Quebrei minha casca
38 Verdade dói
Regina ofega e sente que as paredes da sala estavam se aproximando de sua cabeça. Acredita que iria desmaiar, mas sua força destemida de guerreira, a mantém firme e ela consegue seguir adiante. Sente a boca ficar cheia de água, como se fosse vomitar todo o conteúdo de seu estômago revirado.
Ela se perde em pensamentos para buscar controle de sua sanidade ou explodiria em lágrimas e demonstraria fraqueza diante de seus observadores. Algo bonito precisava preencher seus pensamentos ou surtaria.
Decide pensar naquela pessoa bonita que havia entrado em sua vida e em seus dias, naquele sorriso largo e naquelas piscinas azuis que eram chamadas de olhos. Toda sua doçura, sua gentileza e sua masculinidade suave, num conjunto que tanto a agradava. Precisava encher sua mente com a imagem robusta e bonita de Yose. Imagina-o sobre lençóis brancos, exibindo-se poderoso em sua nudez. E incrível como ele tinha o poder de encher sua alma de tranquilidade.
Depois de conseguir recuperar seu controle, Regina continua:
— O senhor tem um número aproximado de jovens mortos nesses rituais de sexo?
— Em minha boate, apenas uma morte. Mas não posso saber o que ocorre nas outras boates aí afora. Talvez, nos arquivos de minha irmã, possa haver um número exato de presidiários libertados para esse fim.
— Pode escrever todos os nomes dos envolvidos na morte do primeiro dançarino? E depois pode escrever os nomes dos envolvidos nas mortes dos outros dançarinos? Quero os nomes completos e um texto afirmando que o senhor está fazendo a delação de livre e espontânea vontade.
Manson começa a rir. Era um riso nervoso que se transforma em choro compulsivo. Ele chora muito e por muito tempo, calando-se depois, como se nada tivesse acontecido.
— Eles provocaram a morte de minha irmã, apenas para protegerem a própria liberdade. Entretanto, eu continuo vivo e vou expor a sujeira de todos nós.
— O senhor pode me dizer se os dançarinos de sua boate eram ameaçados?
— Constantemente, policial. Ou cediam às festas ou retornariam para a prisão. Poderiam morrer nas festas ou morreriam na cadeia. Não tinham escolha.
— Por que o senhor aceitou um policial infiltrado em sua boate, sabendo que ele poderia chegar ao autor dos crimes?
— Fui orientado pelo policial Marcus a aceitar, para evitar desconfianças. E ele me garantiu que você era fraca demais e decido às pressões, acabaria desistindo do caso e ele seria arquivado. Seria embate com pessoas muito ricas e renomadas de nossa sociedade. – Manson inspira profundamente. – Quero escrever o que acabei de falar. Preciso disso...
O empresário recebe um bloco de papel e começa a fazer um relato minucioso, parando de quando em quando para pensar, voltando a escrever.Quando termina seu relato, Manson entrega-o para Ruby e ela o deposita numa pasta noutra mesa. Depois, o homem apanhar outra folha e recomeçar a escrever. Exibe o papel para Regina e sorri ao ver a expressão da mulher ser trancada numa carranca. Ele havia escrito o nome de Yose, diversas vezes.
— Proteja sua preciosidade, minha linda Regina. E proteja-se também. Seu nome é odiado e o nome do seu policial, é desejado pela Família. Ambos são agora aquela Corsa dos Cascos de Ouro, da Mitologia. – ele assume uma postura arrogante e ajeita-se na cadeira. – Vai ouvir muito falar da Família, linda Rainha!
Ao término do depoimento, Regina praticamente salta para fora da sala e é naquele momento em que assume de vez a mulher guerreira e destemida descrita nas palavras de Kane.
— Quero que envie um alerta a todas as unidades e delegacias do Estado, avisando que Marcus Khahan deverá ser preso sem ser morto. Quero o rosto dele em todos os noticiários, ressaltando a periculosidade. – ela fala segurando o braço de Yose, que montava guarda no corredor ao lado de outros policiais. – Quero que você crie um esquema de transporte para Manson, para despistar a imprensa e possíveis ataques. Estarei na sala com o Governador.
Regina entra na sala e observa o Governador Thomaz sorrir.
— Eu quero parabenizar você e sua equipe. Estamos apenas na ponta de um iceberg. Sabe disso, não sabe, policial Mills?
— Sei disso, senhor. Mas não temos toda a logística necessária para enfrentar essa quadrilha que Manson chama de Família. Sugiro que o senhor solicite ajuda federal, porque pode haver ramificações por todo o país. Minha chefatura não tem estrutura suficiente e forte para combater os membros desta Família.
