Quem matou Afonso Dallas?

18 Episódio XVII - Lavação Perolada


Notas iniciais
Para quem gosta de barraco e intrigas, deleite-se. A propósito: já estamos nos aproximando da grande revelação. Garanto a vocês que tudo se encaixará e que, quando o assassino (ou assassina), foi identificado, vocês adorarão a reviravolta que preparei.

I

04/01/2016, 11h19min.

VIRGÍNIA ESTAVA INDIGNADA COM O QUE Juliana dissera. Como ela ousara? A médica já estava começando a se achar demais, alguém precisava podá-la. E esse alguém, obviamente, seria Virgínia, que sabia de algumas coisinhas dela com Robson. Ela só estava esperando o melhor momento. Achava que seria agora, jogar a merda toda no ventilador. Com certeza respingaria nela, mas não tinha importância; Juliana provavelmente seria despachada da mansão. Além do mais, embora tivessem de esperar alguém de fora encontrá-los, Juliana nem tinha mais motivos para continuar ali, já que o homem que servia de elo para sua permanência já estava morto.

Virgínia era mesmo uma fofoqueira assumida. Sempre que tinha horário vago, quando não tinha serviço para fazer, ela se ingressava em uma missão que adorava, indo perscrutar atrás de portas, escondida, sempre ficando sabendo das novidades para depois repassar para os melhores amigos que não existiam. Por isso, ela acaba guardando para si e esperando o melhor momento para usar as informações que continha. Já tinha ganhado, com isso, um ótimo feito, como ficariam sabendo mais à frente. E, agora, ganharia novamente. Contaria tudo para a esposa de Robson. Abriria o jogo e diria que a médica peituda e o personal trainer tinham um caso bem debaixo do nariz com piercing dela. Era isso aí!

Virgínia se esgueirou até o cômodo da mulher em questão, porém, antes que pudessem chamar o nome dela, notou alguns gemidos. Seu senso para fofoca era apurado, e os ouvidos, mais ainda. Estava acontecendo alguma coisa. Geralmente, algum sexto sentido avisava Virgínia que notícias estavam para chegar e era exatamente isso que estava acontecendo. No entanto, parecia a ela que teria de, talvez, mudar de plano, encontrar outra abordagem perante o novíssimo caso entre Valquíria e Juliana. A médica era mesmo uma safada. Tinha pegado o casal. Mas essa estadia no hotel do sexo cinco estrelas estava prestes a acabar.

Ela contornou o hall e soube, pelo barulho do chuveiro, que alguém o estava usando.

— Senhor Robson? — chamou.

A voz soou distante.

— Sim?

Bingo! Era ele.

— Preciso dizer algo pro senhor.

— Tudo bem, quando eu terminar, eu saio.

— Não — refutou ela. — Tem que ser agora. É muito importante.

Após alguns segundos, Robson saiu do banheiro.

— O que foi?

— Você precisa ver isso.

Virgínia começou a andar em direção ao quarto deles.

— Por que estamos indo pro meu quarto?

— Entre — sussurrou a empregada.

II

04/01/2016, 11h22min.

ALICE ESTAVA SENTADA SOZINHA NO JARDIM. Estava num banquinho de cimento, adornado com alguns detalhes chamativos. O ar que respirava era agradável e tinha a leve sensação de que ela não estava numa mansão rodeada de pessoas malucas e gananciosas, que não se importavam com ninguém exceto eles mesmos.

Otávio se aproximou da jovem.

— Fiquei sabendo que Rodrigo expulsou você do quarto. — O som pedante da voz de Otávio tirou Alice daquele bálsamo etéreo. — Que triste, né?

Alice se virou para o rapaz.

— Ele me pediu pra fazer isso. Não inverta as coisas.

— Eu também fui lá. Ele também me expulsou. — Otávio se sentou ao lado dela. — E não estou invertendo as coisas. Me expulsou mesmo.

— E com razão — aferiu Alice. — Você é chato demais, cara.

— Acho que não foi bem por causa disso. — A insinuação pairou no ar. O olor que Otávio transpirava era de arrogância e presunção. — Triste.

Alice estava desconfiada.

— Por que ele te expulsou?

— Eu convidei ele pra fazer sexo, mas ele não quis.

Alice arregalou os olhos.

— Você o quê?

— Bem, dessa vez ele não quis.

Alice havia levantado e encarava o rival com uma fúria palpável.

O quê? Do que você está falando?

— Ele não te contou? Achei que a base de uma relação era a sinceridade. — Ele revirou os olhos azuis. — Mas eu te conto. Quando vocês terminaram por causa daquela confusão, você traindo ele com seu ex-namorado.

