Quem matou Afonso Dallas?

14 Episódio XIII - Confiança Nuviosa


Notas iniciais
Episódio de flashback. Como gosto de fazer, decisões antigas ainda influenciam no presente, e, no próximo episódio, vocês perceberão que isso procede.

I

23/06/2015, 00h12min.

AQUILO HAVIA VIRADO UMA RESPONSABILIDADE. No início, Mirian quisera fazer isso pela própria vontade. Claro, houvera seus motivos — que eram basicamente um dinheiro extra e a vontade de se rebelar depois da morte da mãe e a iminência de se tornar uma empregada —, mas, agora, as coisas haviam invertido. O jogo estava a favor de Afonso. Mirian ainda recebia uma grana pelos serviços particulares, contudo, havia, agora, um horário predeterminado, quando ele queria, tendo de fazer o que ele queria. Do contrário, embora Mirian ainda não tivesse confirmado essa hipótese, ela tinha quase certeza de que ele iria falar para o pai sobre o que a filha dele fazia durante a noite.

Mirian não sabia o motivo para permanecer naquela casa e continuar a farsa de que adorava as seções noturnas com Afonso. Se ele quisesse falar, despejar todas as catástrofes sobre o que Mirian falava, vestia ou se portava, que falasse! Bem, este era o pensamento do lado rebelde de Mirian, o mesmo lado que não suportava a morte da mãe, Daiana. Havia acontecido ali mesmo na mansão; a mulher estava limpando as escadas quando escorregou, caiu e quebrou o pescoço. Por ter ocorrido ali, durante o expediente da mulher, Mirian sempre culpou o pai; se ele lhes tivesse dado uma vida digna, Daiana nunca teria morrido.

Mas havia o lado sensato — ou quase. Era o lado que insistia em que ela devia ficar. Ela obedeceu. Se descobrissem como a jovem e doce Mirian era uma quenga, provavelmente ela seria expulsa — ou apedrejada — da mansão. Logicamente, ela não teria onde morar nem como sustentar a si mesma e a sua filha, que provavelmente viria com ela. Então, entre o ruim ou o péssimo, ela preferia o ruim, embora essa opção estivesse quase chegando ao seu limite para se tornar o péssimo. Ela imaginava que, quando chegasse, ela optaria pelo primeiro ponto e daria o fora de uma vez daquele lugar. Viveria de esmolas — ou vendendo o corpo; ela já estava se acostumando.

— Está pronta? — perguntou Afonso. Ele estava em sua cama, no quarto mais isolado do resto. Sempre acontecia ali. — Quero que faça um strip-tease.

Mirian franziu o cenho.

— Eu não sei fazer isso.

— Aprenda. Estou te pagando para fazer as coisas que eu quero.

E ela abominava essa frase. Toda vez que a ouvia saindo da boca fumante daquele velho maldito, ela sentia o estômago revirar e ameaçava regurgitar o jantar.

Ela assentiu.

Mirian começou a retirar o uniforme. Tentava ser sensual, mas sabia que era em vão. No entanto, ela achava que isso nem importava; aquele velho era tão maluco que até uma baranga vestida de macaca o faria sentir tesão.

Eventualmente, as mesmas estocadas começaram. Ele já não usava mais seu membro, e preferia usar aqueles objetos que se comprava em sexshop. Normalmente, Afonso os usava de uma forma leve e vagarosa. Mas, hoje, ele estava diferente. Voraz, impetuoso e frenético, ele a empalava irrequieta e ritmicamente. Mirian sempre tentava gemer baixo, mas hoje estava parecendo impossível. O que será que aconteceu com ele pra ter ficado assim? Ela, enquanto pensava nisso, se balançava para frente e para trás, mas a verdade era que ela sentia prazer. Entenda bem: sexo dá prazer, mas, para Mirian, naquelas condições, ela sempre achava que sua mente não liberaria o hormônio responsável pelo deleite sexual. Todavia, sempre acontecia; ela sempre gostava daquilo e acaba falando palavras que, em sã consciência, nunca diria.

— Mete essa caralho até o fundo, porra. — Talvez fosse o teatro dos primeiros dias que acabara virando conveniência.

