Quem Sou?
23 A Donzela de Titânio
Eu não sabia bem onde estava, mas era escuro. Pelo menos, eu senti que minhas pernas e braços estavam no lugar, e que eu não estava embaixo d’água, porque conseguia respirar. O cheiro de mofo era familiar, mas eu tive certeza que eram paredes de pedra, e não um barco.
Eu escutava vozes, mas não sabia direito o que era aquilo. Sabia somente que eu estava de mãos amarradas, literalmente falando, em um lugar um tanto antiquado, com uma porta de madeira, que tinha uma janelinha que iluminava parcamente o interior do lugar onde eu estava, e pelo menos fiquei feliz por saber que havia sol por perto, e que ali não havia ratos fazendo barulhinhos estranhos.
Aparentemente, eu conseguia me acostumar rápido com situações ruins. Apesar de que, eu me via meio que sem opções, afinal, tudo que eu poderia fazer era curar pessoas, e criar escudos de proteção. Isso era o máximo que aquele poder mágico estranho que a minha mãe me deu me deixava fazer. E por algum motivo estranho eu não tinha mais conexão mental com ninguém, nem mesmo com Dalian.
Quando eu ouvi uma voz por perto, eu chamei, apesar de que, por um momento, eu tivesse sentido um medo enorme, de algo que eu não conhecia, perto de mim. Mesmo assim, eu queria saber o que estava acontecendo, que lugar era aquele, e porque diabos eu estava nele.
Eu conhecia o suficiente de idiomas para saber que aquelas pessoas estavam falando em Latim. Mas o motivo disso eu não entendia. Aproximei-me da porta e chamei de novo, em Latim. Talvez ter estudado isso por causa da faculdade não tenha sido tão inútil.
— O que você quer? Perguntou a voz metálica, em latim, da pessoa de cabelos brancos e compridos de costas pra mim, como se me olhar fosse algo perigoso, com um grande desprezo na voz. Apesar disso, parecia, tenuemente, que a confiança dessa pessoa tinha sido por um segundo abalada por eu estar conversando em latim com ela.
— Quero saber o que está acontecendo? Porque eu estou aqui?
— Tu és o demônio e não sabes por que estás sendo julgado? Perguntou ele, sem me olhar, com a voz irônica. Presumo que aquele cara devia ser poucos centímetros mais baixo que eu, com os cabelos brancos, e eu via parte de um sobretudo largo em algum grosso tecido preto e a beira da sola de suas botas de borracha, que pareciam vir de pés pequenos demais para alguém com a compleição física que parecia ter sob o longo casaco.
— Eu estou sendo julgado? Por quê? O que quer dizer com isso?
— Exatamente o que eu disse, demônio. Disse a voz mais surpresa um pouco com a minha insistência, mas parecendo se acostumar com isso.
Aparentemente, aquela pessoa de costas para a porta era o carcereiro do meu cubículo, e aparentemente os outros estavam vazios, porque eu não escutava nada. Mesmo assim, essa pessoa parecia simplesmente não querer chegar perto de mim.
— Porque me chama de demônio? Eu tenho um nome, sabia? Eu falei irritado. Afinal, essa conversa não estava levando a nada.
— Porque é o que tu és. Esse cara continuava me ignorando e seguindo um padrão de fala medievalesco.
— Me deixe sair. Eu disse, não esperando, é claro, ser atendido.
— Isso vai contra minhas ordens. Respondeu secamente aquela voz metálica, cujo rosto não conheço.
— Então... Qual é o seu nome? Eu perguntei, afinal, pelo menos eu poderia tentar não me entediar se não iria conseguir nada daquele cara mesmo.
— Cavaleiro da Ordem da Santíssima Trindade, 1ª Ordem do Dragão, A Face de Titânio, é quem está escoltando a sua cela. Respondeu ele sem hesitação. Aparentemente, apesar de tudo, ele tinha orgulho desse posto.
— Santíssima Trindade? – eu parei por um segundo pra pensar – Ei, isso aqui não são os porões da máfia porque eu ganhei mais dinheiro que devia no jogo ontem?
— Ontem? Tu estás nesta prisão aguardando julgamento há três meses. Entendo, deves estar delirando a essas alturas... Comentou mais para si mesmo que para mim, porém, eu percebi que apesar de tudo, aquela criatura parecia-se com um humano, em personalidade pelo menos, por mais que tentasse se controlar para parecer somente um guarda automatizado.
