Quem Sou?
9 Náufrago
Senti uma onda mais forte e me segurei nas laterais do colchão de ar. Olhei para o céu e não vi sinais de tempestade, não havia motivo pra me preocupar por enquanto. Olhei para os lados cuidando para não me mexer muito e perder o equilíbrio. Havia alguma coisa a mais ou menos um quilômetro de mim. Era uma sombra gigantesca. Não parecia um peixe, baleia, ou coisa do tipo, porque eles voltam para baixo da água geralmente. Era muito maior que um animal provavelmente. Pela forma, era uma embarcação. Só que, parecia uma embarcação um tanto antiquada, eu diria. Era um veleiro, mas era pesado demais para ser um veleiro, tinha uma pose de ser uma embarcação muito grande mesmo.
Poderia ser só imaginação minha, eu me acalmei, olhei para os lados, e quando olhei para lá, realmente, aquela coisa estava ali. Não arrisquei a minha posição, afinal as ondas estavam ao meu favor para chegar perto daquela coisa. Em mais um pouco de tempo eu poderia arriscar gritar por ajuda, isso é, caso aquela coisa não tivesse uma turbina e me matasse com as lâminas dela sem nem ficar sabendo que eu existia. Meu pensamento inicial era de que aquela coisa era uma réplica similar a uma caravela feita por algum ricaço imbecil que queria das uma de pirata. Ao chegar mais perto, eu pude ver uma bandeira desconhecida, mal iluminada, no mastro. Não imaginava de onde diabos era aquilo, e o navio tinha feitio de madeira, quem em sã consciência hoje em dia tem coragem de viajar em uma réplica de caravela? Eu pensei, mas antes de criticar isso pensei que esses desconhecidos poderiam ser a minha salvação.
Eu ouvia cantos e gritos vindos do navio, e a iluminação era trêmula, não sei se era porque, como vim a descobrir, eram lampiões e candeeiros, ou se era porque eu estava começando a ficar fraco. Mas eu chamei, gritei e fiz tudo que pude. Até que um marinheiro bêbado deve ter me notado.
Eu ouvi uma ordem lá de cima mandando que me içassem. Tão logo eu estava em algo mais firme que o inflável, que furou quando eles puxaram com os ganchos, pude por um momento respirar mais aliviado. Mas o alívio não durou muito, porque os marinheiros, todos vestindo farrapos que eu não sei de que século seriam, pareciam severamente desconfiados de mim, e eu ouvi alguns cochichos de que eu seria “mau presságio”.
- Então, como se chama, jovem náufrago? Perguntou uma voz imperativa e rude, era um velho barbudo, que eu cheguei a desconfiar que tivesse uma perna de pau, depois de tudo que eu vi, mas ele não tinha.
- Dullius era o nome de meu pai, senhor, eu não tenho um nome, foi abandonado ao mundo. Eu não sabia como explicar isso direito, porque eu acho que eles não entenderia, pelo menos, pelo jeito como me olhavam, essa resposta os deixou mais desconfiados ainda.
- Não me chame de senhor, eu sou o capitão deste navio, o mestre dos mares e dos ventos, o nobre Focalor . – ele disse entusiasta de seu posto, no que os marinheiros pareciam idolatrá-lo — E porque estava à deriva? Perguntou o velho para mim interrompendo sua apresentação, ele tinha um sotaque estranho.
- Eu estava na praia, porém adormeci enquanto flutuava, e quando me dei por conta estava longe das pessoas da praia, e não via mais nenhum sinal de terra.
- Hum... Uma situação idiota essa... – fala o capitão um tanto desacreditado disso. Os marinheiros continuavam a me olhar desconfiados – Tranquem-no, decidiremos o que fazer com ele depois. Disse então o capitão. Eu não sabia o que fazer, afinal, eles não eram boas pessoas... Afinal, quem eram essas pessoas estranhas com roupas de outro tempo, um navio que...
