Quem Sou?
21 Dalian
Passaram-se quatro semestres relativamente tranquilos. Pelo menos, é o que dá pra se dizer de um tempo em que a nossa banda fez poucos shows, nossas notas estavam boas, Dalian entrou no projeto de especialização, e eu nunca vi o Rick e uma garota passando tanto tempo juntos, mesmo que fosse em um laboratório, então vou simplesmente descartar esse assunto da minha mente, porque não quero pensar coisas, afinal, por mais linda que a Dalian seja, é só uma amiga, e está mais interessada no meu “rival” de ocasiões sociais.
Sempre que eu a vejo, eu penso que foi a melhor coisa do mundo que ela tenha me ajudado a descobrir algo que eu poderia fazer pra ajuda-la, porque ela merece isso. Ela realmente é incrível. Depois de conversar um pouco com ela, eu entendi o porque de algumas coisas.
Ela não consegue entender porque algumas pessoas não conseguem ter motivação, porque algumas pessoas não valorizam a vida do jeito que ela faz. Parece ser exagero o fato de ela sempre pensar que as coisas vão dar certo, de ela querer isso, de ela fazer isso acontecer, independentemente de como. Não é porque ela é de uma família rica, não é porque ela sempre teve tudo, pelo contrário, ela descobriu que tudo isso não valia nada.
Ela era uma criança normal, que simplesmente tinha uma doença degenerativa, que a faria perder tudo, perder a capacidade de andar, falar, respirar, e viver. O caso dela aparentemente foi desenvolvendo-se mais rápido que os médicos esperavam. Tudo que ela queria era poder fazer o que fazia agora. Quem perde algo, aprende a valorizar. Ela não entende porque as pessoas não conseguem as coisas, se elas podem caminhar, falar, e existir.
Ser rica não a ajudou, talvez, tenha até piorado a sua situação, afinal existiam mais coisas que ela não poderia fazer. Ela consegue acreditar que as coisas vão dar certo simplesmente porque é maravilhoso que possa ir atrás delas pelas suas próprias pernas. Talvez as pessoas precisassem perder algumas coisas pra aprender o que realmente é importante na vida. Talvez elas dessem mais valor a coisas simples como essas.
Mesmo que Dalian não seja parte dos meus amigos de longa data, eu podia sentir como ela estava, e geralmente isso me deixava muito bem, porque ela sempre parecia ter uma fonte inesgotável de motivação e energia.
Eu estava indo pra casa depois de mais uma tarde na biblioteca, por sorte, naquela noite eu não teria aulas, estava um tanto cansado dos últimos dias. Trabalhos demais por fazer, tempo de menos. Queria poder dormir por uns dois dias seguidos, mas sabia que isso não seria possível.
A Dalian era realmente fascinante. E aparentemente, uma das pessoas que mais compreendeu como eu me sentia estranho sendo eu às vezes. Ela nunca me perguntou o que eu fiz com ela, o que aconteceu naquele dia, nem porque de repente ela começou a se recuperar. Ela só se lembrou disso, e cumpriu a sua parte. Veio andando pelas suas próprias pernas, de cabeça erguida, e com um sorriso, até mim.
A mãe dela era linda, tinha os cabelos claros, acastanhados, pouca coisa mais escuros que os dela, os olhos eram iguais, e a gentileza era a coisa mais aconchegante do mundo, mesmo sendo uma casa rica e cheia de coisas que fariam qualquer um pensar que aquele lugar não tinha alma, que não passava de um luxo desenfreadamente artificial. O marido dela continuamente viajava, mas segundo Dalian, o seu pai era uma pessoa legal, embora todos parecessem sempre um pouco receosos da menção do velho dela.
Eu tinha uma grande simpatia por ela, e fiquei feliz que ela estivesse aproveitando a vida que tinha da melhor forma possível. Apesar de eu ter pressuposto, erroneamente, eu pensava, pelo menos, que ela se enveredaria pela neurologia, para estudar as degenerações cerebrais, ela se enveredou pelo caminho da nanotecnologia e robótica, fora que ultimamente as ideias dela pareciam mais insanas que o normal, provavelmente isso era a convivência com o Rick. Não posso reclamar, aparentemente eles se divertem com isso. Mas eu me enganei ao pensar que o que ela decidiu fazer não tinha nada a ver com o seu interesse inicial. Ela decidiu não buscar uma solução médica para o problema que vivenciou, até porque, se ninguém tinha encontrado, ou era porque essa solução não existia, ou era porque seria algo nada ético. Não que o fato de ela pensar em substituir partes do corpo por micro partes robóticas e criar super-humanos, eu diria, seja muito ética, mas pelo menos curaria esse tipo de coisa sem envolver aquela coisa problemática de células embrionárias que todo mundo resiste em dizer que é bom, ou que é ruim, sem meio termo em nenhum lado, em uma briga eterna.