Eu pensei por um segundo, se eu não estou na máfia, e se tem um cara de uma Ordem Sagrada vigiando minha porta, provavelmente eu estava nos porões do Vaticano. Só que, o único jeito de eu ter chegado tão longe seria se me transportassem como... Um caixão? Ah, não... Então o que me doía nos braços eram injeções de drogas pra que eu me comportasse como se estivesse morto... Isso deve ter sido desagradável...
Eu não queria pensar nesse detalhe, e nem no detalhe de que provavelmente meu “traslado” foi feito no porão de um barco. Eu tenho meus motivos pra detestar barcos.
Apesar de que os dias continuavam passando de forma lenta, e de que o cara que cuidava da minha porta praticamente dia e noite como se não precisasse dormir fosse sempre meio lacônico, eu estava entediado. Eu não me importava que esse cara não me ouvisse, eu continuaria falando, da minha vida como humano. De quando eu conheci meus amigos, de como eu queria poder estar com eles, de como eu sentia falta do abraço da minha mãe me acordando de manhã, de como a minha vida na escola era divertida, como eu me meti em brigas, como eu consegui fazer alguma coisa de bom pelos meus amigos. Como eu consegui convencer a Mari a fazer medicina, como eu ainda tinha dúvidas sobre o que a Dalian tinha de especial pra que eu sentisse ela tão próxima de mim, de como eu tinha ganho quase meio milhão no pôquer, e como eu teria morrido se o Rick não tivesse me salvado na escola de uma briga com um cara de quem eu nem lembro mais o nome.
Quatro dias se passaram, e eu ainda queria a minha mãe de volta. Eu não cobraria dela o fato de ter escolhido um nome estranho, eu não perguntaria por que ela colocou aquela tatuagem em mim quando eu era mais novo, nem o que ela queria dizer com eu aprender a controlar o meu poder. Eu só queria poder estar com ela de novo.
— Ei... A tua mãe não está preocupada contigo longe por tanto tempo? Eu perguntei.
— O que isso tem a ver com a história da sua vida, que não paras de recitar a dias?
— A minha mãe deve estar sozinha agora... Esperando por mim... Tu não sente “saudade” da tua mãe aqui nesse lugar escuro? Eu usei a palavra saudade, em português, essa palavra só existe nesse idioma. Em qualquer outro eles usam algo similar a “sentir falta de” ou algo como “nostalgia” pra tentar explicar, mas não é a mesma coisa.
— O que é “saudade”? Essa foi a primeira pergunta dessa pessoa, o primeiro demonstrativo de interesse no que eu estava dizendo até então.
— É algo como sentir muito a falta de alguém que se ama, ao mesmo tempo, é a vontade de estar com algo ou alguém, ou algum momento, é sentir o que significa um laço com alguma coisa que é preciosa. Às vezes sentimos saudade do que não aconteceu também, é como uma memória de algo que dói, mas que ao mesmo tempo é bom, é algo que não pode ser traduzido em outras palavras, somente sentido. É como parte da nossa alma... Como se deixássemos uma parte de nós com cada coisa e pessoa que amamos, e precisássemos nos unir de novo pra nos sentir completos. Não existem palavras que possam traduzir isso.
O guarda trocou depois desse tempo. Esse cara era chato, não respondeu nem mesmo o nome pra mim, e deve ter achado que eu era chato. Provavelmente o outro também, mas pelo menos em um pequeno momento, ele me deu atenção.
Trocariam a minha cela. Aparentemente não sei o motivo. Provavelmente era pra ficar mais perto do lugar de execução, pelo pouco que consegui escutar. O Latim arcaico deles me deixava maluco.
Eu aproveitaria essa chance. Pelo que percebi, o cara que cuidava da minha cela antes passou quase três semanas acordado ali. Eles tinham medo de mim, e eu me aproveitaria disso. Por mais que eles fossem qualificados pra lidar com fugas, aparentemente aquele cara de metal era o melhor entre eles, então se ele não estivesse por ali, eu poderia pelo menos ter chances melhores.
Não sabia se daria certo se não tentasse, esse era meu pensamento naquela hora, poucos segundos antes de eu conseguir criar uma explosão.
Obviamente que um porão iluminado a velas não poderia ter encanamento de gás, e que desmoronaria se explodisse, mas eu aparentemente não precisaria me preocupar com isso se pudesse contar com o escudo. Se é que eu poderia.
Eu provavelmente fiz o maior esforço mágico que poderia pra fazer um escudo por todos os lados que explodisse a querosene dos lampiões e candeeiros que eles usavam, mas foi uma pequena chama que somente assustaria os que tiveram as barras das saias queimadas enquanto eu corria.
