Quem matou Afonso Dallas?

13 Episódio XII - Reunião Pútrida


Notas iniciais
Mais um episódio pra vocês. Sim, acho que postarei rapidamente.

I

04/01/2016, 08h23min.

ALICE ESTAVA ACHANDO SERIAMENTE QUE os momentos em que aquela família se unia estavam passando de mal a pior. Parecia que estava virando festa rodear um cadáver de um dos residentes. Era macabro pensar assim, mas já era a terceira vez consecutiva que isso acontecia. Alice deixou os pensamentos de lado e fitou a multidão de pessoas. Como um bando urubus na carniça, leões vorazes nas suas presas, larvas fervilhando no esterco ou qualquer animalização própria do Naturalismo que quisesse usar como metáfora, o grupo de pessoas circundava a cama do último morto na Mansão Dallas.

— Agora não tem como dizer que foi alguém de fora — ironizou Robson, a pronúncia mineira como uma marca infindável.

— Infelizmente — completou Lígia, se encolhendo no abraço caloroso do filho Rodrigo.

— Na realidade, até que poderia ter sido — tentou Alice. — Não há nenhum segurança aqui.

— É verdade — concordou Gabriela, que estava muito aflita, como todos os outros.

— Não podemos descartar a hipótese — certificou-se Eduardo, sentando-se no sofá e cruzando as pernas. Para Alice, só faltava alguns acessórios para ele fingir que era o Sherlock. — Às vezes, temos que pensar virando o tabuleiro. Por exemplo, se isso parece que foi cometido de alguém por dentro, como vocês pensaram que aconteceu ontem, então provavelmente alguém pode ter tentado incriminar justamente alguém de nós, que seria mais provável, o que levamos a crer que é alguém de fora.

— Mas se virarmos o tabuleiro de volta — verbalizou Otávio. Beatriz ferveu ao ouvir o som arrogante —, então o culpado, que seria algum de nós, tentaria jogar a culpa em alguém de fora para livrar das suspeitas.

— Você não está insinuando que...? — falou Adriana.

— Sim — confirmou Otávio. — Acho sinceramente que pode ter sido ele. Eduardo está desde ontem tentando colocar a culpa em alguém de fora, sendo que ninguém vem nessa porra!

Para Alice, estar na presença de um morto, assim tão perto, era extremamente mórbido. Mas parecia que o pessoal não sentia tanta compaixão quanto ela. Era verdadeiramente estranho como eles agiam. Tão insensíveis, tão egoístas, tão mesquinhos, tão vis...

— Acho que são marcas de faca — informou Marcelo, vendo o morto de longe. Elas circundavam, em sua maioria, o peito. — São seis no total e parecem que foram profundas.

— Seis? — ecoou Eduardo, alisando o queixo. Alice estava começando a sentir antipatia por ele também. — Isso parece ter sido um crime cometido no calor do momento.

— Como assim? — perguntou Lígia, apertando forte o terço e o braço de Rodrigo.

— As facadas foram, sobretudo, no peito esquerdo. Isso poderia ser suficiente para matar uma pessoa, dada a profundidade e aparente força que foi utilizada. E, de qualquer forma, não seria muito difícil matar alguém tão debilitado como o Sr. Afonso — esclareceu Adriana, olhando para Eduardo em busca de confirmação. Ele estava assentindo.

— Mas são seis marcas: a pessoa continuou esfaqueando — refletiu Rodrigo. — Como se estivesse com raiva... — Seu semblante estava franzido.

— E quem ficaria com tanta raiva do Sr. Afonso? — objetivou Robson. — Ele parece, parecia, ser um cara gente boa.

— Você está redondamente enganado, amor — expôs Valquíria. — Papai sempre foi bom em atiçar a raiva das pessoas. Sempre falava as verdades que ninguém queria ouvir e tentava esconder. Ele tinha alguma habilidade pra descobrir quando as pessoas mentiam. Fica mais fácil assim.

Melissa virou para a médica.

— Foi você, não foi, vadia? — Talvez nem Melissa acreditasse no que iria dizer, mas estava com raiva da doutora depois do vexame que ela lhe fizera passar no outro dia. Queria descontar de alguma forma.

— O quê? Do que você está falando?