Eu aprendi a gostar dela como parte do grupo de amigos que tínhamos, mais até que da Júlia, apesar de eu conhecer a Júlia há mais tempo. Talvez porque ela nunca tenha comprado grandes brigas por nós, ou talvez porque a Dalian tinha alguma coisa que me chamava a atenção que eu não sabia definir, mas que me aproximava dela como se nos conhecêssemos desde sempre. Talvez fosse possível afirmar isso porque eu a sentia mais próxima dos meus pensamentos que qualquer outro, apesar de ainda ter aquela frágil conexão com a mente dos outros.
Isso é uma coisa que eu não pretenderia explicar detalhadamente pra eles, afinal, não é que eu queira que isso tivesse acontecido. Mas enfim, era algo que provavelmente me daria mais dor de cabeça que o normal se eu fosse comentar.
Entre várias coisas que eu sabia que eram complicadas, eu nunca pensei que Dalian estaria envolvida em algo complicado. Pelo menos, não era o que eu queria pensar, mas eu não quero ter que entrar na mente das pessoas que eu gosto, só porque eu posso, pra descobrir o que está acontecendo. O certo é que as pessoas me digam o que elas desejam dizer. Eu não saberia ser gentil o suficiente com os seus sentimentos e pensamentos, o melhor é esperar pelo tempo de cada um.
Quem já está na universidade há algum tempo percebe que esse meio é pior que o secundarista em se tratando de política, e tão ruim quanto, ou pior ainda quando se trata de negócios escusos. Aqui, desde que eu cheguei, tive que me adaptar a uma situação de tolerância no limiar pra poder sobreviver sem interferência no sistema. Os trabalhos acadêmicos vendidos, o que já não era incomum na escola, aqui é banalizado, e até os professores sabem que isso acontece, mas mesmo assim, ninguém faz nada pra evitar.
Se bem que esse é um problema menor, afinal, o máximo que pode acontecer é que um aluno mal preparado vai sair da universidade com um diploma, o que não é muito surpreendente, considerando que até um cara que mal sabia ler conseguiu entrar no meu curso. O que penso as vezes, é que caras assim podem ser perigosos. Um médico sem saber o que fazer, pode matar alguém. Um advogado, como no meu caso, mal preparado, pode destruir uma vida, ou uma cadeia interminável delas em sequência, porque as decisões esdrúxulas que podem surgir não interferem somente com o vitimado, mas as pessoas ao seu redor, todos os demais envolvidos, e se desencadeia em um desastre na sociedade. Um após o outro, estou cansado de ver e ouvir.
Mas comecei a me preocupar por outros motivos. Dalian... O que ela estava fazendo que estava chamando tanta atenção dos caras que não deveria? O que estava acontecendo que eu não sabia? Rick, porque não me conta o que está acontecendo, se é o mais observador do grupo? Eram coisas que ficavam na minha mente nesses últimos dias.
Eu não gosto de ser seguido. É o que eu penso nesse momento, andando com Dalian e Rick para encontrarmos o Luís e irmos pra casa. A Mari vinha em nossa direção tirando o jaleco desajeitadamente, ela estava num dos laboratórios de anatomia provavelmente, era o que o cheiro de formol me dizia.
Não é só a Mari... Eu sei que tem mais alguém atrás de mim. Não é neurose por causa da multidão, geralmente eu me dou bem com multidões, na medida do possível. Eu percebi isso com a Dalian outro dia, e com o Rick. O que eles estavam fazendo?
Depois que a Mari e o Luís se afastaram, seguimos o caminho lentamente, e as presenças estranhas aparentemente se cansaram de alguma coisa, provavelmente a minha presença com eles, e eu pude finalmente perguntar. Estávamos sozinhos, era seguro perguntar, seja lá o que fosse.