Obviamente que eu não tinha a mínima ideia de pra que lado era a saída, mas provavelmente, pressupus, era pro lado contrário de onde estavam me levando. A única coisa que poderia me deixar feliz, já não me deixava tão feliz. O fato de terem me provido de um banho e roupas limpas, significava que minhas roupas eram um uniforme de tecido comum, provavelmente reconhecível em qualquer lugar como algo vindo da prisão.
Se eu estava mesmo no território do Vaticano, a saída era a Itália, só que lá eu seria deportado, ou iria de volta pra prisão do Vaticano. A menos que... Esse era o momento de descobrir o que era pior, o governo ou a máfia.
Enquanto eu aproveitava que parte do prédio não sabia da ocorrência pra fugir escondido, e parte da bagunça que não sabia pra que lado eu tinha ido, consegui encontrar roupas normais em um armário de almoxarife por acidente, e depois de uns cinco minutos, eles não pareciam ter se tocado que eu ainda estava no prédio, e já estavam mobilizando forças para caçar o fugitivo na cidade. Eles realmente me tinham como um demônio, apesar de eu ser um humano praticamente normal e inútil que nem mesmo tinha saído do prédio ainda. Eles achavam o que? Que eu voava?
Eu tinha conseguido sair, mas agora eu teria que me esconder. Isso seria mais complicado ali fora que lá dentro, mas eu não iria esperar até que um velho estranho que eu nunca vi na vida dissesse “pena: morte” quietinho se eu não tinha feito nada de errado.
Em um dos becos que eu me meti encontrei o tipo de lugar que eu tinha medo de achar. Um daqueles bordéis baratos onde, pelo menos no meu país, tinha a máfia, então, pressupus que não seria tão complicado assim falar com a máfia italiana. Apesar de eu não saber uma palavra de italiano.
Tentei falar no meu idioma mesmo, mas por incrível que pareça o dono do bar entendia.
- Então, você não é daqui, companheiro... Comentou o velho servindo uma bebida mesmo que eu tivesse dito que não tinha dinheiro pra pagar.
- Não, e preciso encontrar alguém que me tire desse lugar sem entrar em contato com o governo. Eu comentei aceitando a bebida meio receoso, mas aparentemente o homem me tratava como um velho conhecido.
- Eu consigo isso pra você, garoto, se fizer um favor pra mim... Disse o velho chegando mais perto e mostrando uma porta.
- Que tipo de favor?
- Preciso que mande um recado pra minha irmã no seu país... Sem o governo ficar sabendo.
- Sua irmã? Eu fiquei curioso, eu não poderia ter tanta sorte de dar de cara com um maluco que sabia do meu idioma e ainda por cima precisava de algo que se encaixaria com o que eu preciso. Sorte assim não existe.
- Ouvi o seu nome, há um meio ano, da minha irmã, por isso acho que é de confiança, mas não imaginei que apareceria logo aqui.
- Meu no... me...
- Dullius, o queridinho das meninas e o melhor carteador da casa. Foi o que ela me disse.
- A Tia Fran... Eu reconheci imediatamente o jargão, ela sempre dizia isso quando eu chegava no bar dela.
- Sim... Ah, a Franchesca era tão bonita em outros tempos... Começou o velho a falar, e ficou pelo menos meia hora discorrendo sobre o assunto. Até que eu vi os dois caras da mesa do fundo do bar se mexerem quando a porta rangeu. Escutei alguns tiros, e os ricocheteios.
Era por isso... Que aquele cara era a face de titânio? O casaco preto comprido, o cabelo branco, uma espada que rebateu as balas, uma ficou presa no canto da sua máscara de metal, e ele a tirou normalmente, como um inseto do rosto, deixando a máscara como era, exceto por um amassado no canto.
Como ele tinha me seguido até ali?
- Como eu o segui até aqui? Perguntou ele em latim, com a voz abafada pelo metal, e eu entendi agora porque aquela voz parecia tão metalizada naquele cara de costas pra mim.
Os homens da mesa do canto eram da máfia, o tio do bar também, afinal, ele era parente da tia Fran, mas ele não parecia disposto a competir com aquele cara que apareceu.
Eu não entendi porque aquele cara estava de luvas. Não entendia também porque usava uma máscara tão assustadora. Lisa, com vazados retos para poder ver, respirar, e falar tenuemente, embora a parte de falar não parecesse muito útil praquele cara.
