Os alunos podem ter achado isso estranho, não devem ter acreditado muito provavelmente em nada do que eu disse, mas eu me sentia leve com a possibilidade de simplesmente ser o que eu sou e ignorar a opinião padronizada do restante do mundo. As pessoas não deveriam cercear o direito de sermos quem somos só porque somos diferentes.

Eu me recuso a tentar ser igual a todos, como sempre tentei ser, eu entendi o que a Mari queria dizer quando decidiu que não mais ficaríamos à mercê de algum engraçadinho na escola, o que aquele velho daquela alucinação no verão, naquele barco, fez porque eu menti sobre o meu nome, o que significa ser eu. Aparentemente, o choque que a Mari teve com a minha decisão de ser um pouco mais corajoso, de mudar meus conceitos, de acreditar em mim, um pequeno choque. Era visível, quando ela parou pra pensar por um segundo, depois, e olhava para o saguão de entrada decorado para os calouros, provavelmente ela estava pensando que valia a pena ela ter por um momento me escutado e seguido o que ela queria, e não o que o namorado novo dela dizia.

Ela tinha mudado muito, mas eu não queria me conformar com isso, e mesmo que o Luís não tivesse feito nada, e o Rick somente tivesse parado para observar a situação, eles também não queriam que ela mudasse. Mesmo que o Jamal e a Júlia tivessem finalmente se entendido, talvez, do jeito que as coisas começaram a ficar estranhas, eles preferissem que as coisas fossem como antes.

Eu começava a entender melhor algumas coisas que se passavam na minha mente, e mesmo com o passar dos dias, parecia que cada dia na universidade era o primeiro, afinal, boa parte das coisas ali eram novidade.

Alguns dos meus professores eram legais, divertidos, ensinavam coisas de forma muito agradável, chegavam atrasados, fugiam na hora do intervalo, riam, conversavam, ou eram sérios, não deixavam fazer perguntas, mas davam uma aula boa o suficiente pra que não se precisasse fazer as perguntas.

Outros eram pessoas que eu ainda tinha minhas dúvidas se realmente tinham terminado o segundo grau. Eram pessoas tediosas, sem conteúdo, sem visão de mundo, que me olhavam atravessado depois de ler o meu nome na chamada, que as vezes nem mesmo tinham coerência ou sabiam escrever. Isso era muito cansativo, era como se sem querer, ou talvez querendo, eles estivessem levando a inteligência dos alunos rumo à destruição, transformando-os em imbecis, e o pior de tudo era que eles conseguiam.

Com o tempo, era cada vez mais notável que as alunas do curso iam às aulas para competirem com as outras em beleza, moda, e outros quesitos, e que provavelmente o silicone de seus seios pesava mais que os seus cérebros. Não é que eu não achasse interessante estar em um curso com garotas bonitas, mas depois de conviver um pouco com elas, cheguei à conclusão que beleza nenhuma compensa a burrice humana.

O Rick e o Luís podiam resmungar que eu era um mal agradecido, tendo tanta sorte no meu curso e reclamando, mas eles entenderam o que eu queria dizer com desprezo à burrice humana quando foram na primeira festa do meu curso. Realmente, era de uma suntuosidade e beleza que ofuscava, tanto que chegava a ser feio.

Eu conseguia imaginar aquelas meninas horríveis sem aqueles quilos de maquiagem, e elas eram bonitas, era possível estimar o que elas seriam sem aquelas joias, roupas indecentes e implantes de silicone, e elas eram bonitas. Por algum tempo eu tinha me perguntado o porque de essas pessoas acharem que a beleza física tinha tanto valor, tanto para que elas se tornassem tão feias de espírito, mas percebi que elas não entenderiam.

Aquelas pessoas lutavam para ser bonitas, só que elas não percebiam que elas já eram bonitas, que estavam simplesmente tentando fazer o impossível, buscando uma perfeição que não existe, e chegando ao ponto de parecerem aberrações. Elas não entendiam porque a Mari, com um vestido simples, de um modelo fora de moda, com brincos delicados e quase invisíveis, sem nenhuma maquiagem e com os cabelos cacheados revoltos, parecia tão feliz entre nós, porque a Mari tinha um garoto aos seus pés com uma aliança de compromisso no dedo, e elas não.

Possivelmente, a Mari seria como elas se não tivesse a nossa proteção, porque aquele imbecil que estava com ela era tão cinzento e sem personalidade quanto aquelas pessoas, e logo ela iria fazer um alisamento no cabelo, usar quilos de reboco de maquiagem, usar joias e roupas exageradas e fazer as unhas combinando com a roupa. Eu temia isso, e provavelmente os outros também.

A Mari era uma das pessoas mais fortes entre nós, eu era o covarde, não poderia admitir que ela se rendesse enquanto eu luto contra esse sistema perverso que deleta a mente das pessoas. Ela nos ensinou o que era ter personalidade, ela não poderia se contradizer. Era o que esperávamos, e prosseguíamos convidando-a para nossas festas, para matar aula e ir jogar sinuca no bar de uma tia muito legal, que tinha um nome, mas que passamos a chamar de “O Bar da Tia”, mas mesmo assim, mesmo que tivéssemos freado a mudança que a Mari estava tendo, aquele relacionamento dela parecia estar mais influente que nós, que estivemos ao seu lado por tantos anos.

E então, por mais que nós tivéssemos tentado, as coisas se desenrolavam para mais um problema, era o que parecia evidenciar-se. Ela estava fazendo o que eu me neguei a fazer. Ela estava desaparecendo, se tornando como todo mundo, deixando de fazer a diferença, de ser quem realmente era.