Quem matou Afonso Dallas?
22 Episódio XXI - Palavras Vítreas
Notas iniciais
I
04/01/2016, 11h53min.
JEFERSON ENTROU NO QUARTO SUBITAMENTE, batendo a porta contra a parede. A arma estava em riste. Com o olhar, procurou-a pelo quarto, não encontrando. Ela devia estar escondida. Talvez estivesse no banheiro; a porta estava fechada. Jeferson deu um passo e, enfim, viu o corpo do aliado caído no chão. A vadia tinha o matado. Ele não sabia como tinha ocorrido, mas tinha quase certeza que a inteligência daquele cão tinha ajudado nisso. O forte dele nunca fora a logística — e convenhamos, nem a força bruta, já que era um homenzinho franzino e pequeno, até menor que Jeferson. O homem adornado por cicatrizes palmilhou em silêncio. Era um quarto pequeno, mas tinha lugares perfeitos para se esconder. Se ela o visse primeiro, poderia matá-lo, mas ele duvidava; ela provavelmente não saberia como utilizar uma arma e, mesmo se soubesse, isso não implicava que sua mira fosse boa. E, se ainda insistisse nisso, nem todo mundo que tinha boa mira conseguia fazer ótimos acertos críticos em situações como essa, embora fosse esta o trabalho dos bons policiais, o que não era o caso de nenhum deles.
— Saia daí, putinha. Se você se render, eu não vou te matar. Posso até deixar você ser minha nova vagabunda.
A confusão que se desdobrava mostrava que Jeferson não estava bem para fazer esse tipo de acordo.
— Pode sair. Não vou te machucar.
— Mas eu vou.
A voz surgiu do nada, das sombras que o guarda-roupa escondia.
A mulher, ainda nua, com os seios balançando, executou apenas um disparo, que lhe tomou a vida. O lançamento fora efetuado precisamente no coração.
Melissa pegou a arma do cara e deixou em cima da cama enquanto colocava novamente seu vestido. Sua região íntima estava emplastrada, mas não havia tempo para isso. Ela terminou de se vestir e saiu do quarto com as duas armas em riste, para o caso de poder precisar delas. Por sorte, lá fora, o que encontrou foi quase animador: os outros dois homens estavam mortos. Em compensação, Robson e Marcelo estavam mortos, e não era com um simples tiro, como fora com os três — o cara que a havia levado para o quarto, o grandalhão, tinha várias balas cravejadas no corpo.
Robson estava com um tiro no seu início da calvície. Esse era o ponto que parecia ser mais fugaz nele. Ele estava desmembrado, os braços para um lado e as nádegas sujas de sangue. Marcelo estava ainda pior. Além de não possuir mais pênis — a massa de pele se encontrava num poça de vômito e do sangue que flanqueava o cadáver de Robson —, ele não tinha orelhas. Uma estava ali, que parecia estar meio mastigada, mas a outra não estava em lugar nenhum. E, para completar, a despeito dos órgãos espalhadas com aleatoriedade pelo carpete pútrido, o corpo do irmão de Melissa estava dividido ao meio.
— O que aconteceu aqui? — perguntou Melissa, alto.
Alice se levantou.
— Um deles era um sádico. Torturou Marcelo até a morte.
— Oh, meu Deus.
Adriana tentou recuperar a compostura.
— O que vamos fazer agora?
— Os comerciantes já devem estar pra chegar — replicou Valquíria, fitando o vestido amarrotado de Melissa, sentindo uma pontada de felicidade pelo estado dela. — Melissa disse que eles chegariam pro almoço.
Lígia, Valquíria e Mirian retornaram para a sala. Mirian brandia um espeto de churrasco e Lígia tinha um pedaço de ferro que devia ter sido arrancado da escada. Valquíria não trazia nada em mãos.
— Estão todos bem? — perguntou a religiosa. O terço estava no meio da mistura de fluidos.
— Vamos ir lá pra fora — aconselhou Juliana, olhando para o cadáver de Biloca. Ela se virou para Otávio. — Obrigada.
— Eu não fiz isso por você — objetivou Otávio. — Você fez meus pais brigarem antes da morte dele. Minha mãe nem se despediu dele como devia. E isso foi por culpa sua.
Mais à frente, enquanto seguiam o fluxo e o ar puro do jardim, Rodrigo se virou para Estela.