- Eu sei como fez isso. Eu disse, pegando uma das armas da decoração da parede do lugar. Não que um sabre fosse me ajudar muito, por melhor que eu fosse em esgrima, contra uma espada de duas mãos, que aparentemente aquele cara não parecia ter pudor nenhum de carregar na rua.
Não que eu estivesse me dando de todo mal, afinal, eu poderia adaptar alguma coisa do meu escudo pra que o sabre não quebrasse, mas isso não ajudava muito contra um cara que parecia ter algum tipo de habilidade estranha também. Ele era muito rápido. Talvez fosse mais magro do que eu pensava, isso poderia ser uma explicação razoável, mas não tinha como um cara ser tão rápido.
- Já chega disso... Não vamos chegar a lugar nenhum se os dois ficarmos exaustos. Eu disse. Não sei o que houve, mas por um segundo, vi que ele parou e olhou para o lado da porta, eu escutei passos vindo. Ele continuou me atacando apesar desse barulho, provavelmente eram reforços deles. Eu sabia que ele estava mais machucado que eu, era injusto lutar com um cara como eu que poderia se defender de golpes mortais, e fugir dos demais.
Acabei me irritando com aquilo, e provavelmente o tio do bar pensou que eu era maluco quando joguei de lado o sabre que mal podia me defender, diante de alguém armado. Ninguém se mete na frente de um cara que tem algo que pode arrancar a sua cabeça fora, isso é uma regra universal. Mesmo assim, eu estava fazendo isso. Aparentemente, quando eu fiz isso ele ficou um pouco intimidado, mas veio pra cima. Eu não tinha medo, se fosse a minha hora seria, que fosse. Mas enquanto eu pudesse me proteger, eu poderia sair dali e ver a minha mãe e os meus amigos de novo.
A lâmina bateu uma vez, voltou, fez um corte nele mesmo, rasgou uma parte do sobretudo, eu consegui chegar perto o suficiente pra puxar aquele cara pelo colarinho e fazer com que jogasse fora a espada.
- Foi mal, mas eu gosto de resolver as coisas nos punhos. Eu disse olhando para a máscara que parecia impassível diante dos meus olhos, apesar de que estranhamente, tinha um brilho vermelho nos olhos dele, eu não sei por quê.
Na verdade, eu não sabia se venceria daquele cara nos punhos, ele tinha uma força enorme, eu senti isso, mas ele estava mais ferido que eu, isso eu sabia, porque aquele sangue respingado no chão e escorrendo da roupa dele era evidência, já que eu não tinha mais que pequenos arranhões apesar de tudo.
Aparentemente, depois de meio segundo de silêncio, eu escutei aquela voz. E estranhamente, por mais que estivéssemos brigando, depois de ter passado tanto tempo falando com esse cara, eu não conseguia querer derrubar ele.
- Tudo bem então... Ficou um silêncio estranho no fim daquela frase, como que se aquela pessoa fosse dizer o meu nome, ou me chamar de demônio de novo, mas aparentemente não disse nada. Era como se por um momento tivesse ficado em dúvida.
Ele terminou de destruir a gola do casaco que já tinha sido destruído demais pra uma vida, e jogou-o fora. Eu vi as botas com sola de borracha militares, a camisa cinza chumbo do uniforme com insígnias que eu nunca tinha visto antes, calças de montaria, o que provavelmente aduz que essa pessoa veio até aqui a cavalo, o que era insano no nosso século, pelo menos eu acho. Mas talvez nem tanto para essa cidade pequenina e turística com charretes decoradas.
O que tinha me assustado não eram as insígnias, o fato de que realmente o Cavaleiro fazia jus ao nome, ou qualquer coisa assim, mas o fato de que era uma garota. Eu tinha entendido a questão das luvas. Presumo que sendo uma garota, as suas mãos saindo do sobretudo denunciariam isso, e aparentemente naquela hierarquia eles não pareciam ter postos muito altos para mulheres, então esse posto deve ter sido conseguido com algum tipo de indicação muito ferrenhamente importante.
Ela estava machucada, e ainda pretendia brigar mais... Eu não poderia entender isso. Ela não poderia se manter de pé mais que alguns segundos, será que não queria admitir a derrota, ou será que isso era para manter o nome da corporação, que oficialmente não existia nos registros, até onde eu sabia...
Eu escutei o barulho dos guardas vindo. Olhei para a porta, e senti que ela realmente viria me bater, independentemente do que eu fizesse. Acabei refletindo o golpe por acidente, e ela mesma se acertou, caiu de joelhos com a força do próprio golpe, então não quero realmente saber o que aconteceria se isso me acertasse. Olhei pra ela de novo.
