Quem matou Afonso Dallas?
23 Revelações I - Verdade Obscura
Notas iniciais
I
— MEU PLANO, RAFAEL, É BEM SIMPLES. — Afonso olhou para o advogado com sagacidade. — Quero saber até onde minha família vai pra ter o dinheiro da minha herança. Vou morrer daqui um tempo mesmo, então acho que isso não importa. — Rafael escutava com atenção. — Falarei para minha família que a herança vai pra algum lugar e não será dividida. Claro, isso é mentira, mas eles não precisam saber.
“Se eles aceitarem a situação, eu deixarei o plano de lado. No entanto, se expuserem o que realmente querem, se mostrarem a ganância deles, eu levarei isso até o fim. Assim, se isso acontecer, colocarei um papel falso no cofre do quarto de cada um. Eles eventualmente irão ler e ficarão sabendo que o único jeito de a minha herança ser compartilhada será com a minha morte de uma forma não natural. E é isso: se eles quiserem que a herança seja compartilhada, terão de me matar.”
II
12/03/2014, 20h03min.
ATRÁS DA PORTA DO QUARTO, Virgínia escutara o final da fala do velho, antes de sair correndo do quarto.
— ...Eles eventualmente irão ler e ficarão sabendo que o único jeito de a minha herança ser compartilhada será com a minha morte de uma forma não natural. E é isso: se eles quiserem que a herança seja compartilhada, terão de me matar.
III
12/03/2014, 20h06min.
VIRGÍNIA PRECISAVA SABER SE AQUILO ERA verdade. Contou, então, a Melissa, a pessoa mais próxima do homem.
— O que você acha? — perguntou. — Pode ser verdade?
— Vindo do papai, eu tenho quase certeza. É a cara dele ficar fazendo esses joguinhos, mas não sei se alguém será capaz de matá-lo.
— Será que ele está tramando tudo isso pra pegar o possível assassino?
— Não — ponderou ela. — Meu pai já deixou claro que, como vai morrer daqui um tempo, ele queria que fosse uma coisa bem grande. Acho que é isso o que ele queria dizer.
— Tudo bem, então. Eu vou...
— Virgínia — chamou Melissa —, você não estaria disposta a ganhar uma grande bolada?
— Pera aí, você não está dizendo que vai matar o seu pai...?
— Não, mas vamos facilitar as coisas pro assassino.
— E o que eu receberia com isso?
— Eu te daria uma boa quantia quando a herança fosse compartilhada.
— Melissa, mas você não acha que isso é desumano demais?
— O papai já vai morrer. E outra: ele está tramando tudo isso. Vamos dar uma mãozinha e criar o perfeito cenário para um assassinato convidativo.
— Mas, então, se formos fazer tudo isso pra deixar fácil pro assassino, porque não mata logo ele? Não seria mais fácil?
— Seria mais fácil, mas, no fim, a polícia poderia nos descobrir.
— Mas e se você tiver que matar outras pessoas pra amaciar o terreno?
— Iremos parecer que as coisas foram naturais.
— Poderíamos fazer isso com Afonso; a polícia não suspeitaria assim.
— Como você é tonta! Mas, se isso acontecesse, a herança não seria compartilhada. Não iria adiantar de nada.
Virgínia fitou o teto.
— Faz sentido.
Melissa olhou profundamente o rosto bochechudo da empregada, os cabelos caindo sobre ele.
— Você topa?
— Claro. Eu nunca gostei daquele velho mesmo.
IV
03/01/2016, 13h11min.
— AS COISAS JÁ DEVEM ESTAR PRESTES A começar — avisou Melissa a Virgínia.
— Por que você acha isso? — perguntou a empregada grandona.
Melissa se aproximou da aliada.
— Eu vi o papai com alguns papeis. Acho que são aqueles que ele vai por no cofre do pessoal.
— Quais?
— O que você acha, sua tonta? É claro que é isso que você está pensando. Se ele morrer de uma forma não natural, a herança vai ser compartilhada.
— Então isso quer dizer que vamos começar as coisas.
— Sim, nós vamos afofar o terreno pra quem quiser matar o papai.
