Quem Sou?
14 Cinza
Eu via os dias passando lentamente, o mormaço da primavera chegando, e o fim do ano e da minha vida de colegial chegando, sem conseguir me conformar com esta ideia, de que nós nos separaríamos sem um sentimento de união, felizes como sempre fomos, brigando juntos pelo que acreditávamos, mesmo que cada um acreditasse em algo completamente diferente dos demais.
A Mari tinha parado com o dojo há muito tempo por causa do clube de vôlei, depois ela parou com o clube de vôlei por causa do namorado, e a banda estava parando também. Se mesmo com as atribuições do grêmio estudantil ela não parou, agora, ela parava por um motivo que estava domesticando-a de uma forma que nenhum de nós gostava de ver.
Ela estava se tornando como todos os outros. Eu percebi que com o tempo, e com a vida adulta se aproximando, nós estávamos nos tornando tão cinzentos e sem graça quanto as outras pessoas, tão sem perspectivas quanto elas. Era como se o mundo estivesse tirando a minha energia, a minha vontade de viver. Só que mesmo assim, eu lutava contra isso, e pelo jeito que as coisas iam, o Rick, isolado do jeito dele, também fazia o mesmo, porque ele continuava do mesmo jeito de sempre, e provavelmente ao menor sinal, ele seria um Vesúvio em erupção ou um canhão de íons disparando alguma coisa insana, que nós seguiríamos. Ele era a bateria do grupo, apesar de geralmente não fazer nada para manter este posto depois da saída da Mari pela tangente.
A Júlia sempre foi meio cinzenta pra mim, mas aparentemente, agora que ela estava finalmente se entendendo com o Jamal, ela estava se tornando tão interessante quanto, apesar de eles terem seus desentendimentos teóricos. E é claro, a sombra da Mari, ou no caso, dos peitos da Mari, sempre rondaria os pensamentos da Júlia.
O Luís aparentemente estava se fechando em seu mundo mental de tal forma que estava cada vez mais difícil conversar. Não que ele estivesse sendo lacônico por algum tipo de teimosia ou conservadorismo político, mas simplesmente, porque havia uma sombra sobre ele, como se ele estivesse gastando toda sua energia pensando em alguma coisa, e isso não parecia estar funcionando como deveria pelas caras que ele apresentava.
Eu andava pela rua pensando nisso enquanto levava o pão pro café da tarde pra casa, pensando em como a menina da padaria parecia cada vez menos simpática, o que era uma progressão exponencial aparentemente, a cada vez que eu aparecia lá. Se é que esse tipo de cálculo existe, e me perdoe o Rick por eu pensar em uma aberração matemática.
Enquanto eu pensava no que parecia ter de estranho, ao mesmo tempo, uma parte da minha mente contabilizava a evolução que eu tive no controle da minha barreira. Não sei até hoje o que significa isso, mas eu sei que ela é útil, não porque eu não queira morrer, mas porque graças a isso eu posso proteger meus amigos. Agora eu consigo projetá-la à distância, como uma lente côncava com as inscrições luminosas em azul royal, e estou quase conseguindo fazer duas delas, uma para cada mão, mas aparentemente, talvez pelo motivo de eu ser sinistro, ou mais comumente conhecido como canhoto, a da mão direita continua não muito eficiente de fato. Quero saber ainda se consigo fazer isso como venho tentando até agora, uma redoma de reflexão e uma de barreira, ou se eu posso alternar aleatoriamente essas habilidades de forma duplicada ou não.
Apesar de eu ter preocupações estranhas, e de meus amigos resistirem a essa faceta cinzenta da vida adulta, a Mari tinha sido sugada por ela. A Mari estava completamente dócil, e eu não tinha lá minhas certezas de que isso era em decorrência de um grande amor ou de uma obsessão, mas certamente ela estava obcecada. Estávamos perdendo o braço de ferro do nosso grupo, as correntes que por tanto tempo nos fizeram ser o que éramos.
