos longos demais, á gosto da minha mãe, que adorava meninas de cabelo comprido. Não havia ninguém, as cortinas estavam fechadas, a grama alta, o portão trancado, será que ela havia se mudado?
Fui até a casa do Guilherme, esqueci que ele havia marcado de ir em um lugar com o Victor, meu xará e muito gato também, não deixem o Guilherme saber que eu falei isso, por favor. Os pais dele estavam em casa, mas deviam estar ocupados vendo algum programa pra velhos na televisão, ou estar acompanhando o canal de compras pra achar algo inútil para ter. Sério, eles me deram um liquidificador 3 em 1 de presente no meu aniversário, minha mãe adorou o presente, já que ela que usa, são ótimas pessoas, apoiam nosso namoro e são gentis, mas...
Andei até uma praça que havia sido construída há pouco tempo na minha cidade, era uma praça novinha, vi crianças se sujando na areia, saudades da minha infância, adultos correndo para perder a banha da barriga, não sofro desse mal, se eu correr para emagrecer, eu viro um palitinho. Sentei em um banco, olhei em volta, atrás de mim havia um pato, bom, já que não tinha ninguém para desabafar, vai você mesmo pato.
— Vou te chamar de Duque — duque, duck, foi legal essa, não faz essa cara não leitor (a), desculpa — tudo bom, e essa vida sendo um pato? Está boa?
— QUACK
— Ótimo, vamos conversar.
Olha eu, a louca que conversa com patos, mas já que não tenho ninguém mais para conversar. As pessoas passavam e olhavam para mim, devem estar pensando que eu fugi de algum hospício. Uma senhora de idade parou na minha frente e ficou me olhando fixamente, deve estar pensando que eu sou uma coitada, dei um grito de louca e ela saiu correndo, tentei não rir, afinal era uma senhorinha, mas foi muito engraçado ver ela correndo com as perninhas bambas pra longe de mim.
Olhei para os céus.
— Daniel, você está aí? Me ajuda, por favor, estou desmoronando.
Um raio de sol muito forte entrou nos meus olhos, fui obrigada a fechar eles, senão iria ficar cega. Será que existe mesmo o reino dos céus? Ou a morte é dolorosa?
Estava voltando para casa quando encontro uma moça loira, mal vestida, do outro lado da rua, não pode ser...
— RENATA — gritei, ela me viu e saiu correndo, o que está acontecendo com ela?
Ela estava muito diferente, para quem conheceu a Renata como nós conhecemos, ela era linda, uma modelo de sucesso, bem vestida, sempre com um sorriso sincero no rosto e agora ela acima do peso, com as cabelos desgrenhados, usando roupas velhas, o que está acontecendo nesse mundo?
Cheguei em casa, vi que meu pai ainda não havia voltado do hospital, melhor assim, minha mãe estava sentada assistindo um programa de mulheres barraqueiras, sério mãe?
— Cheguei — disse
— Eu vi filha.
— Vi a Renata hoje.
— Sério? — ela parou de prestar atenção nas barraqueiras e me olhou — E como ela está?
— Está muito diferente mãe, está acima do peso, com roupas velhas e o cabelo maltratado.
— Coitada dessa menina, ficou muito abalada depois da morte do seu irmão, ela deve estar sofrendo muito, eles tinham planos de se casar.
Olhei para o chão, queria estar longe dali.
— Seu pai vai chegar mais tarde, já foi liberado.
— Hum...
Subi para meu quarto, não queria encarar meu pai, sentia uma mistura de ódio e remorso por ele, então preferi ficar lá, presa no meu cafofo. Escutei o barulho da porta e ele entrando e chamando pela minha mãe, já era noite, muito tarde quando ele chegou, que caralho de vida.
— Vou preparar seu jantar — minha mãe disse.
— Tenho que voltar daqui a sete dias para tirar esses malditos pontos, foram 40 pontos Lucia, sua filha me deixou com 40 pontos na testa.
— Nossa filha Carlos, ela é nossa filha, ela está diferente, não é a mesma menina.
— Deve estar fumando maconha com esse namorado maloqueiro dela, daqui a alguns meses vai estar grávida e eu não quero filha grávida dentro dessa casa. Saudades do Daniel, esse sim, era o orgulho da família.
Isso me deixa muito triste, meus pais não sabem meu sonho, queria ser fotógrafa, acho muito lindo registrar a felicidade das pessoas, mas eles nunca intenderiam, iriam dizer que eu iria passar fome com isso, por isso, guardo essa paixão para mim. Ligo a minha câmera, nela há uma foto minha, uma foto de paisagens e uma foto do Guilherme, a minha preferida. Por que uma faculdade está me tirando tanto o sono e me deixando violenta? Por que meus pais não entendem meus sonhos? É a minha vida, tiro a blusa, a gaze ainda estava lá, mas toda manchada de sangue, corte com lâmina é uma merda, não vai fechar tão cedo sem falar na dor, que está aumentando e muito.
* continua *
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