E cá estávamos, surtando com a festa de fim de ano, bebedeiras, fuga da hora de organizar a festa pra ir jogar sinuca, ser puxado pela orelha pela Mari e pela Júlia. E esses foram nossos últimos momentos como nós éramos antigamente, antes de as coisas começarem a mudar.

Eu esperava pelas provas de vestibular como os outros, mas os outros por mais um motivo em especial, confirmar que carreira imbecil eu seguiria, se a razoável contabilidade, ou se eu esconderia meu rosto e meu nome para sempre em algum arquivo ou biblioteca como especialista em coisas cheias de traças.

Havia teorias também sobre eu fazer alguma coisa relacionada a teologia graças às viagens psicodélicas da minha mãe como vidente e maga. O que não seria de todo incorreto, considerando o que eu vinha tentando aprender sobre mim mesmo, uma gama de simbologias que estavam em um pequeno espaço da minha pele e que tinham me trazido soluções, mas também dúvidas, e isso era um problema para a minha concentração nos dias de prova que me aguardavam em breve.

Eu estava terminando com o Luís de fazer os arquivos de música pra entrada dos alunos na cerimônia, quando tivessem que levantar, pagar seu mico de toga e beca, e pegar o diploma de conclusão do colegial. Aparentemente, as músicas tinham muito a ver com o que éramos. A Mari, apesar de tudo, escolheu algo parecido com o que ela era, uma música suavemente violenta demais para uma menina, Violent Revolution do Kreator; o Rick tinha ficado com uma versão interessante, Dota de Basshunter, um clássico em homenagem aos nerd’s e viciados em jogos; a Júlia pegou alguma coisa fofa, eu diria, Cold de Crossfade; o Jamal ficou com algo mais alegre, evidentemente, Whisky In The Jar na versão do Metallica; o Luís me surpreendeu, eu pensei que ele pegaria algo um tanto cult como Dream Theater, ou algo mais politicamente correto pras ideias dele, ou alguma coisa engraçada, mas ele pegou uma música um tanto filosófica demais pra que eu possa definir o que se passava na mente dele, Jeg Faller do Burzum; e eu... Bom, eu poderia ter pêgo uma sonata em piano ou algo mais elegante, poderia ter pêgo algo de peso como Megadeth, mas por fim, acabei escolhendo algo que me trouxesse um pensamento um tanto filosófico também, como o Luís de certa forma, mas não pelo mesmo motivo provavelmente, então fiquei com Lionheart de Tristania.

Provavelmente a minha escolha foi uma passagem pro que logo eu teria que admitir, talvez fosse um prenúncio de que eu teria que ter uma alma forte o suficiente para me manter como eu sou, depois de tudo que provavelmente aconteceria em um ambiente hostil como uma universidade.

E essa noite, foi a última vez que eu vi até dado momento, a Mari com a mesma expressão altiva e leonina, com a pose de poder que ela sempre teve, com a ousadia de se intrometer entre coisas que não deveria, foi provavelmente o último momento de diversão que tivemos até o fim da era cinzenta da Mari. Foi o momento de beber todas que poderíamos, e tocar nesse estado com a banda na formatura, mesmo assim tendo uma excelente performance, foi o momento de apostar coisas idiotas no pôquer e de pela ultima vez fazer coisas imbecis com a turma inteira, como Verdade ou Consequência e outras Berlindas macabras para o pobre vitimado pelos colegas.

Tínhamos menos de um mês para as provas de vestibular, e tínhamos menos tempo ainda para nos ver, quanto mais para aprender por conta própria conteúdos que nunca estudamos na escola. Mas pelo menos, tínhamos uma coisa daquele dia de formatura que levaríamos até o fim do mundo. A promessa de que estaríamos juntos entrando pelos portões da universidade como um grupo que nunca deixaria nenhum de seus membros pra trás.

E no primeiro dia de provas eu cheguei com um bom tempo de antecedência no meu local de provas, conferi novamente o cartão de entrada com o número da minha sala de provas, meu nome, aquele nome... E o curso que eu insanamente tentaria fazer, e que insanamente, me comprometi a concluir, custasse o que custasse.

Provavelmente, olhando para a capa do caderno de provas, todos nós estávamos fazendo a mesma coisa, olhando para as canetas, todas iguais, presente da minha mãe, para que estivéssemos conectados espiritualmente.

Não sei o que ela fez, mas provavelmente deve ter sido alguma magia estranha, porque eu me sentia calmo, e não parecia que iria esquecer as coisas que eu precisava lembrar. E no fim, parece que eu não esqueci mesmo.

Logo, estávamos aglomerados diante de um grande quadro de listão dos aprovados em ordem de pontuação, sendo amassados por pessoas que nunca vimos antes, e agradecendo pelo fato de o Luís ser grande o suficiente para amedrontar algumas pessoas e deixar espaço livre nos arredores para respirarmos.

Nesse dia, como eu esperava, o Rick foi o primeiro colocado geral, o Luís o quarto, o Jamal o décimo segundo, a Júlia a décima terceira, a Mari a vigésima primeira, e eu, evidentemente, fiquei um tanto longe de alcançar meus amigos, mas fui aprovado, em quadragésimo nono. Pelo menos, estava entre os cinquenta primeiros. Apesar de que todos pensavam que o meu esforço era inútil nesse sentido, porque se eu pegaria um curso sem muita concorrência não precisaria de uma pontuação tão absurdamente alta.

Só que dessa vez, eu não me escondi embaixo da classe com vergonha de mim mesmo, dessa vez eu dei a cara a tapa, e não peguei uma opção de curso com 0,8 candidatos por vaga pra não ter colegas. Dessa vez, eu estava disputando o terceiro curso mais concorrido da universidade, depois do da Mari, medicina, depois do da Júlia, Psicologia...