Quem Sou?
11 Política
Fazia pouco tempo que eu tinha visto meus amigos, e muito que eu não via a escola. Nós começamos o ano sem muitas novidades, não havia colegas novos, só alguns que não estavam na nossa turma ano passado. Com sorte, ficamos todos na mesma turma, o que me surpreendeu, porque eu pensei que as professoras fossem separar nosso grupo considerando o tanto de encrencas em que nos metemos no ano anterior. E dessa vez, sim era nossa culpa, sim nós começamos brigas.
Nesse ano nós ressuscitamos a banda de garagem, um tanto nada convencional, e começamos a tocar eventualmente em um ou outro barzinho nos fins de semana. Isso não era muito lucrativo, porém, mesmo assim, divertido, porque podíamos ter um pequeno minuto de fama entre pessoas que não nos conheciam tão especificamente, e poucos dos nossos colegas de escola frequentavam esses lugares diferentes. Além disso, compensava o fato de a minha mãe ter bebido as nossas férias e o Luís parecia de ótimo humor com isso.
Aparentemente a mãe dele não gostava muito da ideia de que nós perdêssemos nosso tempo de estudos naquela garagem ensaiando, mas isso nem era tão frequente assim, de certa forma, estávamos em sintonia, e não precisávamos nos preocupar com o ritmo dos outros, só deixar a música levar.
Assim, nós simplesmente nos preocupamos com outras coisas, além disso, quando surgiam as discussões na escola. Não sobre a banda, mas sobre os cortes nas festividades dos alunos, porque simplesmente o Grêmio Estudantil não queria que participássemos das festividades com a banda, e não queriam que chegássemos a menos de cinco metros de distância da sala do grêmio. Como eu sempre pensei, aparentemente, eu dou azar. Não é porque as outras pessoas acham isso, é porque pelo visto, era um fato.
Nesse meio, além de perdermos tempo com a banda, as brigas e problemas com alunos da nossa turma e da turma do último ano, tinha a Mari, que estava no time de vôlei, e a Júlia como líder de torcida do time de futebol do campeonato interestadual escolar. Fora isso, nós tínhamos atividades normais, eu diria, um pouco. Eu não tinha mais que a escola, as brigas, o dojo, agora sem a Mari, já que ela tinha lotado a sua agenda, a banda, alguma tarefa idiota que eventualmente a minha mãe arranjava, e realmente, quando eu digo idiota, é muito idiota. Como uma vez que ela me pediu pra ir buscar na cidade ao lado um bastão de beisebol vermelho. Realmente, eu não sei pra quê ela queria isso, ou porque eu não poderia comprar no centro desta cidade em que moramos mesmo, mas se era pra fazer essa odisseia de trem até a outra cidade, porque ela não foi? Digo, ela tem tempo livre mais que suficiente pra esse tipo de maluquice.
Pensando pelo lado positivo, pelo menos ela não me manda pra Índia pra buscar canela e cravo da índia. E é melhor que eu nem dê a ideia pra que ela não invente de achar que é uma “boa ideia”... Realmente, cada vez que eu falo alguma coisa que dá ideias pra ela, eu penso que tendo uma mãe assim, talvez fosse bom ser mudo. Não dá pra ser irônico com ela... Não mesmo...
Então, tínhamos mais um showzinho de abertura pra uma banda qualquer, o que denota que a nossa banda não era nada famosa, ou pelo menos eu achava isso, e estávamos arrumando os equipamentos pra poder tocar. Eu realmente não tinha me adaptado a tocar qualquer coisa que não fosse um piano, e acredito que mais um pouco e eu iria destruir as teclas daquele teclado eletrônico estranho. Não que eu não ache bom que ele tenha o sintetizador de vários instrumentos e recursos de ene coisas, mas, ele era aparentemente frágil, a começar pelas teclas. Eu preferia muito mais o piano da minha casa, que a minha mãe disse ter ganhado da minha bisavó, só que eu não consigo entender como a minha família estava de posse de um piano tão caro e antigo quanto aquele. Aliás, se aquela coisa valia meio milhão de libras esterlinas, em uma cotação mediana, porque diabos a família deixaria aquilo nas mãos da parte renegada da família, justo a minha mãe... Bom, vai ver eles pensaram que aquele piano tinha alguma maldição ou coisa do tipo.
