Quebrei minha casca
23 Voltando
Neste ínterim, noutro canto da cidade, Regina observa a noite pela janela do quarto. Havia se levantado e retirado todos os acessos e aparelhos que estavam colados em seus braços e peito. Protegida pelo roupão sobre sua camisola hospitalar, ela olha a noite lá fora e curte aquela sensação de estar saudável e com seus sentidos mais aguçados. Tinha sido incômodo a princípio, mas depois se acostumara com os cheiros, sons e gostos mais acentuados.
Onde estaria seu jovem amante? O que ele estaria fazendo naquele momento? Onde estaria a pequena Chloe? Abandonada à própria sorte, vivendo naquela fábrica suja e esquecida.
O som da porta se abrindo faz Regina olhar por cima do ombro. A policial sorri ao ver o rostinho triangular de Chloe, também sorrindo, mas de maneira tão doce e infantil.
— Chloe!! – Regina se vira e vai abraçar a menina. Sente o quanto a garota estava fria. – Como conseguiu entrar aqui?
— Tenho os meus métodos. E de noite, todos os hospitais são silenciosos e de fácil acesso para mim. – a garota sobe da cama e senta-se ali. – Como você se sente?
— Incrivelmente forte. Já exigi que me liberem amanhã, porque tenho muito serviço para fazer.
— Acha mesmo que eles permitirão sua saída? – ela encolhe um dos ombros.
— Vão permitir, Chloe. Eu assinarei um termo de responsabilidade e vou voltar ao meu trabalho. Minha equipe está precisando de mim.
Regina também se senta na cama.
— O que posso fazer por você, quando eu sair daqui?
— Poderia conseguir um quarto para que eu não precise dormir na fábrica. Os moradores de rua estão mais frequentes lá e isso me incomoda. Eles não cheiram bem e sou obrigada a usar a força para afastá-los de mim.
Regina acaricia os cabelos da menina.
— Quantos anos você tem?
— Tenho doze anos e não tenho mais pais. Vivo sozinha desde os seis anos e lido muito bem com a solidão. Não precisa mais fazer perguntas.
— Posso acertar tudo legalmente para você, Chloe e... – Regina se cala quando a menina toca seu antebraço. – O que foi?
— Regina, eu tenho doze anos faz muito tempo. Seu coração sabe do que estou falando e não quero que se faça se sonsa. Você está forte e é uma nova mulher, portanto, trate de colocar todos os ordinários em seus devidos lugares. Sei que você tem um assassino a solta e que deve prendê-lo.
— Como soube disso?
— Li em sua alma.
A porta do quarto é aberta e uma enfermeira entra carregando uma bandeja com medicamentos. Acende a luz e assusta Regina, que a encara como se a mulher fosse uma invasora inimiga.
— Preciso medicar você, Regina, antes que durma. É a uma medicação do dia.
Regina volta seus olhos para a cama e surpreende-se quando não encontra Chloe. Observa que a janela estava escancarada, porque o vento invade o quarto.
— Posso fechar a janela?
A policial esboça o que seria um sorriso, autorizando os movimentos da enfermeira. Uma onda de pânico invade a alma de Regina e ela percebe o corpo esfriar, além de sua respiração ofegar. O que havia acontecido ali? Um delírio? Uma visita assombrada?
— Yose...- ela sente medo pela ausência do amante e clama pelo calor da pele dele.
Passava do meio dia da manhã seguinte, quando Regina chega ao Distrito e é recebido por um Kane furioso e contrariado. Ele não concordava com a teimosia de sua policial e a saída intempestiva do hospital.
— Por que você fez isso? Não está em condições de trabalhar!
— Eu assinei um termo e vou assumir meu tratamento daqui para frente. – Regina caminha para sua sala, onde encontra Ruby e Akinnagbe trabalhando.
— Ei, moça! – o policial grita e vai abraçar sua líder, sendo imitado por Ruby. – Você está ótima para quem perdeu todo aquele sangue! Pronta para luta?
Regina olha em volta e procura Yose. Onde ele estaria? Não estava em trabalho?
— Cadê o Yose?
Ruby e o policial se entreolham. Encaram Regina.
— Ficamos a manhã toda colhendo depoimentos. E não vimos Yose e nem tivemos nossos telefonemas atendidos ou retornados.
— Ontem aconteceu o leilão e ele deve estar em casa, dormindo ou de ressaca. – Ruby tenta amenizar.
Regina se volta violentamente para Kane que ainda estava parado na porta da sala. Segura a gola de seu casaco e assusta o Chefe.
