Eu acordei, em um quarto, em uma cama macia e limpa, depois de passar uma soma incontável de dias e noites em um lugar estranho. Ela estava ali, a minha mãe, bonita, mesmo que tivesse olheiras e parecesse cansada, e eles estavam ali, os meus amigos.

- Ele acordou? Perguntou Mari parecendo preocupada do outro lado do quarto.

- Sim, mas não façam escândalo... Disse Rick do meu lado direito.

- Bebê da mamãe, como está se sentindo? Ela disse de um modo tão bonito que eu não pude deixar de pensar que estava no céu. Talvez eu estivesse mesmo. Depois de tanto tempo, me parecia, como que distante da realidade da existência, ver a imagem da minha mãe era tão reconfortante. Era a imagem suave da pessoa mais bela do mundo. Sentir a presença dos meus amigos era reconfortante, era a memória de que eu não estou sozinho...

- Eu... Estou bem... Eu acho... Eu não tinha muita certeza, só sabia que metade dos meus ossos doíam, e se alguma coisa doía eu não estava morto, porque imagino que no céu não sintamos dor, como se tivessem saído do lugar, um braço meu parecia ter quebrado em mil cacos, a julgar pelo gesso que ia até o ombro, eu sentia algumas dores no rosto, e nas costelas, provavelmente eu quebrei alguma, porque agora que me dava conta de mim mesmo, eu estava muito enfaixado. Não imaginei que estaria tão machucado assim.
Eu senti ao mover a cabeça para ver todos naquele quarto que havia pontos num lado do meu rosto e perto da testa, e me apoiar no braço sem gesso doía, provavelmente foi o corte mais fundo que levei naquela... Luta? Não, isso é algum tipo de alucinação, só pode ser, eu estava em um hospital, eu não me lembrava de muita coisa, mas eu decidi dormir até que me achassem, e eu me lembro da tempestade, e dos rochedos, da água, e da dor, e eu apaguei. Provavelmente eu tive algum tipo de alucinação... Só que se eu sentia a dor de um corte fundo, isso não era coisa de rochedo coisa nenhuma... Rochedos causam impacto que podem dar luxações, cortes superficiais, danos em órgãos internos, quebra de ossos, mas não cortes precisos como esses todos que tinham pontos e faixas em mim. Isso era estranho...

- Mãe... O que aconteceu comigo?

- Tu não te lembra de nada? – perguntou Rick – Bateu a cabeça? Perguntou deixando de lado a sua face prolixa de personalidade por um momento.

- Eu lembro, de ter acordado no fim da tarde, sem ver um centímetro de terra por perto, e de decidir não tentar ir durante a noite para lado algum, já que se eu não sabia pra que lado ficava a terra firme, eu poderia me afastar de qualquer possível ajuda. Então decidi dormir e meditar, dormindo eu não sentiria fome ou sede, e não surtaria antes de um prazo maior. E... E eu não sabia se deveria falar sobre o navio, quem em sã consciência acreditaria em mim? Eu negava-me a acreditar.

- Foi calma e lógica a decisão, demoramos dois dias pra te achar, e tu tá há oito no hospital. Entrou em coma por ter desembestado contra os rochedos no meio de uma tempestade, e francamente, eu não sei como tu tá vivo. Do colchão inflável não achamos nem rastro por perto de onde tu foi achado. Comentou Rick, e Mari olhou para ele censurando-o por simplesmente falar abertamente da situação de quase morte que eu tive para mim. Como se eu me importasse... Eu passei por coisas mais intrigantes que um coma.

A conta disso parecia estar errada... Eu passei dois dias só à deriva? Então o que foram aqueles dias e noites sem fim naquele calabouço de navio? O que eram esses cortes no meu corpo? Será que essa fraqueza que eu sentia era só insolação, ou eu realmente estive dois meses quase em uma dimensão de tempo apartada vivendo a pão mofado e água com limo...

