Havia passado algumas horas, quando o carro de Regina para na garagem de sua casa. Ela dá a volta no carro e abre a porta para que o parceiro saia. Ele estava fora de sintonia desde a saída da boate e isso estava preocupando o coração da mulher.

— Vamos dormir um pouco. — Regina estende a mão e sorri quando o parceiro a segura para sair do carro.

— Estou exausto...acho que vou vomitar...

Um sorriso malicioso surge na boca pintada de Regina. Ela não consegue espantar as imagens irreais do que seria o momento em que Manson estava degustando o seu grande petisco, naquele leilão doentio. Iria conseguir as imagens, mesmo que tivesse de esfolar Manson vivo.

Dentro de casa, Yose vai imediatamente procurar o sofá e larga-se ali. Retira o aparelho auditivo e enfia o rosto nas almofadas. Queria apenas dormir um pouco mais e fugir das lembranças que voltavam com força à sua mente.

Com cuidado e muito desejo controlado, Regina retira os tênis e as meias de seu parceiro. Depois sobe as mãos para as calças de moletom dele e vai abaixando pelas pernas, até que elas são jogadas sobre o soalho. Movimentando os dedos com ansiedade, a policial controla seus instintos por apenas alguns segundos, até que é vencida e deixa sua luxúria conduzir suas mãos para a cueca do parceiro, retirando-a e jogando a peça em algum lugar desinteressante. Seu olfato estava aguçado e todas as misturas de cheiro que emanavam da pele de Yose, invadiam suas narinas.

Os olhos de Regina se prendem na anatomia redonda e despida do parceiro, que não conseguia se preocupar com sua situação de seminudez. Ele continuava com o rosto escondido entre as almofadas e iria adormecer, caso a mente e o desejo da mulher não fossem mais rápidos.

Ela queria ousar, assim como Manson deveria ter ousado naquele salão, diante de todos os olhares gulosos e famintos, invejosos de sua condição de vencedor. Mas Regina queria ir ainda mais longe que o empresário e marcar possessivamente todo aquele território que Yose estava oferecendo sem pudores.

Com suavidade, ela apalpa a carne das nádegas dele e vai inclinando-se para começar a realizar uma fantasia que sempre esteve presente em seu imaginário, e que nunca tivera coragem e nem possibilidade de colocá-la para o mundo da realidade. Afinal, com quem poderia praticar aquilo?

— Regina...não...

Ela sabia que não adiantaria argumentar com palavras, porque ele não a ouviria. Iria continuar até onde ele permitisse e desejava proporcionar muito mais prazer do que Manson havia oferecido. Ela queria vê-lo delirar e usaria toda a sua teoria e experiência em suas visitas a determinados sites adultos, para fazer-se presente nas lembranças dele.

Quando Yose desperta, sente o cheiro de café fresco. Ainda estava sonolento, deitado no sofá e protegido por um cobertor. Ajeita-se ali e liga seu aparelho auditivo, recuperando sua comunicação com o mundo dos ouvintes. Sem pedir autorização à dona da casa, vai banhar-se e tentar se reconectar com o mínimo de sanidade mental e física, depois da louca noite.

— Akin está impaciente na delegacia. Ele me ligou dizendo que analisou uma fotografia que você recebeu e ele tem certeza de que conhece o prédio ao fundo, na fotografia de Radu. – Regina entrega uma caneca com café para o parceiro e finge não perceber o constrangimento dele.

— Então, não vamos perder tempo. – Yose se aproxima e apanha a caneca. – Regina, tenho convicção de que o dançarino que me enviou a fotografia, sabe que sou policial. E penso que ele foi orientado a me fornecer o material, porque alguém quer direcionar nossa investigação para que Radu seja encontrado.

Regina se aproxima do parceiro e olha-o com admiração e profundo desejo.

— Radu está desaparecido e está sendo procurado para também ser riscado do mapa. Quem fez as eliminações, quer terminar o serviço e precisa de nós para isso. Quer que descubramos onde fica o prédio da fotografia, para pegar o dançarino.

Sorrindo, a policial procura os lábios do parceiro. Beija-o com carinho e depois aprofunda o contato. Ele havia se feito dela e iria reivindicá-lo sempre que pudesse.

— Preciso de um café da manhã reforçado e acredito que você também. – ela sorri. Estende a mão e toca a nuca do homem. – Nunca havia tocado um homem como toquei em você. Por que permitiu?

— Confio minha vida em suas mãos. Por que não confiaria meu prazer à sua língua e aos seus dedos?

