Quebrei minha casca
26 Sabendo mais
— O que houve? — pergunta Sandra tocando o dorso da mãozinha de Regina.
— Sergio tem insistindo em amedrontar Yose com a história dos três dançarinos mortos. Ele se atreveu a ameaçar Yose com o mesmo fim, caso não cessassem os modos atrevidos e ousados do meu agenciado. Não o ameaçou de morte, mas foi enfático ao “avisá-lo” que poderia ter o mesmo final que os demais. Eu soube que Radu está desaparecido e que vocês tinham um romance.
Um sorriso nervoso surge nos lábios da empresária.
— Radu e eu tínhamos um caso amoroso. Eu o protegia e ele me satisfazia.
— Caso amoroso? Sei.
— Um caso de amantes. Ele era meu michê particular.
— E você não o protegeu, assim como eu não consegui fazer com Yose.
Dando de ombros, a empresária abaixa os olhos.
— Precisa me dizer o que sabe sobre as mortes, porque se eu sentir que Yose está em perigo, ire levá-lo embora para Nova Orleans. Tenho propostas de lá e com total segurança.
— Não! – Sandra segura a mão de Regina. – Yose precisa ficar! Nós queremos renovação, viço e beleza nova! Os outros dançarinos não refletem nada e são decadentes, não se inovam, não ousam!
— Os três ousaram e foram mortos. Não vou expor o meu menino.
Depois de beber mais um pequeno gole de vinho, Sandra se debruça delicadamente sobre a mesa.
— Na verdade, Radu e os outros não ousaram em nada. Eles apenas queriam investimentos para uma boate em outra cidade. Queriam ser seus próprios patrões.
— E por isso foram mortos? Por isso Radu fugiu?
— Talvez porque não souberam pedir investimentos para as pessoas certas e na maneira correta de se fazer. Radu era voraz nas negociações e tinha instinto ameaçador. Deve ter usado as palavras erradas com as pessoas erradas.
— Então, você acredita que eles não morreram porque foram imorais, devassos e ousados demais? Morreram porque tentaram enveredar por um mundo negro?
Inclinando os cantos da boca para baixo, Sandra concorda titubeante.
— Posso arriscar esse palpite: Radu estava contente porque iria negociar com alguém e iria solicitar um montante bastante alto para seu empreendimento. Mas deu um tiro no próprio pé e por isso fugiu.
— E ele pediu dinheiro para quem? – Regina está impaciente.
— Radu? Pedir? Não! Ele exigiu o dinheiro e não sei de quem, porque ele transitava convivendo com todos os membros da lista perene da boate. Então, não sei quem se ofendeu com as palavras dele.
Regina estreita os olhos e morde o lábio inferior. Expressão forte o bastante para fazer com que os olhos de Sandra ficassem muito maiores e atentos.
— Você passou essa informação para a polícia?
— Não fui convocada para depor. Eu me esquivei e não quis denegrir a imagem de Radu. Ele matou um cara na cadeia, depois de ter sido protegido contra os ataques de outros presos. Matou o cara depois que conseguiu roubar todo o dinheiro de uma conta bancária. Eu jamais poderia compartilhar isso com a polícia, porque quero manter a imagem de Radu intacta, como vítima.
Erguendo as sobrancelhas, Regina não responde de imediato.
— Você omitiu essa informação e fortaleceu futuros ataques. Quem cometeu os crimes ainda está solto e transitando entre os convidados e dançarinos da boate. Irá atacar em breve e não vou permitir que Yose fique exposto. Você está protegendo Radu como pode, e eu vou proteger meu Yose, como posso.
E de fato Regina tinha razão. Todos ainda estavam à mercê de alguém doentio e perigoso, e que estava livre transitando e escolhendo suas próximas vítimas.
— Vamos proteger Yose. Ele é valioso. – Sandra toca o dorso da mão de Regina. – Yose foi muito disputado no leilão e isso pode atiçar mentes maldosas, que queiram copiar os crimes ou mesmo roubar Yose como exclusividade. Mas eu me comprometerei em proteger o Precioso.
— Por mais alguns dias. Depois, vou levá-lo embora para Nova Orleans. Ele é meu e não vou permitir que algum desgraçado queira fazer-lhe mal.
— O que quer que eu faça, Regina? Que vá até uma delegacia e fale sobre o teor de nossa conversa?
— Omitindo isso, você está incentivando novas mortes na boate. E como Yose está atraindo as atenções, a próxima vítima poderá ser o meu menino. – Regina não altera o tom de voz. – Você não me ajudou ao não arrematar Yose no leilão e por isso vai proteger o nosso menino, em minhas ausências. Tudo o que souber, deverá ser compartilhado comigo.
— Nosso menino?