— Você ficou no meio daquela confusão pra me ajudar. Você podia ter fugido e...
— E isso não significa que estou menos brava com você — cortou ela. — Eu ainda não sei o que vai ser da gente. Isto é, se esse termo existir ainda.
Melissa guiava os outros. Duas armas estavam em suas mãos, enquanto as outras duas — uma delas descarregada completamente em Biloca — encaravam o chão. Quando estavam no pequeno monumento que ficava no centro do jardim, bem próximo às flores que Melissa julgava ser o símbolo de sua sofisticação profissional, ela viu que Otávio estava com um celular. Tinha a capinha do Bob Esponja.
— Por que ainda está com a arma? — perguntou Mirian, que estava abraçada à filha.
— Pra isso. — Ela apontou para Otávio. — Larga essa porra.
— Largar? — perguntou ele. — Eu vou ligar pra polícia! Nós vamos sair desse inferno.
— Largue. Esse. Celular. Ou eu vou atirar.
— Calma — disse Valquíria —, irmã. Não precipite as coisas.
— Por que ele não pode ligar pra polícia? — perguntou Juliana.
— Não é óbvio? — perguntou Adriana.
— Ela é a assassina — ultimou Eduardo.
— O quê? — perguntou Rodrigo. — Você é assassina?
Melissa começou a chorar.
— Tudo poderia sair corretamente se não fosse você, Lígia, sua vadia.
— Por mim? — indagou Lígia.
O TOC de segurar o terço e afagá-lo agora se fazia notar. Seus dedos estavam inquietos. Lígia olhou para Melissa. Ela parecia estar em algum estado próximo à loucura. Então soube que, naquela situação, ela poderia ser morta. Lígia, que já estava mais longe dos outros, correu e adentrou a mansão.
— Calma, Melissa — tentou Alice, tentando ganhar tempo para Lígia sair e ficar em segurança.
— Eu vou ligar pra polícia. Eu duvido que você me mate — disse Otávio, e começou a teclar. — E esse celular é touchscreen!
Um estampido. Os miolos de Otávio choveram e mancharam o verde das plantas.
— Eu disse que ia fazer isso.
— Você é louca, Melissa? — gritou Valquíria, mirando, com pânico e asco, o resto mortal do jovem. — Você acabou de matar seu próprio sobrinho! Você é uma assassina desgraçada! — Ela ameaçou de avançar na irmã, mas Juliana impediu-a.
— Eu matei eles! Eu matei eles! — gritou ela, histericamente, sorrindo com desvairo. — Eu matei eles. Eu, não! Nós! Nós matamos eles!
Mirian, achando que Melissa não estava percebendo, correu para pegar o celular.
— Sua puta! — trovejou Melissa, e atirou à queima-roupa contra Mirian.
— Mãe, não! — gritou Gabriela, e se jogou na frente da mãe. A bala atingiu seu peito, matando-a.
— Oh, meu Deus, minha filha, por favor, fique bem. Por favor. — Gabriela estava no colo de Mirian. Ela já não respirava. — Eu matei minha filha! Eu matei minha filha!
Ao longe, foi ouvido o barulho de um carro. Alice se virou para vê-los e encontrou um caminhão. Ela se virou para Melissa.
— Você pode matar todos nós, mas você vai ser pega de qualquer forma!
— Não vou ser, não! — rebateu ela e colocou a arma contra sua têmpora. — Eu matei ele!
Ela puxou o gatilho.
— A vadia se suicidou — observou Adriana.
Perto deles, Mirian chorava pela morte da filha, assim como Valquíria, que era consolada por Juliana.
Rodrigo se virou para Alice.
— Você tem que me perdoar, Ali, você tem que...
Alice beijou-o com efervescência.
— Eu te perdoo.
Rodrigo estava confuso. Qual teria sido a grande motivação da qual João havia falado?
— O que te fez mudar de ideia tão rapidamente?
— Percebi — replicou ela, olhando pensativamente para o horizonte, o vento borrifando-lhe e ela tirando a mecha fugidia de seu cabelo e colocando-a atrás das orelhas —, no final das contas, que a vida é curta demais para ficarmos com raiva por causa de picuinhas.
E que todo mundo merece uma segunda chance, pensou ela, com pesar.
II
04/01/2016, 12h12min.