Melissa já lembrou que já tinha feito algumas coisas para isso. Herdado o gene da mãe Heloisa, que era uma das poucas pessoas que sabiam convencê-lo — ou dissuadi-lo —, Melissa também sabia fazer isso. Com a iminência desse convite para a família e sabendo que eram grandes as chances para que o plano de Afonso fosse, enfim, colocado em prática, Melissa sabia que a presença de seguranças poderia intimidar o possível assassino — mesmo que eles fossem uns bundões, como era o caso de Carlos, um amigo de Afonso. Então, por isso, para facilitar as coisas, ela havia dito ao pai, sem entrar no assunto que poderia comprometê-la, que, para uma mulher estadia da família, os seguranças poderiam ser dispensados. Eles significavam “segurança”, mas, por conseguinte, também traziam a sensação de perigo, o que era pior do que isso. Afonso acabou concordando com veemência.
— É isso aí! — murmurou a empregada. Estavam sozinhas na cozinha.
Porém, infelizmente, Joana, que acabava de sair do quarto de Afonso, depois de se declarar para o velho e receber a ordem de avisar o pessoal para que fossem ao encontro do patriarca, ouviu tudo.
— Vocês não estão falando a verdade, estão? — perguntou ela, exasperada. — Vocês estão querendo incentivar um assassinato? Isso tudo pra quê? Pra pegar a herança? E você, sua gorda imunda, o que está fazendo? Acha que vai ganhar alguma coisa? Esqueceu que você não é da família?
Melissa se levantou.
— Calma aí, Joana, isso não passou de uma brincadeira. Se você sair fazendo fofoca por aí, eu vou ter que ser obrigada a pedir pro meu pai pra te expulsar daqui.
— É isso aí, Joaninha, a gente só estava brincando.
Joana odiava esse apelido.
— Não me chame assim.
Joana virou as costas. Melissa olhou para Virgínia. Ela sabia o que esse olhar significava: precisamos começar a agir; ela representa perigo.
— Mantém ela aqui por um tempo — sussurrou Melissa a Virgínia.
— Por quê? — perguntou, mas Melissa deixou a sala antes de responder, assim que pegou uma xícara. A grandona de braços roliços se virou para a companheira de trabalho. — Joana, você sabe da maior? — iniciou Virgínia. Joana podia fingir que era quieta e indiferente a tudo, mas ela adorava saber de fofocas.
— O quê? — Por baixo daquele pano de impassibilidade, Joana devia estar se mordendo para saber o que era.
Joana não sabia o que inventar para dar o tempo de que Melissa precisava para fazer o que tinha de fazer. Procurou alguma fofoca na mente e tudo que se lembrou foi do caso entre Juliana e Robson, que ela havia visto pelo buraco da fechadura.
— A doutora pegou o marido da Valquíria.
— Não... — disse ela, e colocou a mão na boca. — Como você sabe disso?
— Vi pelo buraco na fechadura. Eles estavam fazendo coito.
— Gente, tô chocada com essa família. O pessoal chega hoje e já vai mostrando as verdadeiras facetas. Tudo bem que a Valquíria não é lá a pessoa mais divertida do mundo, principalmente com aquelas tatuagens, mas ela não merecia isso, coitada. — Joana pagava de discreta, mas era só dar uma linha de fofoca para ela que não parava de falar mais. — E eu sabia sobre essa médica. Quando Melissa contratou ela, sabia que era uma puta. A cara dela diz tudo, e aposto que os peitos dela são silicones.
— Talvez não sejam. Os meus são enormes e não são silicone.
— Gordura não vale.
Virgínia deu de ombros. Melissa estava demorando a chegar. O que ela estava tramando?
— Eu sei que a Juliana não estava nem aí pro fato de ele ser casado.
— Ela devia estar gostando disso. Puta adora isso.
Melissa, enfim, havia retornado. Estava com a xícara na mão.
— Então estamos de volta com a arquiteta do plano para matar o pai — escarneceu Joana, sentada à mesa.
— Eu falei que é uma brincadeira. Se continuar insistindo, as coisas vão pesar pro seu lado.
— Seu pai vai ficar sabendo, viu? Eu vou falar pra ele.
Melissa, até então, estava receosa do que iria fazer. Era um caminho sem volta. Joana havia representado perigo, mas podia ser apenas um blefe. No entanto, agora parecia que ela estava falando a verdade. Melissa nunca entendera o motivo da afeição dela pelo seu pai, e achava que já devia ter acontecido algo entre eles. Provavelmente Afonso já devia tê-la levado para cama, como fazia com muitas empregadas.
— Continue sentadinha aí que eu vou fazer um chá pra você — disse Melissa.
— Mas isso não vai mudar a minha opinião. Ele ainda vai ficar sabendo disso.
— Tudo bem, mas, talvez, você se acalme e agente possa conversar.