- Eu não brigo com mulheres. Desculpe pela minha descortesia antes, eu não sabia. Eu disse.
- O que pensa que está diz... Ela começaria a reclamar, geralmente as garotas fazem isso, independente do tipo de personalidade cáustica que tenham, era normal.
- Cale-se, isso é minha culpa – eu disse e depois olhei para o dono do bar – tio, posso usar a porta dos fundos? Perguntei. Ele sabia que era hora de eu desaparecer.
- Siga por esta rua e procure o Miguel, no hotel da segunda rua, ele é português, vai poder falar com você. Leve esta chave, depois eu vejo com a Fran o que podemos fazer. Sua mãe deve estar preocupada. Ele disse.
- Sim... Obrigado. Eu disse saindo rapidamente, escutando o barulho dos guardas chegando, e levando comigo, não sei porque, aquela menina. Ela não devia ter mais que a minha idade, era magra, e provavelmente por isso era tão rápida, só que nada explicava a força descomunal dela.
Eu tinha conseguido chegar até onde o tio do bar indicou, e estava finalmente descansando um pouco depois de correr muito e brigar mais ainda.
- Me trouxeste como refém? Para que o meu pelotão decida não matá-lo? Ela perguntou, enquanto eu via o que tinha na caixinha de primeiros socorros do quarto.
- Não. Eu não sei por quê. Eu disse ignorando o fato de que ela, mesmo sem poder se mexer direito, estava tentando evitar que eu cuidasse dos ferimentos que eu tinha causado.
- Como assim não sabes?
- Não sei... Eu só não poderia deixar que ficasse lá com todos esses ferimentos. Provavelmente tu iria decidir que isso não é importante, cuidar mais desse cargo idiota em um departamento que não existe e se machucar mais me procurando. Então é mais fácil que não precise me procurar.
- Até parece que se preocupas comigo, como se tivesse algum motivo...
- Eu tenho.
- Como assim?
- Eu tenho um motivo... Afinal, tu me escutou durante quatro dias, sem me dizer que eu sou chato. Foi a única pessoa daquele lugar que pelo menos se apresentou apropriadamente e de modo relativamente educado. Apesar de que a minha mãe me ensinou que deve olhar na cara das pessoas quando falar com elas.
- Esse é o motivo mais idiota que eu já ouvi pra alguma coisa.
- E também, eu não poderia me sentir tranquilo pensando que machuquei uma garota, mesmo sem saber, e não fiz nada depois pra reparar esse erro.
- Isso não é importante.
- Age como se não fosse mais uma pessoa às vezes, mas eventualmente, consegue ser mais humana que muita gente que eu conheço. Eu acabei falando sem pensar.
- Demonstra uma preocupação idiota, e fez algo idiota. Agora as ordens do Vaticano serão para me matar por cumplicidade com um fugitivo.
- Desculpe se aquele lugar era importante pra ti, mas não parece que tem sido feliz ali.
- Essa é a minha casa, acabaste de fazer com que eu não possa mais nela pisar, demônio. Ela continuava com isso, mas mesmo assim, parecia mais humana que antes.
Eu parei por um segundo, depois, para pensar em como remover aquela coisa do rosto dela. Aparentemente ela percebeu que eu estava pensando demais.
- Já profanaste a honra desta alma e deste corpo, se vires meu rosto, o que terei para apresentar a Deus no dia do Juízo? Ela disse, como que percebendo o que eu iria fazer.
- Ei, profanar o diabo! Eu só tirei o seu corpo de dentro de um bordel, onde mulheres nem mesmo deveriam poder entrar, e fiz curativos nos seus ferimentos sem nenhuma segunda intenção! Além de provavelmente essa coisa na sua cara estar atrapalhando mais que ajudando. Não venha com ladainhas de promessa a Deus ou voto de alguma coisa que eu conheço bem essa história. Pelo menos seja normal uma vez na vida. Eu não poderia estar mais irritado. Tudo que eu não precisava era uma maníaca religiosa, aparentemente praticamente albina, e eu diria que por pouco não era hemofílica, e ainda bem, se não já teria morrido.
Ela não disse nada. Era como se eu tivesse dito algo que ela não esperava. Será que foi porque eu sou conservador o suficiente pra ainda achar que mulheres não devem ir a bordéis? Ou será que é porque eu disse que não tinha segundas intenções? Não, isso está fora de questão, essa maluca nunca pensaria que esse comentário é um problema, provavelmente estava ótimo pra ela que eu não tivesse segundas intenções. Ou será que era justamente o contrário? Parando pra pensar, por mais bonita que ela fosse, ela realmente fazia o tipo de garota que daria medo em qualquer um, mais que a Mari.