Naquela tarde, Regina chega à delegacia acompanhada por Yose. Ambos seguem direto para a sala onde o grupo se reunia e encontram-se com Ruby e Akinnagbe trabalhando em suas pesquisas.

— Olá, Yose! – a policial sorri. – E sobreviveu ao ataque das doninhas famintas?

Regina sorri e mostra que havia algo mais importante a ser conversado, atiçando a curiosidade da colega.

— Conversei com alguns membros da lista vip e mostrei a eles o mandato que me permitia quebrar o sigilo telefônico deles. Os dois cirurgiões não se mostraram à vontade e exigiram a presença de advogados.

— Por que isso?

— Porque eram clientes sexuais dos três dançarinos que morreram. Sabem que nesta cidade é crime envolver-se com prostituição. Alegaram que apenas marcavam detalhes de uma festa que iria acontecer nos dias seguintes, mas adiada depois da primeira morte.

Regina observa os papéis de Ruby sobre a mesa. Aponta com o dedo para as pastas.

— Mas eles têm fichas criminais?

— Os quatro médicos da lista vip-vip são fichados por arruaça, direção perigosa, brigas de trânsito, porte de entorpecentes e um deles responde a um processo de vilipêndio de cadáver. Foi encontrado com uma cabeça humana numa caixa de isopor, dentro do carro.

— Cabeça humana?

— Alegou que estava levando para um transplante. – Ruby sorri. – Mas o papai dele e o time de advogados conseguiu arquivamento do processo e ele não perdeu o direito de exercer a carnificina, digo, a medicina. Embora o telefone dele tenha aparecido mais vezes nas chamadas dos jovens mortos, não há como ligá-lo ao crime.

— E quanto aos outros médicos?

— Não há vestígios e nem indícios concretos que os ligue aos crimes. Não temos evidências de que eles participaram dos rituais, embora afirmem que se relacionavam sexualmente com os quatro dançarinos.

Regina fica pensativa, quando os passos de alguém entrando na sala, rouba sua atenção. Um policial cumprimenta a todos e entrega um papel nas mãos de Akinnagbe. Ela observa cena.

O policial o agradece e observa o que está escrito, fazendo uma careta de desentendimento.

— O que foi? — ela quer saber.

— Identificação de um cadastro de um celular. – ele entrega a folha para a Chefe. — É mais um número da lista de chamadas. Regina, este número apareceu cinco vezes nas chamadas dos cirurgiões e por isso pedi o registro de propriedade do número...

Várias expressões surgem no rosto de Regina. Ela lê e relê as informações, sem entender por qual motivo aquele nome estava impresso ali.

— Este telefone pertence à esposa de Kane. Mas ela morreu há cerca de três anos. Como o celular permanece ativo e foi usado para comunicação?

— O telefone não foi desativado. – Akinnagbe comenta e encosta-se no espaldar da cadeira. – Alguém continuou usando.

Os policiais se entreolham. Esperam alguma reação mais evidente de Regina.

— Vai falar com Kane?

— Ainda não. No momento propício, terei a conversa com ele.

Yose se aproxima de Regina e inclina-se para beijar-lhe os lábios. Ele sorri.

— Eu preciso digitalizar alguns arquivos. Vejo vocês mais tarde!

Um gesto rápido de Akinnagbe, impede a saída do colega. Ele aponta para a tela do computador.

— Não vá ainda, cara! Venha olhar mais uma vez esta foto, porque eu tenho absoluta certeza de que já vimos este prédio, mas não nesta luminosidade. Olhe bem porque irá reconhecer esse prédio! Eu já o vi em diversas fotos de sites, porém não me recordo em que cidade fica...

Inclinando-se sobre a mesa do colega, Yose estreita os olhos e permanece em silêncio ao lado do amigo. Os dois observam a imagem por longos minutos e algo começa a acontecer.

— É um prédio antigo...essa tinta amarela...onde fica?

“Libera Me...libera me...”— Yose começa a cantarolar e é acompanhado pelo colega. Ele aponta para a tela do computador. – “Libera me, Domine, de morte aeterna, in die illa tremenda, quando coeli movendi sunt et terra, dum veneris judicare saeculum per ignem.”

— Porra! É da trilha sonora do filme Entrevista com o Vampiro! – Akinnagbe bate palmas. – Esta construção é uma das mais copiadas em todo o país! E este prédio antigo aparece na primeira cena, na noite em que Louis é entrevistado por Daniel! Este prédio fica na cidade de Nova Orleans, a cidade dos vampiros! E o prédio que o dançarino visitou, era apenas mais uma réplica que fica aqui onde estamos!

Os dois policiais batem as mãos e riem com aquela pequena vitória.

— Precisaremos ir para Nova Orleans!