A maior parte das coisas lá em casa, no depósito, nos armários, em tudo, tem alguma história de maldição ou de mau agouro mesmo.
Não é culpa minha, pelo menos, é só que, eu não entendo como, a minha mãe ganha essas coisas de presente. Aparentemente, todo mundo acha que ela em poderes mágicos para tirar maldições, mas aí eu pergunto por que ela tinha que colocar uma maldição logo em mim que sou seu filho? Não é ser mal agradecido, é ter vivido a minha vida inteira como um renegado pela sociedade, indo ou não contra isso, eu sei que boa parte das pessoas nunca vai me aceitar porque um dia alguém deve ter dito alguma coisa que deu uma “boa ideia” pra ela colocar no meu nome porque achou bonito. Francamente, às vezes eu não sei o que ela tem na cabeça.
E assim começava mais um ano de encrencas, nosso segundo ano de procurar por problemas, eu diria. Porque aparentemente, independente do método que escolhêssemos, estávamos fadados a encontrar problemas.
A nossa banda aparentemente começava a ter uma aceitação muito boa entre as pessoas da região, alguns dos nossos colegas até gostavam de nossas músicas, porém, independente de como eu fosse legal ou arrumadinho, digo arrumadinho porque aparentemente para as meninas, depois de saber o meu nome, eu era descartado e o Rick subia no ranking de boa aparência e interesse delas, então, seria realmente difícil que toda a sociedade nos aceitasse, a mim porque sou eu, aos outros porque estão comigo nessa trilha de estranhices.
O dono do bar que nos contratava eventualmente só continuava nos contratando porque o lucro que ele tinha compensava a quantidade de brigas que só tínhamos depois e a quebradeira que eventualmente acontecia, principalmente se o Luís estivesse com a gente, porque ele realmente era quem mais parecia se divertir quebrando coisas. A Mari apavorava boa parte das pessoas e logo desistiam de tentar chegar perto dela, eu, bom, eu sempre era o alvo da maior parte dos pedaços de cadeira, ou vidro quebrado, ou qualquer coisa letal, e não sei como ainda estou vivo... O Rick, ele é o cara da lei do menor esforço, então raramente o víamos se encrencando, era sutil a rápido perder pra ele, então eu realmente anotei mentalmente há algum tempo que não devo irritá-lo. O Jamal simplesmente estava pela festa e não se importava com isso, ele sempre foi mais corajoso que nós, desde quando nos conhecemos com aquela histórica rasteira em alguns pirralhos toscos.
Eu estava pensando no que aconteceu na última encrenca generalizada no bar, no sábado anterior, enquanto caminhava lentamente para a escola. Eu sabia que não tinha sido algo normal, mas esperava também que as pessoas não tivessem notado nada em meio à confusão.
Naquele fim de noite, depois do show, estávamos na nossa mesa, e eu vi alguns dos amigos de esporte do Luís, cumprimentamos, e o Jamal chegou com as nossas bebidas, era a rodada de ele pagar. Não me lembro do motivo da encrenca, mas só sei que a briga começou, entre eles e mais algumas pessoas que estavam em uma mesa atrás de nós cuidando o Luís de modo suspeito, e então eu já não sabia mais quem era ou não era aliado, e o Rick se meteu na encrenca, o que raramente ele faz, geralmente eu tenho a suspeita de que ele calcula tudo que vai acontecer, e que algum dia descobriremos que não passamos de fantoches em suas mãos, como os marionetes do jogo The Godfather.
