Quem é ela?
1 Capítulo 1
Em uma manhã de outono, sentado sobre a grama e cercado por flores brancas que balançavam de um lado para outro à brisa do campo, um garoto, que aparentava ter uns 19 anos de idade, estava ali há uns poucos minutos. À sua frente havia um grande lago e, logo após, uma montanha coberta por vegetação verde. Aos pés da montanha, uma casa de madeira vermelha chamava a atenção dele, que a olhava pensativo e intrigado.
Sua casa estava logo atrás dele. De madeira branca, já encardida e esverdeada pela ação do tempo e das chuvas. O telhado era preto, mas as folhas de uma grande árvore cobriam quase todo o telhado, deixando-o laranja. A vegetação deixara o branco desbotado da casa bem nítido, como um barco à vela no meio de um oceano verde...
—Lancer?
Um garoto o chamou. Mas ele, Lancer, não mostrara o mínimo interesse em tirar o olhar daquela direção. Passos abafados pela grama se dirigiam até ele, então, uma mão o tocou no ombro.
—Nossa Mãe te chama. O jantar está pronto.
—Henry, tu não sentes interesse em descobrir quem mora logo após esse lago, naquela casa vermelha?
—Onde? Ah... desculpe te decepcionar, irmão, mas nunca havia a notado ali.
—Nunca? Como Nunca? Henry, esta casa vermelha cercada de tanto verde é quase como farol sinalizando aos barcos em uma noite escura!
—É, talvez eu realmente precise de um óculos com lentes "fundo de garrafa", Lancer... — Os dois começaram a rir. Mas logo a face de Lancer escureceu novamente.
—Meninos! Ah, Henry, onde tu estás com teu irmão? — E lá estava ela, a mãe dos meninos.
Seu cabelo preto, que até então estara preso, moldava seu rosto pálido e cansado. Suas bochechas rosadas demonstravam um sorriso materno, protetor e aconchegante. Todavia, tal sorriso estara adormecido dentro dela a procura de mais um motivo para existir. A vida para ela não era mais tão fácil, nem mesmo para seus filhos.
Ela usava um longo vestido azul que se prolongava até seus tornozelos. O vestido estava sujo, assim como o avental branco que pendia de seu pescoço. Ela o usara no intuito de não sujar muito o vestido, mas não foi o que aconteceu... Por que uma mulher bonita como aquela, que não se deixara abater pela idade, insistia em manter aquela forma segura e rígida, como se já tivesse vivido tudo que deu para viver?
—Estamos aqui mãe, já estamos indo! Vem, Lancer, temos que entrarmos antes que a noite chegue...
—Sim, irmãozinho. — Lancer estendeu os braços e então Henry o ajudou a levantar. Já em pés, Lancer se mostrou mais alto que o irmão quatro anos mais novo. Seus cabelos tão escuros quanto seu olhar fechado àquela tarde se contrastava com a sua pele clara, assim como a de sua mãe.
Henry era loiro, cabelos claros como os de seu pai, dizia sua mãe. Seus olhos eram azuis claros. Quando alguém olhava fixamente em sua direção, seus olhos brilhavam... Era como se seus olhos refletissem o azul de um céu que acabara de passar por uma tempestade, mas que estara limpo agora.
Já na varanda de casa, Lancer se vira e olha mais uma vez para onde estivera sentado a poucos segundos atrás e se surpreende com a vista do pôr do Sol. A montanha ia o engolindo aos poucos. Seus últimos raios eram refletidos pela água do lago e deixavam um brilho no rosto de Lancer. Ele se perguntara se o brilho da Lua sendo refletido no lago era tão grandioso como esta vista que estava tendo, porém nada podia fazer até então, senão imaginar a cena, já que a noite era proibida para eles, pelo menos era o que sua mãe dizia.
No jantar, velas na mesa, que estava coberta por um pano branco com rendas nas bordas, iluminavam seus rostos. A Sra. Eliza e Lancer sentavam-se nas cabeceiras da mesa, enquanto Henry ficava na lateral, de costas para um armário branco de madeira, cheio de pratos e copos de porcelana. As janelas e portas estavam todas trancadas. Sua mãe olhou para os dois da cabeceira na mesa. Como era de costume, antes de qualquer refeição, oravam e agradeciam a Deus.
— Senhor, te agradecemos por mais esta refeição que nos dá. Devido à sua bondade e misericórdia não tens deixado que o pão de todos os dias falte à nossa mesa — orou a Sra. Eliza.