Eu ignorei esse tipo de pensamento, que só poderia atrapalhar numa hora como essa, e fui até a janela. Parecia que eles tinham realmente decidido me procurar. O almoço estava chegando no quarto. Independentemente de reclamações eu iria arrancar aquela coisa da cara dela, custasse o que custasse.
- Tu não vais conseguir remover esse selo mág... Ela começou a falar e parou quando escutou um clique.
Era óbvio que eu tinha conseguido. Eu tinha um selo mágico que poderia refletir coisas, nada mais lógico que eu usasse isso, em escala menor, para refletir a forma da chave do que prendia aquela máscara de metal no rosto dela.
Eu tirei aquela coisa e joguei pra um canto, realmente não me agradava ver aquela coisa. Porém, ela não queria que eu visse o rosto dela de jeito nenhum. Eu não iria ficar brigando com uma criatura machucada, mas nesse caso, ela precisava comer.
- Ei, vamos lá, não faça choramingo e coma, tu não vai viver de ar. Eu prometo que me esqueço da imagem do seu rosto depois se esse é o problema. Eu disse, e realmente, parecia que parte da personalidade furiosa dela vinha da segurança que sentia com aquela máscara. Parece também que ela nunca teve alguém cuidando dela, e isso era estranho. Afinal, meus amigos cuidaram de mim quando eu estive doente, e eu ajudei a cuidar deles quando isso acontecia com algum. Era normal que fossemos solidários.
Metade do rosto dela era uma grande cicatriz, como uma queimadura. Seus olhos eram prateados também, o que era estranho, cinzento era normal, prateado assim, eu raramente via, e pareciam não gostar nem um pouco de luz do sol, aparentemente não estava muito acostumada a ver o dia com o seu próprio rosto.
Ela não parecia nem um pouco feliz por ver a proteção que tinha contra o mundo longe dela. Aparentemente, assim como algumas pessoas criam barreiras de personalidade contra as pessoas e o mundo, o que mantinha a barreira dela era aquela máscara, era algo que dava confiança para a sua personalidade existir no meio daquilo que ela conhecia como vida.
Não que isso fosse lá muito bom, afinal, vai lá se saber que tipo de tecnologias medievais eles tinham, mas aparentemente, foi o jeito dela de lidar com o mundo. No fim das contas, não posso dizer que sou muito diferente, afinal eu me escondi atrás da classe na hora da chamada na escola por muito tempo.
- O que estás olhando? Ela perguntou como um raio, e eu percebi que tinha parado pra pensar olhando pro rosto dela, que ela tentava inutilmente esconder entre as mechas de cabelo e as mãos meio que sem saber o que fazer.
- Como conseguiu essa queimadura? Eu perguntei, era evidente que não tinha sido a coisa mais agradável do mundo, mas se ela estava se incomodando com isso, eu acho que tinha todo direito de perguntar, não que ela fosse me responder alguma coisa, talvez...
- Como sabes que isso foi uma queimadura? Ela perguntou curiosa com a lógica que eu usava para minhas perguntas. Aparentemente ela não conseguia dialogar muito bem comigo, ainda mais porque o meu latim era uma porcaria, e pelos resmungos dela suponho que qualquer outro idioma que ela saiba soaria a xingamento pra mim.
- Eu conheço queimaduras de ácido, de incêndios, cicatrizes, açoites, cortes, tiros e coisas do tipo, não sou o tipo de pessoa que ficou preso em casa porque a mamãe achou que arranhões são maléficos pra saúde. O que tu tem é uma queimadura, porém não parece ser de nada químico...
- E tu achas agora que és meu médico? Ela perguntou estranhamente.
- Não, só acho que temos que conversar sobre alguma coisa, o silêncio é chato. E eu lhe contei coisas de mim, conte alguma coisa sua.
- Tu contaste coisas que eu não entendo.
- Provavelmente logo vai entender, se, como disse, não pode mais voltar pro Vaticano porque eles te matariam e nem ficar por aqui sem nada pra fazer.
- Isso é culpa sua.
- Eu sei, não se preocupe, eu arco com os custos dos problemas que arranjo.
- Não estou lhe pedindo nenhum pagamento.
- E eu não disse que te pagaria alguma coisa.
- Como assim? Ela perguntou, aparentemente confusa com as minhas respostas.