A mesa se foi, garrafas viraram armas afiadas, e do jeito que a coisa estava eu não poderia proteger a Mari sozinho, só que ela tinha que se meter a querer proteger os outros, ignorando o que pensávamos de que ela como menina deveria ficar quietinha com a Júlia independentemente de agarramentos que ocorressem enquanto estivéssemos apanhando ou seja lá o que fosse.
Alguém conseguiu desestabilizar o lustre de vidro que já era uma pendenga, e a Mari estava debaixo dele, se ele caísse provavelmente ela se machucaria, mas a distração com a briga era mais imediata para ela, e aparentemente ninguém mais viu que aquilo poderia ferir o rostinho bonito da Mari, então eu não sei como, mas me livrei do cara que estava tentando me acertar com um soco e consegui ir até a Mari, só que o lustre iria cair, e não daria tempo de sairmos dali, eu não sei como vi isso em câmera lenta, talvez fosse o álcool e a agitação do momento, mas eu consegui empurrar ela pra longe dos cacos de vidro.
Eu me machuquei o suficiente pra que a briga meio que esfriasse, até porque o dono do bar, logo depois de ver um prejuízo desse tamanho e a quantidade de sangue que escorria de mim, decidiu que fecharia tudo, era evidente graças à espingarda que ele portava.
Os encrenqueiros saíram e nós da banda ficamos, ele era um bom homem, o Antônio. Logo depois de expulsar todo mundo com aquele trabuco ele olhou pra nós ainda com a espingarda em mãos e disse:
– Você, menina, pegue lá dentro do bar a caixa de primeiros socorros e vocês, tirem o Dullius daqui pro sofá do outro lado que não tem cacos de vidro, Chica, traga alguma coisa pra tirar as manchas do chão! Gritou ele ordenando coisas para a Júlia, para os meninos, e para a sua esposa.
Eu fiquei pensando se ele se preocupava mais com a mancha de sangue no chão que comigo, mas não falei nada. Era estranho o fato que eu não tivesse ferido um olho ou tido algum vidro grande encravado em algum lugar que ao ser retirado me fizesse sangrar até a morte considerando o estrago.
O Tonho percebeu isso, e achou estranho, mas não falou nada, só começou a organizar o caixa e não parecia insatisfeito com a briga, afinal, provavelmente ele tinha lucrado para comprar quatro daqueles lustres só com o troco do caixa.
Apesar de eu ter olhado para cima quando o lustre caiu, eu não tinha nenhum caco de vidro no olho, ou cortes significativos no rosto ou no pescoço. A Mari e a Júlia começaram a cortar a minha camisa pra tirarem o vidro, e quando começaram a puxar os pedaços eu realmente queria gritar. Afinal, o que diabos elas estavam colocando nas minhas feridas pra arder mais que aqueles malditos mercúrios que se passava em ferimentos na infância?
– O que vocês estão fazendo nas minhas costas? Querem arrancar a pouca carne que me resta no corpo? Eu perguntei rangendo os dentes, realmente, doía.
– Não se mexa, ou vai perder um bife a cada caco de vidro. Falou a Mari concentrada. Eu realmente não duvidei da ameaça dela e fiquei quieto, embora quisesse me contorcer em alguns momentos.
– Dullius, essas cicatrizes nas suas costas não são do despenhadeiro... Comentou o Rick observando que haviam listras marcadas de forma bem diferente ao que seriam ferimentos aleatórios do meu acidente anterior às aulas naquele ano.
– Não, não são. Eu disse, esperando que ninguém comentasse mais nada. Esse era o meu motivo pra não andar sem camisa na praia e evitar que os outros me vissem quando eu estava me vestindo por ocasião das aulas de educação física.
– Isso são marcas de açoitamento. Falou a Júlia, séria. Eu não esperava que ela em seu pedestal de menina de família medianamente rica soubesse exatamente de que eram as minhas cicatrizes, mas não consegui fazer uma cara decente e disfarçar isso inventando uma desculpa.
