Quem Sou?
20 Sentimentos
Eu poderia me acostumar com a ideia de que existe uma troca equivalente pelo desejo de proteger meus amigos, pelo fato de que mesmo vivo, aquele cara pagou seu preço, pelos ferimentos, e pela razão iminente da sua vida, afinal, existem coisas equivalentes de acordo com o valor que nós damos a elas.
Para uma pessoa comum, não poder se aproximar de outra parece um preço pequeno a se pagar, mas, mudando a ótica para o fato de que essa pessoa valia mais que todas as ambições dele, é um preço grande demais, tão grande quanto a própria vida. Não é quanto se ganha em dinheiro que é o preço, é o que isso significa pra cada um.
Isso me lembra de que da outra vez, a troca foi equivalente em termos de desejos, não de resultados especificamente. Afinal, um perdeu tudo, e outro ganhou tudo, porém esse era o desejo de ambos, então o que estava em jogo não é relevante de certa forma. É mais ou menos como quando eu consegui comprar um livro que me interessava muito, uma raridade, eu diria, mas é claro, eu estou sendo tendencioso. Pra qualquer pessoa dita “normal” um livro velho não é valioso, isso vale para o livreiro que o vendeu para mim por umas cinco moedas apenas. Só que pra mim, aquele livro velho, rasgado, empoeirado e com teias de aranha era mais importante que talvez uma barra de ouro ou um rubi de bom tamanho num mercado de joalheiros ensandecidos.
É difícil pensar nisso, não pra mim pelo menos, mas pra qualquer outra pessoa. Provavelmente quem entenderia isso de forma mais razoável entre meus amigos seria o Rick, afinal, ele estuda alquimia espiritual, não é muito diferente em alguns conceitos, só que os meus conceitos tem a (des)vantagem de não terem embasamento em teorias existentes, ou pelo menos, não completamente ao se escolher uma teoria apenas, seja ela científica (o que eu francamente duvido ser possível) ou mesmo algum tipo de religião ou magia perdida no tempo.
Eu sinto às vezes, quando alguns deles está irritado ou feliz, ou quando acontece algo estranho, algum deles... Dos meus amigos. É estranho, mas mesmo assim, me deixa tranquilo poder saber o que acontece sem invadir pensamentos e sentimentos da mente dos outros, coisas que nem sempre queremos contar, e eu sei que todos nós temos essas coisas que não devem ser faladas dentro de nós em alguns momentos da vida.
Depois de dois meses com essas coisas que aconteceram ainda martelando um pouco a nossa mente, apesar de tudo, fizemos todo o possível pra trazer a antiga Mari de volta. Era mais um fim de semana, mais um que arrastaríamos ela pra fora de casa pra beber com a gente, festejar algo que não aconteceu, e simplesmente ver luzes pipocando e pessoas rindo, falar de coisas complexas semiembriagados, e iriamos rir das palavras enroladas, da Mari e da Júlia se desequilibrando no salto alto pra andar, do Jamal com algum tipo de touca colorida nova ou algum tipo de amuleto que tenha trazido das férias passadas, e diga-se de passagem ele provavelmente trouxe um daqueles trecos pra cada dia do ano.
Estávamos na mesa do canto esquerdo do bar, e algumas pessoas ainda se lembravam de quando tocávamos nele, naquele minúsculo palco, ainda se lembravam de quando quebrávamos tudo brigando bêbados ou sóbrios mesmo, de quando o bar foi fechado à bala quando aquele lustre caiu, entre outras coisas. Mas independente disso, nós tínhamos ganhado um bom lugar na sociedade, as pessoas nos respeitavam, seja porque éramos estranhos e loucos, ou porque achassem que merecíamos isso. Eu ainda voto no fato de parecermos estranhos o suficiente pra sermos legais.
E poderíamos ficar ali por todo tempo do mundo lembrando coisas que nos aconteceram em vários momentos. Isso eu tenho certeza. A Mari já tinha novamente um pouco mais da postura assustadora de sempre, mesmo assim, ainda tinha sequelas do que aconteceu as vezes, e eu notei que o Rick observava-os um pouco mais atentamente que o normal, a Mari e o Luís. A Júlia estava preocupada, mas ultimamente ela não sabia se seria ético sair por aí fazendo o que fazia na escola, até porque seria estranho que a namorada do Jamal fosse apertar os peitos de outra mulher daquele jeito obsceno de sempre, por mais que isso fosse divertido.