Aparentemente, pra ficar brigando por coisas inúteis nós nos entendíamos bem, e por alguns segundos consegui a fazer esquecer-se dessa marca que ela tinha na metade esquerda do rosto.
- Não tem nada pra contar, porque não sabe o que é a vida, não é? Eu perguntei.
- Não ache que podes saber tudo sobre pessoas que nunca viu antes só porque contou coisas idiotas sobre ti.
- Não vou fazer disso uma briga, tu já é estressada demais sem que eu a irrite. — Eu disse ficando quieto no meu canto e procurando alguma coisa pra ler na estante. Aparentemente, teríamos que esperar uma resposta do tio do bar na manhã seguinte. Espero que ele tenha entendido o pedido que mandei pra ele depois pelo hoteleiro. Hoteleiro esse, diga-se de passagem, estranho e com um sotaque ítalo-lusitano bem estranho pra se comunicar. – Sabe ler em italiano? Eu perguntei, vendo que só tinham coisas nesse idioma ali.
- Tu não sabes?
- Nem um pouco. Só entendo um pouco de latim pra conversar contigo porque tive a sorte de ter essa disciplina na faculdade nos últimos semestres. Se quiser posso tentar recitar coisas em francês, mas acho que isso já está fora de moda... Eu disse desistindo das leituras e levando um livro que parecia meramente atual para ela. Afinal, pelo menos ela poderia ler um pouco de literatura e não baboseiras lamuriosas de uma organização secreta que queria o pescoço dela.
- Francês? De que isso é útil?
- Na verdade não muito, mas é um clássico. Francês e um pouco de alemão. São bons idiomas pra se filosofar. Apesar de que no mundo moderno falar inglês é meio que língua universal.
- A Inglaterra é um país tão grande assim? Eu pensei que era uma ilha...
- Na verdade, se fosse por quantidade de pessoas falantes de um idioma oficial, a língua mais importante seria o mandarim, seguido do espanhol, eu acho, mas inglês é o idioma padrão pra quando se viaja pra algum lugar. Todo atendimento tem sido nessa língua na maior parte dos países, apesar de a Inglaterra continuar sendo uma ilha.
Aparentemente ela não sabia muito sobre o mundo lá fora. Seria meio complicado tentar explicar, e decidi deixar isso pra depois.
- Tu ainda não me disse o teu nome de verdade. Não quero ficar te chamando de “Cavaleiro não-sei-das-quantas” por aí como se tu fosse um homem.
- Eu não tenho um nome.
- De batismo? Não tem? O que quer dizer com isso?
- Não tenho um nome. O batismo dos que seguem o caminho de extirpar o mal do mundo não é registrado, então, eu não tenho um nome oficial além do que me concederam como título. Minha alma chegará limpa aos céus no dia do Juízo, sem nem mesmo um nome humano para macul...
- Tá, tá... Esquece essa coisa toda... Assim, sinto informar, mas por mais católico que eu seja, não dá pra ficar sonhando com alguma coisa sem fazer algo nesse meio tempo. Viva a vida, depois se preocupe com o que tem depois, se é que tem alguma coisa.
Ela parou por um segundo, como se fosse reclamar do que eu tinha dito, mas aparentemente, ela começou a pensar pela sua própria cabeça. Coisa que parecia que ela não fazia antes. Afinal, para viver sob ordens, deve-se deletar a própria personalidade e adequar-se a uma sociedade.
- O que tu pensas que estás fazendo? Perguntou ela quando viu-me voltando do banho com um pijama do hotel, e diga-se de passagem, ridículo, com listrinhas, o que eu não gostei nem um pouco, mas era o que tinha, e iria me deitar para dormir.
- Como assim o que estou fazendo? Eu pretendo dormir.
- Aqui? Ela perguntou aparentemente assustada.
- Sim, tu tá vendo alguma outra cama aqui nesse lugar?
- Ma-ma-mas... Ela parecia não encontrar palavras pra dizer o que estava pensando em Latim e apelou para outro idioma que eu não entendi nadinha de nada.
- Numero um, não entendi nada do que tu disse agora, número dois, se quiser usar travesseiros pra fazer uma parede, tudo bem, só me deixe dormir. Essa cama tem espaço de sobra pra três pessoas obesas, o que aparentemente não somos.
Eu virei pro lado e dormi. Não que não tenha pensado em coisas antes disso, mas não muitas. Só que aparentemente aquela menina era estranha, e medrosa, sem aquele uniforme militar e aquela máscara de metal, que dei um jeito de fazer desaparecer na lixeira do restaurante do hotel quando desci pra mandar o recado pro tio do bar, e da máfia, aparentemente.
