Quem é você?
2 Capítulo 2 - O que foi que eu fiz?
Notas iniciais
Fevereiro de 2014;
Saiu o resultado do vestibular, tive que ir naquela merda de faculdade porque não divulgaram o resultado no site, bando de homens da caverna. Enquanto vou andando, com a minha cabeça baixa, olhando para o chão, penso no que estou fazendo da minha vida. Por que essa dor chata invadiu meu peito?
BIIIIIIIIII — Caralho, que susto, quase infartei. Me virei pra ver quem era, e adivinha? Era o Guilherme, lindo, gato, atrevido e meu.
— Tá indo pra onde meu amor?
— To indo pra aquela droga de faculdade, conferir se eu passei naquela droga de curso de direito, andando nessa droga dessa rua e quase infartando por causa dessa droga de buzina.
— Desculpa meu amor, não fiz por querer, entra aí, eu te levo lá na sua droga de faculdade.
Já disse como eu amo esse garoto? Nós nos entendemos, e apesar de já estarmos juntos a 4 anos, só brigamos duas vezes. Ele me deixou na porta da faculdade e foi embora, deve ter ido sair com algum amigo dele. Meu pai não gosta do Gui, ele acha que o Gui é uma distração na minha vida,e que ele tem muitas tatuagens para namorar comigo, que ele ia mais cedo ou mais tarde me engravidar e ficava me vigiando o tempo todo quando eu estava com ele no quarto, meu pai não tem nenhuma confiança em mim. Ele nem sonha que eu não sou mais virgem, mas apesar de já ter me relacionado com a Guilherme dessa forma, sei me cuidar. Gui é um homem romântico, apesar do jeito marrento, nossa primeira vez foi toda planejada por ele, em um resort na praia, foi tudo muito lindo, apesar dos meus pais pensarem que eu estava dormindo na casa da Alice, minha única amiga na época da escola e minha ex-bff, ex porque eu soube que ela tentou roubar o Gui de mim, dá pra acreditar nessa história? Então desde o ano passado não nos falamos mais depois da surra que eu dei naquela piranha ladra de namorados. Ah, como eu soube que ela estava querendo roubar ele de mim? ele me mostrou mensagens que ela mandava para em um tom muito íntimo, parecia uma puta profissional e apesar dele não responder, ela continuava a mandar mais e mais mensagens.
— Vamos lá então Vicky — disse para mim mesma.
Parei na frente de um enorme painel, a minha volta estava cheio de pessoas, algumas gritando de felicidade, outras chorando e sendo consoladas por outras pessoas, que mundo de faz de conta, não me sinto encaixada aqui, então? Por que estou aqui?
Olhei para as folhas grudadas no painel, procurei a folha do curso de direito e desci até a letra V. Vanessa, Valentina, Viviana, Vinícius, nenhuma Victória. Não fui aprovada.
Uma sensação de angústia e alívio invadiram meu corpo, angústia porque sabia o que me aguardava em casa e alívio porque não iria me encaixar naquele mundinho de faz de conta daquela gente.
Cheguei em casa, joguei a minha bolsa em cima do sofá e vi que meus pais estavam me aguardando na mesa para almoçar, ansiosos, com um sorriso no rosto, peguei meu prato de comida e sentei na mesa junto deles.
— Macarrão? Sério mesmo mãe? — ela sabe que eu detesto massa, me dá um enjoo só de olhar.
— Sim, filha, macarrão, agradeça que temos o que comer.
— Obrigado supermercado, viva, alegria, uhul — sim, sou irônica.
— E aí minha filhona, já descobriu em que turma vai ficar? O que vai fazer quando se formar? — é, esse aí é meu pai.
— Calma amor, ela acabou de chegar, deixa ela falar.
— Pai, mãe, não passei, não consegui ser aprovada.
— O QUE MENINA? COMO ASSIM VOCÊ NÃO PASSOU?
— Calma amor, deixa ela, é só uma prova.
— Não consegui pai, desculpa.
— VOCÊ É UMA BURRA, INCOMPETENTE, SEM RUMO.
Quando menos me dei conta, percebi que havia jogado o prato de comida quente no meu pai, não sei o que me aconteceu, só fiz e não medi as consequências, olhei para ele, estava todo sujo, com o rosto vermelho porque a comida estava quente e com um corte na testa já que o vidro quebrou no seu rosto. Saía muito sangue e eu podia ouvir os grunhidos dele de dor. Olhei para o que tinha acabado de fazer horrorizada, amedrontada e angustiada e vi que minha mãe me olhava procurando a filha dela que era doce e não esse monstro cruel que era capaz de bater no seu próprio pai, subi para o meu quarto correndo e me tranquei, chorando como um bebê separado da sua mãe na maternidade. Enquanto eu subia as escadas pude ouviu ele gritar coisas horríveis para mim.
— Sua vagabunda, você vai me pagar, sua sem vergonha, biscate, vão tomar no cu você e aquele seu namorado maloqueiro.
— Calma amor — minha mãe dizia, dava pra ouvir o tom choroso em sua fala — Ela é nossa filhinha, não faz isso, não quero sofrer tudo de novo.
O tudo de novo que ela se refere é sobre meu irmão Daniel, eramos dois, um casal, o sonho de todo pai e mãe, ele 4 anos mais velho que eu, mas quando eu estava no primeiro ano do ensino médio, ele se envolveu em um grande acidente de carro, foram 10 dias em coma, até ele cansar de lutar e se entregar, penso que ele deve estar melhor do que eu nesse momento. Meu irmão era estudante de engenharia civil, o orgulho da família, do meu pai, de todo mundo ao seu redor, por que você e não eu meu irmão? Lembro de todos abalados, mas em especial a Renata, namorada do meu irmão, ela era linda, depois da morte do meu irmão, se entregou pra um mundo obscuro, ela mudou demais.
Que merda de vida, o que eu estou fazendo aqui? Por que fui enviada pra cá? Pra essa família? Pra esse bairro? Pra essa cidade? Por que estou gritando em silêncio, o som não sai, quero gritar alto, espantar essa dor sufocante que me asfixia, mas tenho medo de assustar os demais, então essa dor fica guardada aqui dentro de mim, se misturando com os demais sentimentos.
Me olho no espelho do banheiro, vejo uma garota com os cabelos bagunçados, a maquiagem escorrendo, os olhos vermelhos, um vazio no fundo do peito, essa não sou eu, não pode ser eu, me joguei no chão do banheiro e dormi por ali mesmo com uma lâmina nas mãos, é mais forte que eu, me desculpem.
*continua*
Fale com o autor