A primeira vez que eu havia estado naquele café tinha 10 anos de idade e meu pai tinha acabado de morrer. Fugi de casa e corri pelo bosque que fica atrás da minha casa e acabei me perdendo ou talvez eu só não quisesse achar o caminho, mas meu avô me achou e quando implorei para não me levar de volta ele disse:

– Não vou te levar pra casa, Amélia, não agora. – Ele só me chamava pelo meu segundo nome: Amélia, por ser o nome da minha mãe eu amava. Meu nome completo é Amanda Amélia Wolf e eu tentava fazer com que as pessoas me chamassem pelo segundo, mas isso nunca aconteceu. Ele sorria e não parecia estar com raiva.

– Então para onde vamos?

– Eu vou te mostrar meu esconderijo, muitas pessoas vão lá, mas ninguém vai nos incomodar. É o esconderijo de muitas pessoas, vou lá toda vez que quero fugir de todos e sem contar que lá tem coisas deliciosas para comer.

Estendeu a mão e eu demorei um tempo pra segurar. Então meu avô me levou para seu carro que estava de frente da minha casa, mas eu pedi pra não encostarmos, não queria ter que encarar minha família. Já não tinha força pra nada, nem mesmo pra chorar. Já tinha chorado tanto. Imaginei que naquele meu irmão de 8 anos deveria estar consolando minha mãe, ele era o mais forte de nós 3. Na época pensei que o motivo que o tornava tão “forte” era a idade, afinal ele não fazia ideia do que realmente estava acontecendo, mas eu não podia estar mais enganada. Lucas era forte porque isso era uma coisa natural dele e comecei a perceber que naquele momento ele entendia a situação melhor que eu. De todas as formas e em todos os problema que vieram aqui meu irmão caçula passou a ser meu porto seguro.

Papai já estava muito doente na época que morreu, tinha câncer de pulmão, e não reagia mais aos tratamentos. Todos estávamos ‘’preparados’’, minha mãe nos falava todas as manhãs do ultimo ano de vida dele: ‘’Temos que estar preparados, porque o papai irá fazer uma viajem e não ia mais voltar’’. Mas quem pode estar preparado pra morte? Por mais que tentássemos nos convencer de que tudo daria certo, como passar a vida toda sem alguém que você não podia nem pode se imaginar sem? Ela se fazia de forte, mas todas as noites eu levantava e ela estava chorando. Ele tinha 33 anos.

– Chegamos. – Meu Avô Pedro disse. Eu abri a porta do carro e fiquei encantada com o que encontrei. Era um lugar adorável, aconchegante, ele tem cor de creme e detalhes em formas de doces, a porta tem a forma de um xícara e dali já podemos sentir o cheiro do café quente sendo preparado. E não tinha nenhum nome. Pelo fato de ficar em uma rua quase deserta, quase ninguém o frequentava e as poucas pessoas que faziam isso, duvido muito que querem que essa paz acabe, pode parecer egoísta, mas tem um ar tão acolhedor, calmo, quase não se houve som algum, se tivesse muitas pessoas frequentando, talvez não fosse o mesmo, talvez não fosse o mesmo refugio. Nunca tinha levado ninguém lá, nem mesmo Laura, acredito que quando ela se deparasse com essa rua, já pediria pra ir embora.

E quando entrei achei que tudo era feito de doce, pelo fato de tudo ter um cheiro ótimo. Eu já me sentia menos triste por está ali e estava começando me sentir mais segura.

– Pode pedir o que quiser princesinha. – Disse vovô sorrindo. Acho que ele estava tão mal quanto eu, mas ainda estava sendo pior para ele. Embora seja doloroso para um filho enterrar um pai, duvido muito que isso supere a dor de enterrar um filho.

– Eu quero chocolate. Todo tipo. – Sentamos em uma mesa que ficava perto da cozinha.

– Tudo bem, meu anjo! – ele chamou uma moça dos cabelos loiros e do sorriso doce. E pediu coisas que nem dei muita atenção. Quando ela saiu meu avô continuou: – Eu descobri esse lugar quando lugar quando tinha mais ou menos sua idade, é pode não parecer, mas isso aqui tem muitos anos – Ele riu – e não está muito diferente, muito pelo contrário, tem o mesmo ar acolhedor e doce. Às vezes eu acho que esse lugar vai durar pra sempre, mas uma pessoa que passou por tudo que eu passei, acaba deixando de acreditar no pra sempre, tudo passa, tudo se vai.

Pela primeira vez desde que entrei ali, eu chorei, sei que precisava ouvir isso.