Afonso adorava quando ela falava durante o ato. Toda vez que ela abria boca e falava algo, ele se excitava e tascava-lhe um tapa. Às vezes puxava-lhe os cabelos, o que Mirian gostava, mas não ousaria dizer isso em voz alta. A realidade era que, embora odiasse os preparativos para o sexo, saber que seria subordinada a um homem, que estaria fazendo, relativamente, tudo à força, ela adorava o sexo. Era tão bom aquela sensação de amor que Afonso transmitia. Ela sabia que isso não existia; sabia que Afonso vivia com diversas mulheres, mas ela não podia deixar de fingir que aquela relação era firme. Isso ajudava psicologicamente.

E, infelizmente, o irrefutável aconteceu. Mirian nunca ficaria sabendo que seu pai descobrira sobre seu lance com Afonso.

II

23/06/2015, 00h43min.

AO TÉRMINO DE TUDO AQUILO, Mirian se esgueirou para o quarto. Havia se vestido com rapidez, a experiência reinando; já havia feito esse mesmo procedimento diversas vezes. Esperava todo mundo dormir, verificava se Gabriela estava precisando de algo, esgueirava-se para o cômodo de Afonso, fazia o sexo da forma que ele queria, trocava de roupa rapidamente, voltava para o quarto e dormia. Ela não tomava banho, pois seria muito suspeito ouvir o barulho do chuveiro praticamente no mesmo horário várias vezes na semana. Então, ela esperava o dia amanhecer para tirar aquele odor que ficava impregnado em sua pele. Outro ponto que ela observava era o fato de que sempre ignorava o estado dos outros vassalos. Nunca verificava se estavam dormindo, pois sabia que estavam; o trabalho da mansão era pesado, abarrotado de coisas para fazer. Tudo que Virgínia, Joana, Jorge, Carlos e os outros seguranças queriam era dormir.

Entretanto, hoje, algo havia dado errado; Jorge havia percebido um clima de estranheza entre Afonso e Carlos e queria verificar. Era amigo de ambos — uma amizade de longa data — e tinha a intimidade de ir até o quarto àquela hora — em que ele sabia que Afonso estaria acordado, talvez mexendo nas planilhas e documentos ou vendo pornô. Carlos, Jorge e Afonso haviam vivido desde sempre juntos. Haviam trilhado o mesmo caminho até a adolescência e o início da fase adulta, quando Carlos e Jorge, mais certos e justos, preferiram o caminho do lícito ao invés do mais fácil, o ilícito, a opção de Afonso. No final das contas, acabou que Afonso subiu de vida — mas, se a polícia descobrisse que ele estava metido em tráfico de pessoas e órgãos, tudo desmoronaria como um castelo de areia depois de uma maré violenta. Jorge e Carlos, muito pobres e sem conseguir um emprego público, dependendo dos particulares, onde ganhava uma merreca e se trabalhava arduamente, retornaram, no fim, à presença do amigo mais velho. E, desde então, os dois trabalhavam para o velho.

Quando Jorge se aproximou da porta, ele ouviu os gemidos. Afonso devia ter trazido uma prostituta. Mas, não, espera. Ele conhecia aquela voz. Era a de Mirian, sua filha. Não podia ser verdade... Não era verdade... Ele espiou pelo buraco da fechadura e discerniu a pele morena, brilhando de suor, e os cabelos escuros, os cachos volitando com os movimentos dissolutos. Jorge pensou em entrar no quarto, mas sabia que, se o fizesse, o clima de pai e filha, que já não era muito bom desde a morte de sua esposa, ficaria pior ainda. Era melhor que ele conversasse primeiro com Afonso para entender a situação. Talvez eles até tivessem em um relacionamento sério — o que Jorge não acreditava, conhecendo bem o amigo.

Ao saber que aquilo havia terminado, ele se escondeu atrás do sofá do hall e fitou Mirian, desconfiada, correndo de volta para seu quarto. A estátua daquela gárgula, o amuleto da sorte que Afonso tanto gostava, que dizia que lhe protegia, mas que, no tempo presente, jazia quebrado, estava lá postado, parado, flanqueando a entrada como uma sentinela ininterrupta e incansável. Jorge caminhou até o quarto e surpreendeu Afonso, que ia para o banheiro. Provavelmente quer tirar o cheiro da minha filha do corpo pra não deixar suspeitas do que aconteceu aqui.

— Oh, Jorge, o que faz acordado a essa hora?

O empregado iria conversar sobre Mirian agora, mas seu foco, no começo, era outro.