Melissa preparou o chá com a erva que adornava o ambiente. Era muito venenosa, mas, o que tinha de perigo, ela tinha de beleza. Era interessante para ambientes que precisassem desse misto de sensações. Havia aprendido em seu emprego que era besteira usar em festas que tinham animais, pois poderia acontecer uma morte abrupta. Porém, naquela mansão, fora extremamente conveniente tê-la ali. O pai havia ensinado a fazer o chá e agora era simplesmente questão força de vontade. Se Melissa realmente queria seguir com o plano em frente, sem a possibilidade de uma empregada fofoqueira estragar tudo, precisaria eliminá-la.
— Tome.
— É chá de quê?
— Camomila — replicou Virgínia, mesmo que a pergunta não tivesse sido feito a ela.
— Isso não parece camomila.
— É importado — afirmou Melissa. — É uma delícia.
Dando de ombros, Joana tomou o chá. Em pouco tempo, o mesmo que acontecera com Heloisa, sua eterna rival no amor, acontecera com Joana. As duas haviam terminado da mesma forma: mortas por envenenamento e dissimuladas com uma morte que parecesse impessoal, embora fossem descaradamente diferente.
— O que vamos fazer agora? — perguntou Virgínia. — Se a polícia chegar aqui, vão acabar nos encontrando.
— Não se ela tiver se suicidado.
— Mas ela não se suicidou. — Virgínia entendeu o pensamento. — Muito bom. O que eu faço?
— Leve ela pro bosque da mansão. Eu vou pegar a corda e a cadeira. Vai pelos fundos e não deixa ninguém te ver.
Assim, elas forjaram a morte da mulher. Colocaram a cadeira debaixo do corpo balançante, amarraram a corda na árvore e no pescoço dela e derrubaram a cadeira como ela teria feito. Pronto: ninguém suspeitaria de nada.
E, para que essa farsa fosse veraz o suficiente, elas precisavam se portar como se não soubessem de nada.
* as cenas do teatro das duas *
03/01/2016, 16h35min.
— Devíamos avisar o papai? — perguntou Marcelo aos irmãos.
— Não — replicou Melissa. — Ele já tem muita preocupação. Qualquer coisa pode piorar a saúde deles. — Melissa teria falado aquilo mesmo, embora não se preocupasse verdadeiramente com a vida do pai.
Num paralelo, as figuras de Virgínia e Jorge soaram como em holofotes.
— Não vai ficar tudo bem, Jorge — explodiu a mulher. — Ela não vai voltar com essas malditas palavras! Ela não vai! Minha amiga se foi. — Virgínia nunca fora amiga de Joana; pelo contrário, vivia falando mal dela, mas, supostamente, as pessoas deviam achar que a amizade delas era grande, dado o tempo de convivência. Ademais, ninguém suspeitaria de uma pessoa que chorava desconsoladamente pela morte de uma amiga.
— Vamos enterrar aqui — sugeriu Robson. — Tem um cemitério ali mesmo.
Virgínia chorou alto ao ouvir.
Mais tarde, Melissa havia falado que Virgínia devia maneirar nessas cenas.
— Às vezes, parece forçado demais — argumentou.
V
FORA NAQUELE DIA QUE MELISSA DESCOBRIRA que o irmão, Gabriel, o detetive, poderia ser um empecilho. Ela tinha esquecido — ou ignorado — sua presença. Mas lembrou-se quando ele se mostrou uma forte utilidade para quaisquer eventualidades no futuro. Ele poderia facilitar as coisas para os peritos, o que não seria um apoio moral para a pessoa que quisesse cometer o assassinato. Ele precisava sumir. E não, Melissa não teria remorso disso. O pai dela havia deixado um legado para a família: não se apegue a pessoa; elas morrem de qualquer jeito, mas se apeguem ao dinheiro; é ele quem dita como sua vida vai ser. Melissa seguia isso friamente.
— Precisaremos irar o meu irmão da jogada — afirmou ela para Virgínia, enquanto o pessoal cavava o túmulo para Joana.
— Qual deles?
— Gabriel — replicou. — Ele é um detetive.
— Mas como faremos isso?
— Meu irmão tem uma mania meio estranha. Acho que é de família. Depois que ele vê alguém morto, ele passa um tempo sozinho, ruminando sobre as coisas, meio que se culpando pela morte. Não sei como funciona a cabeça dele, mas é algo assim.
— E daí?
— E daí que, quando ele estiver sozinho, nós abocanharemos a carne.
— Nós o quê?