— Você sabia que eu não poderia acompanhar Yose ao leilão e o deixou exposto em meio aqueles maníacos?? Você se preocupou em saber como ele está? Onde ele está? – ela empurra o homenzarrão. – Mas que merda! Puta incompetência!
Ela sai da sala e afasta-se com rapidez. Uma habilidade desconhecida em seus movimentos. Cruza o prédio e continua xingando, furiosa pela postura negligente de seu superior.
Durante seu trajeto até a boate, Regina faz juramentos de estripar o empresário e de cumprir a ameaça de capá-lo, caso a segurança de Yose estivesse em risco.
Sem hesitar ou dar atenção aos funcionários da parte de segurança da boate, Regina entra no estabelecimento e vai direto para o escritório de Manson, porém, o encontra em um ponto do salão, ocupado em um telefonema.
— Regina, minha flor! Soube que você estava em um... – ele é calado quando um golpe forte atinge seu queixo e o derruba sentado no salão.
— Você se atreveu a realizar o leilão sem a minha presença, maldito!
— Eu tive autorização de Yose, sua bosta!
Regina se inclina e segura a gola do casaco do empresário.
— Eu sou a líder dele! Yose não tinha autoridade de decisão e você sabia disso! Eu quero estar enganada, mas se alguém ousou...
— Eu o arremetei no leilão! – Manson grita antes que seu rosto fosse socado de novo. – Competi com Sandra e venci a disputa! Ele ficou bem!
Com as duas mãos, Regina agarra as golas dele e o balança com fúria.
— Você o degustou na frente daqueles bastardos! Você o violou, seu desgraçado? Eu vou acabar com sua vida e enfiar você numa cela podre, fria e com amigos que vão trucidar sua carne magra!
— Ele está dormindo, agora! – Manson gesticula para que seus seguranças não se aproximem. – O Precioso está adormecido agora, porra!
— Eu vou vê-lo e depois vou voltar para arrancar esse olho branco que você tanto se orgulha! – ela rosna com os dentes travados.
Com uma força que ela mesma desconhecia, levanta-o e o empurra contra um dos palcos.
— Leve-me até ele e reze para que não haja reclamações. Porque se Yose denunciar você por qualquer abuso, eu vou fazer você engolir essas bolinhas de gude que chama de testículos!
Um tempo depois, Regina está sentada numa cama e observando Yose dormir. Ela crispa as mãos, furiosa por perceber que aquilo não era sono normal. Ele estava dopado.
— Você é o assassino, Manson? É assim que você tratou os dançarinos mortos? Você vai morrer!
— Não, Regina. – o empresário encosta-se à porta fechada. – Eu apenas o dopei para que ficasse sereno durante a orgia. Fiz tudo com a mais absoluta paixão e paguei o mais alto preço em um leilão desta natureza.
— Quer que eu beije suas mãos por isso? Você ousou por essa boca imunda na pele de meu policial?
— Sandra iria degustá-lo, caso tivesse ganhado a disputa. – ele fala em voz baixa e rouca. – Mas eu me adiantei porque quis Yose desde o primeiro instante em que o vi. Eu o respeitei e como estou com meus fluídos limpos, não o contaminarei. Mas e Sandra? Ela está limpa?
— Quando eu souber tudo o que você fez ao meu policial, vou mandar prender você, Manson. – ela mantém a cabeça baixa e os olhos levantados. – Vou acusá-lo de seviciar um agente da lei, drogá-lo e colocar em risco o disfarce dele. Quem mais sabe que Yose é um policial?
— Apenas aquele que o deseja e que está totalmente apaixonado: eu mesmo.
Regina rosna como se fosse uma fera.
— Vou enviar meu policial para exames clínicos e caso algo surja no organismo dele, sugiro que você se mate ou mude-se de planeta. Porque irei dedicar todos os meus dias no futuro a perseguir você, Manson.
— Meus lábios e minha língua sequer participaram de uma felação. Foram apenas lambidas...
— A sua saliva imunda molhou a pele de Yose...
— Regina, procure me escutar!! – ele grita. – Eu não feri Yose porque eu o quero quando tudo isso acabar!!
— Quando tudo isso acabar, você estará preso por manter ex-presidiários em sistema da escravidão sexual e por fazer acordos escusos com aquela juíza e com pessoas doentes que cheiram como animais no cio!
Manson fica em silêncio, observando Yose abrir os olhos, ainda sonolentos.
— Regina...
— Iremos para casa, querido.
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