Por um segundo eu parei de pensar no que circulava dentro da minha mente e olhei para a rua. Eu poderia ter sido atropelado se não fizesse isso, foi o que a parte normal e sensata da minha mente dizia. Mas eu vi um rosto conhecido que não teve esse mesmo pensamento sensato no tempo certo, e uma mulher, junto com uma menina magra, de cabelos malcuidados e olhar triste, viam o sangue dele escorrer pela rua, e o carro que cometeu o crime fugir.
Eu me aproximei antes que a roda se fechasse com as pessoas curiosas que se aproximariam como urubus querendo ver a desgraça alheia, e vi aquele indivíduo. Eu não poderia chamar o Marcus de meu padrasto, ele era no máximo veterano na faculdade que eu faria no futuro próximo. E mesmo que eu não visse aquela menina calada, debilitada, na cadeira, falar uma palavra, era como se eu entendesse o que ela dizia. O seu olhar parecia aterrorizado com o que aconteceu. Mas não porque isso era cruel, ou porque parecia doloroso, mas porque parecia um desperdício. Eu não sei por que, mas eu entendi isso.
De repente, eu tinha duas vozes estranhas a mim dentro da minha mente. Uma, provavelmente era do Marcus, e dizia “porque essa dor não termina logo...”, como se ele estivesse esperando por um forte anestésico, como se ele achasse a vida cinza que ele levava dolorosa.
Entre aquelas pessoas que espiavam, se aproximavam, e olhavam, a única delas que para mim parecia investida de cor e espírito rico, era aquela garota na cadeira de rodas, calada, olhando, com uma lágrima no canto do rosto, que a velha que a conduzia não percebeu. E a mente dela retumbava ideias e imagens, que eu via como borrões na minha mente, que eu não conseguia impedir-me de ver, era como se a personalidade dela fosse muito mais pesada que a minha. “Não é um desperdício... Se eu pudesse andar como antes, se eu tivesse a chance de ser feliz que ele teve... eu não desperdiçaria assim...” Se ela pudesse andar como antes... Eu não sei por que, mas eu entendi de forma imediata que o que a deixava naquele estado não era algo que a medicina pudesse resolver, e também, entendi que não era algo que alguém como ela merecesse ter.
Em menos de meio segundo a minha mente processava informações de uma forma estranha, e eu não me impedi de ir até a menina da cadeira, com seu cabelo dourado reluzindo, precisando de um penteado elegante e de uma face alegre. As pessoas continuavam como corvos querendo ver o corpo de Marcus na rua, e ninguém se prestou a chamar uma ambulância naqueles primeiros segundos, o que teoricamente deveria ser feito como parte da rotina quando acontece uma desgraça.
Dentro da minha mente ainda ecoavam os pensamentos conflitantes deles. Quando eu me abaixei diante da cadeira, e vi o fundo daqueles olhos num tom esmeralda, eu não sei o que me levou a tomar uma atitude. De certa forma, era uma parte de mim que tinha um conhecimento que eu ainda não dominava, provavelmente, a parte da minha mente que prestou atenção nas bobagens que a minha mãe dizia sobre misticismo, matéria da qual eu tendia a fugir, embora não tanto ultimamente.
– Tu quer caminhar de novo. – Quando eu disse isso, mesmo a mulher que estava com ela distraída com o moribundo na estrada bloqueada pelas pessoas que chegavam, olhou por um segundo pra mim. Os olhos da menina pareciam gritar que mesmo que ela quisesse, ela não poderia, e que logo não mais respiraria, que logo morreria, como aquele que estava na nossa frente. – Tu vai caminhar de novo, e quando eu te ver, quero ver com um sorriso, como o que gostaria de ter agora por ver depois de tanto tempo alguém que ainda acredita em ti.
Quando eu disse isso, era aquela parte do meu pensamento que era irrefreável, mas esse pensamento fez com que eu segurasse a mão dela, e onde meus dedos tocaram o pulso esquerdo dela, eu vi um brilho similar ao do meu escudo, e eu larguei instintivamente a mão dela, eu senti um choque, algum tipo de energia estática parecia ter passado pela minha tatuagem, e eu levei a mão a ela automaticamente.