— Eu não estava traindo ninguém. Ele só tinha vindo falar comigo.

— Sei — escarneceu. — De qualquer forma, depois que vocês terminaram e Rodrigo foi viajar, a gente fez um sexo selvagem lá.

— Isso não pode ser verdade.

— Pergunte pra ele. — Otávio sorriu. — Pergunta pra ele como eu chupei bem aquela rola enorme. Pergunta pra ele sobre o que ele disse quando eu tava chupando aquele cacete. Pergunta, sua vadia. Vai lá.

Slap. O tapa tilintou na quietude do jardim. Otávio levou a mão no local do golpe.

— Nunca mais me chame de vadia.

Alice saiu correndo para dentro da mansão. Precisava tirar aquela história a limpo.

III

04/01/2016, 11h22min.

— EU NÃO ACREDITO NO QUE EU ESTOU VENDO — exclamou Robson, enquanto Juliana e Valquíria se recolhiam e tentavam esconder a nudez. — Como você ousa?

Juliana não sabia se ele estava falando com ela ou com Valquíria.

— Me desculpa, amor. Foi um erro, eu posso explicar... — tentou Valquíria, mas não conseguiu continuar quando Juliana falou.

— Não finja que é a pessoa mais certa do mundo, Robson. Você estava traindo sua esposa, e foi muito mais de uma vez.

Valquíria arregalou os olhos. Virgínia escutava tudo com contentamento.

— Isso é verdade, Robson?

— Não, não é. Mas o que é verdade é que você me traiu com ela! — Robson apontou o dedo para a médica. — Como você teve coragem?

— Nós nunca tivemos um relacionamento sério. Era só sexo. Mas estou apaixonada pela Valquíria.

A gritaria chegou aos ouvidos de Marcelo, Melissa e Lígia, que já não estavam mais na área da piscina, mas na cozinha, tentando preparar o almoço, já que as empregadas estavam de luto — e outra estava assistindo a um barraco quentíssimo.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou Lígia.

— Robson descobriu que a esposa dele estava traindo ele com a loirona aí.

Melissa entrou no quarto abruptamente. Adriana, Eduardo e Rodrigo também haviam chegado. Assistiam à lavação de roupa suja do lado de fora.

— Como sempre, a nossa caríssima irmã mostra pro que veio. É uma vadia descompensada mesmo.

— Cale a sua boca! — gritou Virgínia, ainda escondida num manto de cobertas. — Saiam daqui.

— Como você teve coragem, Valquíria? — indagou Marcelo. — Trair seu próprio marido no mesmo teto?

— Você não tem o direito de falar nada — afirmou Juliana. — Você é um ex-viciado em drogas.

Ex. Falou certo. Não sou mais. Tenho dignidade agora.

Valquíria riu alto. Não tinha pensado em contar isso, mas agora iria.

— Dignidade? — ecoou. — Dignidade quando seu filho te trai com sua namorada? Convenhamos. — Adriana estava com a mão na boca. Eduardo fitava o chão. — Eles te traem e não fazem sexo por compaixão a você. Compaixão! Você é um corno desgraçado, Marcelo.

Marcelo olhou para trás.

— Eu posso explicar, amor — iniciou Adriana.

— Pai, por favor, espera.

Marcelo saiu correndo, chorando.

— Eu vou atrás dele.

— Não, Eduardo, espera. Ele precisa de um tempo para esfriar a cabeça.

De volta ao centro da confusão, Juliana agora abria o jogo.

— Sim, eu e o Robson tínhamos um caso.

— Por que você não me falou? — perguntou Valquíria. Todos assistiam àquilo como se fosse um espetáculo mágico. Virgínia achava que a pipoca seria bem-vinda. — Você devia ter me dito!

— Val, espera. Não foi assim que aconteceu — disse Robson, tentando segurar a mão da esposa.

— Eu só fiz isso porque queria me aproximar de você! — acastelou Juliana. — Por favor, entenda meu ponto de vista. Eu estava apaixonada por você, mas não sabia como chegar em você... Eu sinto muito... Por favor, me perdoe.

— Isso é uma mentira deslavada! — interferiu Melissa. — Essa aí não deve se apaixonar por ninguém.

— Ao contrário de você, que ficou solteirona, eu ainda posso me apaixonar — alfinetou Juliana, os cabelos loiros esvoaçando.

Do lado de fora, Rodrigo, Lígia, Mirian e Gabriela estavam arrebatados com os acontecimentos. Adriana e Eduardo haviam ido para a cozinha. Virgínia estava na soleira da porta, enquanto Melissa, Robson, Valquíria e Juliana quebravam o pau dentro do quarto. Otávio e Alice agora haviam chegado.

