Quem Sou?
18 Troca
Esse é o momento em que eu descubro o quão complicado eu sou. Ainda não sei por que essas coisas acontecem comigo, mas talvez eu possa descobrir, seja lá o que for isso tudo. Mas ficar pensando em coisas aleatórias e perder o foco de atenção talvez seja puro estresse. Tenho coisas mais importantes pra pensar que isso.
Já estávamos a algum tempo nos sentindo incomodados com algo próximo, embora não pudéssemos comentar isso com a Mari. Talvez porque ela diria que somos intrometidos e idiotas. Talvez porque ela se sentisse ofendida por nós querermos protegê-la como sempre, como se ela fosse uma menina frágil, ela nunca gostou disso, e ultimamente estava mais restritiva que antes, mais calada, e isso não me deixava nada satisfeito.
Eu, o Rick, e o Luís. Jamal já tinha ido para casa com a Júlia mais cedo. Isso era um padrão quase. Ultimamente não esperávamos mais pela Mari. No começo pensamos que seria somente uma novidade, mas os meses iam passando e ela ia se distanciando. Poderia ser somente uma barreira imposta por um momento novo da nossa vida. Afinal, namorados não entendem essa de “meus melhores amigos da escola” como se fosse alguma coisa normal. E ela tinha esse tal de namorado ainda... Não é que não quiséssemos a felicidade da Mari, mas pelo menos pra mim, aquele sujeito não parecia ser lá grande coisa, pela cara do Rick, eu não duvidava que ele tivesse desenterrado alguma informação valiosa sobre aquele cara, até porque, pra que nos últimos tempos, independente de saber que a Mari não queria que ficássemos por perto tanto quanto antes, o Rick insistia conosco para que saíssemos de nossas aulas e nos encontrássemos onde poderíamos falar com ela.
O Luís simplesmente parecia mais quieto que de costume. Mas isso poderia ser somente por alguma coisa o irritando na aula, ou por algum fora que tenha levado de alguma garota no último show da banda. Falando da banda, ultimamente eu tenho sintetizado a bateria, a Mari saiu da banda, sem explicar o motivo.
Nos últimos tempos, provavelmente todos nós concordamos com o Jamal quando ele disse que o que havia de estranho não era a Mari, mas o namorado dela. Mais especificamente, o que ele estava fazendo com ela. Quando ele falou eu achei que ele estivesse fazendo uma daquelas revelações míticas espirituais pelo modo como ele disse, era pra mim simplesmente o que o namorado dela disse para convencê-la a se distanciar. Mas depois, prestando mais atenção, eu notei coisas estranhas, e agora, eu poderia dizer “bingo!”, porque eu acertei no meu pensamento, e pela cara do Rick, ele também pressupôs a mesma coisa.
A Mari poderia ser dobrada com palavras talvez, mas ela se revoltaria com o tempo, ela não conseguiria reprimir aquele impulso de ser quem ela sempre foi. E eu percebi que mais atento à cena que nós estava Luís. Eu não entenderia se não tivesse visto o que eu vi depois.
A Mari e o garoto pareciam discutir. Era o horário de meio das aulas da noite, dessa vez o Rick fez a gente sair cedo demais da aula, mas depois, eu não me importei mais com isso. Quando eu vi que ele começou a se tornar mais imponente, quando eu vi aquele agarrão no braço dela, eu entendi o que foi a sensação do outro dia em que eu a vi como se tivesse torcido o pulso, e eu entendi porque a desculpa dela de “tendinite” por causa do computador, que já não fazia sentido porque ela não era da informática, ela era aluna de medicina, eu entendi porque aquilo me dava uma sensação desagradável. Era isso que o Jamal queria dizer com “o que ele estava fazendo com ela”. Ela não ficaria quieta, eu conhecia a Mari, ela era o poço de coragem entre nós, ela era o que iluminava o nosso espírito, mas o que eu via não era a Mari que eu conhecia. Ela tinha um olhar triste, ela não reagiu, e eu sentia como se fosse ao meu rosto aquele tapa de mão cheia.
