Não era a primeira vez que eu conseguia fazer algo estranho. Eu conseguia me defender graças à essa coisa, eu tinha direito a um escudo no colegial, e agora eu já sabia fazer isso à distância ou em maior quantidade ou tamanho. Eu aprendi a usar isso pra proteger os meus amigos, apesar de não gostar de misticismos como a minha mãe, e de nunca ter me dado ao trabalho de prestar atenção no que ela dizia.

É certo afirmar que em certo momento eu parei para tentar entender o que era isso. Depois que eu me encontrei com aquela menina. Aquela menina de cabelos dourados na cadeira de rodas. Eu não sei o que aconteceu com ela, mas ela ganhou uma imagem igual à que eu deixei nessa noite no pulso daquele desgraçado. Em troca disso, seja lá o que eu tenha feito, Marcus morreu. Mas depois, eu cheguei à conclusão, pelo que ecoava na minha mente, de que era o que ele desejava, assim como aquela menina desejava poder andar de novo, poder falar de novo. Eu não entendo como eu sei que ela já pôde fazer isso, mas eu sei.

Assim como naquela hora, eu podia escutar os gritos, não os que saiam com o choro da Mari, os gritos da mente dela, e eles eram diferentes do que o que ela falava. Ela não queria que aquele idiota morresse, mas no fundo, não era porque ela tinha um bom coração. No fundo, ela sabia que estava sendo engolida pela personalidade dele, e não sabia como se revoltar, no fundo ela só não queria que ele morresse pra não destruir o futuro do Luís. Ela só queria nos proteger. Foi isso que eu escutei. A Mari querendo nos proteger, o Luís querendo acabar com aquela ameaça à existência da Mari que nós amamos, o Rick... A mente dele estava confusa. Ele gritava mentalmente, que aquilo foi longe demais. Ele sabia que o Luís iria se descontrolar quando soubesse que aquele cara estava machucando a Mari além de estar destruindo a personalidade dela, mas ele nunca esperou que ele tivesse tanta raiva presa dentro de si. Ele estava se sentindo culpado pelo que aconteceu, por ter me impedido de segurar a situação antes.

Eu não estava com eles agora, mas eu ainda podia escutar as suas mentes gritando. Não sei se essa conexão existe porque somos amigos, mas pelo menos me deixa mais tranquilo. O Rick os levou pra casa dele, a mãe dele preparou um café, o videogame ainda ecoava o game over na mente do Rick de forma irritante, pelo menos pra mim. O Luís não largou a Mari um segundo sequer, ela ficou um bom tempo chorando ainda, até dormir, e o Luís ainda mantinha aquele comportamento de urso abraçado nela como se o mundo fosse o seu inimigo, e acabou dormindo também. O único que não dormiu essa noite foi o Rick, e eu. Eu não consegui dormir com a quantidade de coisas que o Rick pensava, isso estava me deixando maluco.

Eu achei bom a princípio depois disso ter uma conexão com o pensamento deles, mas eu não imaginei que isso continuaria a noite toda, e que o Rick não iria dormir, e que ficaria calculando desde as probabilidades de desastre por causa de alguma investigação da polícia, que torraria meus neurônios enquanto se dedicava diante do computador a danificar os registros das câmeras da estação de trem à distância, e que depois ficaria teorizando sobre alguma coisa de subpartículas atômicas enquanto jogava videogame e analisava uma partitura de música tudo ao mesmo tempo. Porque diabos eu tinha que ter um amigo com hiperatividade neuronial...

Eu consegui dormir quase ao amanhecer quando finalmente as coisas se acalmaram. Mesmo assim não foi o suficiente, porque a minha mãe me acordou, e depois de tudo, eu me sentia cansado, ouvia pensamentos estranhos, e ainda tinha que tentar me concentrar em fazer as compras no mercado sem errar as coisas estranhas que ela pedia.

