Quem é ela?

2 II - Lembranças


— Fiquem aqui meninos. Lancer, tome conta do seu irmão. — Fala a Sra. Eliza arrumando-se para sair.

— Cuidado com o bicho papão, fiquem de portas fechadas à noite — O Sr. Calton procede com a fala da esposa rindo enquanto vestia um sobretudo e chapéu pretos.

— Calton Stwart! — A Sra. Eliza o repreende. — Não se preocupem meninos, o bicho papão não existe.

— Nossa! — Lancer fala com sarcasmo

A mãe o olha como se o avaliasse

— É, Lancer, de fato tu já não és mais tão pequeno para cair nas piadas do seu pai. — A Sra. Eliza olha para o marido e, em seguida, volta sua atenção novamente para Lancer, agora mais séria. — Mas mantenha as portas e janelas fechadas durante a noite e cuide do seu irmão. Estamos indo negociar o valor da nossa antiga casa. — Ela estava receosa por estar voltando àquele lugar, mas esperava ser aquela a última vez. — Lancer, o avô Max vem deixar o que for necessário e vem ver também se as coisas vão estar em ordem por aqui.

— Pode deixar comigo mãe, me responsabilizo pelo que acontecer aqui.

Lancer havia acabado de completar seus 16 anos e essa seria uma ótima oportunidade de demonstrar que ele já era mais maduro e capaz de lhe dar com situações adversas.

— Hum... Juízo então, senhores. — O sr. Calton fala levando o dedo indicador direito até a testa e depois o aponta aos dois.

A Sra. e o Sr. Stwart então saem no começo do dia. Lancer vai até seu quarto. Pela janela em formato triangular, vê seus pais entrando em uma caminhonete vermelha.

Eliza e Calton

A estrada ficava a um quilômetro e meio dali. Então, tinham que passar por entre as árvores de uma floresta que até o momento estara verde. O relevo da floresta era plano, sem buracos, apenas com algumas gramíneas e arbustos, o que não era um lugar adequado para trafegar, mas era possível, se com cuidado. O caminho era escuro, mesmo de dia. A copa das árvores não permitia que a luz solar penetrasse na floresta, senão frestas fracas, como uma casa com goteiras visíveis sob o Sol.

Calton liga o carro. Eliza se certifica de que estão levando tudo que será necessário. Está tudo certo. Ele acelera e seguem por entre a floresta escura.

Quase chegando à estrada, algo estranho ocorre. A temperatura esfria abruptamente, fazendo Eliza sentir um calafrio. Ela então resolve fechar a janela da caminhonete e, logo após, esfrega as mãos e olha para Calton, confusa.

O tempo ficou nublado e congelante.

— Calton, o que está acontecendo?

—Não sei, amor. O clima que, com o passar dos anos, fica cada vez mais confuso...

—Calton, feche essa janela, se não morreremos de frio aqui mesmo! — Eliza olha ao redor, depois se vira para o sentido da caçamba da caminhonete. — É a floresta, Calton...

—A floresta é sobrenatural mesmo, amor. Não sei por que te surpreendes ainda. Na vila, as coisas são muito mais estranhas e embaraçosas. Nunca sabemos o que realmente acontece até hoje com algumas pessoas de lá...

—Eu tenho vontade de descobrir o que acontece com elas, se é algum tipo síndrome relacionada à rotina monótona de Fordwood que as deixa daquela forma, ou, se é algo mais complexo e sombrio que isso. Não sei o que pensar acerca...

—Amor, moramos durante dezesseis anos naquele lugar, e, todo esse tempo ficamos lidando com a nossa ignorância, convivendo com o medo, com a esperança de que os dias estranhos da vila acabassem, porém, não tiveram fim até então. Por isso, quando tu ficaste grávida do Lancer, resolvemos nos mudar para os campos lacrimejantes...

Quando Calton terminou de falar, passou por cima da raiz de uma árvore.

—Cuidado! — Reclamou Eliza.

—Estou tendo! Fica tranquila, Eliza, já estamos quase chegando à estrada...

—Calton, para onde o velho vai?

Eliza se referia ao Velho Rubs. A casa dos Stwarts — como eram chamados na vila — ficava sob os cuidados dele, já que não tinha onde morar.

—Eliza, isso fica por conta dele. Talvez ele tenha algum parente com quem possa contar... ah, olha, amor! Estamos na estrada! Hum...nem parece que saímos da floresta... — ele fez uma expressão azeda com o rosto.

De fato, chegaram à estrada. Esta era de terra escura batida, estava úmida. Era também cercada por imensos vidoeiros-branco, árvores de tronco alto e reto, podendo atingir os trinta metros de altura. Os arbustos estavam prestes a invadir a estrada, e dara a ela uma moldura irregular, sem reparos, típico de lugares sem muito movimento comercial.

O dia ficara escuro. As nuvens espessas não deixavam mais os raios do sol incidirem sobre as folhas das árvores, que, sem eles, perderam o verde vibrante do verão. O tempo frio já não era mais suportável com as roupas daquela estação.

Quanto mais se distanciavam dos campos, mais estranho o caminho ficava. A vegetação perdia as folha e, mais à frente, os galhos secos tomavam, então, conta da paisagem; galhos que pareciam mais com dedos contorcidos, ressecados e frágeis. Aquela parte da floresta parecia estar pedindo socorro...

—Por aqui, a vida está sendo levada, Calton. Pelo menos é isso que vemos... Esse lugar não era tão horrível assim desde a última vez que vimos aqui.

—Eliza, muitas coisas acontecem em quase dezessete anos...

— SIM, CALTON!!! Coisas estranhas tu queres dizer... Porque isso não é natural... De um lado, uma parte da floresta verde e viva, do outro, uma parte seca e morta! Isso é natural para ti?

Calton a viu de um modo contraditório, pois realmente percebera que ela não estava brincando. Muito pelo contrário, sua face revelava espanto e seriedade. O espanto nos olhos de Eliza foram transpassados para ele de modo a fazê-lo sentir um embrulho no estômago. Ansiedade, confusão e preocupação concretizaram-se em uma massa negra-espessa na mente dele. Com medo, ele tira os olhos da esposa e os transporta para a estrada, encarando-a com seriedade, mas, com desconforto.

—Acho melhor parar de admirar a paisagem, Eliza... Espero ser esta a última vez que venho a esta lugar maldito... — reclamou.

Os dois seguiram pela estrada e não demorou muito até que chegassem à Vila.