- Dois dias... Oito dias... São dez... – eu comecei a fazer contas, e a minha mãe me impediria de me esforçar em pensar, só que eu não parei – Eu sei que isso parece um delírio... Mas, eu tive a impressão de que foram quase dois meses...

- Dois meses à deriva sem suprimentos, realmente, é um delírio... Fala Mari. Ela sempre conseguia quebrar a minha linha de pensamento com o seu ceticismo, apesar de eu não achar ceticismo algo ruim.

- A guarda costeira não viu nenhum navio? Eu perguntei, em dúvida.

- Não... Por que... Respondeu o Luís.

- Navio? – perguntou o Rick meio incrédulo, mas aparentemente interessado no meu delírio – Tu sabe o que aconteceria com um navio perto daqueles rochedos em que tu foi achado? Em alto mar um navio aqui se daria bem, a profundidade do mar é excelente pra que eles se aproximem, porém, perto daqueles rochedos o casco teria sérias avarias, somente barcos pequenos se aventuram ali para salvamentos, e estritamente quando não há tempestades, por isso não te encontramos antes do amanhecer do dia seguinte ao seu “naufrágio”, porque não tem como um barco chegar perto daquilo.

Eu processava as informações, há algum tempo eu tinha visto na cidade que os pescadores estavam inaugurando uma festividade pela volta dos ninhos de albatrozes, eu nunca me liguei da importância que algum tipo de animal teria com as influências da nossa vida, mas, pensando bem... O casco daquele navio tinha um rombo enorme, que poderia encaixar com o que seriam os rochedos sedimentares daquele paredão, e pelo modo como os marinheiros falavam, era como se há muito tempo eles não vissem um albatroz.

Então, era como se aquele navio tivesse naufragado ali perto dos rochedos, como se fosse um fantasma repetindo algo que já tenha feito anteriormente. Mas independentemente de isso ser apenas uma justificativa para um delírio que eu tive no coma, porque eu acreditaria que perdi dois meses a bordo de um navio pirata? Mais que isso, isso seria um delírio de antes de me resgatarem, porque eu me lembro do sol, e dos rochedos, quando me acharam e me trouxeram pro hospital, só que eu não lembro nada desses oito dias desacordado. Faz menos sentido ainda.
Rick disse que não sabe como eu estou vivo. Eu também não sei...

Geralmente bater a lá se sabe com quando de força contra um paredão de rochedos faria qualquer ser humano normal ter metade dos ossos esmigalhados e o cérebro virar geleia. Como eu estou vivo?

Depois de um tempo o pessoal estava se revezando para passar um tempo comigo, a Mari saiu quando o Rick chegou. A parte boa de um hospital particular, você tem direito a visitar o internado, porque você quis colocar ele ali. Mas isso não é importante dentro da minha mente nesse momento. A enfermeira entrou com uma bandeja, o médico decidiu que miraculosamente eu estava bem para ingerir comida e não precisavam mais injetar coisas em mim.

Lembro que o comentário do médico antes me deixou curioso. Pra começar ele não acreditou que eu estava vivo quando me trouxeram pra cá, e iria simplesmente declarar a necropsia a ser realizada, e dentro de oito dias eu estava conversando e podendo comer normalmente, com apensas alguns ossos quebrados, alguns cortes e nenhuma sequela. Ele parecia incrédulo para o fato de que eu estava me recuperando estrondosamente rápido.

Rick tinha se sentado ao meu lado e se concentrado no videogame enquanto a enfermeira ajustava a bandeja com o meu almoço. Eu não posso imaginar momento mais feliz até aquele momento, exceto o momento em que eu acordei e vi a minha mãe. Eu não via comida decente há muito tempo. E embora as pessoas geralmente reclamem de comida de hospital, eu estava muito satisfeito em ver aquele prato na minha frente.