Regina gargalha e depois tranca o rosto numa carranca.
— Você perdeu a chance de cuidar dele naquele leilão. Agora, tem a obrigação de cuidar dele depois do leilão. Sei que muitos o estão cobiçando e os olhos do criminoso devem estar na direção dele. Não quero correr o risco de ver o nosso menino, ferido. Seja minha amiga, Sandra, porque não irá desejar ter-me como adversária.
Noutro ponto da cidade, Akinnagbe é recebido para uma reunião de alguns minutos com a juíza Anadette. A mulher sorri sem disfarçar sua paixão repentina pela beleza do policial. E sorri ainda mais, quando ele a cumprimenta com um beijo no rosto. Parecia ser algo recíproco.
— Tenho uma hora inteira. Você quer tomar um café fora daqui?
— Não estou em visita informal, Anadette. Preciso conversar com você sobre uma nova descoberta.
O rosto da juíza sofre uma mudança sensível. Ela estreita as sobrancelhas e assume uma postura preocupada.
— O que houve? – ela se senta e observa o policial fazer o mesmo.
Akinnagbe abre uma valise e retira um envelope lá de dentro. Entrega-o para a mulher.
— O que é isso?
— Resultado de uma investigação. E confesso que isso me deixou muito triste e desapontado.
Anadette abre o envelope e retira os papéis para serem lidos. A cada uma das folhas vistas, as expressões de seu rosto vão se alterando, até que uma máscara de desespero se aloja em seus traços maduros.
— Por que escondeu uma informação tão perigosa como esta? Manson é seu irmão e você está envolvida em um esquema de libertação ilegal de presos. Todos os dançarinos estão burlando as regras da condicional, continuam envolvidos em prostituição, tráficos de drogas e quem sabe mais o que. – Akinnagbe fala baixo, consternado. – Eu percebi a sua preocupação quando conversamos pela primeira vez, mas eu torci para que você fosse uma das vítimas de alguma vigilância.
— Eu não tive escolha, Akin.
— Todos têm sempre uma escolha, Anadette. Seu irmão usa identidade falsa, tem extensa ficha criminal e ainda está à frente de uma boate que abriga presidiários em situação irregular. Três dançarinos daquela boate foram mortos e eles mantinham contatos muito próximos com os frequentadores. Manson era o agenciador? Será que as pessoas da lista perene irão assumir a proteção a vocês dois? Todos estão depondo e não serão poupados de perguntas diretas, porque a Prefeita e o Governador estão pressionando a resolução deste caso, enquanto que a opinião pública os está pressionando. Pode apostar que muita gente vai sair suja deste episódio.
Anadette guarda as folhas dentro do envelope outra vez. Devolve-o para o policial.
— O que pretende fazer?
— Você deve colaborar. Apresente-se espontaneamente e faça seu depoimento sobre o esquema de libertação dos presidiários. Faça delações e negocie sua pena e a de Manson. O meu chefe irá encaminhar seu caso aos seus superiores, na manhã de amanhã. Mas eu pedi para que me deixasse vir falar com você antes.
Anadette massageia as frontes e fecha os olhos. Abaixa a cabeça e ofega por alguns instantes.
— Eles irão devastar nossas vidas e descobrirão situações envolvendo pessoas poderosas. Sou um peixe pequeno dentro deste esquema e sei que somente Manson e eu seremos punidos...
— Não em nossa cidade. A qualidade de ser poderoso ou rico, valerá apenas no momento da escolha dos advogados. Caso você não se apresente de maneira espontânea, será intimada e mesmo assim sua situação ficará delicada, porque todos os casos presididos por você deverão ser reavaliados. Muitas sentenças serão revistas e sua carreira irá degringolar. Porém, quem estiver sujo nesta história, também será punido.
— O fato de proteger meu irmão e libertar os detentos para o trabalho nas boates, não me fez agir de forma errada nas sentenças. Sempre fui justa.
— Consegue provar isso? Uma juíza que facilita a saída de presos do sistema carcerário para o ingresso no mercado negro do sexo, do tráfico e de outros crimes, pode ter credibilidade para julgar de forma imparcial? Todas as suas sentenças serão revogadas e isso irá provocar um verdadeiro caos.
A Juíza morde o lábio inferior e fixa os olhos num canto qualquer do local.
— Fiz por amor ao meu irmão ou ele seria preso pelos crimes que cometeu. Manson não suportará a cadeia.
— Amor ou ódio, isso não irá importar nos tribunais, Anadette. O meu chefe estipulou vinte e quatro horas para que você se apresente ou será denunciada. – o policial se levanta e sente a mão da juíza segurando seu pulso. – Não faça isso e não dificulte para mim. Dói demais ser obrigado a falar sobre nossa descoberta.
— Eu entendo.
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