— Amém — Todos falaram em uníssono.
Eliza era seu nome. Ganhara esse nome a exatos 46 anos atrás, da sua avó, no dia em que nasceu. Como o tempo passa rápido, pensou ela vendo os meninos se servirem.
Na mesa, um pernil cercado por frutas era o prato principal. Farofa, salada, macarrão, o acompanhamento. Tudo isso Eliza ganhou do pai, um fazendeiro ainda bem sucedido que morava a cerca de sete quilômetros dali, ao leste. O aglomerado de pessoas mais próximo, era um vilarejo ao sul, a aproximadamente quinze quilômetros de distância, cercado de mistérios. Sua população era de exatas 58 pessoas. Isso quando Eliza esteve lá da última vez. Agora, ela não sabia se a população havia aumentado ou diminuído. Seu pai era a única pessoa que ainda visitava o local, e ele, a única pessoa que visitavam faz algum tempo.
Os pensamentos da Sra. Eliza foram interrompidos quando ela percebeu que Henry a fazia uma pergunta, e havia estado esperando a resposta, calado, a olhando, tentando decifrar a consciência da mãe.
—Mãe? Mãe! Estou falando com a senhora! — Henry exclamou quando a mãe se deu conta de que ele falava com ela. -Hum... Ehhh... Por que o Avô Max não pôde vir comemorar conosco o seu aniversário? Ele mora sozinho e desde que a nossa avó morreu, compartilha aquela vida solitária com os móveis da casa. Tu não achas, Lancer?
— Mãe, eu disse para ele não tocar no assunto, mas sabe como são estas crianças de hoje...
—Lancer! Eu já tenho 15 anos, pelo que eu saiba, sou adolescente! — Protestou o garoto.
Lancer riu.
—É, mais ainda continua um pouco sem noção, irmãozinho. — Continuou Lancer — Não sabes como ela se sente quando tocamos no assunto. — falou tirando o olhar de Henry e levando-o até a mãe. A este ponto, ele já estava como seus cotovelos apoiados na mesa, quase se levantando. Mas acomodou-se novamente quando viu o olhar da mãe fixo na conversa deles dois. — Desculpe, mãe. Este pernil está muito bom, sem falar da salada, do macarrão e da farofa que estão uma delícia. — Falou Lancer numa tentativa frustrada em mudar de assunto.
— Sim, realmente ficou muito bom. — Concordou o irmão. — Sirva-se mãe... Pegue. — Henry se levantou e levou até ela uma fatia bem gulosa do pernil. Em seguida, pôs os acompanhamentos. — Pronto. Agora, veja como a senhora és tão boa na gastronomia quanto pensas...
Passada a hora do jantar, se prepararam para ir dormir. A sra. Eliza dormia só, em um quarto com paredes de pedras cinzentas e brilhosas. À frente de sua cama, um aquecedor a carvão mantia a temperatura do quarto agradável. A janela de vidro estava tapada com panos para não deixar a claridade passar. Toda a casa devia ser mantida assim.
O quarto dos meninos era no sótão. Para ter acesso ao quarto deles, era necessário puxar uma escada que ficava embutida no teto da casa. Eles já estavam lá. Dormiam em uma cama estilo beliche. Na parte superior dormia Henry e na inferior Lancer. O formato do teto, como um A maiúsculo, não permitia que alguém ficasse sentado na cama de Henry sem encostar a cabeça no forro. A luz de uma lanterna acima de um criado mudo era o suficiente para iluminar todo o quarto. Henry, sem sono, se senta em sua cama, fica olhando para a lanterna, inquieto, e então:
— Lancer? — Chama Henry com uma voz bem fraca, quase falhando, para saber se o irmão já dormia.
—Hum. — Responde ele.
—Já estava dormindo?
—Quase...
—Ehhh... — Henry procurava uma forma de falar com Lancer de modo que sua voz saísse baixa, sem falhar, para que o irmão o escutasse — Por que... — sua voz falhou — Por que... desde que nos mudamos para cá, temos que dormir tão cedo, a ponto de nos trancarmos em casa durante a... — Nesse momento, começou a ventar forte e o barulho das folhas secas se movimentado no telhado logo acima da cabeça de Henry o interrompeu. Um, dois, três... Pingos batiam violentamente contra o telhado e então, uma chuva bem forte tomou conta do silêncio do quarto.