- Rick... Eu imagino que tenha percebido que tinha alguma coisa atrás de nós... Eu disse olhando para ele, que não demonstrou nenhuma diferença do seu estado normal, nem mesmo o game over do seu Nintendo. Não entendi porque ele parecia tão tranquilo.
- Sim, eu percebi isso há algum tempo, mas não há nada pra se preocupar. Não é comigo o problema.
- Então admite que existe um problema? Eu perguntei de volta.
- Está se preocupando demais... Começou Dalian, mas eu não deixei ela terminar.
- Não é preocupação demais. Eu sinto que vocês estão fazendo alguma coisa que eu não estou sabendo. Não quero descobrir só depois que alguma coisa der errado e eu ver que não pude fazer nada por não saber.
- Se é isso, porque simplesmente não olhou dentro da nossa mente. Disse o Rick, provavelmente esse assunto o incomodava.
- Eu me nego a fazer isso. Eu não quero saber das coisas assim. Existem coisas que só contamos pra quem confiamos, quando fazemos isso estamos afirmando a nossa confiança. De que adianta eu saber de alguma coisa se não for do jeito que tem que ser?
- Do jeito que tem que ser? Lúcifer... O que tu tá querendo dizer com isso... Dalian deve ter se sentido ofendida com isso, provavelmente o Rick também. Ele desligou o videogame.
Eles eram inteligentes o suficiente pra entender que o que eu queria dizer era simples. Se eles não me contassem, era porque não confiavam em mim o suficiente, se eu não quis saber de qualquer jeito, independente das consequências, era porque, por mais preocupado que eu estivesse, eu confio neles. Era uma relação de amizade e confiança meritória. Independente do argumento, afora brocardos jurídicos que nem sempre fazem sentido pra mim, nesse caso, eu tinha razão.
- Eu tive um problema com o laboratório semestre passado. – o Rick começou – Eu consegui resolver isso. Tínhamos conseguido alguns componentes radioativos controlados, sob alguns formulários frios que conseguimos... Eu admito, burlamos o sistema de segurança nacional, mas, isso foi por um motivo científico.
- Ninguém veio atrás de nós, o único problema que teríamos foi resolvido. Não teremos problemas nem com a remessa de material dessa semana, e é a última. Dalian provavelmente falou demais, pelo jeito que o Rick olhou pra ela, mas não era nada que eu fosse sair contando por aí.
Eu sabia que o Rick era muito capaz, e que a estrutura da universidade provavelmente o obrigaria a tomar algumas medidas extremas para suas pesquisas se quisesse realmente fazer aquele projeto de conclusão de curso como tinha me comentado. Eu vi a ideia dele, essa ele tinha feito questão de me mostrar, quando descobriu que eu poderia ter acesso à mente dele. Eu pensei logo depois de ter visto aquela ideia, que era um alívio saber que eu poderia bloquear aquela mente doida, porque eu não tinha capacidade pra entender tanta informação, mas realmente, era a coisa mais genial que eu tinha visto na vida até o momento.
- Tem mais ainda? Eu perguntei espantado, afinal, se estavam nos seguindo, era porque tinha alguma coisa, e a teoria mais plausível era pensar que a polícia do exército tinha descoberto sobre os experimentos nucleares não autorizados do Rick.
- Sim, mas isso não é importante. – o Rick começou – afinal, segundo o pai do Luís, a polícia do exército seria muito mais competente pra nos pegar se estivesse desconfiando do caso.
O pai do Luís, eu tinha esquecido. Nunca parei pra pensar em que parte das Forças Armadas ele trabalhou, mas pelo visto, ele tinha contatos bons o suficiente pra poder ser de grande ajuda considerando o tipo de amigos que o seu filho tinha.
- Então porque estavam nos seguindo? Não é a primeira vez que eu estou com vocês e sinto essa presença estranha.
- Já tentou perceber isso quando eu não estou por perto? Perguntou o Rick raciocinando.
- O que quer dizer com isso? Eu... – parei pra pensar por um segundo – Eu percebi isso outro dia quando eu estava com Dalian...
- Então, o problema não sou eu, está excluído o problema do meu material de pesquisa. – o Rick começou mantendo uma linha um tanto caótica, mas lógica – Isso significa que tu ou a Dalian tem algum problema...
- Eu tenho só os problemas de sempre, então acho que não é isso... Ela disse meio a contragosto.
- Os problemas “de sempre”?