— Papai pediu pra você não ficar no quarto; você entra; ele acha ruim; você fala que não vai sair porque é seu serviço como médica assessora, como aprendeu ontem comigo; ele fala alguma verdades, como que você se prostituía, como essa sua cara de puta declara; você fica com raiva, pega a faca que usa para cortar os alimentos do papai; você o ameaça; ele diz que você ainda é uma puta e você mata ele, ficando tremendamente com raiva porque estava fazendo uma boa ação pra ele e ele não soube retribuir da forma correta. — Melissa se virou para os familiares. — Soa bem promissor, não?

— Mas não fui eu! — defendeu-se Juliana. Ela estava chocada com a acusação. Se estivesse em seu estado normal, ela teria pensado em uma resposta à altura, que faria Melissa ajoelhar perante ela, mas, como não estava, tudo que saíra fora essa merrequinha que ela sentia vergonha. — Não fui eu!

Valquíria se intrometeu.

— Isso realmente soa convincente

— Viu! — gritou Melissa, apontando para a irmã. — Provavelmente foi isso que aconteceu. É ela quem mais vem aqui, o que torna a teoria mais plausível. — Como se houvesse outra.

— Porém... — retornou Valquíria.

— Porém? — retiniu Melissa. — Como assim “porém”?

— Isso é tão perfeito que, como o Edu ensinou, se virarmos o tabuleiro — disse Valquíria, as tatuagens coloridas e os cabelos acinzentados brilhando à luz diurna —, tornaria as coisas bem melhores pro verdadeiro assassino. Ele mata o Afonso e bola a história mais convincente, que seria culpar a médica, a pessoa que tem mais acesso. — Nas entrelinhas, ela, que sempre tivera inveja da irmã sofisticada e maioral, estava acusando Melissa. É, parecia razoável a Valquíria.

Alice observava o clima esquentar. Era melhor ela tentar apaziguar os ânimos. Ainda não entendia como eles conseguiam ficar enfurnados num quarto com um morto, mas também não tentaria compreender. Era assim que a família Dallas era.

— Acusar uns aos outros não vai levar em nada — verbalizou, as palavras tremendo em sua boca. — Precisamos ficar calmos e analisar as coisas com clareza e inteligência.

— Muito irônico vindo de uma loira — brincou Robson.

Juliana e Alice olharam feio para ele.

— Desculpa.

Rodrigo retomou o assunto principal. Ainda estava enormemente abalado com a morte do pai — havia chorado a noite inteira —, mas precisava focar nessa outra questão.

— A Alice está certa — finalizou. — Temos de pensar com clareza.

Seguindo o fio da meada, Mirian balbuciou:

— E se... — principiou ela. Havia pensado nisso desde o início e, mesmo sendo contra as normas impostas por Afonso falar deliberadamente em frente aos Dallas, não deu importância. Aquele velho desgraçado estava morto. Ela estava ao lado de Virgínia, achando péssimo o tanto de espaço que ela ocupava. — ...o assassino quisesse garantir que ele morresse? Assim — ela estava imitando —, ele esfaquearia o velho somente para ter a certeza de que ele iria morrer. — Ela tentou elucidar melhor. — Sabe, sem chances para ele sobreviver, nem com alguma sequela.

— Mas por que alguém mataria o papai? — perguntou Melissa, fingindo que não sabia de nada. Sabia que todos tinham o papel, mas, agora, precisava somente aparentar estar desentendida. Depois ela iria expor o jogo. — Digo, a herança não seria compartilhada de qualquer forma.

— É aí que você se engana — disse Marcelo, sempre tolo. — Papai disse que havia um jeito de fazer a herança ser compartilhada. — Eles assentiram. O morto os encarava, como se estivesse prestando atenção na conversa sobre ele. — Eu encontrei um papel no quarto em que estava dormindo que dizia que... — ele pigarreou, engoliu em seco, limpou a garganta, e prosseguiu: — ...o jeito pra isso acontecer era que a morte dele não fosse natural, que ele fosse assassinado. Talvez o sujeito que o assassino sabia disso.

— O que quer dizer que você é o principal suspeito — acusou Robson. — Você era o único que sabia disso.

— Não minta, meu caro cunhado — disse Melissa. — Não finja que você não saiba; tenho certeza que esse papel estava com todos. Papai deve ter planejado isso tudo e sei que seria dessa forma. Ele deixaria esse tal papel com todas as pessoas. Sei que todos aqui sabiam disso, mas não falaram nada com medo de que as suspeitas caíssem pra você. Mas olha só: caíram, de qualquer forma.

