Notas iniciais
–Idiota.
–Não vai.
–Ranzinza.
–Não vai.
–Cafajeste.
–Não vai.
–Tarado.
–Não vai.
–Gay.
–Aff. Para com isso, Grace. Vem cá. –bateu a mão no espaço vazio do sofá, ao seu lado.
–O que é? –sentei e cruzei os braços, irritada.
–Entenda uma coisa. Você não vai e ponto final. –me encarou.
–Mais é um viado mesmo, vai morrer se me deixar ir por acaso? –alterei o tom de voz.
–Melhor prevenir do que remediar. –falou.
–Eu. Odeio. Você. –gritei e corri para o quarto, trancando a porta. Não demorou muito para escutar os passos dele na escada.
–Grace. Abre a porta, vai. –gritou do lado de fora.
–Sai daqui! Se não me deixa ir, eu quero ficar aqui e morrer! –gritei e me joguei em cima da cama.
–Vamos conversar. Deixe-me entrar. –pediu.
–NÃO! SAIA JÁ! –gritei e abracei fortemente o travesseiro.
Depois de mais alguns minutos esmurrando a porta, ele finalmente desistiu e saiu dali. Pelo menos é o que eu espero: que ele tenha evaporado do planeta terra.
O motivo para aquilo tudo? Simples. Ele se recusou a me deixar sair de casa e bater perna por aí com meu namorado. Mentira, não tenho namorado. E não quero um tão cedo, que fique bem claro. O negocio é o seguinte: ele e a Lorena –estou muito irritada pra chamar ela de Lana- haviam feito um pacto com o diabo e decidiram me prender dentro de casa hoje, afirmando que eu era um perigo para a humanidade terrestre –bom pra meus amiguinhos aliens- . Logo hoje que iria ter um evento de animes, com direito a uma chuva de fogos de artifício no final do dia. Estou morrendo de raiva.
Ai que triste minha vida. Porque fizeram isso? Sabem que eu amo essas coisas que são consideradas estranhas para muitas pessoas e mesmo assim tentam me prender em casa. Nossa. Muito obrigada por não me deixarem aproveitar meu ultimo dia sem aulas.
–Merda... –a água quente e salgada saia de meus olhos e chegava à boca. Eca.
Sem mentira nenhuma agora, eu chorei MUITO. Muito mesmo, o que não é comum. Na verdade nada é comum em mim, começando pelos laços familiares e de amizade. Chorei que cansei e acabei dormindo, acordei com o barulho irritante de alguém irritante esmurrando irritantemente a porta do quarto.
–O QUE FOI CARAMBA? -gritei com todas as minhas forças.
–Levanta a bunda dessa cama e abre essa porta agora. –o loiro irritante falou.
–Pra que? –me sentei na cama, a cabeça latejando e o corpo mole.
–Quero falar com você. Abre logo.
–Pode falar, estou escutando. –falei ríspida.
–Abre, por favor. –falou novamente, com a voz mais baixa.
Dava até pena escutar ele daquele jeito, com a voz sofrida. Dá até vontade de meter o pé na bunda dele (no bom sentido, claro).
–Não. O que quer? –me deitei novamente, dessa vez de barriga para cima.
–Desculpe por mais cedo, é que... –o interrompi.
–Desculpas esfarrapadas. Se for só isso já pode ir. –comecei a assoviar.
–Me escuta, porra! –gritou e eu fiquei caladinha dessa vez.
–Me desculpe por hoje, é que eu e a Lorena tínhamos algo para resolver e você não podia saber. –falou baixinho.
–Nossa. Obrigada pela consideração. –revirei os olhos.
–Abre aí. –falou.
–...
–Grace?
–...
–Aconteceu algo?
–...
–Responde, caramba.
–Ainda odeio você. –fui até a porta e a destranquei.
Ele entrou em silencio, fechou a porta e ficou me encarando com uma cara estranha.
–Esteve chorando? –perguntou.
–Claro que não. Por que diabos eu faria isso? –cruzei os braços e virei o rosto envergonhada.
–Sua cara está horrível. –obrigada. A culpa é sua, ok?
–Eu não estava chorando, ok?
Ele fez a coisa mais assustadora que eu poderia pensar. Abraçou-me. Não que eu odeie abraços... só que desde pequena meus pais eram muito ausentes então eu não tinha nenhum tipo de demonstrações de afeto com ninguém e quando isso acontece eu ficou desconcertada e sem saber o que fazer.
–Me solte. Que merda você tem na cabeça? –bati em suas costas, mas ele mal se mexeu.
–Desculpe. Por favor, não me odeie. –me apertou mais e eu fiquei sem saber como reagir a tudo aquilo.
–Tarde demais. –falei.
–Você chorou muito? –sussurrou.
–Aham. –a água estava saindo novamente.
–Shhh. –ele rodeou minha cintura com as duas mãos e começou a me balançar, me ninando.
