Quebrei minha casca
25 Forças contrárias
Outro dia surge sobre aquela cidade...
— Não temos verbas para enviar sua equipe para fora daqui, Regina. Além disso, temos de aguardar autorização para criarmos uma parceria com a polícia de lá. – Kane fala pacientemente. – A verba que Cora nos enviou não cobre uma viagem para fora do Estado.
— Iríamos apenas Yose e eu. Eu arcaria com parte das despesas.
— Irá levar o stripper para Nova Orleans? Levar Herodes para tomar conta do berçário? – Marcus começa a rir. – Irá pagar os honorários dos policiais que os acompanharão? E os materiais usados? E os mandatos para visitarem o prédio? Acha que com uma rebolada do seu parceiro, tudo poderá acontecer ao seu favor? Pode até ser que ele faça tremer até os túmulos do Cemitério Lafayete...
Regina molha os lábios com a língua e procura paciência para lidar com as ironias de Marcus. Não conseguia mais relevar os comentários dele, porque estavam ficando ácidos demais. Como ela havia tolerado tanto tempo ao lado de um apodrecido como aquele? O cheiro dele estava forte demais e a estava incomodando.
— Regina, terei de solicitar autorização para que você possa ir a Nova Orleans. Tenho de justificar sua ida, suas despesas e aguardar o deferimento. – Kane se mostra paciente.
— Será que você está sendo pressionado para que as investigações fiquem ainda mais lentas?
Kane ergue as sobrancelhas e repreende a policial com apenas um olhar.
— Não estou dificultando as investigações, se está insinuando isso.
— Não é insinuação, Kane. É afirmação. Estamos enfrentando pessoas ricas e influentes, além de tê-los convocados para depoimentos. Estão ofendidos! Provavelmente, estão pressionando os políticos e você fica na base da pirâmide alimentar.
Marcus fecha o rosto, ficando ainda mais feio.
— Essas convocações para depoimentos irão custar seu emprego e sua pensão. Desista enquanto tem tempo. Um aviso de um velho amigo e de um eterno amante.
— Todos eles mantiveram contato com os dançarinos. Inclusive os cirurgiões da lista dos “oito mais”, vieram com advogados e têm fichas criminais. — Regina ignora a fala de Marcus.
Fazendo uma careta de reprovação, Kane vai para trás de sua mesa e senta-se ali, mostrando toda sua falta de vontade ou receio de continuar com aquela conversa.
— Não temos verbas para pagar sua ida para Nova Orleans, mas irei preencher a solicitação. Aceite o fato e continue trabalhando com o que tem em mãos.
— Traduzindo: nada.
Os olhos de Regina vão para o rosto cínico de Marcus, que dá de ombros, como se quisesse consolar a colega. Ele exibe algo que poderia ser chamado de sorriso.
— Eu lhe avisei que este caso seria sua perdição. Ainda dá tempo de pular fora do barco.
Sem responder, Regina sai daquele espaço e retorna determinada para sua sala. Antes de entrar no cômodo é impedida pelo corpo grande de Akinnagbe. Ele exibe uma folha imprimida.
— Tenho mais uma informação que irá afunilar as investigações. Você conhece um cara chamado Frank Mason?
Regina sorri como reação à pergunta. Abre as mãos e dá de ombros.
— É o corvo velho! E ele vai morrer pelas minhas mãos, porque ousou tocar em Yose.
— Não é o corvo velho que conhecemos. Yose conseguiu um copo de vidro com as digitais dele e soubemos que Frank Mason não existe. Quem existe é Nicolas Saradon, morto em um acidente de lancha em 2001 e com uma ficha criminal extensa. O sobrenome diz algo para você?
Uma negativa e alguns momentos de reflexão.
— E o nome Anadette Saradon remete você a alguém?
— À juíza?
— Sabia que os dois são irmãos? Erro um: ele usa documentos falsos. Erro dois: tem ficha criminal no nome original por fazer parte de uma quadrilha do mercado negro do sexo e vídeos pornôs. Erro três: emprega condenados em regime de condicional, para trabalho depois das dez da noite e com sexo ilegal. Erro quatro: ela está beneficiando um parente, libertando de maneira obscura.
Regina ofega por alguns segundos e fica pensativa. Evoca em sua memória, alguma maneira de conseguir atingir Anadette sem expô-la ao público. Não iria provocar uma juíza conhecida, sob o receio de sofrer retaliações por parte dos “influentes” envolvidos na investigação.
— Tenho de falar com Kane.
— Quer que eu vá falar com a juíza e apresentar o que descobrimos? A reação dela irá nos dizer tudo.
— Faça isso, mas seja prudente. Apenas demonstre que você sabe, mas que não pretende levar avante, a menos que ela não coopere conosco.
Menos de uma hora depois, Kane está lendo as informações conseguidas por Akinnagbe.
— Você sabia disso?
— Não. – ele fala com um tom acima. — Acreditei numa associação de interesse econômico, com profissionais de vários setores em um grupo de ilegalidade. Mas não teria como imaginar que Anadette fosse irmã de Manson.
— Quando Akin conversou com ela, percebeu que a mulher estava muito incomodada como se estivesse sendo vigiada.
— Preciso pedir um mandato? – Kane começa a sentir-se incomodado com os avanços de sua pupila. Temia pela vida da protegida, uma vez que muitos nomes poderosos estavam emergindo daquela lama.
Regina se levanta e dirige-se para fora da sala, retornando ao ouvir seu nome.
— Não estou boicotando o seu trabalho, querida. E farei de tudo para proteger você.
— Obrigada. Mas não quero que sua proteção me impeça de ter um resultado exitoso em meu trabalho. Caso queira me ajudar mesmo, busque o dançarino Dario que enviou a foto para Yose. Ele sabe muito mais do que quer contar e certamente recebeu ordens para provocar a investigação sobre o prédio. Alguém quer que entreguemos Radu numa bandeja, para ser morto.
Naquela mesma tarde, Sandra chega a um restaurante em um hotel de luxo da cidade e aguarda sua acompanhante. Iria encontrar-se com a bela dona dos mais impressionantes olhos escuros e também dona daquela preciosidade suculenta que atendia pelo nome de Yose. A empresária sorri ao lembrar-se de seu desejo obscuro em possuir não somente o dançarino, mas sua agenciadora também. Queria os dois e iria propor a ideia durante aquele encontro. Eram deliciosos e poderiam proporcionar as mais lindas cenas durante um momento de intimidade a três.
Ao atravessar o salão, Regina consegue muitos olhares sobre seus movimentos. Estava muito elegante e parecia desfilar em alguma semana de moda, tamanha sua segurança e precisão em sua maneira de caminhar. Olha para os lados e sorri ao ver Sandra se colocando em pé para ser vista.
— Você é pontual, Regina! Isso me encanta! Por favor, sente-se!
— Não gosto de deixar as pessoas esperando. – ela se acomoda e sorri também.
— Pedi um bom vinho e...
— Não vou beber nada alcoólico. Prefiro um suco qualquer. – Regina coloca sua mini bolsa num canto da mesa. — Eu vou matar Mason, em alguns dias. Ele ousou tocar em Yose.
Sandra fica espantada e depois acha graça.
— Mason não feriu ou violou seu menino de ouro.
— Não tenho certeza de nada além do que vou fazer ao Corvo velho. – Regina pede a aproximação do garçom. – Mas não foi isso que me fez pedir esse encontro.
Bebendo um gole de vinho, Sandra se interessa pela informação. Sorri para o garçom que atende ao pedido de Regina e depois volta sua atenção para a mulher à sua frente.
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