Henry, em um salto, saiu da sua cama e ficou de frente para Lancer, procurando no rosto sonolento do irmão se ele, de alguma forma, o convidaria para sentar-se com ele na parte de baixo do beliche até que a chuva parace.
— O que foi agora? — inqueriu Lancer com um bocejo.
— Tu não estás escutando a enxurrada lá fora?
— E? Não vai me dizer que estás com medo d... — Lancer para ao ver o rosto sem reação do irmão, se senta na cama, encosta-se no espelho do beliche e deixa espaço para ele ficar lá. — Tudo bem, maninho.
Henry se senta no beliche, coloca seus pés para cima e puxa o lençol que pendia de sua cama. Naquele momento, o barulho da chuva lá fora junto com o vento forte deixavam Henry com mais medo. Ele sabia que havia algo lá fora que podia fazer mal a qualquer um que atrevesse sair de casa, no entanto, não sabia o que podia ser... O quarto ficava ainda mais sombrio e frio, o tempo parecia ter parado.
— Tá bom, Henry, fala... — Lancer quebra o silêncio entre os dois.
— Eu sei que tem algo lá fora... algo que só sai durante a noite. — Henry começou. — Mas, o que é, Lancer? Me fala! Sei que sou curioso, mas não adianta esconder isso de mim como se eu ainda não fosse responsável por, pelo menos, mim mesmo. — desabafa sussurrando.
Lancer vê no irmão um olhar ingênuo. Foi então que ele resolveu revelar a verdade ao irmão. Quem sabe assim ele deixaria de tocar em assuntos que evocam más memórias à mãe deles?
— Ah, Henry, é disso que estás com medo? — ele solta um sorriso amarelo desmanchado pelo olhar sério de Henry em busca de respostas — Sendo sincero, Henry... Eu também tenho vontade de descobrir o que vaga escondido por aí na escuridão da noite. A nossa mãe diz que, quando ela estara no vilarejo, coisas estranhas aconteciam lá, pessoas sumiam, e, quando não sumiam, ficavam loucas ou, talvez, — Lancer respira fundo — eram vítimas de possessões demoníacas.
— Possessões demoníacas? — Um calafrio transpassou pelo corpo de Henry.
— Talvez... mas prefiro não ficar falando destas coisa... Principalmente contigo.
— Há quanto tempo que ela foi ao vilarejo?
— Henry — Lancer respira fundo e solta as palavras com peso na consciência sem saber qual seria a reação do irmão — Henry, na última vez que nossa mãe foi ao vilarejo, ela estava com o nosso pai. Quando voltou, perguntei a ela o que acontecera com ele. Com lágrimas nos olhos ela nos disse que...
— Que ele tinha fugido, que estava cansado de nos suportar...
— Exatamente — Lancer confirma com os olhos cheios de lágrimas. — Mas não foi isso o que aconteceu...
— O que aconteceu com ele, Lancer?
Henry, já havia começado a soluçar, segurando a vontade de chorar. Mas, apesar disso, Lancer continuou.
— Henry, irmão, o nosso pai simplesmente ficou... louco — ele soltou essas palavras como se fossem um peso com a força para machucar tanto a ele como a Henry — Ele começou a falar frases repetidas, maldições, profecias... quem sabe? Teve de ser mantido preso com os punhos e tornozelos amarrados na cama. Ele... ele já não era mais o mesmo.
Toda aquela história já havia mexido muito com o emocional e psicológico de Henry. Lancer também começou a sentir-se mal ao relembrar toda esse acontecimento e, vendo o irmão chorar como nunca havia visto antes, resolveu abraçá-lo.
— Eu estou aqui, Henry. Nunca vou deixar alguém fazer mal a ti, eu juro. — fala segurando o rosto molhado de lágrimas de Henry, olhando-o nos olhos.
A noite chuvosa continuou e, ouvindo os pingos da chuva batendo contra o telhado, Lancer vê o irmão adormecendo em seu colo. Quando Henry adormece, ele o deixa na sua cama, o cobre até os ombros e vai para a cama de cima. Lancer podia sentir todas as lembranças do pai latejando em sua cabeça, os momentos em que ele contava suas piadas sem graça, mas que sua mãe sempre rira. Isso o reconfortava, deixava suas pálpebras cada vez mais pesadas, suas pupilas relaxadas, sua respiração desacelerada, e então adormece.
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