–Não sou mais um bebê, idiota. –sequei a água salgada.
–Pra mim você é. Por isso preciso sempre cuidar de você. –beijou o topo de minha cabeça.
–Tá bom, já chega. –o empurrei e ele me soltou.
–Vem comigo a um lugar legal? –sentou na cama.
–Depende. Onde?
–Se arrume e venha comigo. –se levantou e saiu.
(...)
Eram 5 da tarde, mas tava’ um frio de matar, então vesti uma calça jeans escura, uma blusa preta de mangas, uma sapatilha preta, uma jaqueta cinza com um desenho estranho atrás –a jaqueta batia na bunda, era grande e quente-, deixei os cabelos soltos, peguei o celular e os fones e desci pra me encontrar com o loiro. Ele vestia uma calça jeans, tênis de marca, uma camisa branca e tinha um cachecol xadrez de vermelho e preto na mão, seus cabelos estavam naturais: lisos e arrepiados.
–Está muito bonita. –se aproximou de mim e enrolou o cachecol em meu pescoço.
–Pra que isso? –o encarei.
–Pra que fique quentinha. –beijou minha testa e riu da careta que eu fiz.
–Está tentando me agradar pra conseguir meu perdão? –estreitei os olhos.
–Quem sabe... –riu.
Fomos andando até não sei lá onde, parece que quanto mais andávamos mais gente tinha nas ruas. Até que esse lugar me é familiar...
–Grace? –o olhei pelo canto do olho, sem parar de andar.
–O que?
–Sabe que lugar é esse? –segurou meu pulso.
–Sim e não. –respondi, ignorando seu atrevimento.
–Viemos ver os fogos. –ele riu da minha cara de surpresa.
–Como assim? -me afastei dele.
–Sei que você perdeu o que queria ver aqui, mas podemos ver a queima de fogos. Se ainda quiser, claro.
–Obrigada. -pulei em cima dele, mas não o abracei.
–Por nada, bebezinha. -assanhou meus cabelos.
–Não, ainda não está perdoado.
–E o que preciso fazer para ser perdoado? -segurou meu pulso novamente.
–Sei lá. Voltar no tempo, talvez... -segurei o riso.
–Não acha que é querer demais? -fingiu indignação.
–Na verdade... não. -ri da cara dele.
–Megera.
–Vamos rápido, aqui tem tanta gente que eu duvido que possamos achar um local bom para ver os fogos. -comecei a puxá-lo.
Andamos por entre o mar de pessoas até chegarmos a um local com menos gente, é uma lástima que lá estava cheio de casais. Não fiquei nem um pouco envergonhada ou triste por ser uma solteirona. Muito pelo contrario.
–Vai começar daqui a pouco. -avisou.
–Tá. -terminei de comer meu churros de doce de leite.
–Mais parece um bebê mesmo. -limpou minha boca com um guardanapo.
–Posso fazer isso sozinha, sabe.
–Você... -apontou para mim- Até parece.
–Calado. -me assustei com o barulho dos fogos.
Depois de uns 30 minutos de queima de fogos, eu já tinha até esquecido que ele estava comigo.
–Vamos? Tenho aula amanhã. -chamei.
–Ah... hmm.
–O que foi? -perguntei.
–Nada não. Vamos, está esfriando. -puxou meu cachecol, quase me matando enforcada.
–Pra que toda essa pressa agora? -corri para acompanhá-lo.
–Tenho um mau pressentimento. -se aproximou de mim.
–Não vamos morrer, não é? -o encarei.
–Claro que não. Até porque nada aconteceria com você, não comigo por perto. -riu.
–Isso foi até reconfortante, mas...
–Ahn?
–Nada não.
–Opa. -alguém bateu em minhas costas e quase me derruba.
–O que foi? -encarei a figura estranha atrás de mim.
–Desculpe. -riu fracamente, passando as mãos pelos cabelos.
–Nada não. -aceitei as desculpas.
–Sou Nathan. -estendeu a mão em minha direção e eu a apertei.
–Gra... -alguém me interrompeu.
–NATHAAAANNN! -uma mulher vinha correndo em nossa direção.
–Parece que terei que me retirar, vamos ter que deixar as apresentações formais para uma outra hora. -fez uma pequena reverencia e saiu correndo.
–Cara estranho. -=falei- Que cara assustadora é essa?
–Vamos.
(...)
–Vou dormir em outro quarto hoje. -avisei.
–Não.
–Nem adianta. Tenho que descansar pra amanhã. E SEM você. -bati a porta do quarto e sai.
–Deixo por hoje então! -gritou.
–Vá a merda. -gritei de volta, rindo.
–Só se você for comigo. -esmurrou a porta do quarto de hospedes.
–Vai dormir! -gargalhei e ele também, eu acho.
–Até amanhã, bebezinha. -sussurrou.
–Boa noite... -foi a ultima coisa que eu me lembro de ter falado antes de cair num sono profundo.
Fale com o autor