Eu mastigava pensativo, tinham muitas coisas que eu não tinha entendido nisso tudo. A minha mãe encontraria alguma explicação mística transcendental pra qualquer coisa que eu comentasse, então eu nunca falava dessas coisas pra ela, porque eu não queria que ela criasse algum ritual mágico estranho pra grudar em mim mais algum “símbolo de magia do mau” como disseram aqueles marinheiros, o Jamal provavelmente viria com alguma teoria de alguma religião misticista moçambicana e me encheria de amuletos coloridos ou faria algum ritual de dança, e eu iria me sentir mais estranho que já sou, a Mari iria dizer que isso é um delírio... Bom, ela já disse sem eu nem mesmo ter contado nada. O Luís iria provavelmente criar alguma teoria relacionada a Ufos, e o Rick, bom, ele era basicamente um cientista, iria dizer que isso é baseado em algum cálculo de física quântica e me dizer pra esquecer a história.

- Como está se sentindo? Perguntou Rick ainda distraído com o jogo.

- Bem... Eu... Eu realmente estava me sentindo muito satisfeito por estar vivo, embora eu nunca tivesse parado pra pensar nisso, realmente, a minha vida era bem melhor que eu poderia pedir. Afinal, percebi que se eu estivesse em outro século, provavelmente eu levaria facadas e tiros e seria atirado em prisões e de trampolins com frequência, eu realmente não tenho sorte, é o que eu pensaria, mas pra quem deveria estar morto, eu tenho sorte sim.

- Se quiser contar sobre o navio, eu ouço. Disse o Rick depois de eu ter ouvido o barulho do game over, eu sabia que quando o barulho do game over vinha com frequência era porque ele estava pensando em alguma coisa.

- Navio? Ahm... Eu realmente não sabia como ele conseguia prestar tanta atenção a coisas que os outros não pareciam perceber sendo ele o mais distraído de nós com aquele videogame sempre ligado.

- Tu perguntou sobre a guarda costeira ter visto algum navio, o que significa que tu viu esse dito navio, me conte. Ele parecia ter entendido mais coisas que eu falei, mas mesmo assim, ele não estava errado.

- Provavelmente eu dormi novamente, e sonhei com o navio. Não existem navios piratas com velhos barbudos e aquele monte de coisas hoje em dia.

- Mesmo assim, disse que pareciam dois meses... Tu não pode ter tido um sonho que durou dois meses dentro da sua mente se passou dois dias desaparecido. E não foi uma ilusão do coma, porque tu esteve absolutamente estável desde que o trouxemos pro hospital.

- Tu tá criando um cálculo pra uma ilusão? Rick, a imaginação tem uma dimensão temporal à parte, seria como estar temporariamente em algum lugar perto de um buraco negro.

- Dullius, tu disse navio pirata?

- Sim, eles não existem mais desde o século XIX, evidentemente isso foi um delírio... Como disse a Mari, realmente, parar para contar uma coisa dessas me fazia ver a cada pensamento mais como isso era evidentemente irreal.

- Peguei emprestado do médico a sua ficha médica e...

- Tu avisou o médico que “pegou emprestado”? Não era raro que ele “esquecesse” de avisar sobre algum tipo de documento ou livro que ele desejasse ler na biblioteca da escola, mas eu não pensei que o Rick teria tanta habilidade para poder vasculhar os arquivos do hospital.

- Esse detalhe não é importante... Disse ele.

- Tu roubou a minha ficha dos arquivos! — Eu realmente não esperava que ele fizesse algo assim. – quando tu fez isso? Eu pensei que ele iria ignorar a minha pergunta.

- Hoje, antes de voltar pra cá. Depois do que tu disse sobre o navio, fiquei curioso. Eu já achava estranho o sentido dos ferimentos que tu teve quando a gente te achou e estavam fazendo os primeiros socorros. Pelos meus cálculos, os rochedos deveriam ter te ferido de um jeito diferente, com a força do vento na tempestade e o tempo que tu ficou exposto no mar. Aliás, pelos meus cálculos eu supus que você estaria do outro lado da baía, que foi onde indiquei para a guarda costeira procurar primeiro, e por algum lapso de sorte eles decidiram olhar o outro lado também.

- E por causa de um cálculo seu ter dado errado tá disposto a acreditar em um navio pirata que nem eu acredito?