- Não se preocupe, Dullius, ela não contrabandeou nenhum artefato perigoso, é só o de sempre mesmo. Problemas com o pai dela.
- Meu pai aparentemente é um pouco protecionista demais, mas duvido que ele colocaria alguém pra me seguir...
- Eu já não duvido nem um pouco... Fala o Rick meio desacreditado, ele realmente não parecia gostar da imagem remota do “sogro”.
- Eu não estou envolvido em nenhum tipo de cartel, jogatinas estão fora de questão nos últimos três semestres, eu juro que sou inocente, e não estou nem perto dos drogados do meu curso... Embora seja fisicamente difícil de estar longe em um curso que 82% dos estudantes e 23% dos professores sejam viciados ou usuários eventuais de alguma coisa... Eu comecei a me defender, afinal a Dalian começou a me olhar com uma cara estranha e eu fiquei sem saber o que fazer de repente.
- Jogatina? Ei, tu tinha me prometido que iriamos ao pôquer há uns quatro meses e nunca fizemos nada... Seu... Começou o Rick irritado.
O Rick realmente ainda se lembrava do meu momento viciado em jogo... Ah, realmente eu passei por um tempo de querer simplesmente fugir de tudo. Afinal, de certa forma, um curso que deveria abrir horizontes pro mundo, estava fazendo boa parte dos estudantes de Direito ali um bando de autômatos que pareciam papagaios recitando Habermas, Kelsen, Hegel, Foucauldt ou qualquer outro autor que me deixava maluco. Não que esses autores estivessem errados, mas somente decorar isso, saber números de artigos, saber formatar um documento, isso não era ser advogado. Isso seria mais propriamente um Tecnólogo em peticionar.
E nesse pensamento eu quase desisti. Mas a Mari estava ali. Dalian estava ali. A Júlia tentando dar uma de psicóloga antes de se formar deu o máximo de si pra me convencer que isso era a parte ruim, mas que sempre haveriam os bons. Que eu estava certo em ver o que eu decidi fazer como algo que abre a visão para o que é o mundo, que eu não deveria desistir, afinal, eu era um estudante de Ciências Jurídicas E Sociais. Era mais que muita gente seria. Eu entendia os sentimentos humanos, eu entendia os motivos, os caminhos, a vida. Mais que muita gente “normal” poderia entender.
Dessa vez, eu tinha pensado, eu devia uma pra Júlia.
- Rick, acalme-se... Lembre-se que o Lúcifer é um jogador compulsivo...
- Dalian... Tudo bem... Eu era. Agora eu sou só um cara sortudo que vai levar o Rick pra mesa semana que vem, sem falta.
- Sortudo?
- Sim, espero ganhar uns 30 mil contigo de dupla na mesa.
- Ei... Como é que o assunto veio parar nisso mesmo? Se perguntava Dalian de canto enquanto começávamos a discutir estratégias de jogo.
Por um momento eu tinha esquecido o motivo da conversa. Era divertido pensar no que faríamos depois de tanto tempo focados nos estudos. Não que não saíssemos, mas fazia um bom tempo que não reuníamos os garotos, inventávamos uma desculpa pras meninas, entrávamos em um bordel com perfume ruim, bebida barata, e uma mesa de jogo escondida em uma salinha no fundo, onde a Tia Fran daria o sinal verde pra que entrássemos e lucrássemos um pouco encima de alguns novatos, com uma gorda comissão pra ela, é claro.
Geralmente o Luís era uma boa dupla comigo, apesar de que às vezes a instabilidade do Jamal no jogo, por mais que me fizesse perder as estribeiras quando perdíamos a mesa, me fazia lucrar muito mais no final. E ele sempre dizia que tinha um amuleto da sorte, embora eu nunca soubesse o que era. Ele sempre dizia que era uma coisa muito secreta que o velho sábio da tribo ancestral, ou algo assim, eu acho, tinha deixado pra ele de presente. Um dia ele me contou o que era, agora eu sei... O velho tinha dito pra ele que quando ele estivesse além do horizonte dos oceanos, ele encontraria amigos, e que um desses amigos seria seu amuleto da sorte. Eu nunca pensei que poderia ser algo assim, mas aparentemente, no meio desses anos todos, eu fui. Segundo ele, sem mim ele não teria conhecido a todos nós, sem mim ele não teria conhecido a Júlia, porque não estaria do nosso lado, e provavelmente perderia ela pra Mari, ou nunca se veriam, sem mim nunca teria se divertido tanto com uma banda, ou pensado em se atirar de um penhasco, como quando todos estavam desesperados me procurando naquelas malditas férias, nunca teria tido coragem sozinho de desejar uma universidade que no seu país não existia, pelo menos não nos mesmos moldes da que ele estava fazendo aqui, com umas quatro especializações ao mesmo tempo...