Só que antes que eu me movesse para fazer alguma coisa, antes que eu tivesse um pouco da antiga coragem da Mari, o Rick me parou, e eu entendi porque em menos de meio segundo, quando eu vi o Luís passar como um vulto por mim, e o Rick saiu andando calmamente atrás dele, deixando-o se distanciar mais de nós e se aproximar como uma fúria daquele lugar. Eu segui o Rick, não sabia o que ele pretendia, mas ele parecia saber o que iria acontecer.
Eu vi em menos de cinco segundos o Luís derrubar aquele garoto, apesar de ele ser um pouco maior que eu, ainda assim bem menor que o Luís... Eu não fazia comparações de ninguém com o tamanho do Luís, ele quebraria qualquer cálculo que eu tentasse fazer, e isso que eu já não sou muito bom nisso.
Até aí aparentemente o Rick tinha certeza de que isso aconteceria, mas eu vi uma expressão assustada tomar conta dele em um segundo. E eu entendia porque, porque eu sabia o que aconteceria em seguida àquela cena.
O garoto estava com a cara no chão, iria levantar-se, mas não poderia mais, provavelmente, ele não poderia fazer muita coisa depois daquilo. O Luís enfiou o pé no meio das costas do garoto no chão, e eu e o Rick sabíamos que isso não daria nada de bom... Ele puxaria os braços dele para trás, no melhor dos casos os ombros se deslocariam, ou os braços quebrariam, no pior dos casos...
- Luís, não... A Mari não tinha voz pra isso, o vergão vermelho no seu rosto era muito evidente na pele branca, mas mesmo assim ela tentaria impedir... Não, ela não tinha coragem, por algum motivo, era como se a coragem dela tivesse sido drenada. Será que nem mesmo sabendo que com um pouco de força o Luís quebraria a caixa torácica daquele cara e ele morreria ela podia fazer alguma coisa? Como a antiga Mari faria e deixaria todos nós com medo...
O grito de dor daquela vítima logo foi silenciado por um barulho de quebra. Eu pude ouvir os ossos se partindo. E eu sabia que aquele menino tinha morrido.
A Mari estava em estado de choque, resmungando para si mesma que ele não poderia ter morrido, o Rick parecia estar similarmente impressionado, mas a expressão dele era mais a de um cientista que descobriu algo que exatamente de preocupação, Luís ainda estava com aquela expressão enfurecida se acalmando, como se estivesse saindo de um transe.
Eu... Eu não sei o que eu estava sentindo, eu simplesmente via aquilo como apenas mais uma coisa entre tantas que aconteciam. E eu sentia dentro de mim o foco da situação se perder, eu não conseguia me aproximar dos sentimentos deles, por mais que eu estivesse preocupado com a Mari, por mais que eu estivesse curioso a respeito do Luís e do Rick nesse momento. Era como se houvesse algo mais importante, apesar de que a minha atitude era imbecil, porque era óbvio que aquela pessoa tinha morrido na minha frente.
Eu via o sangue escorrendo do canto da boca dele, a testa que sangrou quando ele foi jogado de cabeça no chão, mas mesmo assim, eu me aproximei calmamente. Provavelmente eles viam isso como outra forma de estado de choque, que eu realmente senti, uma surpresa estupefata, um momento de não saber o que fazer, mas uma parte de mim se manteve racional, uma parte de mim tinha a coragem da Mari, tinha a audácia do Luís, a astúcia do Rick, e o espírito otimista do Jamal.
Eu peguei o pulso dele, não havia mais chance de ele estar vivo, mas por um instante eu tirei a minha mão, eu senti meus dedos queimarem e senti algo estranho com a minha tatuagem, de tudo que ela poderia ser, nesse momento ela era estranha, e ao mesmo tempo familiar pra mim. Era como se me lembrasse de algo que eu não sabia ainda. Eu tomei o pulso do presumido morto, e com a outra mão imediatamente peguei o celular, o que os outros pararam para observar com uma expressão estranha.
- Alô... Sim, por favor, uma ambulância para o terminal de trem número sete... Sim, é urgente. Sim, o responsável sou eu... Sim, Sr. Lúcifer Dullius, por favor, anote... Sim, o número que eu estou ligando é o contato. Aguardarei aqui com o ferido.
