Quem matou Afonso Dallas?

19 Episódio XVIII - Caprichos Borbulhantes


Notas iniciais
Caminhando para a reta final. É um episódio de conexão, focado completamente no passado. É uma parte indispensável para o clímax que, em breve, acontecerá. Agradeço a um acompanhamento recente. Não sei quem é, mas fiquei feliz :D

I

17/08/2014, 20h08min.

JEFERSON E AFONSO ESTAVAM NUM HOTEL que haviam alugado justamente para manter as conversas sobre o trabalho que faziam. Precisava ser um lugar recluso e aquele parecia ser o ideal. Mas a verdade era que a melhor ideia seria eles conversarem num local que ninguém os visse. Mexer com tráfico de pessoas e órgãos não era exatamente o melhor jeito de conquistar bons olhares.

— Ele quer mesmo isso? — reforçou Afonso.

— Sim — replicou Jeferson. — Disse que, do contrário, eles vão pegar a minha família.

O que Jeferson estava explicando era que o sócio deles que mexia com o trabalho sujo mesmo, em outro país, estava querendo verificar a cumplicidade entre eles. E o que isso significava? Ele queria que entregassem as atuais mulheres dos dois homens. Para Jeferson havia sido fácil, pois, naquele dia que ele o fizera, ele estava com uma vagabunda qualquer, e não a verdadeira esposa, o amor da vida dele, a mulher que estava separada dele com o filho, por ele se encontrar sumido por muito tempo sem dar satisfações. Mas, para Afonso, que tinha uma esposa, Heloisa, as coisas eram mais difíceis. Como ele poderia simplesmente entregá-la? Embora, do contrário, isso provaria que Afonso não estava se aplicando naquele trabalho, o que poderia resultar em sua saída, o que ele deliberadamente não queria, já que toda sua fortuna provinha desse ramo sujo.

No entanto, também havia o lado honroso de sua psique. Como poderia entregar sua esposa para o tráfico de pessoas? Se não a deixassem como prostitutas, como naquela novela da Globo, Salve Jorge, iriam retirar seus órgãos. E Afonso gostava tanto de Heloisa que não suportaria perdê-la dessa forma. Contudo, se não fizesse isso, ele poderia ficar pobre, o que também não queria. Logo, ele tinha que encontrar uma opção que estivesse em paralelo com esses dois pontos. Devia explorar todos os caminhos antes de tomar uma decisão definitiva.

— E se eu entregar outra mulher que não seja a Heloisa?

Jeferson balançou a cabeça.

— Eles já sabem que você é casado.

— Eu podia separar dela, então, e arranjar uma qualquer.

— Até amanhã? Duvido muito. E, de qualquer forma, quando voltasse pra ela, eles iriam descobrir, e seria ruim pra mim.

— E por que eles pegarão a sua família se eu não entregar a minha esposa?

— Porque eles sabem que eu sou muito vingativo. — Ele olhou pela janela. — Eles querem a Heloisa. Você precisa entregar ela.

Era um homem baixinho, com marcas de espinhas de sua juventude. Eram crateras profundas, estrias sobre a face prejudicada. Tinha um cabelo ralo, com um imenso vão na lateral esquerda, conseguido, segundo ele, numa briga de rua quando ele era pré-adolescente. A pele branca era ornada de cicatrizes e os dentes eram amarelados, como os de Afonso, pois ambos eram fumantes ativos. Tinha olhos escuros que se somavam à cor obscura dos fios proeminentes de sua cabeça.

— Eu vou entregá-la.

— Tenho certeza de que sim. Pro bem de nós dois.

— Você deveria saber que eu não tenho medo de suas insinuações.

— E você deveria saber que eu me importo muito com minha família.

— E eu não?

Jeferson revirou os olhos.

— Nós dois sabemos que você trai a Heloisa com tanta frequência que se os chifres dela existissem de verdade, eles tocariam o céu. — A piada podia ser ruim, mas era verdade.

— Eu vou entregar ela — repetiu, com mais ímpeto.

Era mentira, no entanto. Mas Afonso também não correria o perigo de perder suas coisas. Como pensara, encontrara o paralelo entre as duas coisas. Se Heloisa morresse, ela não teria como ser levada para outro país e ele também não perderia seu emprego, continuando rico. Ele faria isso por amar Heloisa. E amava tanto ela que até criaria um cemitério em sua mansão, para deixá-la perto dele.