Mesmo assim, se fosse por causa de algo que poderia proteger os meus amigos, eu não me importaria. Até agora por piores que as coisas tenham sido, nós estamos juntos, então, eu não posso reclamar. No meio do meu dia infeliz, descobri que o Jamal e a Júlia foram almoçar com eles na casa do Rick, e agora eu podia escutar os gritos ensandecidos da mente do Jamal preocupado com o que aconteceu. Não sei porque, mas eu não escuto a Júlia, embora, pensando bem, seja uma mente a menos pra me deixar maluco.

Até a hora da minha aula eu teria que descobrir uma maneira de bloquear isso, ou eu ficaria maluco. Eu estava tentando, pelo menos, mas não estava tendo sucesso nenhum. Minha mente não foi projetada pra ficar tendo flashes de visão do que acontecia com os outros, e nem dos seus pensamentos, e eu não queria saber de coisas que não me diziam respeito. Eu estava ignorando tudo que vinha pra dentro da minha cabeça, afinal não queria entender errado um monte de informações, além do fato de que isso me deixou com uma enorme dor de cabeça.

- Bebê, o que aconteceu? Perguntou a minha mãe vendo que a minha cara, eu imagino, deveria estar mais verde que quando eu comia algo estragado.

- Estou com dor de cabeça. Vou tentar dormir um pouco antes da aula pra ver se melhora. Eu disse subindo as escadas, e escorregando em um degrau, no que automaticamente eu saí rolando e bati no chão de qualquer jeito.

- Lúcifer... Ela veio pro meu lado como se eu ainda fosse um bebê mesmo... Minha mãe conseguia ser tão fofa às vezes que eu não conseguia reclamar dessa atenção exagerada comigo.

Antes que eu pudesse subir e me deitar pra dormir, aconteceu algo que eu não esperava. Finalmente a minha mente desligou. Pelo menos eu podia decidir o que acontecia com ela com mais facilidade, e com toda certeza a minha decisão era diminuir o volume dos gritos dentro da minha cabeça.

Rick estava diante da porta da minha casa, digo, entrando pelo consultório de vidência da minha mãe, com a cabeça enfiada pela porta da cozinha.

- O que tu tá fazendo aqui? Perguntei servindo mais um copo de suco, afinal, pela cara dele, ele pretendia ficar e conversar, e já estava com a mochila pra aula, então a conversa seria meio longa.

- Eu tenho algumas coisas pra perguntar. Disse ele sentando-se e aceitando o suco, porém olhando com uma cara estranha pra cor que ele tinha dentro do copo.

Era típico ali em casa as coisas ficarem com cores estranhas naqueles copos com estrelinhas e coisinhas da minha mãe.

- O que aconteceu? Eu perguntei.

- Ontem eu levei o Luís e a Mari lá pra casa, liguei pro Jamal avisando hoje de manhã que eles estavam lá e contei o que aconteceu no almoço.

- Eu sei. Eu disse meio sem pensar.

- Como assim?

- Eu escutei.

- Impossível. Disse ele provavelmente pensando em uma explicação científica pra isso.

- Eu escutei os gritos dentro da cabeça de vocês... Naquela hora eu comecei a escutar. Só consegui desligar essa droga há pouco tempo.

- Isso tem a ver com a marca que eu te vi deixar no pulso daquele...

- Provavelmente não. Aquilo deve ser outra coisa. Eu ainda não entendo aquilo, nem isso de escutar vocês. Eu estou cansado, porque tu ficou pensando em coisas insanamente aquém da minha capacidade mental a noite inteira, e logo depois eu comecei a escutar os gritos da mente do Jamal sobre o que tu contou pra ele do que aconteceu ontem.

- Isso não foi da mente dele... Ele gritou mesmo... — Falou o Rick meio sem graça de me interromper. – Mas mais importante que isso... Dullius, aquele cara estava morto antes de tu encostar nele, o que aconteceu ali?

Eu temia que ele tivesse percebido isso, apesar de o médico ali não ser ele, porém, eu tenho que admitir que ele é muito observador.

