– Que droga, Laura! Já estou indo. – Eu grito enquanto corro pra abrir a porta. – Quer dizer que você decidiu aju... – Digo enquanto abro a porta, mas não tenho tempo de terminar a frase, pois com o que me deparo não é Laura e sim um rapaz que nunca vi na minha vida.

– Olá, sou Henrique. – Ele sorri pra mim – Sua amiga me contratou pra te ajudar com a festa. – Ele diz e o quê? Contratou alguém para me ajudar? Isso não faz sentido. Não parece o tipo de coisa que Laura faria, ela tinha deixado claro que eu faria tudo sozinha.

– Oooh me desculpa, pensei que fosse Laura. – Eu digo.

– Tudo bem, bom temos muitas coisas...

Eu o interrompo:

– Desculpa de novo, Hen... – Eu digo tentando parecer que esqueci seu nome, mas me lembro perfeitamente.

– Henrique – Ele diz com uma voz doce. – E não tem problema, Amanda Amélia. – Ele sabe meu nome, meu segundo nome, isso me deixa assustada.

– Não por isso. Quer dizer... eu não preciso da sua ajuda, posso conseguir sozinha. – Amanda Amélia? A Laura tinha dito meu segundo nome pra ele? Faria sentido, já que toda vez que ela quer me provocar fala meu segundo nome, mal sabe que esse é meu preferido. Eu tento não parece grossa, mas foi exatamente o que deu pra parecer, isso me deixa sem graça e eu começo a fechar a porta. Não sei ao certo o porquê de estar tendo essa atitude, acho que tenho uma sensação diferente em relação a ele, não sabia se era boa ou ruim, mas não estava disposta a tentar descobrir. Ele me interrompe, colocando a mão na porta, de alguma forma me sinto aliviada por isso.

– Tenho certeza que sim, Amélia – Sua voz parece baixa, como se estivesse triste, porém seu sorriso continua o mesmo. –, mas esse é meu trabalho e já estou pago por isso, não quero ter que devolver esse dinheiro. – Ele percebe que estou cedendo e diz: – Podemos ir?

– Estou terminando de me arrumar, terá que esperar, mas ai fora. – Dessa vez eu tento parecer zangada, mas ele não parece perceber, pois continua com a mesma expressão.

Eu bato a porta na cara dele e começo a me sentir culpada, afasto o pensamento porque (a) eu não o conhecia, (b) Laura não tinha me falado de nenhum menino que iria me ajudar. Isso mesmo: Laura! Pego o telefone e tento falar com ela, dá ocupado. Mas daí eu penso que mesmo não conhecendo ele, tinha alguma coisa nele que me fazia querer confiar como se ele me passasse confiança, será que ele é algum tipo de... Psicopata? Ou coisa do tipo? Porque acho que é assim com os psicopatas, eles passam confiança e depois te engana, minha mãe sempre me contou muitas histórias e nunca fiquei tão assustada com elas Até agora. ‘’AI QUE BESTEIRA! – digo pra mim mesma. — É claro que ele não é nenhum bandido. Não parece ser.’’

Já estava pronta há 10 minutos quando ele chegou, coloquei calças jeans e uma camisa manga longa, de cor rosa, por causa do frio. Tinha acordado Lucas e podia ouvir o barulho do chuveiro com cantando alto alguma música, não dá pra ouvir ao certo, mas pela melodia sei que é Michael W. Smith, o cantor preferido dele, precisava de um tempo pra pensar se iria ou não com Henrique. Penso em avisar Lucas, dizer que estou indo com esse homem para o caso de eu desaparecer, mas é melhor não, se eu contasse como estou me sentindo, certamente não deixaria. Pego minha bolsa, confiro se está tudo certo, os papeis que Laura me deu, o dinheiro e meu celular que como sempre está com o numero de Lucas na discagem rápida. Caminho de volta pra porta, dizendo a mim mesma: ‘’tomara que ele tenha ido embora’’, mas bem no fundo queria o contrário, queria que ainda estivesse ali, comecei a sentir raiva por isso.

Ainda estava lá, de costas pra mim, dou um suspiro alto de desapontamento, esperando que ele escute, parece ter funcionado, porque ele se vira pra mim e continua com aquele mesmo sorriso. Passo a notar o quão bonito ele é, mais alto que eu, têm olhos negros, o cabelo liso e preto bem aparados e a pele branca, os lábios são finos e tem algo que me agrada quando ele fala. Tem uma aparência severa, mas não de maldade, só de tristeza e isso era ao mesmo tempo era assustador e convidativo. Parecia ter a minha idade, o corpo é musculoso, quase do tamanho do de Lucas e era simplesmente lindo, não consigo descrever o quanto, ele está usando uma blusa parecida com a minha, manga longa, mas a dele é mais masculina e de cor marrom, que se destaca bastante na sua pele. Me pego pensando nisso e afasto o pensamento, continuando séria.

– Então... Vamos? – Eu digo.

– Claro, Amanda Amélia. – Ele diz e eu estremeço só de ouvir meu nome sendo pronunciado por ele.

– Por favor, só Amanda. – Eu digo, apesar de gostar mais do outro.

– Tudo bem, só Amanda. – Ele diz e sorri. – Eu gosto mais de Amélia. – Completa baixinho, de certo esperando que eu não escute.

– Eu também. – Digo e ele se vira com um sorriso, sem perceber, sorrio de volta.

Vou em direção a minha bicicleta e me pergunto como ele pretende ir.