– Sim, são. Eu disse esperando que perguntassem, eles certamente iriam perguntar.
– Quem fez isso? A Mari perguntou como um raio, ela não era o tipo de pessoa que medisse os sentimentos das pessoas.
– Mari, todos temos segredos, nem sempre as pessoas entendem, deixa... Luís começou, eu sabia que ele também deveria esconder alguma coisa, como todos os outros, e pelo que eu entendia até ali, era algo que o Jamal sabia, mas nós não, só que nesse caso, eu tinha escondido isso de todos até onde eu pude, não queria que sentissem pena de mim.
– Eu não contei por achar desnecessário, é só. Quando estávamos na sétima série e eu faltei três semanas de aulas, foi porque depois das férias de agosto, quando eu tinha ido passar alguns dias com a família do meu vô... Bom, dá pra se dizer que o pai da minha mãe não é o cara mais tolerante do mundo... O velho é um fanático religioso que pensou que eu estivesse possuído por um demônio ou coisa do tipo, e achou que o padre foi suave demais na tentativa de exorcismo. Isso foi porque eu defendi a minha mãe, não é nada além do meu dever.
– As marcas ficaram desse jeito porque tu só pode tratar isso quando voltou pra casa da sua mãe, duas semanas depois, não é? Perguntou a Júlia.
– Sim, por isso eu não fui à escola.
– Como sabe de uma coisa dessas? Perguntou Rick cientificamente interessado.
– Minha mãe é médica, e fez trabalho voluntário em regiões inóspitas da África, já vi vários tipos de tortura, prever o que ocasionou isso não é difícil. Fala ela analisando as marcas em mim como se eu fosse uma prancheta de estudos, o que me incomodou um pouco.
– Mas, voltando ao assunto, afinal, porque essa encrenca toda começou e se tornou algo generalizado? Perguntou a Mari, olhando para o Luís inquisidoramente, considerando que foi por causa dos amigos dele que a encrenca começou, já que depois que eles chegaram explodiu tudo.
– Eu explico, em parte. – Fala o Jamal, interrompendo toda a seriedade com o seu sotaque – Aqueles caras que estavam na mesa atrás de nós, eles tinham uma rixa política com o Luís e com os amigos dele.
– Rixa política? Perguntei.
– Sim, eles em si compraram problema com todos, afinal estavam comigo, então eu diria que temos mais esse presente hoje... Fora o fato de que, como ficou evidente, eles não tiveram nenhum pudor de tentar bater na Mari também.
– Só tentar mesmo... Falou ela segura de si.
– E os amigos do Luís, porque não evitaram de vir aqui? Perguntou o Rick, provavelmente pensando que menos pessoas era menos encrenca.
– Porque se eles não viessem, provavelmente mais pessoas daquele grupo político iriam aparecer, e isso significa que nós cinco não poderíamos sair quase ilesos como estamos. Falou o Luís.
– Alguém pode me explicar essa coisa de política tão estranha? Perguntou a Júlia.
– Bom, de minha parte tu sabe, minha morena linda, que eu sou um comunista convicto. Falou o Jamal. Realmente, sabíamos disso, e o Rick nunca gostou dessa ideia, ele era um capitalista convicto até onde eu sabia. Seu argumento estava firmemente agarrado à indústria de games e eletrônicos ultramodernos.
– Dullius, eu diria que tenho um motivo mais preocupante pra não poder andar sem camisa na praia... Falou ele tirando a camiseta. Era evidente que com aquele tipo de figuras que ele tinha nas costas tatuadas ele não poderia sair nas ruas sem camisa mesmo, ele seria preso no minuto que pensasse em fazer isso.
– E porque só contou isso pro Jamal? Perguntou a Mari ofendida.