Sim, era isso que ele iria fazer.

II

17/08/2014, 20h30min.

AFONSO ESTAVA DE VOLTA PARA CASA. Virgínia e Jorge estavam cuidando dos afazeres, enquanto Heloisa fazia alguns desenhos, o seu hobbie. Desde a saída de todos os filhos, há tempos, ela havia se tornado muito reclusa, sem fazer muita coisa. Seu dia a dia era basicamente desenhar e cuidar do quarto da salinha onde ficavam os quadros e pinturas. Ela era uma mulher submissa e a dependência que tinha era basicamente para isso, embora, às vezes, conseguisse mudar as ideias de Afonso, uma tarefa que a maioria julgava ser impossível.

Afonso já havia percebido que, desde a morte de Daiana, alguns meses atrás, algum tempo depois de ter se casado com Jorge, onde ele e Heloisa foram os padrinhos, um de seus grandes amigos de infância, Jorge, estava muito abatido. Começara a engordar desde então, comendo para matar a ansiedade e esquecer a tristeza. Por sorte, a filha dele lhe trazia certa paz, assim como a neta dele. Mirian havia ficado grávida muito cedo, talvez com seus quinze anos, de um colega de escola. Afonso sabia que eram elas duas que ainda motivavam Jorge a continuar vivendo, embora ele ouvisse frequentemente as brigas entre ele e sua filha.

Ele andou até o jardim, onde alguns seguranças passeavam. No caminho, trocou um olhar com Joana, a empregada com quem tivera uma única noite de amor. Fora ótima para os dois, mas era algo efêmero, sem muita importância para ele. Todavia, para a mulher, parecia a Afonso que ela estava apaixonada por ele desde então. A pobre da Heloisa era traída tantas e tantas vezes e nem se dava conta disso — ou se dava, parecia não se importar. A verdade era que Afonso gostava mesmo de Heloisa, sendo ela até capaz de dissuadi-lo de fazer certas coisas que ele tinha certeza de que faria. Porém, infelizmente, Afonso achava que devia ter um transtorno, pois tinha a certeza de que passaria mal se ficassem somente com uma única mulher. E, do contrário, se a mulher o traísse, ele ativaria o lado possessivo de sua mente e provavelmente ficaria tão mal quanto.

Mirian passou por ele quando estava ao lado da pilastra e mencionou algo como:

— Nessa semana você poderia me dar um pouco mais? O aniversário da Gabriela está chegando e que queria comprar um bom presente pra ela.

Afonso assentiu. Estava meio sem querer um sexo com a jovem empregada, o que certamente ele não teria negado se estivesse melhor. Ele tinha outras preocupações. Talvez, no final das contas, acabasse que isso pudesse se tornar a válvula de escape no fim do dia e ao término do que ele tinha que fazer.

— Tudo bem.

— Se quiser, podemos ir pra um motel. Eu estou disposta a fazer muitas coisas por um bom preço hoje.

Aquilo soou melhor.

Quando ela o deixou sozinho, Afonso chamou o outro grande amigo que trabalhava para ele, Carlos, o segurança.

— E aí, amigão, vai comer aquela bocetinha hoje? — perguntou.

Carlos era o único que sabia de tudo que Afonso fazia. Jorge até sabia como ele conseguia dinheiro, mas era totalmente alheio quanto às investidas sexuais em sua filha ou com as outras várias mulheres, como por exemplo, Daiana, que acontecera algumas vezes, e Joana, como sempre. Somente entre Virgínia e ele que não acontecera nada, pois Afonso a achava extremamente feia.

— Talvez — replicou, reticente. — Preciso que você faça uma coisa pra mim muito importante. — Carlos assentiu. Provavelmente receberia uma boa bolada para fazer isso, como sempre. — Quero que você mate Heloisa e forje um acidente de carro.

Carlos não precisava perguntar o motivo. Faria cegamente, pois confiava cegamente no amigo. Poderia ser algum motivo fútil, como traição, mas ele fingira não saber de nada para ganhar o dinheiro que iria ganhar.

— Como eu farei isso?

— Vai ser fácil. Preciso que você a envenene. — Ele olhou pensativamente para as plantas do jardim orlando a piscina. — Você não precisa nem comprar. Aqui tem uma planta muito venenosa. Basta pegá-la e fazer um chá. É bem simples. Já ensinei pros meus filhos. Agora ensinarei a você.