— Esquece.
— Como a gente vai fazer isso?
— Hoje, quando todo mundo estiver no quarto, a gente vai sair e vai estrangulá-lo. A gente repete o mesmo feito com Joana. A gente coloca numa árvore no bosque de fora da mansão, pra mudar um pouco as coisas. Vai sair perfeito novamente.
03/01/2016, 20h17min.
O PESSOAL ESTAVA EM SEUS QUARTOS. Melissa e Virgínia esgueiraram-se dos seus e se encontraram no pequeno monumento que havia no meio do jardim. Era bem protegido pela alameda de árvores altas; ninguém as veria ali.
— E o que a gente vai fazer? — Era a pergunta mais típica da empregada. Melissa não suportava a presença dela, e nem sua burrice, mas precisava fazer um esforço. Tinha que focar no futuro. O futuro compensava mais que o presente.
— Precisamos afofar o terreno para o assassino, lembra?
— Sim, mas o que mais precisamos fazer?
— Carros e celulares são um meio de se contatar o mundo exterior. Por sorte, estamos isolados nessa mansão, mas ainda tem esses empecilhos.
— O que a gente vai fazer então?
Melissa passou as mãos nos cabelos curtíssimos.
— Primeiro, a gente vai furar os pneus do carro e, sempre que der, agarre um celular.
Virgínia assentiu.
As duas correram para o estacionamento e furaram todos os pneus com pregos, menos os steps, pois levariam tempo demais. Furaram inclusive o móvel de Afonso, para que nada ficasse sobrando e pudesse representar o perigo de alguém sair do local e atrapalhar o plano delas.
Elas se uniram, ofegantes.
— Quando eles descobrirem o que aconteceu aqui, provavelmente se reunirão como sempre fazem. Eu precisarei ficar aqui, porque minha presença é muito importante. Já você... Bem, eles não sentem tanto a sua falta. Vai ser nesse momento que você pegará os celulares.
— E se eu não conseguir pegar todos?
— Fique tranquilo. Eu ativei o sistema de segurança daqui da casa. Papai mandou comprar uma parafernalha que cria um campo magnético que impede que qualquer informação chegue via satélite. Estamos, basicamente, isolados. Mas é melhor evitar qualquer erro; não confio muito nessas tecnologias contemporâneas. Por isso, você vai tentar pegar alguns. Os que você conseguir, você dá um fim neles. Joga no incinerador, quebra e joga no bosque, não sei. Mas, basicamente, o sistema de segurança vai dar conta de tudo.
— Fico feliz por isso.
* prova da inexistência de Virgínia na cena dos pneus furados *
03/01/2016, 20h38min.
— Isso não faz sentido — observou Juliana.
— Descobriu isso sozinha, queridinha? — perguntou Adriana.
Alice, observando tudo aquilo, perguntava-se se poderia ficar pior.
— Por que alguém faria isso? — perguntou Melissa.
— Agora nós estamos isolados aqui — verificou Eduardo.
Otávio veio correndo. Estava suado.
— Eu estava no meu quarto. Meu celular sumiu.
— Como se os nossos telefones, meu filho, fossem ajudar em alguma coisa.
— Eu não verifiquei se o meu estava no lugar onde deixei — expôs Marcelo. — Deixei ele carregando.
— A maioria dos celulares estava carregando àquela hora — notou Robson. — Quem pegou eles deu a sorte grande.
— O meu está aqui — disse Rodrigo, ao lado da mãe —, mas ele não está funcionando.
Mirian, que estava próxima à filha, tomou a vez:
— Eu verifiquei os telefones da casa e todos foram cortados.
Jorge pigarreou, receoso.
— De qualquer forma, mesmo se vocês tivessem o telefone, não iria adiantar nada. O sistema de segurança foi acionado. Ele impede que qualquer informação chegue ou saia daqui via satélite.
— Estamos sem contato com o mundo de fora — findou Marcelo.
Virgínia havia tentado pegar alguns e conseguira; havia pegado os que estavam dando sopa durante aquele momento, carregando. Fora rápida mesmo com aquela pança. Conseguira o de Otávio, um mais simplesinho, e vários outros que ela não sabia de quem era, mas que estavam carregando. Outros, ainda, estavam no quarto, em cima do criado-mudo, da cama ou da televisão. A família Dallas não era exatamente a família aficionada nos smartphones. Pelo que ficara sabendo através de Melissa, Afonso falava que qualquer coisa que gravava poderia significar uma grande reviravolta, normalmente ruim, e por isso sempre pregou a distância com os aparelhos e havia feito, inclusive, o sistema de segurança especial para evitar coisas assim. E, bem, havia os empregados. Eles não tinham um, como ela, mas Virgínia havia ignorado essa parte.