– Bom, porque pra ele isso é mais relevante que pra vocês, aparentemente, é mais fácil fazer piadas com ele se tivermos um acordo de tolerância política.
– Tolerância política? Perguntou a Mari ironizando as imagens gritantes de motivação na segunda guerra mundial que o Luís escondia agora colocando a camisa limpa que tinha trazido para depois do show.
– Ei, funcionou durante muito tempo e vocês nem perceberam... Falou ele de volta para ela.
– Realmente, eu demorei pra calcular isso com base nos comentários deles. Disse o Rick impressionado.
– Certo, alguém me explica como isso de “tolerância política” está funcionando depois de me informarem desse tipo de coisa... Eu disse incrédulo.
– Simples, — começou o Jamal – se estamos em um país democrático, então simplesmente não ofendemos as ideias alheias, democracia de verdade é o respeito a todos os tipos de pensamento. Considerando que a ideologia dele é extremamente disciplinada, ele optou por ser legalista e seguir essa parte que muitas pessoas ignoram da lei do seu país.
– Exceto pelo fato de que eu tenho algumas limitações públicas, diferente do Jamal, estamos no mesmo nível de respeito e opinião.
– Ai... Certo, eu vou simplesmente ignorar essa parte porque é demais pra minha cabeça, eu sou politicamente uma ameba. Só, por favor, que ninguém mais faça comentários ou revelações bombásticas hoje. Eu disse cansado e pensando em ir pra casa somente.
Eu realmente pretendo ignorar os termos de contrato de tolerância politica estranhos entre aqueles dois, só quero poder tomar um analgésico extraforte e dormir depois dessa noite de encrencas.
Era nisso que eu estava pensando quando eu ia pra escola, e nem me dei conta de que o Rick estava ao meu lado me observando, com o Nintendo desligado, o fone de ouvido caído, como se eu fosse algo esquisito.
– Oi... Eu disse em dúvida, afinal eu nunca tinha visto ele com uma cara daquelas.
– Bom dia, Dullius...
– Aconteceu alguma coisa? Eu perguntei vendo que ele estava pensativo ao meu lado andando.
– Eu estava esperando tu perguntar... – foi nesse instante que eu pensei, aí vem bomba... – porque eu imagino que tu viu o que aconteceu nesse fim de semana... Falou ele referindo-se ao problema com o lustre provavelmente, afinal eu não estava envolvido em nenhuma encrenca além dessa.
– O que tem aquilo, tá tudo bem, ninguém se machucou mais do que o suficiente... Eu disse tentando fugir do assunto. Eu não sabia onde ele queria chegar, mas provavelmente ele tinha alguma ideia estranha, afinal, depois das férias na praia, ele tinha mais teorias da conspiração que o Luís, e olha que isso era difícil, considerando tudo que sabíamos sobre ele agora.
– É exatamente esse o problema, pelos meus cálculos aquele lustre deveria ter pelo menos te mandado pro hospital por perda excessiva de sangue, só que tu não se feriu “mais que o suficiente” pra terminar com a encrenca no bar...
– Bom, e eu não posso pensar que isso foi sorte? Eu disse fazendo com que ele se contorcesse mentalmente ante a ideia de que seus cálculos poderiam estar sujeitos a algo tão inexato quanto a sorte.
– Tu pode, mas se mais alguém além de mim prestou atenção no que aconteceu, dava pra ver claramente que essa coisa – disse ele apontando a minha tatuagem – era o centro “antigravitacional” pra evitar que os cacos te ferissem em excesso.
– Bobagem... Eu disse achando que não deveria me preocupar com algo daquele tipo. Afinal, já chegava a minha mãe ser meio envolvida com misticismo estranho, a Mari gostar disso, o Rick ser pirado por explicações de física quântica pras coisas e o Luís ter teorias da conspiração. O Jamal no momento estava deixando de ser um problema com as suas crenças moçambicanas porque o seu foco de atenção era a Júlia, aparentemente eles se entenderiam se as coisas continuassem daquele jeito, então, diante de tudo isso, faz sentido que eu seja uma pessoa normal que siga a teoria do “só acredito vendo” e no momento, eu não tinha visto nada.