– Não. Nós vamos de carro. – Ele aponta pra um carro, que eu não tenho a menor ideia de que marca seja. Mas era um carro lindo, preto e estava super brilhoso, apesar do meu pouco conhecimento sobre carros, sabia exatamente que aquele carro só seria de alguém muito rico. Isso me apavora, ele não podia ser um empregado de uma organizadora de festas, ele não estava de uniforme e mais aquele carro, vai ver essa organizadora de festas nem exista. Eu me afasto, como se ele tivesse lendo meu pensamento coloca um boné que tinha escrito: ‘’ ORGANIZADORA DE FESTA: FESTAS ETERNAMENTE ‘’, com um site e um telefone gravado embaixo do nome. Eu suspiro aliviada e torço pra que ele não tenha percebido. Sigo-o em direção ao carro abro a porta do banco de trás, ele ao mesmo tempo abre a porta da frente. – Aqui, por favor – Ele sorri. Eu fecho a porta e entro pela que ele deixou aberta.

O carro tem um cheiro ótimo e diferente, não me parece tão estranho.

– Que cheiro é esse? – Eu sento no banco da frente e observo um colar apoiado bem a minha frente, era redondo, de ouro e tinha três letras gravadas: H&M, o ‘’H’’ provavelmente seria de Henrique e por uns segundos fico com uma pontinha de ciúmes ou inveja ao pensar de quem era a outra letra, me assusto com esse meu modo de pensar. Devo estar muito carente porque desde que terminei com Daniel não tive mais ninguém e também não tive ninguém antes dele, Daniel foi o máximo de amor que eu conheci e isso nem parece muito real.

– Ah é um perfume que meu pai faz. Te parece familiar? – Eu fico sem reação e ele tem uma expressão de quem acabou de cometer um crime.

– Na verdade, não. – Eu minto e continuo observando o cordão.

Passamos metade do caminho em silencio, não sei que caminho, já que eu não sabia pra onde ele estava me levando, mas não me importava, tinha uma coisa em estar com ele que me dava segurança e isso era o que mais me assustava.

– Era minha namorada, ou melhor, ex-namorada – Eu me viro assustada, olhei pra ele e vi que tinha dito isso porque me pegou observando o colar.

– Vocês terminaram? – Eu pergunto quase que automaticamente, mas me arrependo dois segundos depois quando olho pro rosto dele e está completamente sem cor. E ele parece triste com a lembrança.

– Não, nunca nem brigamos, ela... ela... – Agora ele parece que vai chorar e não consegue terminar a frase, eu queria perguntar mais, queria saber se estava tudo bem, claro que não estava, queria saber se tinha muito tempo... Ela morreu? Ela com certeza era jovem, como será que ela morreu? Eu sinto uma pontada de dor por ela estar morta e de culpa por me sentir aliviada por ser uma ‘’ex’’.

– Tudo bem. É... eu tenho uma lista das coisas que temos que de fazer, mas antes, se não for incômodo pra você... – Eu ia pedir pra ele parar pra comprar café, mas desisto da ideia, depois dou uma fugida e irei lá sozinha, não posso levar um estranho naquele lugar.

– O quê?

– Ah só pra você ir levando a lista, se puder claro.

– Posso, mas antes eu tenho que parar pra comprar café. É rapidinho, você aceita?

Eu não respondo assustada, estou me perguntando se ele leu minha mente e começo a ter medo do que pensar. Que besteira! Ninguém pode ler mentes, mas mesmo assim tenho um daqueles momentos em que desejo testar mesmo considerando uma coisa impossível, penso em como seria bom irmos à cafeteria que fica atrás do mercado, numa rua pouco movimentada e que quase não vão pessoas lá, mas tem o melhor café do mundo.

Passamos o resto do percurso em silencio. Eu penso no quanto é esquisito andar por ai com um estranho, tentava dizer a mim mesmo que estava ali com ele ‘’me arriscando’’ pela festa Laura, afinal ele se ofereceu pra ajudar, mas sabia que não. Estava ali por curiosidade, ele era tão misterioso, tão atraente e parecia saber exatamente o que fazer pra me atrair, aquela forma que ele tinha de me olhar, de falar, eu tinha vontade de saber quem era ele, queria saber a história dele e também por que estava aqui, por que eu? Se ele fosse um assassino, por que ele tinha me escolhido? O que eu tinha de especial pra ser eu e não outra pessoa ou até mesmo o que eu não tinha de especial pra ser eu ali dentro daquele carro? Talvez seja isso que os assassinos fazem, talvez seja assim que suas vitimas ficam atraídas por eles e por isso são mortas.

Eu que julgava tanto elas por deixarem ser levadas para a morte, agora estou na mesma situação, atraída por esse estranho. MORTE pela primeira vez naquela manhã eu pensei nessa palavra, estava tão atraída pelo mistério dele que esqueci que ele me mataria. Neste momento estávamos passando por uma rua vazia e toda cheia de buracos e soube que aquele seria meu fim. O motor do carro parou, eu fecho os olhos e digo a mim mesmo que não sairia, que ele teria que me matar ali mesmo, daria mais trabalho pra ele porque teria que limpar o sangue, mas antes perguntaria porquê ele tava fazendo isso e em nenhum momento suplicaria por minha vida, morreria de cabeça erguida. Ele abre a porta do carro, eu estou com os olhos bem fechados e estou a ponto de perguntar o porquê de ele está fazendo isso comigo, mas ele me interrompe:

– Você não vem? – Eu abro os olhos e vejo a cafeteria que fica atrás do mercado, minha favorita, eu me sinto uma boba por pensar que ele tinha me levado aquele lugar para me matar, mas lembro que foi exatamente a cafeteria que eu tinha imaginado, eu fico mais assustada, ele parece perceber – Eu sei que não parece o melhor lugar pra se tomar, mas acredite...

– Tem o melhor café do mundo. – Nós falamos juntos e o medo passou, só ficou a vontade de conhecer ele mais e mais.