Ao chegar ao calabouço me dei conta de que este navio deveria estar afundado a muito tempo. Não porque havia cheiro de mofo e algo podre, mas porque uma parte do casco do navio estava aberta, e por algum motivo estranho a água não entrava. Agora, prestando mais atenção, o navio inteiro tinha uma cor escura na madeira, porque ela estava molhada, porque ela estava há muito tempo criando limo e algas em sua madeira, mas por algum motivo, essa coisa estava secando, estava navegando.
Eles realmente me trancaram. Eu imaginava se essa embarcação estranha tinha algum capelão. Todo navio tem um. Se tivesse, um capelão de tempos inquisitórios certamente identificaria aquela tatuagem como algum tipo alienígena de magia do mau e decidiria me atirar no mar. E eu não sabia se estávamos perto da costa ou se estávamos indo para o fundo do mar, para o nada absoluto. Quanto tempo mais eu teria de vida?
Isso não poderia estar acontecendo, afinal, isso era irreal demais pra acontecer comigo, por mais azarado que eu seja... Eu não conseguia pensar em nada, o lugar fedia a carniça, e eu entendia porque ao olhar para os lados, havia dois náufragos mortos ali. Putrefando há algum tempo. Um deles aparentemente mais recente, e parecia que ele não tinha passado muito tempo no fundo do mar como o primeiro. Mas mesmo assim, era estranho. O que eles fizeram...
Mas, mais importante que isso... Como eu sairia dali antes de terminar como eles? Se é que eu teria alguma chance... Isso era loucura. Primeiro aparece um navio pirata, depois eu estou me preocupando menos com o meu nome que com o meu cabelo. Realmente, no mundo moderno eles implicariam de um modo diferente comigo. Ali eles não pareciam ter dado atenção à minha tatuagem, não pareciam achar ruim o meu cabelo comprido, e não gostaram simples e evidentemente do fato de eu ter dito que não tinha nome. Era como se, independente do que eu dissesse, eu devesse ter um nome. As vezes, eu não queria ter nome, mas naquela hora, um nome normal cairia bem, porém, eu tinha a sensação de que inventar um nome não convenceria aquele velho lá encima, era como se ele visse dentro de mim, como se ele soubesse quando eu tinha incerteza da minha palavra, como se soubesse quando eu menti ali.
No dia seguinte, em algum dia seguinte, eu já não sabia mais, ou eu acho que era pelo menos, porque eu não sei quanto tempo eu passei dentro daquele lugar sufocante, mas me pareciam meses, três marinheiros vieram. Um deles estava com uma garrucha, e os outros dois me amarraram os pulsos. Eu não sabia o que isso significava, mas não parecia bom. Eles me levaram para a proa do navio, e eu vi a luz do sol me cegando por um momento. Eu não entendi o que estava acontecendo, eu não sabia se esse seria o fim, eu só sabia que estava completamente desolado, sem esperanças ou ideias, eu realmente tinha admitido em algum lugar dentro de mim a derrota, eu tinha admitido a minha covardia no momento em que assinei a sentença de morrer preso naquele porão.
Todos os marinheiros que eu tinha visto estavam ali, e mais alguns. Provavelmente os que não estavam bebendo na festa anterior que eu interrompi acordaram. Pela posição do sol eu poderia estimar a hora, se ao menos eu soubesse onde estávamos.
- Apareceram albatrozes hoje... Comentou o velho que era capitão saindo de perto de uma mulher muito bela e bem ornamentada, como no século XVIII eu acredito, e então se aproximou de mim.
Pergunto-me o que albatrozes têm a ver com o fato de que eles estavam dispondo uma prancha para que alguém pulasse, e eu tinha o suave palpite de que era eu. A mulher disse algo, muito baixo, mas eu pude ouvir. Era como se somente eu tivesse ouvido, porque não parecia que alguém tivesse se voltado para ela quando eu ouvi isso.
- O albatroz é um sinal de bom presságio para os marinheiros... Ah, então era isso. Será que eu não era tão azarado assim? Mas independentemente disso, ver a luz do sol, ouvir um bom presságio... Isso me dava uma esperança de poder sair daquele lugar, de voltar pro meu mundo... Meus amigos estavam me esperando, a minha mãe ficaria sozinha se eu não voltasse... Eu precisava voltar...
