Quem Sou?
22 Pôquer
Eu sabia que isso poderia ser um problema, mas aparentemente, não tive como fugir disso com a boca grande da Dalian. Não teve como inventar uma desculpa pra Mari e pra Júlia de onde nós iriamos nessa sexta-feira. Então, aparentemente, essa era a primeira vez em que nós todos estávamos visitando o bordel da Tia Fran.
Não que ela reclamasse, vendia bebidas, mas isso não compensava o fato de que com as nossas meninas as “suas garotinhas” ficariam “entediadas”, como ela dizia com um sotaque muito característico. No fim das contas, depois de fugir de um ou dois convites indecentes e piadinhas típicas graças ao meu nome, embora até hoje eu me pergunte como aquelas mulheres conseguem ser tão criativas em cantadas de mau gosto, consegui chegar até o sagrado jogo no fundo do salão.
Continuava como sempre, uma sala velha, com lâmpadas que eventualmente piscavam, sem um piso decente, com as paredes descascando, pouca ventilação junto com perfume barato, álcool e fumaça de todo tipo de tabaco barato que se poderia encontrar em vários lugares do mundo. Realmente, era uma fauna bem peculiar aquele lugar.
Entre viciados em jogo que tinham expressões frenéticas, das três mesas que haviam ali, alguns com cara de mau humor, provavelmente sovinas que queriam ganhar mais no jogo, alguns nomes respeitados da cidade, que poucas pessoas sabiam que estariam naquele lugar, incluindo o pai do Luís, o que eu acho que ele não sabia, porque só viemos ali quanto havia pouca gente, realmente, era algo que o Rick esperava pra ver há um tempo. Mas eu tinha pelo menos que me preocupar por um tempo mais com a faculdade que com o ganho fácil disso, embora ainda fosse mais fácil fazer outras coisas na faculdade por baixo dos panos, eu tinha um apreço especial por jogos, bordéis e coisas do tipo.
Não que isso me mantivesse muito inteiro, afinal, eu tinha ganhado mais uma cicatriz no canto da testa uma vez porque um maluco quebrou um taco de bilhar na minha cabeça, tinha mais alguns cortes nos braços, embora pequenos, por brigas de jogo, garrafas quebradas e essas coisas, mas pelo menos, como poucos naquela sala em que acabávamos de entrar, eu não tinha levado nenhum tiro.
Pelo menos eu acho que nos últimos tempos, eu era uma das pessoas que não era perseguida nem por exército, agência de inteligência, delegacia de crimes virtuais, como no caso do Luís, interceptação de órgãos roubados, como a Mari poderia ter sido, por acidente, ano passado, ou pela máfia, no meu caso. Embora eu admita que a máfia seja o menor dos meus problemas, nesse momento, comparado com os demais, eu realmente prefiro ficar longe. Não acho interessante ser jogado num rio amarrado a um bloco de concreto ou ser enterrado vivo. Nem pensar...
O Jamal e o Luís estavam jogando em dupla, eu e o Rick, como uma versão de testes, apesar de eu ter entendido bem rápido o que ele pensou em fazer no jogo. Aliás, acho que esse era o único tipo de momento em que eu poderia usar a conexão que tinha com as ideias deles pra trapacear. Esse era um jogo local, eu não gastaria muito ali. Queria ter o que apostar nas mesas de pôquer depois.
Não perdi muita coisa, apesar de que, perder pros meus amigos não era necessariamente perder, já que gastaríamos em bebida juntos depois de qualquer forma. Acho que o Rick pensou seriamente no fato de eu ter bebido muito, mais que antigamente. Mas aparentemente eu não perdia a lucidez com isso, só me concentrava mais no meu problema imediato, uma aposta de 30 mil na mesa, e as minhas chances de ganhar isso.
Ah, sim... Depois que as apostas ultrapassaram os 5 mil, o que não demorou muito na verdade, todo mundo saiu da mesa e decidiu ficar só assistindo eu jogar. Eu já tinha ganho mesas mais complicadas, não estava com medo. Quem já tinha tirado 160 mil em uma noite não perderia tão facilmente, era o que a minha confiança e as cartas que apareciam me diziam.
Depois dos 200 mil é que eu comecei a me preocupar. Parecia fácil demais. Até pra um jogador compulsivo como eu tinha sido isso parecia estranho. Não era normal ganhar tão facilmente. Quero dizer, depois desses valores mais altos o pessoal que perde geralmente surta, quer briga ou coisa do tipo, pro mais endinheirados que aqueles caras da mesa fossem. Eu sabia que o cara da minha esquerda era médico, pelo menos dois do outro lado da mesa, que estavam razoavelmente equilibrados em valores, eram da máfia, e isso me preocuparia se eles estivessem perdendo, e a outra mulher, na minha direita, era filha da Tia Fran, jogadora nata, mas que somente participava pra angariar mais fundos pro estabelecimento, esse era o único trabalho dela ali, apesar de ela ser bonita tanto quanto outras mulheres daquele lugar.
Parecia fácil demais, era o que eu estava pensando, e no fim não teve uma briga tão grande assim, apesar de que 450 mil era o maior valor que eu já tinha visto circular naquelas mesas desde que eu comecei a participar. Acima de meio milhão, eles jogavam somente em ocasiões especiais, na salinha da porta verde, que eu nem mesmo conhecia.
Os caras que perderam foram embora, já era tarde, meio da madrugada adiante, e nós ficamos por mais um tempo, apesar de as meninas estarem cansadas, ainda teríamos bebida por um bom tempo, e a Tia aparentemente achava ótimo que eu gastasse o que ganhei ali mesmo.
Troquei o dinheiro restante no bar por notas maiores e um cheque, era menos chamativo pra quando fossemos embora, porque alguma coisa ainda me incomodava nessa situação toda. Parecia que tinha alguma coisa estranha ali nessa noite.
O Jamal deu uma carona para o Luís e a Mari, e nós esperaríamos ele voltar, mas no fim acabamos decidindo andar esses 6 Km dali até nossas casas, não era tão longe assim, e o Jamal tinha ligado avisando que teve um problema no motor do carro, isso demoraria demais até conseguir outro carro emprestado ou coisa do tipo, e naquela parte da cidade onde estávamos, os taxistas não entrariam a essa hora da madrugada nem sob decreto.
Estávamos tranquilos, pelo menos foi o que eu pensei, mas eu e o Rick estávamos atentos, ele, apesar de não conhecer aquela mesa em especial, deve ter percebido que eu estava preocupado com alguma coisa nessa noite. Realmente, era muito estranho...
Passamos perto de um beco, seguíamos, alguns lugares com lâmpadas falhando, até que eu escutei um ricocheteio de tiro, e mais tiros vindo. Eu não tinha certeza do lado, mas sabia o que foram os ricocheteios, minha defesa se abriu em uma luz escura perto da Dalian, e o Rick, bom ele aparentemente era imune a tiroteios agora, pela reação dele, sem nenhum ferimento profundo no braço que foi acertado, derrubando um dos caras que tinha descido do carro para atirar.
Eu não escutava mais a Dalian, o Rick gritou alguma coisa, mas a minha visão estava apagando. Acertaram-me por trás. Mas... Como? Eu estava alerta o suficiente pra ver algo desse tipo chegando...
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