O pulso dela ficou virado, e logo a velha escondeu as mãos dela sob o cobertor e a levou embora, porém eu vi que ali havia uma marca como a marca central da minha tatuagem, e eu vi um olhar estranho vindo dela. Aquela menina me encontraria, caminhando pelas suas próprias pernas. Ela estaria curada de algo que não tinha preço entre as coisas comuns deste mundo, quem pagou por isso foi o Marcus. Ela queria poder caminhar, não mais sofrer vendo as pessoas desperdiçarem as suas vidas, ele queria desperdiçar a sua vida, foi uma troca justa. Eu me afastei das pessoas e liguei para a polícia.
– Alô... Sim, por favor, no entroncamento da Rua Gumercindo Macedo e da Barão de Rio Branco. Sim, há um corpo, o IML deverá acompanhar. Não... A Ambulância não é necessária, não há feridos. Obrigado. Eu desliguei o telefone, algumas pessoas me olharam em dúvida, e eu segui meu caminho.
Ninguém teve coragem de me perguntar por que eu fiz aquilo, ninguém perguntou porque eu não esperei pela ajuda mesmo sabendo que eu o conhecia. As pessoas não tinham mais a percepção do que era ou não normal. Normal era chamar o atendimento para um corpo, anormal era vir como urubus ver a morte alheia, como um vilipêndio visual ao cadáver ali exposto tão indignamente.
As pessoas estavam se deteriorando, isso era um fato. A cada mendicante catando comida do lixo, a cada criança pedindo esmolas, a cada situação de abandono nas ruas, eu via a alma das pessoas decaindo. As pessoas do mundo adulto ignoravam essas coisas, como se fosse normal ver isso. Se isso fosse normal, todos o fariam desta forma. As pessoas perderam uma parte de suas almas ao se tornarem adultas, a parte condizente aos sentimentos do que significa estar vivo e do que significava ser humano.
As que chegam ao abismo de se sentirem tão cinzentas e apagadas, desaparecendo em um mar de seres desalmados, chegam ao ponto que o Marcus chegou, em que imploram para desaparecer de vez e acabar com o sofrimento de ter a sua alma mutilada. Pergunto-me ainda, se existe algum meio de reverter este processo de desintegração humana, e espero descobrir uma resposta efetiva, porque existe uma pessoa ainda que eu não desejo ver desaparecer de uma forma tão cruel quanto a mutilação a base de despersonalização.
Cheguei a casa como sempre, deixei o pão para o café na mesa, e senti o cheiro de café. Isso parece desumano, deixar alguém que se conhece morto na rua. Pra mim não. Por um motivo, ele realizou o desejo dele. Desumano seria tentar salvar uma vida que não deseja ser salva em detrimento de outra que grita de toda sua alma para isso, desumano seria ser mais um urubu como todas aquelas pessoas, que nada fizeram, nem mesmo um telefonema para o número de emergência do celular.
A minha mãe não perguntou o que aconteceu, não falou de Marcus pelo restante da semana, não tentou ligar. Nada. Eu não perguntaria a ela o motivo, provavelmente, ela, como vidente, sabia desde o momento que o conheceu que o destino dele seria este. Deixar a sua alma como pagamento para um objetivo maior neste mundo, e neste caso, foi para a felicidade de uma menina, que eu ainda queria saber quem era.
Antes de dormir eu olhei os álbuns da escola, e a encontrei, a menina que na segunda série saiu da nossa escola, foi transferida sem motivo, e depois, desapareceu, segundo as suas coleguinhas. Ela era uma menina de rosto rosado e cheio, com um sorriso e se bem me lembro, uma boa esportista, a campeã de 600 metros rasos nas competições de atletismo infantil. Ela tinha mais resistência que uma criança normal, e com a idade dela, estava além do mirim, que era a faixa etária para as crianças da nossa idade naquele tempo. Ela era um ano mais nova que eu, e estava naquele estado. Tinha se tornado uma inválida e morreria por algum tipo de doença. Agora não mais. Ela era o tipo de pessoa que merecia viver.