– Sabe, princesinha. – Ele continuou. – Foi aqui que conheci sua avó, ela vinha aqui todas as manhãs e resolvi falar com ela, quando namoramos vínhamos aqui todos os dias, depois de casados continuou sendo nosso lugar favorito. Até que ela perdeu a vontade de vir e agora só vem uma vez por mês ou talvez nem isso. Seu pai era minha companhia quando ele era pequeno, depois cresceu e mal se lembra do lugar. Mas continuo vindo aqui todas as manhãs.

Eu comecei a chorar mais alto e então o abracei e chorei, chorei até não conseguir mais. Quando chegou o pedido, tinha chocolate e um café dentro de uma xícara fofa de ursinho e por isso foi o primeiro que provei. Era muito bom, café com leite, com creme e com açúcar. Perfeito. Estava com a garganta seca, bebi tão rápido que só percebi que tinha acabado quando o vovô me passou sua xícara. Fui pros chocolates e depois pros doces. Eu tinha vontade de ficar ali pra sempre.

– Não quero ir pra casa.

– Não precisa ir, mas lembre-se não importa o quando fuja, vai chegar uma hora que terá que enfrentar seus medos.

Eu sabia que tinha que voltar. Que meu irmão precisava de mim e minha mãe... Minha mãe. O pensamento me desesperou, minha mãe deve estar tão preocupada.

– Mãe – Eu comecei a falar.

– Tudo bem, ela nos viu saindo de carro.

Eu suspirei e voltei aos meus doces. E daquele dia em diante passei a vir aqui todos os dias, como eu nunca sai da cidade nunca faltei um dia. Vinha com o vovô até a morte dele 3 anos mais tarde, ele tinha somente 56 anos, foi infarto. Ninguém esperava, ele sempre foi o mais vivo de todos, foi horrível pra todos da família, eu chorei tanto, daí fugi pro meu refugio e fiquei lá até a hora de fechar. Então minhas manhãs no café foram passada sozinha.

••

Sei que deveria ficar apavorada por ele ter-me trago justamente onde eu queria estar, onde ‘’tinha’’ que estar, mas não, eu só senti alivio. Isso faz sentido? É, acho que não.

Havia 3 opções: Primeira: Ele estava me investigando e sabia os lugares que eu frequentava para poder me assassinar. Segunda: Sabia ler mentes. Terceira: Ele era perfeito e gostava dos mesmos lugares que eu. A primeira era a que fazia mais sentido pra mim, porque vejamos: ninguém pode ler mentes e eu nunca havia visto ele aqui em todos os anos. A única coisa que agora me impedia de sair correndo e gritar por ajuda era a vontade de descobrir o segredo dele, ah! Porque ele tem um, não pode ser só coincidência Henrique saber tantas coisas que podem me agradar. Nunca tinha ouvido falar nessa casa de festas e não fazia muito o tipo de Laura pensar em mim me mandando ajuda.

– Bom dia, Amanda. – Lola sorri para mim e se vira pra Henrique – Bom dia, querido. Você por aqui há essa hora? – Ela faz um sorriso sínico, parecia estar dando em cima dele e isso me irritou.

– O mesmo de sempre pra mim – Eu digo com uma voz rude para evitar que a conversa continue, ele parece perceber, pois deixa escapar um sorriso de contentamento. Me arrependo de imediato e fico corada.

– Pra mim café com leite, creme e açúcar. – Ele sorri pra ela como para me provocar e eu estremeço, é o mesmo café que eu tomo todas as manhãs durante 8 anos. Ele se vira pra mim. – Você já tinha vindo aqui? – Pergunta, mas pela sua voz de provocação sei que ela já sabe minha resposta.

– E você? – Devolvo a pergunta sem responder a que foi dirigida a mim. – Nunca te vi por aqui.

– Eu venho no final da tarde. Quando saio do hospital. – Responde.

– Eu já vim aqui no final da tarde e me lembraria se tivesse visto você.

– Por quê? Eu sou tão lindo que você me tem como uma pessoa inesquecível? – Pergunta sorrindo. Era a primeira vez que fazia uma piadinha e percebi que Henrique estava se soltando. Gostei disso.

– Não, mas não esquecemos a cara de psicopatas. – Eu deixo escapar.

– Então você deve lembrar de quando eu passei na TV na lista de assassinos procurados. – Diz e eu começo a ficar nervosa. Ele ao perceber isso começou a rir e disse: – Ei, é brincadeira. – Faço que sim com a cabeça de forma indiferença, como quem diz: “Eu sei que você não é um assassino”, mas acho que com a minha expressão não convenceria nem a mim mesma. E como era de se esperar, ele percebeu que a brincadeira dele tinha me assustado. – Me desculpa te perguntar, mas é assim que você chama as pessoas que querem te ajudar? De psicopatas? – Não parecia com raiva, mas o sorriso desapareceu.