Realmente, eu acho que sem o Jamal nós não teríamos também sido nada do que somos. Afinal, foi ele a dar o primeiro chute no que somos hoje, ou melhor dizendo, uma rasteira.
Era o que me vinha na mente enquanto a minha cabeça encostava-se ao travesseiro e pensava no que aconteceria no dia seguinte, já me esquecendo dos problemas, e pensando só na sensação constante de felicidade que a Dalian deixava comigo, da tranquilidade em que a Mari mergulhava no sono, embora eu pense que é melhor não saber o que ela pensa nesses momentos porque ela deve ficar com uma carinha boba e pensar no Luís, que pra mim não parece uma imagem nada sedutora, realmente, nem um pouco mesmo.
Antes de conseguir dormir, pensando na conversa que tive com o Rick e com a Dalian, me surpreendi por não ter me tocado disso antes, e por não me sentir preocupado em nenhum momento... Afinal, o Rick tinha conseguido material radioativo, porém, como que ele e a Dalian não estavam sofrendo nenhuma influência disso? Se eles confinaram esse material no setor deles, pra que ninguém sofresse radiação, como eles mesmos se protegiam disso? Eu não conseguiria dormir pensando nisso, e sei que isso seria uma invasão de mente, porém, eu precisava saber o que estava acontecendo, porque isso sim era um perigo bem grande pra vida dos meus amigos. Mais que a polícia do exército ou a Agência Nacional de Inteligência...
Eu sei que não deveria fazer isso, mas eu abri a minha mente, vasculhei algumas gavetas de pensamento da Dalian. Eu não sei porque, mas entre todas as pessoas, a mente dela é a mais organizada, eu não vejo imagens que não quero ver, é como se ela tivesse criado de propósito a imagem de um arquivo em ordem alfabética com pastas para os pensamentos dela, e os pensamentos que eu não deveria ver tinham etiquetas verdes. Eu não sei porque, mas eu sabia disso. Era estranho. Pelo menos eu não tinha medo de ser pego como um vilão entrando na mente dela a essa hora da noite.
Onde estava o arquivo certo? Como ela organizava a mente dela daquele jeito? Eu tinha mais perguntas que poderia responder em um espaço de tempo tão curto. Porque ela não podia ter uma pasta chamada radioatividade nos arquivos mentais dela no começo das pastas de letra R? Eu passei pra gaveta seguinte, e me deparei com várias pastas de etiqueta verde, fechei a gaveta rápido, embora eu tenha visto o nome do Rick em 90% das pastas, então era de se pressupor que eles estavam escondendo coisas, ou pelo menos que ela tinha vários e vários pensamentos sobre ele.
- O que está procurando? Eu escutei distraído com as etiquetas das pastas, a voz da Dalian, mas ela não estava ali.
- Uma pasta... Eu respondi, esquecendo que eu estava dentro da mente dela, de tão acostumado que eu já estava com arquivos nessa vida de acadêmico.
- Uma pasta, dentro da minha cabeça? Já que eu estou acordada porque não pergunta pra mim qual é? Ela disse.
- Ah... Desculpe... Eu não devia...
- Tudo bem, eu achei que fosse aparecer hoje. O que está te preocupando? Ela perguntou como se fosse natural poder falar com as pessoas dentro da cabeça dela, e eu me senti meio deslocado, afinal, eu nunca consegui fazer isso com outra pessoa antes.
- Antes... Quando vocês falaram de material radioativo... Eu não tinha pensado nisso, mas... Como vocês estão se protegendo da radiação?
- O material radioativo não ficou no laboratório da universidade porque poderia expor outras pessoas. Está num depósito da casa do Rick, com vedação contra esse tipo de problemas.
- Eu não sabia que ele era louco o suficiente pra ter uma coisa dessas no porão de casa como se fosse normal... Eu resmunguei pensando em quanto ele era estranho.
- Enfim, ele tem... Mas ainda parece que tem alguma coisa te incomodando... Ela disse.
Tinha mesmo. Mas eu não sabia se deveria tocar nesse assunto.
