Quem é ela?

3 III - Estranhos


Lancer desperta com um forte grito agudo vindo do quarto de sua mãe. Espantado, pula do beliche, desce as escadas do sótão e se dirige o mais rápido que pode até lá.

Quando chega, vê sua mãe apavorada, com os cabelos emaranhados e uma expressão de quem está prestes a chorar no rosto.

— MÃE? O QUE ACONTECEU?

— MEU FILHO... SINTO TANTO A AUSÊNCIA DO TEU PAI!!

— Mãe... – suspirou — certamente sonhaste com ele de novo...

— LANCER, MINHAS LEMBRANÇAS NÃO ME DEIXAM TER SONHOS AGRADÁVEIS! — A sra. Eliza soluça, chorando.

— Eu sinto muita falta dele também, mãe. Sabe... Lembranças sempre nos fazem achar que poderíamos ter feito algo diferente, ou que poderíamos ter evitado algo, porém, tudo que elas trazem, quando não é saudade, é culpa.

Ela o abraça, e por um instante, Lancer sente novamente o conforto daqueles braços que o carregaram quando criança.

— Estás feito homem. Já és o homem da casa, Lancer, sabia?

— E eu já não era? — brinca ele.

A sra. Eliza sorri.

— Cadê o seu irmão?

— LAAANCER!!! — Henry grita.

— Isso responde a sua pergunta?

Henry olhava para um barco branco, de bordas pintadas de azul fraco que já se ressecava, atracado à margem do lago.

— Está atracado — comenta Lancer indo até o barco.

Lancer não sabia exatamente se deveria chegar até a embarcação e simplesmente checar se havia alguém ali, devido à estranheza do evento. Afinal, o que poderia estar lá dentro? Não seria surpresa encontrar uma criança, pois a moda já não é das mais novas. Ele lembra muito bem da história bíblica de Moisés, que ele foi colocado em uma cesta por sua mãe às margens do Rio Nilo e encontrado pela filha do Faraó. Se fosse o que ele estava imaginando realmente, ele não saberia como lidar com isso, talvez sua mãe, é claro...

Mas, apesar de tudo, havia ninguém no barco, estava vazio.

— ESTÁ VAZIO! — Grita ele olhando por todos os lados do barco, certificando-se. — Não, NINGU... – Ele olha para a casa e, naquele momento, sua visão o conturbou. Não, não havia ninguém no barco. Ele achou alguém, em outro lugar, na varanda da casa, além de sua mãe e seu irmão.

Uma garota ruiva, de cabelos encaracolados e bagunçados, segurava um revólver e o pressionava contra a cabeça de Henry. Eliza a via atônita, com as mãos na boca, não soltava um ruído, o pavor roubara sua voz.

Vendo aquela situação, Lancer se convence de que tipo de perigo espreitava aquele local: Uma garota. Talvez, ela esteja espantada, ou precisa de algum tipo de auxílio. Ela parece paranoica, imaginou.

Lancer se aproxima, espantado, porém, pacífico, tentando resolver a situação.

— PARADO! O QUE PENSA QUE TÁ FAZENDO, ESTÚPIDO? — Fala a garota asperamente.

— Solte ele! Se... se é dinheiro que tu precisas, ou ajuda...

— "SE É DINHEIRO QUE TU PRECISAS", BLÁ, BLÁ... AH, DINHEIRO? ISSO NÃO RESOLVE OS MEUS PROBLEMAS!!! AJUDA? QUEM SABE... – ela ri paranoicamente.

— Então, pode falar... O que queres? — Lancer se mantem calmo.

— TE CALA, IMUNDO! O QUE QUERO JÁ ESTÁ COMIGO...

— LANCER! — Henry grita.

— DEIXA MEU FILHO EM PAZ, POR FAVOR, EU IMPLORO, SOLTE-O... — Eliza se ajoelha, e juntas as mãos como em oração, chorando.

— HAAAAA, MELOSIDADE... VAMOS! COMO É TEU NOME MESMO? HARRY?

Ela levará Henry com ela? Quem ela pensa que é? Realmente, ela surtou, enlouqueceu, e quem vai pagar por isso, será seu irmão? – Lancer não podia deixar que nada acontecesse com sua família, afinal, era tudo que tinha.

— Me leva no lugar dele!

— QUE É ISSO? NÃO VIM AQUI PRA NEGOCIAR!

— O que quer, então?

— NÃO É DA TUA CONTA! AGORA, NÃO ME FAÇA PERDER MAIS TEMPO. VAMOS, HARRY...

Henry reage, em um momento de distração consegue segurar o revólver e o tira de sua cabeça, mas, em meio a briga para tomar tal arma, o pior acontece.

— NÃO!!!

Eliza cai, atingida.

Ele não podia acreditar no que acabara de fazer, que arrependimento estava sentido; raiva de sí mesmo. Maldita, pensou.

— VAMOS, VERME... — ela arrasta Henry, que perdeu as forças, para fora da varanda, levando-o até a caminhonete vermelha.

Lancer deixa ela fugir com seu irmão para ir até sua mãe. Baleada na cintura, ela respira fundo. Estava mais preocupada com Henry. Nem ligava para o que poderia acontecer com ela, queria o ver salvo.

— Mãe? Mãe?

— Não deixe... Não deixe ela fugir com seu irmão... me deixa aqui... vá! Ela levou... Ela levou seu irmão... — uma lágrima escorre do seu olho direito; suas pálidas mãos estavam rubincudas agora.

— Vem, mãe, vamos para dentro. A senhora precisa ficar acamada, preciso cuidar de ti... Henry vai dar um jeito — Esperava...

Lancer sentia agora um peso na garganta, parecia que havia engolido uma pedra, e esta o sufocava. Ele não sabia como tratar os ferimentos da mãe; ferimentos sérios. Sabia que se não fizesse algo, o pior poderia acontecer. Queria chorar; não podia.

— Deite-se... — quando Eliza deitou-se, seu vestido branco já estava cheio de sangue. Lancer o rasgou e pode ver o ferimento, pegou um pano úmido e passou, limpando e pressionando. — Mãe, continue a pressionar, preciso fazer algo...

Lancer foi até o armário branco da copa, pegou uma grande colher de prata de sua mãe, e levou a colher ao fogo. Passados alguns segundos, ele tira a colher já em tom vermelho cintilante.

— Lancer... o que vai fazer, filho? — fala Eliza fracamente.

— Vi o Vô Max fazer isso uma vez na perna dele, para conter o sangramento. A senhora precisa deixar que eu faça isso, é a única coisa que sei que pode ajudar a senhora, tenho que cuidar de ti...

Eliza tira o pano ensopado de sangue da cintura; o ferimento fica a vista novamente. Lancer, segurando a colher cintilante com uma luva de pano, a deixa bem próxima da pele de sua mãe, olha para ela. E então, de repente, toca o instrumento no buraco deixado pela bala. O chiar consequente, o arrepiou. Eliza gritou de dor, e desmaiou.

Passados alguns minutos, Lancer consegue estancar o sangramento; Limpa com cuidado o local e põe o ouvido sobre o peito da mãe e, em seguida, certifica-se se ela estava respirando. Apesar do desmaio, seus sinais vitais estavam quase normais. A vida da mãe estava nas suas mãos...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.