- Troca. – eu disse, diretamente, mas ele me olhou com cara de quem não acreditava – A Mari não queria que ele morresse, porque isso prejudicaria o Luís, eu queria que ele vivesse sofrendo até se arrepender do que fez com ela, tu não sabia o que queria, o Luís queria proteger a Mari, então foi o que aconteceu. Aquele bastardo perdeu completamente o movimento dos braços, sem conserto, definitivamente. Não vai conseguir depor contra nós, e se encostar na Mari de novo, ele morre.

- Existem implantes de células artificiais que podem resolver esse... O Rick começou a teorizar.

- Os braços dele vão apodrecer se ele tentar. É o preço pra que ele tenha retornado dos mortos, perder algo equivalente. Perdeu o que ele perseguia mais obsessivamente, e perdeu a chance de poder fazer várias coisas nessa vida. Vai ter que reaprender a viver.

- Aquela marca... Tu deixou ela em mais alguém... Ele queria perguntar, mas não chegou a elaborar como pergunta.

- Sim. Embora da primeira vez que eu tenha feito isso eu não tivesse consciência do que isso significa. E eu também não sei o que aconteceu com aquela menina.

- Quem?

- Eu não sei. Foi uma troca também, só que não foi ela que pagou o preço, foi outra pessoa. Não sei até onde isso se aplica, mas quando existe um meio de trocar os resultados dos desejos das partes, parece que essa coisa funciona do mesmo jeito, embora aparentemente sempre envolva a morte de alguém. Seja de modo intermediário ou como resultado disso.

- Essa coisa que tu fez... Isso é um tanto perigoso. Que tipo de distúrbio isso pode causar como resultado?

- Não sei ainda. Provavelmente isso...

- Provavelmente isso pode te causar problemas se usar por interesse próprio, Lúcifer. Disse a minha mãe se intrometendo na conversa.

- Como assim, Amy? Perguntou Rick. Às vezes eu me esquecia de que ela era amiga deles, e que eles a chamavam pelo primeiro nome, até porque ela era tão jovem quanto nós, pelo menos em aparência, que nesses anos todos, não mudou em nada.

- Esse é mais um dos poderes que esse selo te dá, meu bebê... – começou ela, e eu não pude evitar fazer uma careta quando ela me chamou de bebê na frente de um amigo meu – provavelmente já aprendeu a usar o escudo, então agora tem que aprender o significado do equilíbrio universal pra poder conviver com esse tipo de poder que conseguiu libertar. Aliás, porque não me conta essas coisas?

- Deve ser porque tu vai me fazer estudar coisas chatas de magia, mãe... Eu disse pensando na quantidade de livros que provavelmente ela me mandaria ler e como isso seria cansativo.

- Bom, é melhor estudar isso que sofrer efeitos colaterais quando alguma coisa sair errado... — Ela disse fazendo beicinho pelo fato de nós realmente desprezarmos magia como algo nada confiável. Mas depois ficou mais séria – Essas coisas não foram feitas só pra te proteger ou te fazer diferente das outras pessoas, Lúcifer... Filho, essas coisas existem pra que possa fazer algo melhor que somente ser poderoso nesse mundo, são pra que possa proteger o que é importante pra ti.

Ela era um pouco confiante demais em si mesma e na educação que me deu até o momento, mas por um lado, ela poderia ser assim, afinal, eu aprendi o que é importante de verdade. Meus amigos, a felicidade de saber realmente quem somos nesse mundo, a desnecessidade de egoísmos sem fim que tínhamos nessa sociedade... Eu entendo bem o que significa ser feliz somente com o que tenho. Afinal, de certa forma, eu sou rico, não porque eu tenha muito dinheiro, realmente eu não tenho, mas eu tenho os sentimentos de amigos de verdade, eu tenho conhecimentos que poucas pessoas têm, sobre como é bonito um por do sol, ou o rosto de uma menina livre de qualquer maquiagem, mas com o sorriso mais brilhante que qualquer rainha de concurso de beleza, o som de uma música que foi feita por pessoas que se amam, como na nossa antiga banda, o grito por uma liberdade de quando a Mari mudou nossa rota de colisão com a vida naquele bar com uma colher de sorvete e uma cereja, essas coisas são mais importantes que impérios...