- Não só por isso... Além de os meus cálculos não terem dado errado, porque realmente, em dois dias a maré te levaria até lá, e o colchão inflável que furou está daquele lado da baía, tu não poderia, ou melhor... Não seria tolo a ponto de nadar para o lado dos rochedos se estivesse enxergando a terra. Então, somente alguma outra coisa poderia ter te arrastado. Só que nessa região não há animais marinhos que façam esse tipo de coisa, e se houvessem, eles certamente carregariam acidentalmente os seus restos mortais depois de terem se alimentado. Só que, provavelmente quando você se mexeu hoje deve ter notado que há cortes que receberam pontos...

- Sim, alguns...

- Esse tipo de corte exato e profundo não é feito por rochedos, e menos ainda, onde acertaram... Isso é um duelo com espadas.

- Tu tá exagerando, tu nem é médico... Eu parei por um momento, ele tinha pego as anotações médicas, então esse comentário não era dele.

- O problema não é só isso. Acho que percebeu que eu não estou usando informações minhas pra isso... – fala ele vendo que eu parei de falar quando ele estava com a ficha médica na mão – tem mais duas coisas que me intrigam nisso.

- A mim só uma coisa intriga, porque tu tá me fazendo acreditar em uma ilusão ou delírio se tu é o cara que geralmente não acredita em nada sem um exemplo científico disso?

- Isso não é importante agora... – ele fala como que pensando em mais alguma coisa – tu lembra das nossas aulas da sexta série sobre grandes navegações, piratas e aquela parafernália de corrida às índias?

- O que isso tem a ver com tu fuçando nas minhas informações médicas, Rick?

- Lembrando ou não... Tanto faz... Escorbuto era uma doença comum entre piratas e marinheiros porque eles não ingeriam frutas, água fresca e vegetais vindos de uma fonte recente...

- E o que diabos isso tem a ver comigo?

- Tu tava desenvolvendo isso, e um quadro de anemia e falta de vitamina D. Isso são características de confinamento sem luz do sol e alimentação deficiente, não se desenvolve isso em dois dias, mas um quadro inicial como esse poderia começar a se desenvolver em um a dois meses nesse regime. Apesar de estar tudo bem agora, e tu estar se recuperando de um modo assombroso para o que o médico esperava, alguma coisa aconteceu, e isso foi no intervalo de dois dias que aconteceu quando tu desapareceu. Seja a explicação que for, eu quero saber, por mais mirabolante que pareça.

Ele parecia um tanto decidido a querer saber daquilo. Então eu contei, do capitão Focalor, da mulher, sobre o navio parecer que tinha se erguido do fundo do mar, das pessoas mortas lá embaixo, da escuridão e da comida ruim, do rombo no casco do navio que mesmo assim não o afundava, da luta, e de quando me atiraram no mar no meio da tempestade.

- Tu devia contar isso pra tua mãe... Fala ele pensativo por um momento.

- Por quê? Eu disse que não faz sentido...

- Faz sentido, tu não presta atenção nas coisas? Fala ele exasperado.

- Como que faz sentido, Rick?

- Dullius, não é a primeira vez que acontece isso. Tem avisos por todo lugar dizendo que duas pessoas desapareceram no mar naquela região num intervalo de quinze anos, os pescadores resmungam pelos cantos que aquele lugar é amaldiçoado porque um navio pirata naufragou perto dos rochedos há uns duzentos anos. E a comemoração da volta dos ninhos de albatrozes depois de vinte anos... Há vinte anos quando houve a mesma comemoração uma pessoa que se perdeu nos rochedos foi achada viva nos rochedos, e todo mundo sabe que aqueles rochedos são morte certa.

- Assumindo que isso seja um vórtice temporal ou algo assim, não vejo ainda sentido em ter que contar isso pra minha mãe...

- Eu assumo que isso tem mais ver com fantasmas, que é aparentemente a especialidade da sua mãe, que com vórtices e cálculos, que é a minha, então, fale isso pra ela.