— SEU AFONSO! — gritou um homem atarracado, velhinho, com óculos na ponta do nariz. Ele se virou para o motorista. — Acho que ele não está em casa. Viajamos vários quilômetros da cidade até aqui pra gente chegar e ele não estar. E ainda vamos ficar sem o almoço!
O homenzinho entrou no caminhão.
— Ei, Fabrício, olha lá.
Várias pessoas sujas de sangue caminhavam em sua direção.
— Zumbis existem! Zumbis existem! Acelera, Agenor, acelera!
Percebendo o espanto do homem, Juliana gritou:
— Ei, calma! Precisamos de ajuda aqui! — gritou ela.
— O que aconteceu? — perguntou Fabrício.
— É uma longa história — afirmou Rodrigo. — E acho que você não vai querer saber dela.
III
DEPOIS DE SEREM LEVADOS NO CAMINHÃO, a roupa espurca, cheia de sangue, vômito e até de pedaços de carne, os sobreviventes tiveram de prestar depoimento. No final das contas, todos tiveram o mesmo testemunho: Melissa havia confessado ser a assassina de Gabriel e Afonso.
E, nesse meio tempo que se seguiu, os sobreviventes haviam reorganizado a vida deles.
IV
A HERANÇA FOI COMPARTILHADA ENTRE OS membros restantes da família Dallas. Valquíria recebera uma parte; Lígia, além de receber a pensão do falecido marido, também estava desfrutando da quantia de dinheiro que havia recebido por ser casada com um dos herdeiros; e Eduardo também. Adriana acabara por não receber nada, já que não era casada com Marcelo.
* o futuro deles *
Lígia acabou se tornando uma beata verdadeira, e passara a pregar palestras sobre como sua vida havia sido salva por uma oração. Ela havia se tornado uma pessoa melhor e agora ajudava os carentes com veracidade e tinha uma solidariedade enorme. A nora dela, Alice, começou a passar mais tempo em casa, já que havia percebido a mudança promissora da sogra. Ela e Rodrigo estavam super bem, cada um na faculdade que almejavam. Alice iria se tornar pediatra e Rodrigo cursava direito. Rodrigo havia pedido a namorada em noivado e já estava pensando quando iria dar o próximo passo; queria casar-se com a loira e construir uma família.
Valquíria acabou engajando-se num compromisso amoroso com Juliana, que, depois de tudo que fizera, havia conseguido o que almejava. Agora estavam juntas, vivendo numa ilha, usufruindo o que lhes fora concedido. Valquíria era uma pessoa amável, e Juliana, mesmo não a amando totalmente, fazia uma forcinha para parecer verdadeira. Estava adorando sua estadia, mas, às vezes, tinha algumas recaídas e traía a namorada. Valquíria, por sua vez, fazia o mesmo. Parecia que, no fim, aquelas duas só viveriam dessa forma, vivendo lance sobre lance, paixão sobre paixão.
Eduardo e Adriana assumiram o relacionamento e acabaram adotando algumas crianças. Eduardo começou a fazer faculdade para se tornar um perito criminal, seu grande sonho, e ajudava a namorada com o dinheiro da herança. Havia aumentado a lojinha da mulher para algo bem maior, e parecia a eles que as coisas estavam sendo prósperas. Todos os dias, à noite, eles faziam alguma espécie de tributo a Marcelo. Agradeciam-no por tudo que eles lhe fizera e pediam perdão. Mas a verdade era que Adriana e Eduardo se amavam. Talvez, em outra ocasião, se Marcelo tivesse vivo, ele até poderia aceitar a relação entre eles. Mas, já que isso não era possível, os dois faziam de tudo para agradar a alma do morto.
Mirian, coitada, acabou se ferrando. Não recebendo nada da herança e não tendo para onde ir, acabou se tornando uma prostituta. Eventualmente, acabou se acostumando com o emprego e até achava que poderia, um dia, encontrar o grande amor da sua vida. Ela supunha que seria um galã rico, que lhe daria a vida que merecia. Mirian ainda chorava pela morte da filha, pois achava que era a culpada. Ela também ainda esperava o que pai insinuara antes de morrer, mas a realidade era que o dinheiro que Afonso prometera nunca chegaria a ela.
V
A FAMÍLIA DALLAS TERMINOU DESSA FORMA.
Fale com o autor