– Tu acha que vai fugir da conclusão lógica de que tu tem algo de estranho pensando “só acredito vendo”? Disse o Rick interrompendo meu pensamento.
– Er... Realmente, não só acho como vou. Eu disse mais decidido. Afinal, porque eu tinha que de repente perceber que eu era o mais normal no meio daquele pessoal?
Eu não vi o que aconteceu, mas eu vi uma iluminação azul estranha do meu lado, e logo depois eu vi que a parede do prédio onde eu deveria ter sido esmagado estava arredondada, quebrada, e eu aparentemente estava inteiro. Quando olhei de novo, o Luís estava com o ombro sendo colocado no lugar pela Mari, de um modo nada delicado, o Jamal parecia interessado, apesar de a Júlia estar ali, o que significa que o que quer que fosse, era algo muito interessante.
– Yo, Dullius... Disse o Luís olhando pra mim com uma expressão de dor quando a Mari puxou o ombro dele de volta pro lugar. Eu não sabia bem o que pensar, mas sabia bem que uma batida dessas, vinda dessa forma, do Luís poderia significar um traumatismo craniano, e impensadamente coloquei a mão na minha cabeça, mas nada doía.
– O que você pensa que está fazendo? Queria me quebrar no meio?
– Na verdade era evidente que tu não iria quebrar no meio, idiota... Fala o Rick como se isso fosse algo óbvio.
– O Rick tinha falado do que aconteceu nas férias pra nós – começou a Mari – e esse fim de semana confirma que a teoria dele faz algum sentido.
– E como tu viu, Dullius, tem realmente alguma coisa que impediu que o Luís te rachasse no meio agora. Disse o Jamal.
– E se não tivesse? Vocês estavam pagando pra ver, independente de me quebrar em pedaços... Eu realmente fiquei ofendido com isso, afinal, minha integridade física era peculiarmente importante pra mim.
Mesmo que eles tentassem me explicar, e mesmo que até eu confiasse nos cálculos do Rick, isso era apenas uma teoria, e ele deveria testar as suas teorias em ratos de laboratório, não em um amigo. Nesse dia eu não me sentei no meu lugar, e a turma estranhou que eu tivesse sentado sozinho em um canto no fundo da sala. Provavelmente pensaram que finalmente os outros tivessem me abandonado, mas ainda duvidavam disso.
No intervalo das aulas, aparentemente, a Júlia se desentendeu com os outros e veio falar comigo. Eu ainda estava emburrado no meu canto. Não que eu fosse ficar a vida inteira brigado com os meus amigos, mas pedidos de desculpas eram bem vindos com o mau humor que eles me trouxeram nessa manhã.
– Dullius, tá tudo bem?
– Mais ou menos... Eu disse, já de humor razoável, afinal, apesar de ela ter estado com os outros antes, ela foi a primeira a vir até ali, era a menos cabeça dura.
– Não espere que algum de nós peça desculpas por hoje. Ela disse como um raio, e apesar de seu modo delicado de falar, realmente, eu recebi a frase com um choque.
– Er... Tu veio aqui só pra me dizer isso? Eu perguntei meio em dúvida.
– Sim, imagino que o teu surto de ficar de mau humor passe logo, então quando decidir terminar com a birra volte para o seu lugar na sala. Falou ela saindo com o sinal do fim do intervalo batendo e seguindo os outros mais adiante.
Eu saí para a sala. E realmente, sabendo como todos eram, eu não poderia ficar de mau humor pro resto da vida, e simplesmente voltei pro meu lugar, o que não queria dizer que eu ainda não me sentisse chateado.
Fale com o autor