Eu tenho quase certeza de que tinha algo de estranho ali naquela noite, mas eu não sabia o que, só que simplesmente, eu sentia uma felicidade enorme que eu não entendia, porque ela não era minha e nem de nenhum dos que estavam ali comigo. Saí da mesa e fui ao banheiro, na volta peguei mais bebida, já que vi à distância que alguém já tinha surrupiado meu copo de diversão alcoólica da noite. Não que eu pretendesse ficar bêbado até cair, até porque, eu não conseguiria fazer isso considerando que meus amigos eram esponjas pra bebida.
Eu parei antes de passar por toda multidão, porque eu vi uma garota, de cabelo dourado, longo e com um rosto lindo. Ela ria com outra menina, que saía, provavelmente também pra tentar chegar perto do balcão e pedir algo pra beber pelo gesto que fazia. Não raramente que eu acabava me distanciando dos outros nos últimos tempos, considerando que eu perdi alguns dos meus medos, dá pra se imaginar o que acontece. Aparentemente, só pelo fato de eu não ter mais medo de ser rejeitado pelas pessoas, de eu ter confiança no que eu sou como ser humano, por não aceitar mais que os erros das outras pessoas me atinjam, parece que as pessoas sentem o mesmo tipo de coragem também. Isso não é só porque eu estou me dando bem na universidade, não é só porque eu simplesmente não aceito mais coisas imbecis vinda de fanáticos e pessoas sem entendimento de mundo suficiente que acham que tem o direito de me julgar, é tudo que eu sou.
Eu pensei por muito tempo que eu teria medo de fazer o que eu fiz no primeiro dia de aulas inaugurais do semestre, que eu nem mesmo teria coragem de ir até lá. Quanto mais pensar que eu usaria algum tipo de sorriso bobo e me apresentar como “Lúcifer, o Advogado do Diabo” pra alguma garota, e achar que algum dia alguma insanidade como essa daria certo. Eu diria, que só nesses dois semestres, funcionou mais que eu gostaria, ou melhor, até quando eu não queria que funcionasse. O que me lembra de que eu ainda tenho pesadelos com aquela professora de direito civil que é tão desagradável quanto um purgante em sala de aula, mas que vivia me convidando pra “grupos de estudo” que eu sempre neguei de forma estratégica.
Só que por mais estranho que isso poderia parecer pra mim em outros tempos, agora era normal que garotas olhassem pra mim em proporção às que olhavam pro Rick, que depois de um tempo realmente se tornou oficialmente “o cara legal” do nosso grupo, quanto a deixar uma impressão mágica com garotas. Não que isso faça muito bem pro meu ego, mas é um fato, não posso negar isso, embora não entenda ainda o tipo estranho de padrão que as garotas entendem por “legal” num cara.
Aquela menina de cabelos dourados, de olhos verde escuro, reluzente, parou por um segundo, olhou na minha direção, abriu um sorriso, e veio caminhando na minha direção. Quando ela ergueu os braços pra passar entre a multidão, chegar até mim e me abraçar eu vi o que confirmava o que eu já sabia.
Não é porque eu me lembre dos cabelos e dos olhos dela. É porque a aura dela era a mais berrante e alegre de todas naquele lugar, porque simplesmente ela tinha energia pra dar e vender. Era como se ela fosse a iluminação daquele lugar pra mim. Ela era aquela menina, provavelmente poucos meses ou anos mais jovem que eu, naquela cadeira, naquele dia. Ela ainda tinha aquela marca no pulso, embora eu não tivesse certeza de que ela existisse.
Eu retribui o abraço dela. Ela realmente parecia feliz. Ela estava feliz, eu sabia disso, eu sentia isso.
- Obrigado... Por tudo. A voz dela, eu não tinha ouvido um décimo do que era bela a voz dela na realidade, não era como aquele grito de desespero dentro da minha mente, desesperado. Essa voz era sinuosa como o caminho da felicidade.
- Vocês estão sozinhas? Eu perguntei quando vi que a amiga dela voltava.
- Por enquanto sim, estamos esperando o restante da banda, só que não achamos ainda um lugar pra ficar que não seja de pé entre zilhões de pessoas com desodorante vencido. Ela disse de um modo tão engraçado que eu não poderia deixar de rir.
A outra garota chegou mais perto, me olhando desconfiada, até porque sua amiga estava pendurada ainda em um desconhecido pra ela. Literalmente, pendurada, eu sou mais alto pelo menos vinte centímetros.
- Oi... Ela disse, e olhou de novo pra sua amiga. Ela tinha os cabelos curtos, um Chanel, numa cor anil, o que combinava com o seu jeitinho, apesar de ela parecer meio a la Mari, ela era bem mais delicada, como pude perceber. Cabelos em azul anil, olhos azuis muito vibrantes, um conjunto de jeans com zíperes e detalhezinhos e coisinhas, típico de meninas delicadinhas.