Dentro da minha mente, eu estava finalmente aceitando que aquele monte de conhecimentos relegados a um segundo plano, aquelas coisas que eu queria ignorar na minha mente, faziam sentido, porque eu acabara de realizar um desejo. Ou vários... Uma anestesia geral, uma cura, e a promessa de um sorriso que eu queria ver. A Lei da Troca Equivalente era relativa ao valor que as pessoas davam para as coisas. Nesse caso, Marcus deu algo que para ele não tinha valor, para não ganhar nada de valor elevado, ela deu uma promessa de que nem sabia se poderia cumprir, e ganhou o que outro desprezou, então o equilíbrio universal estava correto. Eu por fazer uma mediação desse tipo, ganhei um “cheque-presente” para não se sabe quando.
Eu sabia que poderia ter usado essa habilidade antes, isso a minha mãe tinha me ensinado, mas eu guardei dentro da minha mente tentando parecer uma pessoa normal. Só que, ser normal não tem graça.
Esse foi um pensamento repentino, e talvez, estivesse certo. Peguei o telefone e disquei o número da Mari, no dia seguinte seria o último das inscrições para o vestibular, e eu não tinha decidido que curso eu queria ainda. Ou pelo menos eu achava isso. Porque eu pensei realmente há algum tempo atrás em me esconder em um escritório, ser Contabilista, viver longe de seres ditos “humanos” e fugir do que eu sou. Não vou mais fazer isso, foi o que me ocorreu por um segundo.
E mais pessoas deveriam pensar assim às vezes. Funciona.
– Mari, tu se lembrou de se inscrever pro vestibular? Eu perguntei.
– Ah... Não... Mas não sei nem se vale a pena...
– Mari... Lembra-se do que mais te divertiu na visita às universidades ano passado? Eu perguntei lembrando imediatamente de um cheiro desagradável de formol.
– Do... Que eu mais gostei? Óbvio que foi do setor de anatomia humana, eu já disse que ser legista deve ser a coisa mais interessante do mundo. Ela disse, apesar de ela ter sido rápida, ela estava sendo mais “normal”, controlada e educada que antes, e nesse momento, eu senti saudades das patadas dela no telefone.
– Então, vamos fazer a inscrição antes que feche. Medicina pra ti, Engenharia Nuclear pro Rick, Engenharia da Computação pro Luís, Relações Exteriores pro Jamal, Psicologia pra Júlia...
Ela parecia ter se empolgado um pouco com a lembrança de que nós tínhamos ideias definidas do que queríamos, de que nós éramos um time independente de que lugar ou situação fosse a briga, e que no futuro trabalharíamos mais juntos que nunca.
– E tu vai continuar sendo um covarde da contabilidade... Ela disse meio desanimada até mesmo com a ideia insana de ela tentar medicina.
– Prove-me que é mais corajosa que eu e faça essa inscrição. Porque eu vou ganhar de ti na próxima vez que estivermos frente a frente com nossas inscrições. Eu disse deixando uma ponta de dúvida no suspiro que ela deu no outro lado da linha.
Eu consegui convencê-la a não deixar esse sonho de lado, e aparentemente, na semana seguinte todos pareciam mais animados, porque a Mari parecia levemente mais normal que antes no nosso círculo de amizades. Apesar de que ela estava assim, de certa forma, eu percebi, temporariamente. Ela estava passando a tarefa de ser o corajoso e perseverante do grupo pra mim. Mas eu não poderia fazer isso. Não sozinho. Eu precisava de todos eles, sem exceção.
E foi assim, e com o tempo, eu sabia que ela iria se afastar. Namorados não entendem os “melhores amigos”, nem pretendem tentar entender.
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