— O que está acontecendo? — perguntou Otávio.

— Querido, saia daqui — aconselhou Lígia, o terço balançando solto. — Isso não vai ser bom pra você.

Otávio entrou no quarto.

— O que está havendo aqui?

Melissa sorriu para o sobrinho.

— Seus pais tiveram um caso com a médica. Seu pai traiu sua mãe com a Juliana e vice-versa.

Otávio arregalou os olhos, enquanto os três adultos continuavam a lavar roupa suja.

Do lado de fora, Alice chamara Rodrigo um pouco para longe, mas ainda era possível ouvir os gritos histéricos de Valquíria e Melissa, que agora discutiam sobre a inveja que uma tinha da outra.

— Saia daqui, Melissa. Eu te odeio e você não tem direito de falar nada sobre mim.

— Você sempre foi a ovelha negra, Valquíria. Meu pai sempre me preferiu porque eu era mais bonita e sofisticada.

Valquíria sabia que era verdade, mas precisava fingir que não era.

— Você não sabe de nada. — Eu tenho pena de você.

— Não é?! Quem foi a única que o papai ensinou a atirar? Quem era a única que estudava em escola particular? Quem era a única que fez curso de etiqueta? Quem, Valquíria? Acho que não foi você. — Melissa sorriu escarninhamente. — Você sempre mostrou uma afeição tão grande pela ralé que, olha só, hoje não tem nem um celular touchscreen.

— Sua vadia!

Valquíria se jogou nos cabelos da irmã. Eram curtíssimos, então a dificuldade para puxá-los foi alta. As duas começaram a rolar no chão, enquanto Robson tentava separá-las. Otávio assistia a mãe, que chorava, enquanto Juliana estava colocando as roupas no banheiro e Virgínia sorria para tudo, adorando o programa de barracos. Mirian e Gabriela estavam ao lado da mulher gorda, também, de certa forma, gostando do que viam. Lígia fingia prestar atenção na confusão à sua frente, mas a verdade era que estava ouvindo o que Alice falava para Rodrigo.

— É verdade isso? — Alice já havia resumido o que Otávio dissera para ela. — É verdade, Rodrigo?

Rodrigo abaixou o olhar e lembrou-se do que João, o irmão de Robson, dissera. Ele devia ter dito a verdade.

— Eu queria te contar.

Alice começou a chorar.

— Eu achei que você estava sendo completamente honesto comigo. A gente dormiu juntos. Eu não acredito que você fez isso.

— Por favor, Ali. Isso não quer dizer nada. Eu estava muito confuso, deprimido, carente. Ele fez isso porque eu estava bêbado. E ele só...

— Só o quê?

Rodrigo estava totalmente ruborizado. A franja lisa e castanha do rapaz caía sobre a testa.

— Ele só me chupou.

— Obrigada esclarecer os detalhes. Eu estava super precisando ouvir isso. — Alice secou o rosto com a mão. — Me desculpa, mas acho que iremos precisar de outro tempo. Só que, dessa vez, tenta não me trair com um primo, tudo bem?

— Por favor, Alice, espera. Vamos conversar.

— A gente já conversou tudo que tinha pra conversar. Você mentiu pra mim. Tá tudo acabado entre a gente.

Lígia se aproximou dos dois.

— Talvez vocês devessem conversar com mais calma.

— Não se intrometa nisso, Lígia, por favor — rugiu Alice, levantando a mão. Ela tinha perdido a cabeça e quase dera um tapa na sogra. Ou ex-sogra, não se sabe.

Lígia sentiu-se intimidada e contrariada com a explosão de Alice.

— Na verdade, eu quero mais é que você se exploda. Nunca gostei de você. É tão feinha pro Rodrigo. Eu só suportei essa sua faceta de garota decente porque ele gostava de você. Agora se você não quer entender o lado dele, não venha descontar em mim, sua loira depravada.

— MÃE!

— Eu sou depravada? — ecoou Alice. — Acho que todo mundo já percebeu que você é apenas uma farsa. Paga de boa moça, mas é pura hipocrisia.

Enquanto as confusões se desenrolavam com fugacidade, Eduardo e Adriana eram mantidos como reféns.

— Confusão divertidíssima — comentou Jeferson, a arma apontada para Eduardo e Adriana. Atrás deles, outros caras, todos armados, estavam postados como sentinelas. — Podemos participar?

Notas finais
Agora as coisas vão esquentar. O próximo será um flashback de elucidação, repleto de uma reviravolta e surpresas que, como perceberão, terão reflexo na linha cronológica atual da estória. Aguardem.