- Como sinal do bom presságio, mesmo que você tenha um símbolo de magia suspeito lhe darei uma chance de se redimir com meus marinheiros.
- Obrigado pela consideração, capitão. Eu desejo me desculpar por quaisquer inconvenientes e desembarcar na terra próxima que houver.
- Eu não disse que lhe concederia pedidos. – isso me confundiu, tudo que eu queria era poder sair daquele navio maldito – Eu o salvei da morte, agora deve trabalhar para pagar sua dívida, Dullius filho... Disse ele sendo um tanto sarcástico. Eu não gostei disso.
- Mas eu preciso voltar... Eu iria tentar explicar, mas eu vi que eles não permitiriam.
- Voltar? Para onde? Você disse que foi abandonado, estamos lhe dando acolhida... Disse o velho, que parecia até um pouco mais jovem com a sua capa esverdeada e as joias em fina prata.
- Mas... Meus amigos devem estar me procurando... Eu ainda tinha esperanças nisso, apesar de não saber o que estava acontecendo na verdade.
- Amigos? Se você os tivesse, não estaria abandonado no meio do mar... Porque ninguém foi salvá-lo antes? Será que eles se importam mesmo com você? Será que vale a pena se importar com um covarde que está tremendo de medo do que os meus marinheiros que o salvaram fariam...
- Focalor, meu lorde, dê uma opção a este menino, mesmo que ele minta para nós, dê uma chance para que ele mereça fazer um pedido... Disse a moça dando um passo na nossa direção.
- Se a minha bela dama sugere, vamos ver do que ele é capaz para sair desse lugar. – Fala ele amavelmente para a moça e volta-se para mim, fazendo um sinal a um dos marinheiros para que se aproximasse – Você terá uma chance de realizar o seu pedido, se vencer um duelo com um de meus marinheiros. Caso contrário, ficará a meu serviço até que pague por eu ter aceito-o em meu navio e impedido a sua morte.
Eu não sabia se foi uma boa ideia ter encontrado este navio, eu não sabia o que estava acontecendo... Eu só via que minhas mãos estavam livres, que a proa do navio se movia suavemente com o fluxo das ondas, o dia parecia bom, e que uma espada me era dada. Mas afinal, eu sempre fui bom em uma arte que é inútil nos tempos do meu século, esgrima e kendô. Eu estava me sentindo mais seguro com isso. Eu poderia vencer, eu poderia sair desse lugar amaldiçoado.
Pelo menos eu pensava assim, até perceber que a experiência do marinheiro que estava contra mim era muito superior à minha experiência teórica com proteção e outras coisas. Isso era um combate em que um ponto perdido era sangue derramado, e doía, e eu tinha que continuar tentando.
E eu vi que eu ia morrer, que eu não conseguiria tirar o meu pescoço da mira daquele habilidoso marinheiro. Eu simplesmente não queria que isso acontecesse, se eu tivesse mais um segundo eu poderia... Eu poderia vencer... Eu precisava fazer isso, meus amigos estavam me esperando, minha mãe deveria estar pelo menos... Aquela mulher, ela sabia que eu estava mentindo, como? Ela me deu uma chance, porque ela sabia de algo... Será que aquela suspeita era a minha única esperança? Eu tinha que acreditar nisso, apesar de que esse provavelmente seria meu último momento para acreditar.
Pelo menos que achei que seria, porque a espada não me cortou. Eu não entendi. Olhavam-me estranho. Simplesmente a luta parou, e independentemente dos meus ferimentos eles simplesmente me empurraram, em grande número para o lado do famoso “trampolim”, que eu imaginei que era coisa de Hollywood... E eu caí. Eu os escutei dizendo que eu usei magias proibidas, e coisas assim, e caí em águas turbulentas, me perdi na turbulência das ondas, e o navio parecia estar desaparecendo diante dos meus olhos.
Eu não sei o que aconteceu, mas eu acho que não morri, pelo menos, era o que as luzes piscando me diziam, ou será que aquilo era o fim? Será que eu tinha morrido e esses caras de branco vieram me buscar? Eu não sei... Eu só não vi mais nada.
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