- Tu nem mesmo acredita em fantasmas... Porque eu...

- Eu não acredito como ela, mas de fato eu diria que alguma coisa estranha foi isso, então conte.

- Bobagem... Eu realmente não estava muito interessado mais nessa história, estava no terceiro copo de salada de frutas que a enfermeira trouxe para sobremesa, eu pedi alguns a mais, queria qualquer coisa que não parecesse ter quinhentos anos na minha frente.

- Foi a tua mãe que te convenceu a fazer essa tatuagem... O círculo... Rick tocou em um assunto estranho, o que tinha a ver o círculo com qualquer coisa?

- Foi, por quê?

- Francamente, eu tenho que explicar tudo... E depois reclamam que eu sou prolixo. Eu não entendo o que essa coisa faz, porque a única coisa que eu reconheci nesse símbolo foram os caracteres de alquimia espiritual...

- Alquimia? Tu estuda alguma coisa estranha como isso? Pensei que tu fosse de uma família de cientistas...

- Sim, e tem coisas que independente de serem científicas ou não, são úteis. Eu estudo alquimia como filosofia de vida, mas não me faça ter que explicar mais coisas... Lembra-se de quando eu e tu estávamos na briga com o Rodrigo no começo do ano passado?

- Sim, tivemos sorte...

- Eu chamaria de extrema sorte... Provavelmente tu não percebeu, mas não tinha como mover o braço daquele jeito pra bater na faca que ele tinha e desarmar ele. Ele ia cortar uma artéria do teu pescoço e provavelmente tu morreria.

- Foi um impulso, acontece quando estamos tendo que pensar rápido.

- Pode ser, mas pense agora na luta que tu comentou que teve com aquele marinheiro. Tu disse que tinha certeza de que ele ia decepar a tua cabeça, ou seja, tu iria morrer.

- Óbvio, eu nunca vi um ser humano vivo andando por aí sem a cabeça encima do pescoço. Não sei por que eu disse isso. Eu realmente achei esse comentário sobre eu morrer bem desagradável, eu já não tinha suficientes situações de quase morte?

- Tu não morreu, e eles te atiraram pra fora da caravela porque acharam que tu tinha usado magia, e depois, no rochedo, por mais que o mar te jogasse contra a parede de pedras, é incrível que não tenha perfurado nenhum órgão interno com as costelas quebradas ou batido a cabeça de forma traumática. Mesmo em um porão de navio com os gases da decomposição de dois corpos tu não teve uma intoxicação. Isso não existe, é sorte demais para uma pessoa só...

- Não, Rick, sorte seria se eu não tivesse me metido nessas encrencas, imaginárias ou não, pra começar...

- Aparentemente a tua sorte reside no fato de que tu sempre sai das encrencas que entra...

- Ótimo, sorte pela metade...

- Na verdade isso é mais sorte que uma pessoa comum poderia ter, porque sem problemas grandes, as pessoas não precisam usar uma sorte grande...

- De que cálculo tu tirou isso?

- Nenhum a sorte é uma coisa que não é prevista em cálculos. Mas a probabilidade de que tu tenha mais sorte que as outras pessoas, segundo parâmetros de aplicação na resolução de...

- Ei, Rick, não enlouqueça o Dullius... Fala Luís entrando e interrompendo o discurso de Rick.

- Bom, vejo que é hora de ir falar com a minha mãe. Fala ele olhando no relógio, ele ligava pra ela sempre religiosamente no mesmo horário quando saíamos em férias longe dela. Continuava sendo mimado como no jardim de infância pelo visto.

No fim, eu ignorei essa história mirabolante e fiquei pensando se isso não seria somente uma teoria da conspiração entre o Rick e o Luís, o Luís era uma má influência pro pensamento científico do Rick. Ele era o mestre das teorias da conspiração.

Provavelmente o Rick contaria o que eu falei pra ele aos outros, era normal, não existia pacto de segredo entre nós, mas se ele disse pra que eu falasse para a minha mãe, bom, isso era da minha conta, então eles não comentariam nada com ela. Eu acho...