VI
03/01/2016, 21h31min.
AGORA ELAS SÓ PRECISAVAM TIRAR O DETETIVE da jogada.
— E ele ainda está lá? — perguntou Virgínia.
— Na maioria das vezes, ele acaba dormindo. Se dermos sorte, encontraremos ele nesse assim. Vai ser mais fácil.
— Cadê o cadarço?
— Eu deixei ele perto do portão lateral. Vamos sai por ele.
As duas se esgueiraram nas pontas dos pés, sempre verificando para ver se ninguém chegava. Com a sorte que tinham, ninguém ia aparecer. Bem, a princípio foi assim. Agora elas estavam observando o homem de cabelos lisos e físico invejável dormindo escorado na parede da mansão.
— Olha que fofo — escarneceu Melissa, batendo num mosquito que estava ali. Na realidade, havia vários. — Nem parece que vai morrer. Tampa a boca dele quando eu começar. As coisas vão ser rápidas.
Melissa pegou o cadarço, que era enorme, por sinal, e enrolou-o em uma de suas mãos, para dar mais aderência. Virgínia levantou gentilmente a cabeça do homem e Melissa passou o cordão por baixo uma, duas e até uma terceira vez. O tamanho daquilo fora aumentado com vários outros, para permitir essa proeza que Melissa conseguira. Ela havia pensado em tudo. Quando achou que daria certo, amarrou na outra mão.
— Agora.
Virgínia tampou a boca dele fortemente, enquanto Melissa, por cima do homem, impedia que ele fizesse qualquer movimento brusco. O peso das pernas da empregada também ajudavam a inibir as ações instintivas. À pricípio, ele se debatia violentamente e Melissa quase achou que não conseguiria terminar aquele trabalho. No entanto, aos poucos, ele foi perdendo a força, o vigor da vida deixando-o. Os olhos se fecharam lentamente.
— Ele está morto. Agora vamos levar ele pro bosque e depois trazer a corda maior e a cadeira. — Melissa começou a arrastá-lo, enquanto Virgínia parecia assustada com o que acabara de participar. — Me ajuda aqui, porra.
Virgínia se aproximou dos dois, porém, antes que conseguissem tirá-lo pelos menos da vista de qualquer pessoa que saísse da mansão, elas ouviram um barulho.
— Tá vindo alguém. Se esconde.
As duas correram para o bosque e viram que Lígia estava ali.
— Merda, merda, merda, merda. Merda! — xingou Melissa. — Deu errado. Não era pra sair assim. O que vamos fazer?
— Para de me perguntar isso! A gente vai ter que voltar pra mansão e agir naturalmente. Vamos ir pelo outro portão lateral.
— Mas lá é muito longe.
— Então se apressa. Precisamos estar lá pra não causar suspeitas.
As mulheres começaram a correr.
* uma pequena mostra de como a corrida era cansativa *
— Quem fez uma coisa dessas? — bradou Melissa, chorando, as lágrimas se misturando ao suor. — Como alguém teve coragem?
Virgínia esperou que os ânimos se acalmassem. Estava suando com tudo aquilo, a pele brilhando à luz da lua.
VII
ELAS TENTARAM AGIR COM NATURALIDADE depois de tudo que fizeram. Haviam conseguido fazer tudo que premeditara. Quase, na realidade. A morte de Gabriel havia se mostrado, como se pudera perceber, o estopim para a queda de Melissa, quando ela gritou que o havia matado, sendo “o” o pronome oblíquo para se referir a Gabriel e não Afonso.
Mas, de toda forma, seu esforço havia valido a pena. Bem, para quem receberia a herança, já que Melissa e Virgínia estavam mortas agora. No final das contas, o terreno se afofou. Tudo estava corroborando para quem quisesse assassinar o velho, o que realmente aconteceu.
O plano das mulheres acabou saindo pela culatra. Elas haviam feito tudo aquilo e, no fim, erraram no tempo do procedimento envolvendo a morte do detetive. Melissa até poderia ter tentado a sorte; talvez a polícia não descobrisse que ela era a assassina de Gabriel, mas, depois de tudo que havia passado na mão de Jeferson e de seus companheiros, a loucura era apenas uma amostra do que poderia acontecer a mente frágil dos humanos.
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