— Por que eu sou como um filho pra você?

— Claro. — Um filho que faz o trabalho sujo pra mim.

III

17/08/2014, 20h30min.

— DONA HELOISA, o patrão pediu para que eu te entregasse esse chá — disse Carlos, com certo receio.

Ela estava em seu quarto de pintura, e não gostava que ninguém entrasse ali. Ainda permitia que Jorge e Carlos o fizessem, pois sabia que eram de confiança, como Afonso dizia.

— Oh, obrigada, meu querido. — Ela o pegou e tomou um gole.

O patrão disse que ele agia rápido.

Heloisa, depois de alguns segundos, começou a se contorcer como uma centopeia ao ser tocada. Ela começou a tossir sangue e se jogou no chão. O barulho da música que Afonso havia colocado abafava o som de qualquer eventualidade que pudesse surgir. Em pouco tempo, a pele amorenada de Heloisa tornou-se pálida. Ela estava morta. Agora faltava forjar o acidente de carro.

IV

17/08/2014, 21h24min.

AQUELA PARTE FOI RELATIVAMENTE FÁCIL. Carlos levou sem dificuldade o peso morto e o colocou num dos carros. Dirigiu até um barranco que dava para um rio e colocou o móvel na beirada. Desceu do mesmo e, com pouquíssimo esforço, usando luvas, empurrou o carro. Ele desceu sem dificuldade, capotando, revirando-se como uma lesma sob o sal, até cair na água.

Pronto, estava feito.

V

20/08/2014, 13h13min.

POR AMAR TANTO HELOISA E TALVEZ PARA diminuir o peso que sentia pelo que tinha mandado fazer com ela, como se isso fosse diminuir um pouco a densidade e complexidade das coisas —, ele mandou construir um cemitério particular para ela. O corpo seria enterrado ali mesmo — e isso seria bom para ele, já que ficaria longe da mídia e do perigo de ser descoberto. Ninguém havia suspeitado de nada, já que a água e os cortes foram bem convincentes para a morte dela. No enterro, nenhum dos filhos havia aparecido, mas Afonso já esperava isso. Havia ensinado a eles a serem desapegados a pessoas — mas não a dinheiro; dinheiro significava vida, você devia fazer tudo por ele —, pois todas eventualmente morriam e isso significava dor e sofrimento.

A família Dallas havia aprendido esses conceitos com maestria.

VI

23/08/2014, 18h59min.

JEFERSON ACHOU QUE AFONSO CUMPRIRIA o combinado, mas o baque da morte de Heloisa soou muito conveniente para ele. Jeferson sabia que algo havia acontecido, como era de se suspeitar vindo de Afonso Dallas. E, não para menos, o sócio do exterior também suspeitou. Por este motivo, por não ter recebido a tal Heloisa, talvez apenas por capricho, pois não havia retirado Afonso do ramo, a família de Jeferson sumira.

Desde então, ele vinha arquitetando algo para acabar com a vida de Afonso. Levou anos para ter coragem de cutucar aquele ninho de vespas que Afonso representava. Jeferson era vingativo, mas também não era burro; Afonso era muito poderoso. Se ele o matasse rapidamente, ele daria um jeito e Jeferson acabaria no cilindro. Ele esperou muito tempo até descobrir que a condição médica dele não era boa. Isso amenizaria as coisas. Então, a primeira jogada fora a tentativa com Célio, muito tempo depois. Resultou numa falha, já que ele não recebera nenhuma resposta, e provavelmente estava morto.

Aquela abordagem não havia funcionado. Mas, nos meses que se seguiram, ele começou a refletir que somente a morte dele não pagaria o sangue de Brunessa e deu seu filho, um amante do Bob Esponja, o pequeno Guilherme. Afonso precisava ver toda sua família ser morta. E, para isso, nada melhor do que ficar sabendo que ela estaria junta no início do ano. Seria nesse momento que Jeferson daria as caras e levaria consigo um camarada tão convidativo.

Notas finais
Se não for pedir muito, gostaria de saber das opiniões de você. Tenho muita vontade de conhecer suas suposições, seus achismos e hipóteses, o que estão achando da história e tudo o mais. Deixe um review. Não custa nada e ainda me deixará feliz.