– Eu não preciso da sua ajuda! – Rosno. – E não, não é assim que eu chamo as pessoas que querem me ajudar. É assim que chamo estranhos que parecem psicopatas porque sabem tudo da minha vida quando não sei nada deles.

– Está sendo dramática, não sei tudo sobre você, mas me diga, se acha tudo isso de mim e se podia conseguir sozinha, por que veio comigo? – Agora ele parece estar com raiva e daí lembro que estava se referindo a festa, e que eu estou mesmo sendo dramática. Lola chega trazendo os cafés e suspiro aliviada por não ter que responder, ele não insistiu. Ela mais uma vez se atirou pra cima dele, eu olho pra ela fazendo careta que ela não percebe ou finge não perceber. Bebo meu café em silencio e a culpa só está aumentando por ter chamado ele de psicopata e eu sei que tenho que pedir desculpas, mas eu estaria cedendo e eu não posso ceder, não com Henrique.

Lola se jogava tanto pra cima de Henrique que isso começou a me irritar, às vezes sentia que ele fazia de propósito, jogava um sorriso pra ela só porque sabia que eu veria e que estava incomodada. Queria perguntar pra ela se ele vinha mesmo todas as tardes, se sim, queria saber se o nome dele era mesmo Henrique. Eu sempre gostei de Lola, ela perdeu os pais cedo em um trágico acidente e ajuda a avó no café todo fim de tarde e nos fins de semana o dia todo. Estudava na mesma sala que eu, na época do colégio, nós éramos do mesmo grupo de história e sempre tive uma imagem dela de tímida. Mudei completamente de ideia ao ver ela se atirar pra cima dele na minha frente, quer dizer, nós não temos nada, mas mesmo assim pode ser que nós tivéssemos já que estamos andando juntos por ai... o que eu estou pensando?

Dessa forma eu acabei de ter a certeza: Estou maluca e a culpa era de Henrique, ele me tira do sério desde o primeiro momento em que nos vimos e não só isso: ele faz todas as minhas características sumirem como a minha forma controlada, pés no chão, que na maioria das vezes não se arrisca, que leva anos pra começar a confiar nas pessoas e a confiança nem sempre era essa de se arriscar.

Planejo tudo na minha vida, ia estudar, entrar na faculdade e cursar direito. E desde que “terminei” com Daniel não queria me envolver com ninguém, pois acreditava que me tiraria o foco e estive bem com isso. Feliz com as mesmas coisas todos os dias. Bem até agora. De alguma forma estar com ele me fazia questionar tudo isso. Estava com vontade de arriscar, viver longe dos planos. Vontade de me apaixonar perdidamente. E por um momento tenho vontade de ser essa garota do colar que ele levava pra todos os lugares. Mas não é só isso, estar com ele dói. É como se fosse um buraco que sempre existiu, porém todos os dias eu tentava ignorar. Estar com ele me fazia ver o quão minha vida era vazia e, olhei no relógio pra ter certeza: era 10h30min, em apenas 3 horas que eu tinha visto ele pela primeira vez, me assustei, havíamos passado 2 horas ali? Totalmente em silencio e em poucos momentos tive coragem de encara-lo. Quando olhei parecia ter percebido que eu estava assustada com a hora e acenou para Lola se aproximar. Fez questão de pagar toda a conta, eu tirei meu dinheiro e ele fez um gesto de que não precisava, em outra situação eu teria resistido, mas desde o fim da nossa conversa, quando o chamei de psicopata, não havia sido dita nenhuma palavra e eu não queria cortar aquele silencio, porque temia o assunto da nossa próxima conversa, então deixei ele pagar. Levantei-me e quando passei por sua cadeira ele levantou e segurou meu braço para que me virasse, assim fiz, mas me arrependi ao perceber que nossos rostos ficaram perto demais e isso me deixava assustada, ele parecia perceber, mas continuou olhando para meu rosto com certo o quê? Curiosidade? Raiva? Por fim, suspirou e disse:

– Não pode julgar as pessoas apenas pelo que consegue ver. É de certa forma, injusto. – Fico paralisada, como ele se atrevia a falar aquilo? Eu injusta? Tinha vontade de dizer mil coisas, ele não me conhecia pra falar aquilo, mas escolhi ficar calada. O porquê? Isso eu não tenho ideia. Talvez porque no fundo eu sabia que minhas palavras não tinha sido, de fato, justas. Mas mais uma vez me recuso a ceder e admitir que ele está certo, puxo meu braço e continuo caminhado para fora do café.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.