- Oi, eu... Eu iria me apresentar, mas curiosamente, não fui eu quem fez isso.
- Lúcifer, essa é a Daiana, geralmente todo mundo a chama de Dai...
- Dalian, tu disse...
- Lúcifer, o Advogado do Diabo, muito prazer bela donzela... Desejam juntar-se ao nosso grupo à mesa? Eu disse recompondo um pouco a minha imagem, afinal, até que não sou tão desajeitado assim, eu acho... A Dai me olhou com uma cara estranha, mas depois ela riu. Então é de se pressupor que ela não acreditou que o meu nome mesmo era esse.
Eu percebi que depois de alguns segundos, ela percebeu, enquanto nos dirigíamos à mesa, que o desenho do pulso da Dalian, e o meu pescoço, tinham em essência a mesma coisa escrita. Ela era observadora.
O pessoal da mesa ficou um tanto empolgado com a surpresa de eu voltar com as meninas pra mesa, provavelmente estavam resmungando que eu desaparecia com garotas e não dava satisfações a ninguém.
Por algum motivo, existia algum tipo de magnetismo entre Dalian e o Rick. Eu não sei como ela acompanhava os assuntos dele, mas não parecia estar perdendo em informações pro nosso gênio. A amiga dela, Dai, estava conversando com a Júlia, e elas pareceram se entender muito bem.
Depois do show da banda da Dalian, que era realmente uma soprano excelente, ainda ficamos, como nos velhos tempos da nossa banda, até sermos varridos do bar, bebendo e rindo. Os amigos dela eram boas pessoas, eu diria até, que em algum sentido, era apenas mais um grupo como o nosso, um ano mais novo.
De repente, porém, um silêncio súbito parou nossas conversas todas, enquanto estávamos ainda decidindo se íamos até o caixa pra pagar a conta ou se bebíamos mais uma, quando a Mari desmaiou. Já não havia problemas demais com a Mari... Eu realmente não entendo como as coisas às vezes podem parecer tão estranhas.
- O que tu fez, Luís? Perguntou o Rick como um raio, e a Dai também olhava pra ele.
- Eu... Nada... Ele dizia enquanto abríamos espaço pra colocar a Mari no sofá e ventilar o lugar.
- Como nada? Foi depois de alguma coisa que tu disse que ela desmaiou? Disse a Dai.
- Então, o que foi? Perguntou o Rick.
- Nada que devesse surtir esse tipo de reação... Eu acho... – eu percebi que ele estava realmente desconcertado com o que aconteceu – Geralmente a Mari que nós conhecemos socaria qualquer um de nós que pedisse pra namorar com ela, não desmaiaria. Ele conclui com certa lógica, apesar de ainda estar com a expressão preocupada.
Realmente ele tinha razão, todos nós tínhamos medo da Mari, por mais bonita que ela fosse, e foi por isso que um terceiro que não tinha nada a ver com o processo acabou tomando a frente e nos causando todos esses problemas.
- Ah, foi só isso. Então vamos logo, ela não vai demorar muito pra acordar. Falou o Rick indo até o balcão acertar a sua conta. Eu estranhei o modo como ele achou isso normal, mas era visível no seu rosto uma linha que me dizia que ele sabia que isso aconteceria cedo ou tarde.
Era mais que evidente que o Luís era apaixonado pela Mari, só que eu não imaginava que ela fosse reagir desse jeito quando a ideia viesse à tona. O que significa que de algum modo, o cálculo de que ela nunca ficaria com um de nós acabava de ir pro brejo, uma probabilidade com larga margem de erro, eu diria, já que pra mim pelo menos, parecia que o óbvio era a resposta dela.
Nas semanas seguintes, eu fiquei sabendo que a Dalian estava se preparando pro curso de especialização em nanotecnologia do governo, o que realmente, a equiparava mentalmente ao Rick, então eu não me preocupei nem um pouco com a durabilidade do relacionamento que eles aparentemente teriam, exceto pelo fato de que o Rick pra mim sempre pareceu o tipo de pessoa que precisaria de uma garota submissa pra não atrapalhar seus experimentos científicos com conversas sobre sentimentalismo. Talvez eu esteja enganado e cientistas também tenham direito a conviver em sociedade.
Eu acertei também quanto à Mari. Ela parece ter voltado completamente a ser o que sempre foi, a mesma amedrontadora Mari. Apesar disso, o Luís não é o tipo de pessoa que se comportaria como o pai dele, que aparentemente tinha a última palavra da casa sendo “sim, senhora”. Eles se entenderiam bem, e eu não precisaria me preocupar com a Mari de novo, afinal, o Luís era o tipo de pessoa que não deixaria encostarem um dedo em uma garota.
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