- Mas, quando vocês vão mexer naquele material, como vocês não se contaminaram ainda... Eu realmente...
- Eu sei que tu tá preocupado, Lú... – Ela me chamava assim às vezes, e eu tinha a sensação de que conhecia ela desde sempre quando isso acontecia. De algum modo, ela era diferente dos outros pra mim, apesar de ser somente minha amiga também – Mas provavelmente a tua preocupação e aquela ideia que tem, eu imagino, sejam verdade e ao mesmo tempo mentira.
- O que quer dizer com isso?
- Que não precisa se preocupar com a gente, porque não vai acontecer nada errado, eu prometo. Mas, provavelmente, se a ideia que tu tem sobre a minha pesquisa é a que eu fiz mesmo, então, provavelmente, mesmo que não precise, tu vai ficar preocupado.
- O que tu fez, Dalian? Eu perguntei, sem pensar, sem pensar que talvez eu não quisesse saber.
- Eu pesquiso nanotecnologia por um motivo. Se a medicina não pode curar o que eu tive e outras pessoas tem, eu descobri um caminho diferente pra substituição dos neurônios que estão degenerando nessas pessoas. Se tu não tivesse aparecido, eu não estaria aqui pra poder fazer isso, então, acho que muitas pessoas deverão coisas pra ti no futuro.
- Dalian... Tu usou isso...
- Sim, eu usei. Não mexi em nenhuma das células que tu me deu, porque isso é algo que eu percebi que é diferente da genética normal, aparentemente o que tu fez alterou alguma coisa, e as minhas células não tem mais erro de replicação de DNA, segundo a Mari. Só que mesmo assim, tem partes do corpo que são fracas perante algumas coisas. Então eu fiz um teste.
- Mas o que tu fez contigo mesma?
- Nada, eu juro. Eu sou exatamente a mesma que um segundo depois de tu ter se despedido pela primeira vez, completamente. Mas apesar de eu não correr risco nenhum, o Rick não poderia mexer com a pesquisa dele do jeito que era. Então estamos substituindo parte do corpo dele por nanotecnologia programada, apesar de eu ainda não saber como fazer um backup da mente humana, o que vai ter que continuar sendo completamente orgânico, pelo menos o que é de vital importância pra proteger o Rick da radiação já foi substituído a nível celular.
- Dalian... Tu usou o Rick como cobaia?
- Lu, eu só fiz o que ele pediu. Eu tinha dados conclusivos, mas eu não mostrei pra ele porque eu sabia que ele iria querer isso. Mesmo assim, ele chegou sozinho à conclusão de que deveríamos testar isso.
- Não sei se vocês tem ética nos mesmos termos que eu tive na universidade, Dalian, mas aquela enrolação toda de seis meses de aula não é pra tu decorar o nome de Kant ou Rousseau, aquilo tudo significa “não faça experiências com seres humanos”.
- Eu não posso ter o benefício do desconhecimento da lei? Disse ela brincando. Eu realmente tinha ficado preocupado, mas aparentemente, ela fez a pesquisa de tal forma que o Rick continuava absolutamente igual a sempre, e se eles fizeram isso antes do material radioativo chegar, provavelmente, então era tempo suficiente pra dizer que o experimento foi um sucesso. Mesmo assim, eu não poderia admitir que ela tivesse feito algo do tipo, não fazia sentido nesse mundo. As pessoas não iriam entender, mesmo que tenha sido realmente um sucesso.
Mesmo assim, mesmo com tudo me dizendo que eu deveria dar um sermão naquela menina, o sentimento de alegria por ela estar viva não poderia ser machucado, ela o que me deixava cada vez mais forte nos últimos tempos, e a voz sonolenta e meiga dela falando mentalmente comigo me dizia que não era certo brigar com uma menina fofa. Mas provavelmente eu brigaria com o Rick futuramente.
- Tudo bem... Não vou falar nada sobre esse assunto por enquanto. Deixe eu digerir a informação.
- Lu... Não diga nada sobre o fato de conseguir conversar com a minha mente pro Rick, e nem sobre o que eu te contei hoje, por favor. Ela disse preocupada.
- Não direi. Eu percebi que aparentemente ela tinha grandes sentimentos pelo Rick, não seria eu a estragar isso, até porque ela parecia feliz demais, e estragar isso seria um crime de lesa-majestade.
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