- O que você está fazendo, Dullius? Perguntou Rick um tanto surpreso.
- Rick, aproveite que não tem ninguém na estação agora e ninguém os viu, leve esses dois embora daqui, agora. Eu disse, um tanto mais imperativo que o normal, eu estava no controle da situação agora. Não precisavam criar caso por causa disso, não precisavam incriminar ninguém, eu poderia resolver isso.
Rick pareceu surpreso com isso, Luís ainda estava com uma expressão estranha, como se pensasse “o que eu fiz...” e Mari ainda estava em estado de choque. Eles a levaram, e eu voltei meu rosto para o garoto no chão, eu sabia que ele estava acordado.
- Tu entende o que aconteceu? – eu perguntei, e insisti por uma resposta – Tu pode me ouvir, e pode responder, eu sei disso, não se finja de morto, ou eu mesmo faço com que volte para o mundo dos mortos agora mesmo.
- Eu ouço... Ele respondeu.
- Então entenda o que aconteceu. – Comecei eu calmamente, teria tempo ainda, mas isso não demoraria muito a ser entendido – Você morreu, há poucos momentos atrás, você foi morto. E agora, eu o trouxe de volta.
- Não sei do que tu tá falan... Ele começou, mas eu não o deixei continuar, apesar de continuar calmo.
- Tu teve o tórax partido e estraçalhado, e seus órgãos internos eram inúteis. Mas, agora, todos os ferimentos e ossos quebrados estão nos seus braços. Agora tu tem 19 partes quebradas nos seus braços, não tente se mexer, não vai conseguir. Os ferimentos no coração, pulmões e outros menores estão nos seus braços, está com lesões nos músculos, tendões, e perdeu os neurônios que permitiam que movesse seus braços.
- Porque me salvou se era pra ser assim... Disse ele entendendo um pouco, mas ainda confuso.
- Não me agradeça – eu disse, apesar de saber que ele não faria isso – agradeça à Marianna. O desejo do coração dela era que tu não morresse. Porém, o preço para que isso seja possível, são os seus braços, para que nunca mais volte a ser um monstro desprezível com as pessoas que te amam... E Marianna. Não vai mais tocar nela, não vai mais se aproximar dela... Se tentar persegui-la, se tentar fazer algo, vai se arrepender. Se tocar nela de novo, vai morrer.
- Se espera que eu acredite nisso... Eu não vou... Eu vou denunciar isso que fizeram comigo... Tu e o seu amigo grandão...
- Tu não vai fazer isso. – eu disse seguro disso, pegando no braço inerte dele, o que eu tinha tocado antes, e que agora tinha um símbolo com riscos finos, igual ao do centro da minha tatuagem, na parte interna do pulso. Ele pareceu se contorcer de dor por um momento – Tu não vai fazer isso se quiser viver o pouco que te resta sem sentir mais dor. Eu me esqueci de avisar, os neurônios relacionados à dor ainda estão nos seus braços, então agora eles vão começar a doer...
Eu simplesmente sabia que quando chegasse a hora do boletim de ocorrência e do processo por lesão, ele não diria nada, eu sabia que ele veria as palavras saírem diferentes do que ele estava pensando em dizer.
Eu acompanhei a solicitação da ambulância, eles o levaram, e eu voltei para a minha casa. Enquanto eu estava no trem, depois ao caminhar sobre as estrelas, e ao cair estupefato na minha cama largando a mochila a um canto e me jogando sem nem pensar em tirar o sobretudo ou os sapatos, eu pensava no que tinha acontecido, no que realmente significava aquilo... Afinal, eu já sabia que a minha mãe tinha me dado na verdade um grande presente, ela me deu um símbolo mágico, aquela tatuagem que antes parecia não ter sentido, mas que com o tempo se mostrou útil demais até...
Mas, nada ressuscita os mortos em magia, se existe tal coisa, é algo que não pode ser feito somente com um símbolo mágico. Ainda mais como aconteceu antes...
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