Quem Sou?

16 Reconhecimento


Nesse momento, eu reconhecia, ao ver os portões, ao ver meus amigos esperando pelo evento de inauguração do primeiro semestre do ano, e de nossa vida universitária, que ali eu poderia ser quem eu quisesse. Ao admitir que este círculo social não iria sobrepujar quem eu sou por perceber a minha fraqueza, eu decidi assumir integralmente quem eu sou.

Aqui eu percebi que se eu não fizesse algo assim, eu não mais teria coragem de fazer. Que se eu continuasse me escondendo, eu seria tão cinzento e sem personalidade quanto aquela parcela de 90% da população que passava por mim, sugando a minha energia vital, me deprimindo, me deixando como um peixe fora d’água. A partir deste momento da minha vida, eu seria o que deixa os outros sem chão, eu seria o que faz as pessoas repensarem. Não existe nenhum motivo para que eu repreenda a minha personalidade tentando agradar a todos, eu nunca poderia fazer isso.

Não se pode agradar a ninguém buscando dizer o que as pessoas querem ouvir, mas se pode agradas as pessoas que realmente importam quando somos simplesmente o que nossos instintos nos mandam ser, quando dizemos o que as pessoas precisam ouvir. E a partir desse passo que nós dávamos juntos, de forma ridícula, na frente das pessoas que queriam passar por nós, pisamos todos juntos dentro da universidade e decidiríamos nossas vidas independentemente do que as outras pessoas quisessem opor contra.

Eu não serei um médico como parte da minha família desejava, eu não serei um xamã como a minha mãe talvez esperasse de alguém problemático envolvido com misticismo. Eu serei outro tipo de pessoa. Eu serei o que eu desejo ser.

Eles chamariam os melhores qualificados dos principais cursos nesse dia de abertura aos calouros, e o Rick foi o primeiro a subir no palco improvisado de forma estranha para o discurso. Depois dele, o Luís, que foi o primeiro do seu curso em classificação, o Jamal, também com esse quesito, a Júlia queria até falar em público, mas ela foi a terceira colocada do curso dela. A Mari foi a décima do seu curso, e por algum motivo estranho, a minha classificação, e de alguns alunos, tinha sido alterada por erro de cálculo a alguns dias atrás, não que isso mudasse a lista de aprovados, mas isso me colocou como o oitavo colocado geral, e como o primeiro do meu curso.

O que significa que eu não tinha um discurso pronto quando chamaram o “Sr. Dullius” diferentemente dos outros, que foram chamados pelo nome completo. Então, na frente da universidade inteira, pelo menos naquele turno, e de boa parte dos docentes, eu teria minha prova maior de que tinha que deixar de ser covarde.

Eu comecei o meu discurso improvisado, as pessoas me olhavam desconfiadas, minha roupa nada adequada a formalidades, simplesmente um jeans rasgado, uma camisa social cinza chumbo mal ajustada e sem gravata, all star velhos, e, foi incrível que eu não tropeçasse nas palavras e que as pessoas me ouvissem.

Olá, eu fui o primeiro colocado do meu curso, por algum acidente do destino. – eu disse de forma a fazer alguns rirem – Então, nessa espera pelo início das aulas, não pensei em um discurso. Mas consegui entender porque eu escolhi esse curso. O Direito é um curso para os covardes. Covardes como eu que se escondem atrás de palavras, ou de mesas, ou atrás de uma ideia elaborada de tal forma a parecer tão complicada que não há como contestar. Covardes que precisam de um Juiz para decidir por coisas que nossos punhos, ou nossa personalidade, não tem coragem de decidir. Isso foi o que pensei quando eu me matriculei no curso.

Agora, eu penso em outro motivo. Direito é o curso em que somente se poderá vencer, se tiver coragem de dizer o que nunca ninguém disse, de ousar o que ninguém nunca ousou, e isso é um curso que somente os corajosos por natureza enfrentam. Aos meus amigos, de longa data, que não sabiam se eu teria coragem de ir para a universidade, que não acreditariam provavelmente se eu subisse nesse palanque, que não acreditariam que alguma vez na vida eu escolheria o terceiro curso mais concorrido da universidade aqui... Somente tenho a dizer, obrigado. Porque se não existissem, eu não aprenderia o que é coragem, e não faria o que eu tenho certeza que gostarei de fazer por toda minha vida.

Ousar o que poucos ousarão, lutar comigo mesmo a cada dia para ter coragem de ir à luta pelo trabalho que eu escolhi, e aprender a me divertir com ele. Então, apesar de eu muito ter dito, na verdade isso não é nada. Eu não sou nada. Ainda... Mas mesmo assim, acredito que a única coisa que eu não fiz nesse discurso, e a única que vai contar como parte desse discurso na memória de vocês é que eu me apresente de forma adequada...

Bom dia, bem vindos à universidade, e ignorem esse discurso estúpido, de Lúcifer Dullius, o Advogado do Diabo.

Eu não poderia acreditar que estava voltando para a minha cadeira, que as pessoas estavam rindo e me aplaudindo, provavelmente pensando que era uma brincadeira tudo aquilo, e que meus amigos estavam me olhando com espanto, que a Mari tivesse ficado pálida, mais que ela poderia ser normalmente, que o Rick tivesse deixado o videogame cair no chão e quase quebrar e nem tivesse percebido isso, que o Luís simplesmente olhava sem saber o que dizer, que o Jamal e a Júlia ainda aplaudiam com os demais, e que os professores pareciam ter achado engraçado o discurso, passaram pro próximo e simplesmente não se preocuparam com isso, exceto o comentarista que chamava os alunos, e que leu aquela lista, em que realmente constava que esse é meu nome.

Que não foi uma brincadeira, e que realmente eu estava ali rindo disso e ignorando a sua cara feia, eu... Lúcifer Dullius.

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