— Estivemos conversando sobre isso, Srta. Mills. – o Secretário fala antes do Governador.
— Analisando todos os benefícios oferecidos pela juíza Anadette, vemos muito mais que os doze dançarinos da boate de Manson. Iríamos precisar de uma carceragem mais ampla e com maior capacidade para abrigar os figurões que irão surgindo ao longo dos depoimentos. – Regina massageia as frontes, ignorando a fala do Secretário. – Vocês ouviram a frase sobre a Família e isso soa como ameaça ou como o aviso de que esta corja é bem maior do que imaginamos. Por isso, sugiro que aumente a força tarefa contra essa ameaça.
Tomaz e o Secretário se entreolham. O Governador parece decepcionado.
— Você provou que sua equipe é forte. Quer desistir do caso?
— Com todo o respeito, Governador Tomaz, mas o caso tomou proporção muito grande e nossa delegacia não tem capacidade instrumental para um enfrentamento envolvendo juízes, diretores de presídios, cirurgiões renomados, policiais, empresários e sabe-se lá mais quem. Até a Interpol foi envolvida para a extradição de Vladimir da Romênia. Deduzo que temos de enfrentar essa quadrilha com arsenal mais poderoso do que temos neste distrito.
— Eu vou para a Capital Federal, conversar com o Ministro e apresentar os resultados das investigações. Pedirei para que o caso seja tratado em âmbito nacional.
Regina estava visivelmente irritada e impaciente.
— Muitas pessoas ainda serão citadas, depois que os outros empresários de outras boates forem ouvidos no inquérito. Por isso, seria mais prudente, que uma força maior da justiça tomasse conta desse caso. É muita gente envolvida e são pessoas com funcionários públicos na folha de pagamento. Caso não queira fazer isso por mim ou pelos meus policiais, faça isso por Yose.
O rosto de Thomaz sofre uma mudança e ele se sobressalta.
— Por que por Yose em especial?
Regina sorri e deixa os olhos ficarem nebulosos.
— Estive pensando e poderíamos tentar blindar minha equipe de futuros ataques. Caso a imprensa divulgue que Yose é seu filho, minaremos as forças de futuros ataques. Mova o seu peão no tabuleiro e o transforme numa Rainha. – ela levanta rapidamente as sobrancelhas. – Use isso a seu favor e conseguirá protegê-lo muito mais do que se tentasse transferi-lo ou se colocasse seguranças para protegê-lo.
Thomaz espreme os lábios e fecha um dos olhos.
— Ele lhe contou isso?
— Gold deu todas as coordenadas e eu pressionei Yose. Mas o senhor poderia fazer um gesto benevolente e reconhecê-lo legalmente. – Regina dá de ombros. – Pode até criar uma história de que o senhor tem tentado convencê-lo a aceitar...enfim...crie algo carinhoso e coloque Yose em evidência. Isso dificultará a aproximação de qualquer um que queira crescer os olhos sobre seu filho. Ele se tornou um desafeto de Marcus e posso afirmar que conheço bem o meu ex-parceiro e sei do que ele é capaz de fazer, quando está contrariado.
Ela cruza os braços na frente do corpo e suaviza o rosto. Dirige-se ao Secretário da Segurança, como se fosse dar-lhe uma ordem:
— Preciso dizer ao senhor, que analise todos os relatórios sobre as acusações do envolvimento de Kane neste caso. Foram subtraídos pertences da esposa dele e usados como maneira de ligar o nome de Kane às mortes. Gostaria que os federais estudassem com carinho essa falsa acusação, porque estou triste para afirmar...que meu ex-parceiro é o responsável pela manipulação de evidências.
— Ainda não sabemos se os federais...
— Eu empenharei todos os meus esforços para que os federais assumam esse caso. – Thomaz interrompe o outro homem. – Vou usar todo o meu poder político e partidário, para que o Ministro me atenda neste pedido.
— Obrigado, senhor. Agora, preciso ir para casa, porque estou exaurida...
Ruby abre a porta e exibe seu rosto cansado, interrompendo a conversa. Sorri, excitada:
— Regina, o advogado de Radu está aí e quer garantias de que o cliente dele terá segurança para vir depor.
Mais merda no exaustor! Sem preocupar-se em pedir licença ou despedir-se, a policial sai da sala.
Thomaz se encanta com mais esta atitude da mulher. Era a encarnação de Hipólita, sem dúvida.
— Adoro pessoas com esta personalidade. Ela não dá a mínima para quem somos.
O Secretário não contém a risada nervosa.
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