E voltamos pra escola com uma grande surpresa. Eu diria que o fim da nossa gestão no Grêmio Estudantil e as eleições para o próximo, de que queriam que participássemos ferrenhamente, foram mais conturbadas que eu imaginei.

Foi o primeiro momento na vida em que eu vi que as pessoas podiam não ser tão burras. Mesmo várias pessoas que sempre me detestaram de modo expresso queriam que ficássemos no Grêmio, e aparentemente não tinham vergonha de dizer que queriam o meu nome na presidência. Foi um dos poucos momentos em que parei pra pensar, se realmente, tudo que eu fiz até aquele momento não tinha sido completamente errado.

Esconder-me porque os outros não gostavam do fato de eu ser diferente nunca tinha dado certo, então, talvez, se eu provasse pras pessoas que eu era igual, ou até melhor que algumas daquelas pessoas, se eu tivesse desejado ser reconhecido pelo que eu era, possivelmente eu não tivesse passado por tudo que eu passei, e possivelmente, era isso que meus amigos queriam que eu percebesse desde o começo.

Como todos nós assumimos trabalhos de meio turno, deixamos os clubes e o Grêmio tranquilamente, sem sentir a falta das tarefas, até mesmo agradecendo, e passamos a estar cada vez mais afastados, o que eu não achava particularmente bom.

Nesse ano, eu perdi um romance de férias, o que eu não contabilizo como importante, e nem mesmo as garotas das festas, afinal, nenhuma delas sequer se esforçou para entender o que eu penso, e quando gostamos mesmo de alguém, nós desejamos entender essa pessoa alvo de nossos sentimentos.

E nesse ano, depois de um afastamento mais evidente da Mari, a Júlia finalmente deu uma chance pro Jamal, embora a minha teoria diga que eles já tinham alguma coisa desde que a família deles se juntou pras férias escolares.

O Luís parecia de péssimo humor, mas no dia seguinte, quando eu cheguei à escola, eu estava pior. Isso eu tenho certeza, apesar de no fim eu ter mudado de ideia.

- O que aconteceu? Ele perguntou emburrado quando eu sentei do lado dele com uma cara pior ainda.

- Nada... Eu acho... E tu, porque essa cara? Eu perguntei, tentando ser educado.

- Nada que me diga respeito, eu acho. Ele disse fechando-se seu canto com cara de quem não diria mais nada.

A Mari chegou de aparente ótimo humor. Geralmente em época de provas como agora, perto do fim do ano, nós tínhamos caras piores, mas estávamos no último ano, já tínhamos burlado leis o bastante e incomodado políticos o bastante pra melhorar a nossa escola, estávamos cansados de aulas, cursinho, trabalho, e pensamentos para a formatura e para o vestibular. Esse não era o normal da Mari, tinha alguma coisa muito diferente, e até mesmo o Rick parou de jogar, pelo barulho de Game Over que eu escutei, quando a Mari chegou e sentou-se no seu lugar.

Na hora do intervalo eu senti uma “leve” segregação dos nossos grupos, porque a Mari passou metade do tempo no celular falando com alguém de um modo tão educado que eu nunca tinha visto para ela, e depois, confabulando coisinhas com a Júlia. No nosso caso, o Luís e eu continuávamos de mau humor, o Rick parecia preocupado, e o Jamal tentava adivinhar o que elas estavam conversando.

- Ei, o que é que vocês têm de estranho hoje? Perguntou o Rick vendo a cara minha e do Luís emburradas.

- A minha mãe está namorando um cara... Eu disse pensando no quão estranho isso pareceria pra eles, mas mantendo o meu mau humor e esperando que ninguém perguntasse nada.

- E você, Luís, o que foi? A sua mãe também está namorando um cara? Perguntou o Rick inquisidor.

- Não! A minha mãe é casada com o meu pai, caramba... Falou ele rindo disso, e decidindo fingir que estava de bom humor, mas sem sucesso total, porque nós estávamos cientes de que o esforço dele era hercúleo pra isso.

Depois disso, enquanto íamos pra aula, eu consegui entender o possível motivo pro mau humor do Luís. Alguém chegou à frente dessa vez... Foi o que pensei, quando descobri que a Mari tinha arranjado um namorado.

Nossos shows com a banda tinham diminuído de número drasticamente, e logo, pelo que eu via, a banda terminaria, porque não existia motivo pra continuar se a Mari nem sempre comparecia aos ensaios agora, e as agendas de shows passaram a ser disputadas pro tempo que ela dedicava pro príncipe encantado dela agora.

Eu, e todos os outros nos preocupávamos com o momento em que colocaríamos o nosso nome na inscrição pras provas do vestibular, e como nós nos sairíamos nas provas, considerando que estudamos menos que deveríamos, mas que mesmo assim, tínhamos mantido, heroicamente, melhores notas que boa parte dos alunos encrenqueiros como nós poderia manter. Tínhamos sorte de ser um pouco dotados de capacidade para entender as disciplinas com certa facilidade.

Digamos que nos tempos que se seguiam para o momento em que possivelmente nos separaríamos, eu pensei várias vezes no que aconteceria comigo, e no que aconteceria com cada um de nós. Somos personalidades que se completam, todos nós. O gênio, a sociável, a perseverante, o valente, e divertido, e o covarde. Não era difícil perceber isso, e seria muito difícil pra todos nós perder esse contato.

Aparentemente, o tempo parecia passar mais lentamente sem a Mari brigando com a Júlia, sem a Júlia apertando os peitos da Mari, sem o Luís resmungando piadas com o Jamal em discussões nada politicamente corretas que sempre terminavam em sinuca ou pôquer, sem o barulho constante do videogame do Rick dando game over, porque aparentemente, nada mais acontecia, e os minutos se arrastavam lentamente.

E esse foi o momento em que eu comecei a perceber que nós sem a Mari, ou sem qualquer um de nós éramos incompletos. Mesmo assim, por mais que eu tivesse assumido a postura de coragem da Mari, no que eu podia, porque ninguém nunca seria mais corajoso que ela ali, pelo menos eu acho, eu não consegui unir o grupo da mesma maneira. Todos sentíamos falta quando ela desmarcava um ensaio da banda pra sair com o namorado, a Júlia estava entediada, e isso era evidente.

E não tínhamos mais discussões sobre como inventar uma desculpa pra Mari e pra Júlia sobre o porquê elas não podiam sair com a gente quando o pai do Luís convidava. Isso tinha se tornado um problema divertido de se resolver desde o começo do ano passado ou um pouco antes, até o momento em que tivemos que sumir com a Mari de dentro do bordel porque ela nos seguiu. Só que agora, vendo como todos tinham sido afetados pela perda que aconteceu, de forma velada, e eu preferiria mil vezes ter que inventar alguma desculpa pra deixar a Mari ir a um bordel com a gente, ou que a Júlia não tivesse desistido da política por causa da Mari mesmo que isso nos prejudicasse e que eu quebrasse mais alguns ossos entre tantas coisas que começavam a me sufocar.

De tal forma isso afetou a todos nós, que eu acabei por relegar a um segundo plano o namorado novo da minha mãe. Um estudante de filosofia, aparentemente poucos anos mais velho que eu. Não que eu tenha algo contra a minha mãe ter namorados, mas é que é um tanto estranho pensar que um cara que tem idade pra ser meu irmão mais velho por poucos anos, quase que somente meses, possa vir a pretender ser meu padrasto. Aliás, como eu nunca tive um padrasto, não sei se isso seria algo necessariamente bom ou ruim.