E como eu tinha imaginado, o Jamal realmente fez um ritual de purificação estranho do país dele, com alguns incensos, oferendas, palavras tribais e alguma dancinha que eu nunca tinha visto na vida, mas pelo menos, considerando meu estado de saúde, ele não me fez dançar aquilo com ele.

Pra ele, o que aconteceu era obra de um espírito atormentado que vivia no mar, algum tipo de maldição ou coisa do tipo, mas eu não entendi direito, e achei melhor nem perguntar.

A Mari simplesmente disse que o meu delírio era contagioso e que não falaria mais nesse assunto. E o Luís, incrivelmente, concordou com ela... Justo ele que eu pensei que teria uma teoria da conspiração para isso também... Agora, eu via que eu não iria pra casa tão cedo, porque a minha espantosa melhora estagnou-se. Bom, pelo menos o médico não teria mais nenhum surto pensando se eu tinha alguma anomalia genética ou anticorpos alienígenas pra me recuperar tão rápido.

Agora, eu realmente pensava que eu tinha algum tipo de azar... Eu não sei se isso faz sentido, porque tudo parece normal pra quem olha... Mas, eu não tinha contado com o fato de que o Jamal contaria pra Júlia o que o Rick contou pra eles, e ela aparentemente se tornou uma boa amiga da minha mãe. Logo, agora eu tinha que ver no meu quarto de hospital uma parafernália de amuletos sagrados moçambicanos coloridos, e um monte de pentáculos e recitações de encantamentos da minha mãe. Não que isso me importasse muito, ela sempre foi maluca assim, o que me deixava meio sem jeito era o fato de que realmente, meus amigos não sabiam que eu convivia com essas coisas estranhas, e o Rick parecia um tanto curioso sobre a efetividade daquele tipo de superstição. Enquanto a Mari olhava pra tudo como se fosse irredutivelmente “inútil”. Não que eu não desse alguma razão a ela, mas eu aprendi que não se discute com a minha mãe.

Eu pensei que as coisas melhorariam quando eu saísse do hospital, mas aparentemente, quando eu cheguei ao meu quarto na casa de praia, eu vi que a quantidade de parafernália era maior ainda.

- Mãe... – comecei eu vendo tudo aquilo abismado – Não acha que está exagerando? Só um pouquinho? Continuei em tom sarcástico.

- Não reclame, eu não mandei você ficar escondendo coisas de mim... Há quanto tempo acontecem coisas estranhas com você, bebê? Eu francamente achava desnecessário que ela ainda me chamasse de bebê, mas não iria resmungar disso também, eu tinha muitas outras coisas pra reclamar, como por exemplo, que seria impossível que eu pudesse respirar naquele lugar com a quantidade de incenso e velas.

Eu estava deitado esperando o fim do dia, não creio que os outros estivessem se divertindo muito, afinal, logo o Luís apareceu no nosso quarto. Nossos quartos na casa dos pais do Jamal eram divididos para cada dois de nós, um pra Júlia e pra Mari, embora eu ache essa combinação perigosa, porque poderia virar um assassinato ou um amor eterno, vá se lá saber, outro para o Rick e o Jamal, e o outro era esse que eu dividia com o Luís. Havia duas camas em cada um, exceto no das meninas, que era o dos pais do Jamal geralmente, então elas dormiam em uma cama de casal, embora eu já tenha visto umas duas vezes antes ao acordar e descer para pegar café, que a Mari dormiu no sofá. Aparentemente aquelas duas nunca se dariam muito bem.

- Ei, morrendo de tédio? Perguntou o Luís enquanto catava suas coisas, eu só não entendi porque ele estava catando quase tudo.

- Um pouco, e vocês lá embaixo?

- Todo mundo está meio sem ideias pra se divertir agora...

- Terminou a bebida?

- Quase, a sua mãe bebe mais que todos nós juntos... Responde ele um tanto contrariado com isso.