Tinha a sensação de que alguma coisa estava errada, tinha um turbilhão de pensamentos estranhos na minha cabeça.
Eu entendi isso quando acordei só. Provavelmente essa menina tinha sido tão sozinha quanto um cão abandonado poderia ser, por isso foi parar em um lugar desses. Afinal, depois de ter passado por um incêndio, e ninguém se lembrar de salvá-la, porque ela era estranha, naquela imagem de vilarejo supersticioso e pobre, ninguém quereria uma criança que além de estranha, agora tinha uma cicatriz no rosto daquele jeito. Eu vi por um segundo o fogo se aproximando, evaporando as lágrimas, a madeira pesada do teto da casa caindo encima da cabeça, e depois não vi mais nada.
Eram lembranças estranhas, e aparentemente, enquanto ela dormia eu podia ver isso. Coisas cruéis que aconteciam nos porões de pedra do lugar onde ela foi parar, a freira que a ensinou a ser educada, o fato de que ela era mais forte que muitos dos meninos que seguiam a Ordem. O dia em que ela conseguiu uma promoção que nenhuma irmã poderia ter, e dia em que os Monsenhores decidiram que ninguém precisava saber que ela era ela, e que passaria a ser ele. Apenas mais um militar de uma Ordem que não existia nos registros, um dos cães de elite para caçar demônios.
Não pensar, somente obedecer. Acreditar que aquela era a salvação, porque tinha sido, somente ali a aceitaram, somente ali queriam que ela fizesse algo, que fosse útil de alguma forma.
Afinal, quem era aquele demônio para ficar conversando, mesmo que ela fingisse que não ouvia, e ficar falando e falando, enquanto ela estava há semanas sem dormir. Mas, o que era esse mundo de que ele falava? Quem era essa mulher tão amável que ele chamava de mãe? Será que ela era assim com todos os enjeitados como ele parecia ser? Ou era uma coisa que cada pessoa tinha uma diferente, como ele dizia que os outros, aqueles que ele chamava de amigos, tinham também...
Por um momento, vinha o pensamento de que seria maravilhoso se pudesse conhecer uma pessoa assim... Se no mundo existissem pessoas assim, que parecia até que acreditavam nas coisas simplesmente por acreditar, sem precisar de ladainhas e sermões, só porque estavam juntas. Ali não era assim. Era tudo por um propósito maior. Não deveria sonhar com um mundo envenenado, isso era uma peça pregada pela lábia do demônio que queria tirar a salvação dos soldados da Ordem.
Porque ele tinha escrito naquele símbolo de magia desenhado no pescoço “A Verdade e a Justiça protegem a Alma Eterna”? Isso não parecia ser uma coisa maligna... Mesmo assim... Esse cara estranho, que não parecia ser humano, tanto quanto ela, de algum jeito, ele tinha arruinado o seu mundo. Não tinha mais pra onde voltar... Ele não merecia viver... A morte era o destino dos infiéis... Iria cravar aquela faca nele e tudo seria resolvido, seria aceita de volta. Seria punida por aceitar a ajuda de um demônio, mas seria mantida em seu posto, provavelmente.
Como ele conseguiu desarmar o punho dela dormindo? Simplesmente se mexeu, virou o braço dela pro outro lado e a lâmina caiu. E ela não sabia como se livrar desse ser estranho que dormia calmamente e a abraçava como se fosse uma boneca. O tempo passava, e dormia e acordava ainda nervosa com isso, mas aparentemente ele não se mexia.
Escutou alguma coisa... Esse garoto estava chamando pela mãe? Não tinha como saber, ficou quieta, e acabou dormindo de novo.
Foi isso que eu vi das memórias dela enquanto ela dormia agora. Aparentemente ela estava repassando isso na mente. E aparentemente quando eu acordei achei que estava no ensino médio de novo, doente por alguma coisa, e que estava dormindo com a mamãe. Ela era leve assim também, como uma boneca de pano quase, deve ter sido por isso.
Os pensamentos dessa menina eram confusos. Não era definível o que ela faria, ela mesma não sabia o que aconteceria agora provavelmente. Eu também não, só tinha uma vaga ideia de que a minha mãe teria algum tipo de surto estranho quando eu reaparecesse.
Provavelmente, ela já devia saber o que estava acontecendo, e provavelmente ela fez alguma daquelas coisas estranhas de novo pra tentar me salvar. Devia ser por isso que as coisas pareciam estar dando certo apesar de tudo.
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