Do outro lado da ladainha, Afonso ruminava as coisas. Estava extremamente angustiado com o que tinha acontecido mais cedo, quando aquele cara aparecera em frente ao seu portão, com uma arma em riste. A sorte dele fora que Carlos, seu segurança favorito, o havia visto primeiro e lhe imobilizado. Afonso não tinha certeza, mas ele supunha algo. Devia ter alguma coisa a ver com Jeferson, depois de todo o ocorrido de anos atrás. Afonso tinha medo de que ele resolvesse se vingar e trouxesse aquele cara, um tal de Biloca, que não era lá a pessoa mais convidativa do mundo. Se estivesse nas suas melhores condições, sem estar na iminência do câncer, ele com certeza desbravaria o mundo atrás das melhores pessoas para dar um fim naquele cretino desgraçado. Mas esse não era o caso, perceptivelmente.

Afonso sentou-se na cama. A toalha cingia sua cintura.

— Você parece meio apático. Aconteceu alguma coisa?

Jorge pigarreou.

— O que o Carlos fez? Eu vi ele indo pra floresta que circunda a mansão. Ele parecia muito desconfiado e estava carregando alguma coisa.

Jorge não precisava ficar dando rodeios. Afonso gostava disso, mas não exatamente agora. O velho passou a mão na testa rugosa.

— Eu falei pra ele ser cuidadoso. — Afonso olhou diretamente nos olhos do amigo. — Eu sei que posso confiar em você. Bem, um homem apareceu aqui e tentou me matar. Carlos viu ele primeiro e pedi a ele para que desse um fim nele.

Jorge não estava surpreso. Conhecia o trabalho suspicaz de Afonso e que ele exigia medidas frias e drásticas para continuar a lhe dar dinheiro, despejando aos montes.

— Entendo. — O barrigudo coçou o queixo. Agora vinha a parte difícil. — O que você está fazendo com minha filha? Estão namorando ou algo do tipo.

A pergunta abalou Afonso, mas ele fingiu inexpressividade.

— Não era pra ter visto isso, meu caro amigo. — Afonso se levantou e manteve o olhar de águia fixo no pequeno ratinho barrigudo. — Se você fosse qualquer outro empregado, eu já teria te mandado embora. Mas, como é meu amigo, irei te explicar a situação. — Afonso suspirou. Precisaria contar tudo desde o início. — Quando Daiana morreu, Mirian ficou muito abalada. Ela disse que queria que Daiana tivesse um enterro digno, mas que não tinha dinheiro pra isso. Então, ela começou a vir até meu quarto...

— Mas Heloisa ainda era viva quando Daiana morreu — objetivou Jorge, esperando que tudo aquilo fosse mentira.

— Heloisa era boa, mas, convenhamos, sua filha tem um corpo e uma energia que... — Percebendo que Jorge não estava gostando do assunto, ele tentou amenizar: — Ela continuou vindo aqui desde então.

— Por quê? — indagou ele, aflito, meio tremendo. — Eu lembro que ela conseguiu comprar um caixão muito caro pra mãe dela. Eu não sabia com qual dinheiro ela tinha feito isso... mas eu não quis saber como.

— Bem — continuou ele —, depois disso, ela continuou a vir aqui. Deve ter tido os seus motivos. Talvez tenha gostado da virilidade desse velhinho.

Se a porra do teu pau pelo menos subisse, velho imundo.

— Eu sempre quis dar uma vida boa pra minha filha. Sei que tudo isso é culpa minha, e ela vive jogando na minha cara. Mas eu não consigo, Afonso. Não tenho dinheiro... Não posso fazer nada. Foi eu que a coagi a fazer tudo isso. — Uma lágrima escapou e percorreu a pele de ébano do homem. — Eu queria fazer algo por ela.

Os olhos de Jorge brilharam. Há algum tempo, ele havia falado com seu advogado, Rafael, para fazer algumas coisinhas para ele. Afonso, no entanto, sabia que poderia precisar de uma mãozinha extra nessa sua última jogada antes de receber seu atestado de óbito enviado graciosamente pelo câncer.

— Eu posso dar uma grande quantia pra ela. Grande mesmo. — Jorge agora parecia um pouco menos triste com a possibilidade de dar uma vida boa para a filha. — Mas você vai ter que fazer algo por mim. Você toparia?

— Sim, claro. Tudo que mais quero nessa minha vida é ver minha filha e minha netinha felizes.