— Bem — disse Mirian —, eu não sabia disso.

Melissa se virou para a empregada.

— Eu disse “pessoa” e não “empregada”. Você é surda?

Alice se constrangeu pela mulher. A maioria dos outros parecia estar indiferente quanto à atitude e arrogância de Melissa. Alice fingiu dar de ombros, sentindo muito pela mulher. Ela não merecia isso.

— Mas isso não era verdade, certo? — perguntou Alice para ninguém em especial. A realidade era que, pelo que Alice conhecia de Afonso através de Rodrigo, isso tinha muitas chances de ser verdade. — Eu até tinha ficado sabendo do papel, mas achei que fosse mentira. É muita loucura.

— Você não conhece o papai — disse Valquíria, balançando a cabeça, pesarosa. — Ele é muito capaz de fazer isso. Ele sempre foi tão maluco, tão insano. Ele nunca pensava com coerência, falava algumas coisas tão mórbidas, como se ele quisesse nos testar. — Percebendo que estava fugindo do assunto, ela segurou as palavras com afinco. — Mas, retornando ao assunto do papel, eu também encontrei. Também sabia que era verdade, mas...

— Eu tenho certeza de que é verdade — finalizou Otávio, em seu costumeiro tom pretensioso. — É a cara dele fazer tudo isso.

— Então, se isso é verdade — analisou Alice —, algumas pessoas não são suspeitas, como eu, Juliana e os empregados, já que não nos beneficiaríamos com essa morte.

Os mencionados parecerem gostar do argumento.

— Você está equivocada, minha cara — disse Otávio, presunçoso. — Eu não sei os outros, mas não tente tirar seu corpo fora porque você podia, sim, se beneficiar. — Ela esperava pela visão dele, mesmo odiando-o. — Se, por algum acaso, a herança fosse compartilhada, o Rodrigo eventualmente receberia a parte dele. E, até lá, você já estaria casada com ele, sendo muito prático dar o golpe do baú e ficar rica. O que acha?

— Não sou tão suja como você! — expulsou ela. — Você pode pensar assim, você pode agir assim, mas não sou como VOCÊ!

— Infelizmente, não há como provar — contrapôs ele. — Você continua sendo uma suspeita.

Meio indiferente às picuinhas, Adriana jogou as palavras:

— Então, no final das contas, o Dallas queria nos testar ou algo assim? Pra este ser o único jeito de se obter a herança dele. Mas eu ainda não compreendo tudo isso... É tudo tão maluco.

— Mas quem se importa? — perguntou Otávio. — O vovô morreu e a herança vai ser dada pra gente! Vou poder viajar, comprar meu celular touchscreen, comprar um monte de roupa de marca, um carro importado, uma mansão como essa e mais várias outras propriedades. — Ele se jogou no sofá, bem ao lado do velho. — Meu sonho se concretizou.

Alice arregalou os olhos para aquela confissão. Tudo bem que ele pudesse estar pensando assim, mas dizer em voz alta implicava em muito mais coisa do que se podia imaginar. Isso implicava que Otávio estava feliz com a morte do patriarca Dallas. Isso implicava que ele era desumano e totalmente ambicioso. Alice nunca gostara dele, e agora esse sentimento de ódio só se ampliara.

— Como você tem coragem de dizer isso? — perguntou ela. — Seu avô está morto!

Melissa balançou os dedos, uma mania que devia ter. Ela adorava mexer os dedos, seja estalando o indicador com o médio ou estralando todos juntos.

— Mas é verdade, Alice. Papai já ia morrer. Que morresse assim então, beneficiando todos os queridos filhos e parentes dele. Aquelas crianças carentes nem precisavam desse dinheiro mesmo.

Alice buscou compreensão no semblante dos outros, mas pareciam que estavam felizes com a situação, inclusive Lígia e Rodrigo. Eduardo e Adriana tentavam esconder a animação no rosto, em vão. Melissa, Valquíria, Marcelo e Otávio sorriam deliberadamente. Até Juliana e Virgínia pareciam se divertir com tudo aquilo, embora não fossem receber nada. Mas Alice sabia que as duas adoravam um barraco como aquele. Os únicos que pareciam aflitos eram Gabriela, Mirian e Jorge, que provavelmente ficariam na mesma.

Uma pena que, infelizmente, aquele assunto ainda não estava resolvido.

Afinal, eles não sabiam quem era o culpado.