- Não se preocupe, ela paga... – disse eu rindo disso – Mas, porque está recolhendo todas as suas coisas?

- Porque a sua mãe decidiu que vai dormir nesse quarto pra cuidar de ti, então vou colocar um saco de dormir daqueles do acampamento no quarto do Rick e do Jamal... – fala ele e para pra pensar por um instante, pela sua cara eu podia imaginar o que ele pensou antes de ele falar – Realmente, seria mais divertido ir dormir no chão do quarto das meninas a aturar aqueles dois, mas a Mari iria arrancar meu couro vivo...

- Bom, talvez ela trocasse de lugar contigo, afinal, ela tem uma fobia à perseguição apaixonada da Júlia... Comentei pensando em uma incontável soma de cenas estranhas criadas pela Júlia ao agarrar a Mari.

- Mas nesse caso provavelmente eu apanharia do Jamal depois por cobiçar a sua morena... – fala ele pensando por um momento, provavelmente, que ele perderia uma briga com aquele magrelo esperto – Mas tu tem sorte, vai ficar com a “mamãe”... Eu percebi que ele disse isso um tanto contrariado.

Primeiro, provavelmente, fica aquela insinuação idiota de menino mimado, e segundo, era evidente que ele tinha achado a minha mãe incrivelmente linda, dificilmente alguém não acha isso. Ainda bem que ele sabe que se tentar trová-la eu corto a cabeça dele e penduro na porta da minha casa. Sim, por mais que a minha mãe seja estranha, eu amo ela... Só que às vezes, tanta beleza e sutileza exótica por parte dela não compensa o fato de que ela é mãe, e mães dão dor de cabeça.

Quando eu acordei eu descobri porque eu não conseguia me mexer direito apesar das minhas costelas já estarem boas e o braço estar só em uma tala já.

- Mãe... Ei... Mãe...

- O que foi querido? Tudo bem? Está doendo alguma coisa?

- Sim, metade de mim pra ser exato... A parte que não consegue se mexer por causa do teu peso... — Eu disse um tanto irritado enquanto ela acordava e levantava-se – Se eu soubesse que seria tratado como criança e que tu dormiria comigo não tinha deixado o Luís dormir em um saco de acampamento enquanto tinha uma cama livre... Eu disse me levantando e procurando uma roupa enquanto me desfazia do pijama.

- Mas eu não ia ficar feliz com alguém nos vigiando...

- Como se vigiar outras pessoas dormindo fosse relevante pra qualquer um nessa casa... Disse eu achando isso inútil. Mas depois, parando pra pensar, não seria bom ter outro menino ali, porque ela era minha mãe, pros outros ela era só mais uma garota bonita, e certamente qualquer um quereria passar a noite acordado tentando ver o que ela tinha por baixo daquelas camisolas indiscretas que ela usava.

- Então não se importa com os outros meninos trovando a sua mãe? Ela perguntou, mas pelo jeito que ela disse, ela já esperava a minha resposta.

- Isso é outro assunto. Eu não disse que eu iria deixar uma coisa dessas acontecer... Eu disse um tanto irritado com a ideia. Afinal, a mãe era minha, e eu não queria nenhum amigo meu arrastando asas pra ela, até porque seria estranho que algum amigo meu fosse meu padrasto.

Bom, eu não precisava terminar o discurso, já tinha tido um surto quanto o Luís confundiu ela com uma das meninas de alguma excursão universitária na sorveteria há algum tempo.

Eu já me sentia bem melhor depois de ter dormido longe do cheiro de remédios do hospital, sem nenhum tubo estranho ou fio grudado em mim, apesar de que os incensos e velas da minha mãe sempre eram meio irritantes, embora eu estivesse acostumado com essas esquisitices ela parecia estar exagerando dessa vez.

Eu não sei quantos dias se passaram, e estávamos voltando pra cidade, porque as aulas começariam em poucos dias. Simplesmente, parecia que o tempo tinha desaparecido nesse momento em que eu me recuperava, e eu voltei para a escola já quase se nenhum ferimento daquele incidente.